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Política

O PSDB não é (nunca foi) de direita

A questão pode ser analisada, por meio do ponto de vista histórico

fernando henrique cardoso
Os ex-presidentes FHC (à esq.) e Lula (à dir.), durante um encontro em que ambos selaram um pacto - 21/05/2021 | Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert

Adriano Gianturco* e Lucas Azambuja

O PSDB não é de direita. É um partido social-democrata, de centro-esquerda, de esquerda moderada. Não é nem um partido liberal, nem conservador. E isso não é opinião, é fato.

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A questão pode ser analisada, por meio do ponto de vista histórico e estatutário do partido; dos posicionamentos partidários, propostas, políticas públicas efetivamente implementadas e declarações dos líderes do partido; da comparação com outros partidos ao redor do mudo; e do enquadramento na literatura científica.

No manifesto de fundação do partido, em 1988, está claro: “Implementar políticas de melhoria dos serviços públicos básicos e de distribuição de renda, que conduzam à erradicação da miséria no Brasil”; “apoiar as justas reivindicações dos trabalhadores, assegurada a livre negociação com sindicatos autônomos e os meios próprios de luta dos assalariados, inclusive a greve, sem interferência do Estado”; “defender uma política permanente de proteção ao menor, compatível com o compromisso de redistribuição de renda”; “lutar pela efetiva igualdade dos direitos e deveres do homem e da mulher nos campos econômico, político e social e contra todas as formas de discriminação”.

Em 1990, Fernando Henrique Cardoso (FHC) divulgou um documento intitulado “A Social-Democracia: o que é, o que propõe para o Brasil”. Aqui, encontramos a defesa do papel do Estado na economia, inclusive para favorecer os trabalhadores nas “lutas entre capital e trabalho”; garantir políticas de proteção social, distribuição da renda e igualdade de oportunidades; e o sistema tributário como “um instrumento de justiça social”. E, na mais recente versão do estatuto do PSDB, publicado em 2013, está escrito: “A construção de uma ordem social justa e garantida pela igualdade de oportunidades; a prevalência do trabalho sobre o capital, buscando a distribuição equilibrada da riqueza nacional entre todas as regiões e classes sociais”. O think tank do partido, o Instituto Teotônio Vilela, define como seu objetivo divulgar e aperfeiçoar propostas políticas “sociais-democratas” para o Brasil.

fhc lula
Foto: Divulgação/Instituto Lula

Em 1999, o então presidente FHC envia ao Congresso um projeto de lei para a proibição da venda de armas de fogo e munições e, em 2021, o PSDB acionou o Supremo Tribunal Federal para barrar os decretos de Bolsonaro que facilitavam a compra de armas; diversos líderes do PSDB já se declararam a favor do casamento gay e banheiros livres para transgêneros. João Doria, então candidato à Presidência em 2017, falou: “Nenhuma objeção ao casamento gay ou à adoção de banheiros livres para transgêneros”. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e atual presidente da sigla, tem promovido políticas voltadas ao público LGBTQIA+ na sua gestão, por meio do Departamento de Diversidade Sexual da Secretaria Estadual Justiça, Cidadania e Direitos Humanos; e a defesa pública de FHC à legalização da maconha desde o lançamento do documentário, com sua participação, “Quebrando Tabu”. Esses posicionamentos em favor das políticas identitárias (feminismo, LGBTQIA+ e a questão racial) encontram respaldo no partido com os chamados “segmentos”: Tucanafro, PSDB Mulher e Diversidade Tucana.

“Ah! mas o PSDB fez políticas neoliberais e privatizações! Ele é de direita”

Quem fez as privatizações na década de 1990 na Alemanha, França, Itália, EUA, Austrália, Inglaterra, Nova Zelândia foram sempre os partidos social-democratas de centro-esquerda. Os sociais-democratas não são contra as privatizações. São a favor do capitalismo, da gestão privada dos negócios e da intervenção quando a economia estiver em crise. São intervencionistas, nem dirigistas, nem liberais.

