A quarentena do farsante

Se o ex-presidiário não fosse desprovido do sentimento da vergonha, não seria tão aflitiva a escassez de leitos de UTIs e equipamentos hospitalares num país infestado de estádios sem serventia

Quando Lula empunha o microfone, fenômenos assombrosos se oferecem aos olhos de quem trata o idioma com alguma gentileza. O plural se asila na embaixada portuguesa, vírgulas e pontos se refugiam no dicionário mais próximo, sujeito e predicado trocam socos e pontapés, a concordância verbal sai em desabalada carreira — nada no mundo da gramática escapa a pânico desencadeado pela iminência de mais uma selvagem sessão de tortura. Muito diferentes, mas igualmente impressionantes, são os espantos testemunhados por discípulos próximos do mestre. Foi assim com Marilena Chauí. Ao sair de uma conversa a dois no Palácio do Planalto, ela contou o que descobrira: “Quando Lula fala, o mundo se ilumina!”.

Tanta luminosidade afetava, por exemplo, os olhos e ouvidos do intelectual Antonio Cândido. Professor da USP, ensaísta e escritor, era exigente com alunos que maltratavam o vernáculo, implacável com estreantes sem brilho e inclemente mesmo com amigos consagrados. Mas não conseguia ver nem ouvir os socos e pancadas desferidos por Lula na última e indefesa Flor do Lácio. “Ele tem um instinto e uma intuição que dispensam o conhecimento da norma culta”, derramou-se numa entrevista o catedrático capaz de reprovar o melhor da classe pelo sumiço de um circunflexo, ou castigar com bordoadas quem se atrevesse a murmurar um “menas”.

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Só Lula tinha autorização para assassinar o português.

Nesta semana, uma discurseira de Lula teve de dividir as atenções dos espectadores com a performance do rosto de Fernando Haddad. Enquanto o orador ensinava a Jair Bolsonaro o que fazer para dar um jeito no país destruído pela Era PT, o poste contemplava seu fabricante com cara de quem contempla uma aparição de Nossa Senhora. Lula dizia isto, as pálpebras de Haddad murmuravam amém. Lula dizia aquilo, o queixo subia e descia em silenciosa aprovação. O pregador de missa negra insultava a direita fascista, as sobrancelhas do coroinha se inclinavam à esquerda. O sermão incluía outra louvação da esquerda, o coroinha marmanjo empinava o topete. Um espetáculo de afinação tão impecável quanto repulsivo.

Foi também por comandar um rebanho que vive emitindo balidos subalternos que Lula virou o que é. A sabujice revoga a sinceridade. Subserviência não rima com altivez. Desde a entrevista concedida em dezembro de 2005 ao programa Roda Viva, quando foi interpelado sem rodeios sobre o escândalo do Mensalão, Lula deixou de conversar com jornalistas independentes. Desde a cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, quando foi apresentado à mitológica vaia do Maracanã, Lula só se apresenta para plateias amestradas. Só entra gente que ri antes que a piada comece a ser contada. E cai na gargalhada antes que termine.

Os jornalistas comparsas fazem o resto do serviço sórdido.

Em que outro país a imprensa qualificaria de “ex-presidente da República” — nada mais — um corrupto condenado à prisão em duas instâncias? Que jornalismo além do brasileiro publicaria com destaque o que diz um farsante que se fantasiou de Pai dos Pobres para enriquecer como Mãe dos Ricos, e chefiou o maior esquema corrupto de todos os tempos, e por essas e outras transformou-se no primeiro chefe de governo nativo engaiolado por atropelar o Código Penal? Só mesmo num Brasil moralmente abastardado um prontuário ambulante ousa disfarçar-se de juiz de presidente.

“Eu acho que o Bolsonaro não tem estatura psicológica para continuar governando”, recitou ao lado de Haddad o camelô de empreiteira. “Ou esse cidadão renuncia ou fazem o impeachment dele, porque não é possível que alguém seja tão irresponsável para brincar com a vida de milhões de pessoas”, delirou o analfabeto funcional que, em 2009, não viu o tamanho da epidemia de H1N1 nem viu mais que uma marolinha no apavorante tsunami econômico. “Se ele agisse com responsabilidade, quem sabe a gente tivesse munido de máscaras, respiradores e milhões de testes”, foi em frente o parteiro da Copa da Roubalheira e da Olimpíada da Ladroagem.

Se o ex-presidiário não fosse desprovido do sentimento da vergonha, não seria tão aflitiva a escassez de leitos de UTIs e equipamentos hospitalares num país infestado de estádios sem serventia. Estimulado por parceiros larápios, nessas arenas Lula colocou em jogo o próprio destino político. Perdeu. Se tentar um terceiro mandato, vai saber como se sentiram os jogadores brasileiros naquele 7 a 1 contra a Alemanha.

