Foto: Montagem/Shutterstock
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O jovem não quer mais votar

Às vésperas das eleições, o Brasil registra o menor número de emissões de títulos para jovens de 16 e 17 anos desde a redemocratização

Em março de 1988, uma massa de 600 jovens festejou nas galerias da Câmara dos Deputados a aprovação de uma emenda do deputado gaúcho Hermes Zanetti (MDB), que instituiu o voto opcional aos 16 anos. Estava em curso a Assembleia Constituinte, e os movimentos estudantis lançaram uma campanha nacional batizada “Se liga 16”. Mais de três décadas depois, a história mudou: o jovem não está preocupado em votar.

Manifestação de estudantes e professores no Congresso Nacional | Foto: Arquivo/Câmara Legislativa
Manchete do jornal O Globo: “Se liga, 16! quer ver todos os jovens votarem”, de 1989 | Foto: Reprodução/O Globo

Segundo um levantamento na base de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nunca foi tão baixa a procura pelo registro de títulos eleitorais na faixa etária de 16 e 17 anos — depois dessa idade, o voto é obrigatório no país. Foram emitidos 730 mil novos títulos para as eleições deste ano, metade do que foi computado há quatro anos, por exemplo. Em 2004, um marco no alistamento, esse montante foi de 3,7 milhões.

Dos analistas da esquerda para a direita (e vice-versa), há uma série de teses sobre o desinteresse com as urnas. Alguns pontos prevalecem: medo de perseguição nas redes sociais, caso seja pressionado a dizer em quem votou, falta de conhecimentos básicos sobre política e, sobretudo, preguiça. Nesse último ponto, vale ressaltar que a abstenção hoje em dia pode ser justificada pelo celular. E estamos falando de uma geração que já nasceu com as facilidades da internet.

Outro dado da Justiça Eleitoral também ajuda a jogar luz sobre o tema. Em 2020, o maior porcentual de abstenção foi de jovens a partir de 18 anos — 23,5%. Ou seja, a indiferença com o pleito se estende para aqueles que são obrigados a votar. Quase um quarto dos aptos não apareceu nas urnas.

“A fuga do jovem se deve ao ambiente ríspido gerado pela cultura do cancelamento”, afirma Carmelo Neto (Republicanos-CE), aos 19 anos, o mais jovem vereador eleito nas capitais do país em 2020. “Por exemplo: um jovem que apoie o presidente vai sofrer retaliações na escola e nas redes sociais. A patrulha do cancelamento é intensa e inibe a participação, porque o ambiente deles é a internet.”

A reportagem de Oeste ouviu dois jovens de 17 anos sobre o assunto. Justamente por medo de retaliações, ambos pediram para que seus nomes não fossem divulgados — até porque não são maiores de idade. Nos dois casos, a resposta para a pergunta “Por que você não quer votar neste ano?” foi similar. Reconheceram não ter maturidade para falar sobre política nem economia, não leem jornais nem revistas. E acessam sites noticiosos apenas quando alguém que seguem disponibiliza o link no Twitter. Também afirmaram que o assunto não é debatido nos grupos de WhatsApp nem no Instagram. Os dois jovens passaram mais de um ano em casa com aulas on-line por causa do fechamento das escolas particulares.

Política X lacração

Um dos motivos que explicam o descaso com as urnas é a falta de engajamento partidário. Durante anos, a esquerda trabalhou com afinco na doutrinação de jovens nas salas de aula — especialmente nas universidades e nos centros acadêmicos. Apesar de ainda exercer influência nos cursos das áreas de humanas, a militância não discute mais modelos de Estado nem diretrizes partidárias. A pregação agora é outra: o avanço da pauta LGBT, linguagem neutra (todos, todas e “todes”), criar um mundo mais vegano e o “racismo estrutural”. Sobre política, tudo se resume em uma hashtag: #EleNão. E ponto.

É isso que se ensina aos adolescentes em sala de aula

Já a chamada social-democracia do PSDB e os partidos mais à direita nunca empolgaram essa faixa etária. Basta perguntar se alguém conhece um único integrante da Juventude do PL de Valdemar Costa Neto ou do PP de Ciro Nogueira. Aliás, na virada dos anos 2000, dois garotos, de 15 e 17 anos, ficaram famosos por seguir o ex-prefeito Paulo Maluf, do PP, em campanha. Eram filhos de um amigo de Reynaldo de Barros e foram apelidados de “meninos malufinhos”.

Recentemente, o eterno candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT) foi orientado pelo seu marqueteiro João Santana (que ganhou notoriedade no Petrolão) a acenar para esse público. Ciro e o irmão, Cid Gomes, abandonaram as retroescavadeiras e resolveram fazer lives semanais batizadas de “Ciro Games”. Ciro adotou o slogan “A rebeldia da esperança”. O comparecimento foi pífio. Pelo menos até agora, os jovens têm optado por jogar videogame de verdade em vez de ouvi-lo discorrer sobre sua cartilha política.

