*por Bernardo Santoro
Antes mesmo de se discutir viabilidade eleitoral, a simples existência da candidatura de Flávio Bolsonaro já representa uma vitória política da família Bolsonaro. A pesquisa deixa isso claro. Ao se consolidar imediatamente como principal nome da direita, Flávio impede que o capital político acumulado desde a década de 2010 seja capturado pelo centrão e redistribuído a um candidato tecnicamente competitivo, porém ideologicamente mais morno — papel que muitos enxergavam em Tarcísio de Freitas.
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Esse movimento reorganiza o tabuleiro. Nos últimos anos, partidos do centrão tentaram absorver o espólio bolsonarista, enquanto setores da própria direita flertavam com a ideia de substituir Jair Bolsonaro por uma liderança mais “funcional”. A entrada de Flávio no páreo interrompe esse processo e restabelece uma hierarquia clara, recolocando os Bolsonaro no topo da pirâmide.
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Os números mostram que Flávio parte de um piso eleitoral sólido, herdado diretamente do pai. Ao mesmo tempo, carrega um teto relevante, com rejeição semelhante à de Jair Bolsonaro, na casa dos 60%. O sobrenome continua sendo ativo e passivo ao mesmo tempo. Mas, em cenários de polarização, rejeição elevada não impede competitividade quando o piso também é alto e estável.
Aqui está a principal diferença em relação a Jair Bolsonaro. Flávio tenta construir uma imagem de continuidade sem radicalização. Defende o legado do pai, ataca duramente o governo Lula, mas se apresenta como um Bolsonaro institucional, disposto ao diálogo e à composição política. É o “Bolsonaro que tomou vacina”, como ele próprio ironizou.

Essa construção passa também pela economia. Flávio sinaliza a intenção de repetir o sucesso simbólico da equipe econômica do governo Bolsonaro, com discurso liberal, compromisso fiscal e protagonismo técnico — à moda do que Paulo Guedes representou para o eleitorado de direita. O aceno é direto ao empresariado, ao mercado e ao eleitor antipetista moderado.
Há ainda um efeito partidário decisivo. A candidatura de Flávio reforça o PL como principal partido da direita, algo que não ocorreria automaticamente com Tarcísio, filiado ao Republicanos. A consolidação desse polo desloca o debate interno da direita para dentro das estruturas do PL.
O ponto mais sensível, porém, é estratégico. O lulismo pode estar cometendo um erro por excesso de confiança. Os passivos políticos e jurídicos de Flávio já são conhecidos, já foram precificados e, até agora, não abalaram seu piso eleitoral. Em 2022, o bolsonarismo acreditou que enfrentar Lula seria o cenário ideal. O resultado foi o oposto. Apostar que Flávio é o adversário “mais fácil” pode levar o Planalto à mesma armadilha.
O fracasso recorrente do “nem Lula, nem Bolsonaro”
Existe, sem dúvida, demanda social por um candidato que não seja nem Lula nem Bolsonaro. Dependendo da pesquisa, esse contingente varia entre 25% e mais de 50% do eleitorado. O problema é que desejo abstrato não vira voto automaticamente — e nenhum nome testado conseguiu, até agora, transformar essa fadiga em empolgação real.
Os governadores enfrentam dois obstáculos quase intransponíveis. O primeiro é o desconhecimento nacional. O segundo, mais grave, é político: todos são produtos diretos do fenômeno bolsonarista. Foram eleitos surfando a mesma onda, dialogando com o mesmo eleitorado, a mesma estética e a mesma narrativa.