Ciro chora

Ciro Gomes chora
As lágrimas de crocodilo de Ciro Gomes

“O grande ator não é gente, é outra coisa”, dizia o jornalista Paulo Francis, deslumbrado com a performance de Marlon Brando no filme Último Tango em Paris. “O mais infeliz viúvo do mundo jamais conseguiria chorar como Marlon Brando ao lado do caixão da mulher!”, exclamava Francis. “E ele  nunca foi viúvo na vida real!”

Canastrões da política brasileira também não são gente, são outra coisa. E muito pior que gente, confirma Ciro Gomes no vídeo que documenta sua desolação com os brasileiros pobres expostos à pandemia de coronavírus. A cara redesenhada pelo ator de botequim parece chorar copiosamente. Mas ele não consegue extrair do coração despedaçado sequer duas lágrimas que lhe molhem as pálpebras inferiores.

Ciro Gomes acabou de inventar o pranto convulsivo sem lágrimas.

Uma cela só para Cunha

O delinquente Eduardo Cunha recuperou a alegria de viver — ao menos por algumas semanas — graças ao mesmo micro-organismo que anda inoculando em incontáveis brasileiros honestos o medo de morrer. Nesta quinta-feira, a juíza Gabriela Hardt entendeu que o ex-presidente da Câmara deveria resistir em casa ao cerco do coronavírus. Aos 61 anos, com a saúde avariada, Cunha foi devolvido ao lar por ser integrante do grupo de risco.

A juíza, com todo o respeito, errou. Em casa, Cunha vai ser visitado por bandos de comparsas com os quais sempre planejou bandalheiras sussurrando a centímetros do ouvido. Esses hábitos facilitam contaminações. O bandido capturado pela Lava Jato estaria bem mais seguro se fosse trancafiado sozinho numa cela — e proibido de receber visitas até o fim da epidemia.

Muita gente boa sucumbiria à tentação de pedir ao coronavírus que ficasse por aqui pelo menos 20 anos.

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87 comentários Ver comentários

  1. Parabéns Augusto, sempre irretocável! Muito bom estar todo dia com Voce!!
    Por favor escreve algo sobre a felicidade do o Papa estar contento de ver o Lula pelas ruas , e esqueceu de dizer SOZINHO pelas ruas , porque ate ele tem que ficar preso, como nois.

  2. Caríssimo Augusto Nunes,seus textos claros , abrangentes e que espelham a realidade em todas as suas nuances,refletem um jornalista que dignificam essa tão importante e necessária profissão para a verdadeira democracia.

  3. Grande Augusto Nunes, parabéns. O salafrário do Lula não pode dizer suas bobagens sem ter uma voz firme para dar-lhe a resposta exata. É assim que se faz com condenados por ladroagem e safadezas.

  4. Será que estamos realmente perdidos? Nao vejo nada de positivo no nosso pais. É perdicao por todos os lados. E, quem ousa tentar melhor como o Pr Bolsonaro o golpeam, o esfaqueam. Muito dificil tudo. Quanto a esse condenado o establishment o soltou, o protegeu e o digere. Que fazer?

  5. Antes de vc escrever seu próximo artigo (ou mentário na TV), pense no que aconteceu ontem. O Ministro Alexandre de Moraes, aceitando com bom coração o pedido da OAB para que o governo se explique sobre omissões e falta de empenho no combate ao coronavírus, deu 48 horas para o governo fazer um relatório minucioso sobre suas ações. Fiquei pensando que o Ministro Mandetta, por exemplo, deveria cancelar a partir de hoje todas as entrevistas coletivas e adiar reuniões com seus subordinados e secretários estaduais de saúde para poder fazer o relatório e se defender. Ou seja, um cara que tá trabalhando 24 horas por dia, incansavelmente, ter que parar tudo para se defender em um processo movido por um crápula militante que não deixa as pessoas trabalharem com tranquilidade numa hora de emergências. Vai ficar assim, ou o Bolsonaro deveria reverter a situação e processar o Santa Cruz? Acho que a maioria dos advogados do Brasil não gostaram da postura da OAB nesta hora.

  6. Nao conhecia a revista , fiquei sabendo graças a um video do Caio Coppola , graças a Deus voces apareceram , nao aguentava mais ter que tentar ler, quem eu antes admirava , os “ANTAS “

  7. A gente que vive no interiorrrr não tem muito charme para escrever. Aceitamos muita coisa. Até nos contentamos com pouco. Por exemplo: a gente queria o Lula preso. Depois pensamos que ele poderia ir pra casa com tornozeleira. Tá. Mas, pensando bem, ele tá em confinamento voluntário…

  8. Só você Augusto Nunes pra me fazer rir num momento difícil pelo qual estamos vivendo. Mas confesso que de tudo que presenciei nesta vida nada se compara às últimas peripécias mambembes (com todo respeito à arte circense) do clã Ferreira Gomes: o choro sem lágrimas do Ciro e a performance do piloto de retroescavadeira, Cid, o sensível.