Uma consulta rápida na internet sobre o tema aponta centenas de cientistas políticos que atribuem a falta de adesão eleitoral de jovens às restrições da pandemia. O TSE, contudo, informa que desde maio do ano passado é possível fazer o cadastramento pela internet, justamente o ambiente em que essa faixa etária vive — basta ter em mãos o RG, uma conta de e-mail e fazer uma selfie. O recrutamento não deu certo.

Uma tese possível é que o jovem não quer mais votar simplesmente porque prefere que alguém faça as escolhas por ele. Afinal, é mais fácil ficar distante da responsabilidade do voto e “cancelar” todo mundo depois nas redes sociais.

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14 comentários Ver comentários

  1. Senti falta de uma análise mais aprofundada da reportagem, relacionando essa inscrições no TSE com os nascidos vivos 16 a 17 anos antes (1986 a 2006 – pra ficar na mesma tabela apresentada! Fiz essa comparação e, de fato, parece haver uma queda desproporcional em relação a quantidade de jovens (considerando-se que continuam vivos os que nasceram vivos no período considerado) e o número deles que se tornaram eleitores! “Quem não gosta de política, será governado pelos que gostam!”.

  2. Não é só os jovens que estão nesta posição, com medo de opinar, os velhos também. Porque a maioria é desiformada e fica com medo de se passar por ignorante. Mas essa foi a cartilha gramicista passada pra todo mundo.
    Só é ser sincero. Eu tenho 66 anos, passei minha vida todinha acreditando no socialismo, quando Lula falava eu chorava de emoção. Vim descobrir que era tudo ladrão em 2018

  3. Reflexo da baixa qualidade da educação brasileira. Não são estimulados a conhecer a realidade do país e o que poderiam fazer para melhorar. Se não tem este conhecimento, é melhor mesmo nem votar, pois serão manipulados mais facilmente por pilantras.

  4. Vejo nessa abstenção dos jovens pontos positivos. Desde muito tempo que jovens não se interessam por política e seria atípico agora vê-los interessados. Me lembro da minha adolescência, de como eu não gostava de política (e também de ter sido influenciado pela gritaria que a esquerda fazia nos anos 70, por exemplo). Mas também sabia que a política era um fato com o qual eu teria de conviver e que precisava entender, pois afinal eu tinha uma vida razoavelmente tranquila, em paz com o governo militar e que aquilo, simplesmente, não significava muita coisa. Hoje acho que foram os anos mais felizes da minha vida. Não tinha nenhuma obrigação além de ir para a escola e tive uma boa educação, sem os afetados professores “de esquerda” que vemos hoje em dia.
    Porém acho muito importante a união familiar e os diálogos entre pais e filhos (avós, tios, etc). Pois aí está o verdadeiro futuro da nação; muito mais importante que adolescentes com direito ao voto.
    Acho que vale o ditado “não dê o peixe, mas ensine a pescar”.

  5. Talvez se tivéssemos escolas disciplinadoras, militares ou não, e orientadas para a educação, o respeito aos costumes, religiões, famílias e as leis, e não afastadas há mais de 2 anos das atividades devido ao famoso “fique em casa” que prossegue mesmo após vacinação e outros cuidados, seguramente teríamos jovens com a percepção da importância de votar para exigir seriedade e cultura de políticos e transparência das eleições, conforme nosso regime democrático. Qualquer coisa fora disso é ditadura de qualquer extremo ideológico.

  6. Isso é o resultado da covardia da extrema esquerda (PT / Psol ); empobreceram o País literalmente e empobreceram mais ainda a capacidade cognitiva de os jovens atuarem no processo político inviabilizando condições livre de escolha de representantes, tanto em eleições majoritárias, qto proporcionais. O q a esquerda sabe mt bem fazer e manter eleitores no cabresto, qdo não conseguem, partem p a covardia do cancelamento e constrangimento.

  7. Concordo com os comentários dos leitores que, aqui, me antecederam. É um mix de tudo “isso” que foi dito, e um pouco mais. Só gostaria de acrescentar o seguinte: se menor de 18 tem responsabilidade e autorização pra votar então, por que não pode responder criminalmente?! ?

  8. O desinteresse dos jovens pelas eleições, creio eu, é devido a falha gigantesca da educação brasileira, que não prepara os jovens nem para o trabalho. É incrível que os jovens são interessados somente por redes sociais e não se interessam pelo mundo real.

  9. Eu acho até bom que os jovens não queiram votar. O quê os adolescentes sabem da vida e menos ainda de política? Como diria Oscar Wilde: não sou jovem o suficiente para saber tudo. Ou Nélson Rodrigues: jovens, envelheçam!

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