No governo FHC, os gastos sociais cresceram de 11,24% do Produto Interno Bruto (PIB) para 12,95%, entre 1995 e 2003. A carga tributária subiu, no mesmo período, de 27% do PIB para 31,9% do PIB. Houve a criação de um sistema estatal de saúde, o SUS, assim como a quebra das patentes dos remédios para o tratamento da Aids. No campo da reforma agrária, se, por um lado, FHC assentou 540 mil famílias e Lula 615 mil famílias, por outro, FHC assinou 3,5 mil decretos desapropriatórios (contra 1,9 mil de Lula).

Vamos, agora, ouvir os diretos interessados. FHC é taxativo ao declarar “Me considero de esquerda” e ainda “Centro-direita não tem a ver com o PSDB”. Quando faleceu Fidel Castro, Fernando Henrique elogiou o ditador comunista e não teve nenhuma palavra de condenação.

José Serra já declarou: “Eu me considero de esquerda”. Em 2014, Aécio Neves declarou: “Para a direita não adianta me empurrar que eu não vou”. E, finalmente, João Doria em 2020 afirmou: “O PSDB é progressista, tanto na economia quanto no plano social. Sem preconceitos”. Por fim, ao escolher mudar de partido, o ex-tucano Geraldo Alckmin não escolheu um partido de centro ou centro-direita, mas filou-se ao Partido Socialista Brasileiro e, em 2022, o PSDB não apoiou a direita, e FHC votou Lula.

Ex-governador de São Paulo João Doria e ex-governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite
Os então ex-governadores João Doria (São Paulo) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) | Foto: Governo do Estado de São Paulo

Em termos internacionais, o PSDB é similar ao Partido Trabalhista inglês, ao partido Democrata americano, ao Partido Socialista Frances, à SPD (Partido Social-Democrata) Alemão, ao partido Democrático Italiano e outros partidos, todos social-democratas, da Terceira Via, socialistas moderados.

Do ponto de vista das influências intelectuais, o PSDB está na linha de autores como John Rawls, Amartya Sen, John Maynard Keynes e Anthony Giddens. É a social-democracia, a terceira via, um caminho intermediário entre liberalismo e socialismo marxista, o socialismo que aceitou o caminho da democracia.

Por fim, falar que o PSDB é de direita é funcional para os partidos de extrema esquerda se mostrarem simplesmente como “de esquerda”, supostamente os únicos de esquerda. Mas muitos nunca foram enganados e sempre repetiam “o PSDB é um partido de esquerda com um eleitorado de direita”. Hoje, graças à ascensão da direita e de Bolsonaro, muitos até entenderam: o PSDB não é e nunca foi de direita.


*Adriano Gianturco é coordenador de relações internacionais e professor de ciência política, além de autor do livro A Ciência da Política.

*Lucas Azambuja é professor de sociologia do IBMEC.

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5 comentários
  1. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Fui tucano desde a fundação do partido até 2019, ano que constatei os maus caráter celebridades do PSDB. Portanto conclui que o partido nunca foi de direita, nem de esquerda, tampouco centro, mas sim de maus caráter dominados pelo “diplomata” FHC, que esqueceu o que escreveu em seus “diários da presidência”, que me fizeram crer que jamais voltaria ao cenário político. Mas foi ressuscitado e fez o “L”.

  2. Dante Pazzanese Lanna
    Dante Pazzanese Lanna

    “jornalistas” chamavam de ULTRALIBERAIS, e não poucos nas universidades chamavam de “extrema-direita”. Na verdade houve ataques chamando o PSDB de fascistas e lembro bem de um professora da USP dizendo que seria “o fim da democracia” se Aécio ganhasse. kkkkkkkkkk

  3. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    De acordo. Eu sempre julguei o PSDB como partido de esquerda, até Bolsonaro nunca houve “direita” na política brasileira recente. Basta citar FHC, criador e apoiador do Lula desde sempre, para constatar a vocação esquerdista desse partido que muitas vezes se posicionou “em cima do muro”.

  4. Otavio Lazario de Queiroz
    Otavio Lazario de Queiroz

    Tem coisas boas no Brasil. Há anos eu, ouvia falas medíocres de Jundira Fhegalli, Maria do Rosário e Glace Hoffman da esquerda caviar. No Jornalismo assistia Maju Coutinho. Hoje ouço com esperança BIA KICIS, CARLA TONI E PAULA BELMONTE e assisto a leveza da SALCY LIMA na Record.

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