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Política

Vorcaro queria construir império midiático

Ex-dono do Banco Master investiu no Brazil Journal, na IstoÉ, no PlatôBR e no portal de Léo Dias, entre outros veículos de comunicação

O Banco Master enfrentava grave crise de liquidez, o que elevou o risco de prejuízo de R$ 50 milhões à Amazonprev | Foto: Reprodução/TV Globo
O Banco Master enfrentava grave crise de liquidez, o que elevou o risco de prejuízo de R$ 50 milhões à Amazonprev | Foto: Reprodução/TV Globo

Nos últimos anos, enquanto o Banco Master crescia rapidamente no mercado financeiro, seu controlador, o banqueiro mineiro Daniel Vorcaro, também avançava em outra frente estratégica: a construção de uma rede de influência no setor de comunicação.

Investimentos diretos e indiretos em veículos jornalísticos e plataformas digitais geraram o embrião de um pequeno império midiático, capaz de ampliar a presença do grupo nos debates políticos e econômicos do país.

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Um banqueiro e a política da influência

Vorcaro tornou-se conhecido na Faria Lima depois de assumir o controle do antigo Banco Máxima em 2018 e transformá-lo no Banco Master.

Sob sua gestão, a instituição cresceu rapidamente, captando recursos com CDBs que ofereciam rendimentos muito acima da média do mercado.

Paralelamente à expansão financeira, o banqueiro passou a investir em comunicação e relacionamento político.

Saiba mais: Anatomia de uma fraude

O objetivo, segundo reportagens e investigações jornalísticas, seria ampliar sua influência em Brasília e no mercado financeiro, especialmente em um momento em que o banco enfrentava pressões regulatórias e negociações complexas, como a tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB).

A teia de veículos e parceiros

A construção desse ecossistema de mídia ocorreu principalmente por meio de parceiros e fundos de investimento.

Dois nomes aparecem com frequência nesse circuito: o empresário Flávio Carneiro, ligado ao setor de comunicação em Minas Gerais, e o financista Antônio Carlos Freixo Júnior.

Por meio dessas conexões, o grupo teria participado ou investido em diferentes projetos de mídia. O nome de alguns desses veículos foi revelado na reportagem de capa da Edição 312 da Oeste:

  • o site de economia Brazil Journal, o jornal oficial da Faria Lima;
  • as operações digitais da Editora Três, responsável por revistas como IstoÉ e IstoÉ Dinheiro;
  • o portal político PlatôBR, dedicado aos bastidores de Brasília; e
  • o site de celebridades do jornalista Léo Dias.

Em alguns casos, os investimentos foram feitos por meio de fundos estruturados. Um exemplo é o Fundo Leal, que teve como único cotista o empresário Fabiano Zettel, cunhado e aliado de Vorcaro, e que adquiriu participação relevante no Brazil Journal.

Daniel Vorcaro é o fundador do Banco Master; ele foi preso em 18 de novembro | Foto: Divulgação/Banco Master
Vorcaro está preso | Foto: Divulgação/Banco Master

Fundos e estrutura societária

A arquitetura financeira dessas participações incluía uma cadeia de fundos e empresas. O Fundo Leal controlava outro fundo chamado Duke, que por sua vez estava ligado à empresa Foone Serviços, responsável por investimentos e projetos no setor de mídia e tecnologia.

Essa estrutura também se conectava a iniciativas de conteúdo e publicidade digital. A Foone, por exemplo, participou da criação de projetos como a BJ Conteúdo, uma joint venture associada ao Brazil Journal, e esteve ligada ao lançamento do site PlatôBR em 2024.

O modelo consistia em integrar produção editorial, eventos e marketing institucional, atraindo empresas patrocinadoras, incluindo o próprio Banco Master, para financiar iniciativas de conteúdo e conferências.

O projeto de expansão

A ambição não se limitava ao ambiente digital. O grupo chegou a negociar a aquisição de veículos tradicionais dos Diários Associados, incluindo o Correio Braziliense e o Estado de Minas.

Caso a operação avançasse, Vorcaro teria acesso direto a dois dos jornais mais influentes de Brasília e de Minas Gerais, ampliando significativamente seu peso no debate político nacional.

No caso do Correio Braziliense, o jornal publicou matérias favoráveis ao banqueiro no período entre o anúncio da compra pelo Banco de Brasília (BRB), em 28 de março de 2025, e o veto imposto pelo Banco Central (BC), em 3 de setembro do mesmo ano.

No dia 28 de julho de 2025, por exemplo, o jornal publicou a seguinte nota: “Com perfil técnico, mineiro comanda uma das operações bancárias que mais crescem no país”. Menos de um mês depois, escreveu outra reportagem que elogiava Vorcaro. O título: “Daniel Vorcaro traça um novo futuro do crédito no Brasil”. Esta última foi apagada do site do jornal.

Silêncio e controvérsias

A proximidade entre o banqueiro e alguns veículos gerou críticas durante o escândalo do Banco Master.

Quando as investigações sobre a instituição ganharam força, determinados veículos ligados ao grupo não noticiaram imediatamente o caso ou simplesmente se omitiram. Representantes de alguns desses meios de comunicação negaram qualquer vínculo direto com o banco ou com Vorcaro, afirmando que as relações se limitavam a investimentos indiretos ou parcerias empresariais.

É o caso do Brazil Journal, que chegou a publicar uma nota de esclarecimento no dia 20 de novembro de 2025, dois dias depois da prisão de Vorcaro e da liquidação do Master por parte do Banco Central, sob o título “Sobre fatos, fofocas e innuendo”.

O fundador do Brazil Journal, Geraldo Samor, escreveu no texto que, “dada a importância do tema para o mercado, esclareço — sem ressalvas e com todas as letras — que nem o Banco Master nem quaisquer de seus acionistas tem qualquer tipo de participação societária, direta ou indireta, no capital social do Brazil Journal“. De fato, Zettel não era acionista do Master, mas os fundos por ele utilizados para investir na empresa que possui o Brazil Journal são ligados ao Master.

A queda do projeto

Com a liquidação do Banco Master e a prisão de seu controlador, o projeto de expansão midiática perdeu força.

O banco foi fechado pelo Banco Central em 2025, depois de investigações sobre gestão fraudulenta e operações financeiras sem lastro, episódio que provocou um dos maiores escândalos recentes do sistema bancário brasileiro.

A crise atingiu também os parceiros e investidores que orbitavam o grupo. Alguns veículos ligados à rede passaram a enfrentar questionamentos sobre sua independência editorial e tentaram se distanciar do episódio.

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