  9. Qualquer pessoa minimamente lúcida e honesta sabe o quão nefasto Lula foi para o Brasil, mas no que isso isenta Bolsonaro de ser cobrado, hoje, por uma postura decente? Até quando o PT será anteparo para as cafajestices do presidente que manda hoje e agora no país? A imprensa que critica Bolsonaro levianamente não é pior do que a que o poupa.

  10. Acho o Augusto o Giorgio Armani do texto: com precisão e pouco enfeite faz o melhor texto político do país. Nada falta, nada sobra.

  11. Meu caro Augusto Nunes, sempre aprendo com você e o Mestre Guzzo. Estou feliz porque a partir de agora posso ler os dois no mesmo dia. Bela estreia.

  12. Que bênção termos um Augusto Nunes que nos lava a alma. Seu texto e suas palavras nos iluminam o caminho tão desgastado por uma imprensa falida e desacreditada! É reconfortante ouvir suas análises, sempre tão sábias!

  13. Parabéns por mais um belíssimo texto, aliás, como sempre! Só uma pequena correção na primeira parte do artigo, quando diz que o nosso larápio-mor foi condenado em duas instâncias. Na verdade houve a condenação em terceira instância no caso do Triplex do Guarujá, em abril de 2019.

  14. Augusto Nunes: “Quando Lula empunha o microfone, fenômenos assombrosos se oferecem aos olhos de quem trata o idioma com alguma gentileza. O plural se asila na embaixada portuguesa, vírgulas e pontos se refugiam no dicionário mais próximo, sujeito e predicado trocam socos e pontapés, a concordância verbal sai em desabalada carreira…” Imagina então como ser possível descrever com precisão a oratória da Dilma!? Missão quase impossível.

  15. Os mestres das palavras reunidos! viva a liberdade de expressão, e profundidade de análise tão rara nos dias de hoje! vida longa à Revista Oeste!!!

  16. Que delícia ler suas palavras, tão artisticamente encadeadas! Você traz leveza e alívio à alma. Sua descrição do uso da língua portuguesa pelo meliante é algo para se ler e reler, um deleite. E com tudo isso não abandona a sensatez e coerência. Aplausos!

  17. Parabéns para você e para os demais colegas. A propósito, noutro dia você se referiu à Mônica Bérgamo como a porta-voz da seita. Tenho um reparo. Porta-voz é função de uma só pessoa e a seita está cheia de gente falando em nome dela. Nesses casos ficaria melhor falar em menino(a) de recados, mas isso não mais se aplica à sub jornalista. Mônica poderia ser talvez uma coroa de recados. Ou uma balzaquiana de recados.

    1. É sempre um enorme prazer ler um texto do Augusto Nunes. Inteligência e humor, inclemente com as bandalheiras da classe política.
      Sugiro uma abordagem sobre o auto-proclamado primeiro-ministro, Rodrigo Botafogo Maia. Esse está merecendo um tratamento especial.

    1. Últimamente, não tenho mais ligado a TV convencional,não vale a pena gastar pilha do controle, a energia da TV.
      Melhor acompanhar algumas fontes voltadas ao BRASIL.
      9 dedos e sua cúpula não dá.

      1. Caríssimo AN:
        Por sua causa, por escrever as coisas como de fato elas são dando alento à razão e comprometido com as verdades já impressas nas páginas da história, parabenizo-o pelo excelente texto, aqui, neste novo espaço o qual franqueamos a nossa entrada e permanência.
        Um abraço!

      2. Incontestável. A cada leitura, um aprendizado.

      1. Excelente. Vai no cerne das questoes. Objetivo, claro. E do lado certo. É um privilégio poder ler suas colunas.
        Parabéns
        Abraços

      2. Simplesmente Augusto! Maravilhoso! Parabéns e vida longa à revista!

      1. Realidade em reunião de palavras. Parafraseando o que cantaria o cantante: “ah se o mundo inteiro [o] pudesse ouvir”.

      2. Excelente. Estava faltando reafirmar e relembrar essas bandalheiras da ORCRIM. Abraço

    1. Artigo sensacional! Parabéns Augusto Nunes! Faz falta mais jornalistas como vc que expõe a nossa realidade. Chega a dar tristeza ver os jornalistas, dito intelectuais, que compactuam com essa gente sórdida que quase acabou com o nosso país. Uma pergunta, o que ganham eles com a derrocada do nosso País?

    2. Como sempre , perfeita suas colocações Augusto Nunes! Que essa revista seja uma revista conforme proposta, longa vida a mesma! Espero não me decepcionar!

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