Ataque russo à torre de televisão em Kiev, na Ucrânia | Foto: Wikemedia Commons
Ataque russo à torre de televisão em Kiev, na Ucrânia | Foto: Wikemedia Commons

A Ucrânia resiste

Em razão da inesperada resistência ucraniana, o Kremlin intensificou sua ofensiva e ordenou bombardeios maciços contra as cidades-chave do país vizinho

Na madrugada de 24 de fevereiro, diversas cidades ucranianas acordaram com os estrondos de mísseis russos destruindo prédios residenciais, bases militares e infraestruturas. Luhansk, Donetsk, Carcóvia, Mariupol, Crimeia, Odessa e Kiev, a capital, perceberam pelo cheiro da pólvora as intenções do presidente da Rússia, Vladimir Putin. Em poucas horas, centenas de explosões foram registradas. Era o prelúdio da escalada militar que ocorreria dali em diante.

Dez dias depois do início dos ataques, a temperatura permanece alta numa região tradicionalmente gélida. Em razão da inesperada resistência ucraniana, o Kremlin intensificou sua ofensiva e ordenou bombardeios maciços contra as cidades-chave do país vizinho. Inicialmente, as tropas russas tomaram de assalto Donetsk e Luhansk, enclaves separatistas localizados no leste da Ucrânia. Com o arrastar do conflito, todavia, Putin determinou que os soldados dominassem a Carcóvia, segunda maior cidade do país, e Kiev, polo cultural ucraniano e sede do governo. Não foi suficiente para garantir a vitória.

Em meio à invasão de tanques russos nas metrópoles ucranianas, o presidente Volodymyr Zelensky publicou um vídeo nas redes sociais para comunicar que seu país não pretende capitular. “Há muitas fake news sendo espalhadas, informando que pedi ao Exército da Ucrânia que se rendesse”, afirmou, na abertura do discurso. “Então, vejam: estou aqui. Não baixaremos nossas armas, defenderemos nosso Estado. Nossa arma é a verdade. Esta é nossa terra. É nosso país, são nossas crianças. Vamos protegê-los a todo custo. Estamos lutando. Glória à Ucrânia!”

A postura do líder ucraniano foi celebrada pela população local, mas considerada imprudente pelos Estados Unidos. De acordo com a Embaixada da Ucrânia em Londres, Washington aconselhou Zelensky a deixar Kiev, que se tornaria o epicentro do conflito no Leste Europeu. A negativa foi imediata. “A luta está aqui”, ressaltou. “Preciso de munição, não de carona.” A declaração foi divulgada logo depois de as Forças Armadas da Ucrânia repelirem as investidas russas na capital. “Kiev está sendo limpa dos restos dos sabotadores”, anunciaram os militares, em publicação no Twitter.

Os aliados entram em cena — e também as sanções

Para reforçar o poderio bélico da Ucrânia, diversos países enviaram um comboio repleto de armamentos e insumos. Isso envolve, entre outras coisas, 30 mil pistolas, 11 mil armas antitanque, 7 mil fuzis, 2 mil metralhadoras, 700 mísseis antiaéreos, 4 mil toneladas de combustível e 70 mil unidades de suplementos alimentares. Kiev ainda terá à sua disposição cerca de R$ 6,5 bilhões para investir em equipamentos militares. Estados Unidos, Reino Unido, França, Holanda, Alemanha, Canadá, Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia, Bélgica, Portugal, Grécia, Romênia, Espanha, República Tcheca, Polônia e Croácia foram os responsáveis pela contribuição.

Ao mesmo tempo em que Kiev recebia o auxílio das nações aliadas, a Comissão Europeia determinava a exclusão de sete bancos russos do sistema de pagamentos Swift, que facilita a transferência de recursos entre empresas de diferentes países. A medida deve impactar o comércio internacional e o investimento estrangeiro na Rússia, ainda debilitados pela pandemia. “Isso vai congelar as transações e impossibilitar o Banco Central de liquidar ativos”, explicou Ursula von der Leyen, presidente da entidade vinculada à União Europeia. Foi apenas o início da série de sanções contra o Kremlin.