É muito difícil se apresentar como “nem-nem” quando a biografia política foi construída em lealdade explícita ao bolsonarismo. A polarização, aqui, não é apenas ideológica — é biográfica. Os números refletem isso. Tarcísio de Freitas e Romeu Zema aparecem com cerca de 10% e 6%, respectivamente, contra mais de 20% de Flávio Bolsonaro. A candidatura de Tarcísio, na prática, se torna inviável com Flávio no páreo. Zema enfrenta ainda o problema estrutural de um partido enfraquecido e sem capilaridade.
Ratinho Júnior tem mais densidade política e um ativo singular: a força do pai como comunicador popular, inclusive no Nordeste. Ainda assim, vencer Flávio Bolsonaro é improvável. Sua candidatura pode fazer sentido como movimento estratégico, não necessariamente como projeto de vitória pessoal. Ronaldo Caiado, por sua vez, não consegue furar a bolha regional nem empolgar o próprio partido. Seu desempenho pífio nas pesquisas reflete essa limitação.
Renan Santos: o “nem-nem” legítimo — e seu erro de leitura
Entre todos os nomes testados, Renan Santos é o único que pode exercer de forma legítima o papel do “nem Lula, nem Bolsonaro”. Nunca pertenceu a nenhum dos polos e construiu sua trajetória em oposição a ambos. Isso não elimina seus problemas: desconhecimento fora das redes, ausência de estrutura partidária, nenhum tempo de TV e poucos recursos. Ainda assim, Renan possui ativos exclusivos: legitimidade discursiva e uma base digital altamente organizada.
O erro central da Missão não está na crítica ao bolsonarismo, mas na leitura do eleitor “nem-nem”. O liberalismo combativo do MBL se posiciona, paradoxalmente, à direita de Flávio Bolsonaro. Enquanto Flávio tenta vender paz social, normalidade e previsibilidade, o MBL oferece paz apenas depois do conflito. E o eleitor majoritário hoje não quer confronto. Quer um presidente invisível, alguém que governe sem sobressaltos. Depois de quase uma década de caos político, normalidade virou ativo eleitoral.
Isso não torna o discurso do MBL irrelevante. Há um eleitorado que deseja ruptura e reformas profundas. Ele pode não ganhar a eleição, mas pode garantir sobrevivência institucional — o que, no Brasil atual, já é vitória.

Eduardo Leite: o nome que encarna o espírito do tempo
Se existe um nome que dialoga com o zeitgeist do eleitor cansado da polarização, esse nome é Eduardo Leite. Governador do Rio Grande do Sul e herdeiro da tradição tucana, ele reúne atributos raros: liberal pragmático na economia, progressista nos costumes, gestor sem histrionismo.
Seu histórico eleitoral mostra capacidade real de transitar entre campos opostos. Venceu o PT e o bolsonarismo em momentos distintos, com apoios cruzados. Sua identidade desloca o debate do confronto para a normalidade.
Há ainda um fator simbólico relevante: como homossexual assumido, Leite neutraliza ataques identitários e desloca o eixo do debate, criando constrangimentos reais para a esquerda tradicional.
O paradoxo é que o centrão ainda o trata como opção periférica. Kassab parece apostar na retirada de Flávio Bolsonaro — hipótese cada vez menos plausível. Cada mês insistindo nessa aposta é um mês perdido para estruturar uma candidatura “nem-nem” viável.

A corrida real é menos óbvia do que parece
A pesquisa não revela apenas intenções de voto; revela coordenação política. Dois puros-sangue puxam o páreo, enquanto os demais correm presos a amarras biográficas e estratégicas.
O eleitor cansado da polarização existe, mas ainda não encontrou tradução eleitoral eficaz. Enquanto isso, a polarização persiste não por virtude, mas por ausência de alternativa viável.
O candidato que melhor dialoga com o espírito do tempo não é o mais barulhento, nem o mais testado, mas o mais ignorado. E ignorar o zeitgeist, na política, costuma ser mais perigoso do que enfrentá-lo.
Em 2026, a pista não pede ruptura heroica nem confronto permanente. Pede apenas alguém capaz de correr sem derrubar o jóquei — e sem assustar o público nas arquibancadas.
Bernardo Santoro é cientista político e advogado em Petrópolis/RJ e Curitiba/PR. É conselheiro do Instituto Liberal.






































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