O Sberbank, maior banco russo, também sentiu o sabor amargo das retaliações. Na Bolsa de Valores de Londres, por exemplo, as ações da instituição financeira desvalorizaram 95%. Desde a última terça-feira, 1º, os russos não podem enviar remessas de dinheiro para o exterior nem realizar empréstimos. Em jargão econômico, isso significa controle de fluxo de capitais. “A situação da economia russa mudou dramaticamente, em razão das sanções impostas por diversos países”, justificou Elvira Nabiullina, presidente do Banco Central. Segundo relatório da consultoria Institute of International Finance, o Produto Interno Bruto (PIB) da Rússia sofrerá uma queda significativa neste ano.

Mas os problemas transcendem o sistema financeiro. A empresa Nord Stream 2 AG, responsável pela operação do gasoduto que liga a Rússia à Alemanha, declarou falência depois de Berlim suspender a certificação do projeto. A companhia, subsidiária da estatal russa Gazprom, liderou a construção do gasoduto, avaliada em US$ 11 bilhões. A decisão provoca efeitos imediatos, pois a Nord Stream 2 AG investiu cifras bilionárias para a ideia sair do papel. No entanto, em virtude da suspensão do certificado, a empresa não tem perspectiva de receita. Com isso, a Gazprom terá de assumir o prejuízo obtido com o desmantelamento do projeto. É a primeira companhia russa a sofrer com as retaliações dos Estados Unidos e da União Europeia.

Nem pão, nem circo

Na esteira das represálias, a Apple anunciou a interrupção dos negócios na Rússia. A medida inclui, entre outras coisas, a proibição da venda de iPhones, iPads, MacBooks e outros produtos da companhia. Além disso, os aplicativos do RT News e do Sputnik News, dois veículos de comunicação governistas, não estão mais disponíveis para download na Apple Store. Os principais estúdios de Hollywood seguiram na mesma linha e cancelaram os lançamentos cinematográficos na Rússia. Walt Disney, Warner Bros., Sony e Paramount Pictures comunicaram que não pretendem reconsiderar a decisão.

Na segunda maior cidade ucraniana, bombas termobáricas foram usadas contra civis

Mas não é só isso. A Federação Internacional de Futebol (Fifa), entidade máxima do esporte, proibiu a participação da Rússia na Copa do Mundo do Catar, que será realizada entre novembro e dezembro deste ano. Os clubes do país também devem ficar de fora dos torneios organizados pela União das Associações Europeias de Futebol (Uefa), como a Liga dos Campeões e a Liga Europa. Na mesma toada, a Fórmula 1 decidiu não realizar o Grande Prêmio (GP) da Rússia, previsto para 24 de setembro. “É impossível realizar o evento nessas circunstâncias”, informou a organização. O povo russo, apaixonado por futebol e automobilismo, pagou a conta do Kremlin.

Putin pede truco

A despeito das inúmeras sanções, Putin dobrou a aposta e ordenou que seu comando militar ficasse em alerta máximo para eventual uso de armas nucleares. “O Ocidente não apenas adota medidas hostis contra a Rússia na esfera econômica, mas também permite que os dirigentes da Organização do Tratado do Atlântico Norte [Otan] promovam discursos agressivos sobre nosso país”, declarou o presidente russo.

Depois do discurso, Moscou acentuou os ataques contra Kiev e Carcóvia, a fim de provocar a rendição de Zelensky. Na capital, um tanque russo foi flagrado passando por cima de um carro. O veículo estava sendo conduzido por um homem, que sobreviveu. Na segunda maior cidade ucraniana, bombas termobáricas foram usadas contra civis. Esses artefatos têm capacidade destrutiva similar às explosões causadas por armas nucleares, mas possuem a vantagem de não contaminar o ambiente com material radioativo. Estima-se que o calor gerado por esses armamentos chegue a 3.000 graus Celsius — mais da metade da temperatura da superfície solar. Isso é suficiente para aniquilar populações abrigadas em áreas fortificadas, como trincheiras, cavernas e bunkers. Em virtude de seu poder destrutivo, as bombas termobáricas são proibidas pelo Direito Internacional.

 

 

Para impedir a livre circulação de informações na Ucrânia, o Exército da Rússia bombardeou uma torre de TV em Kiev. De acordo com as autoridades locais, os sinais de transmissão foram temporariamente interrompidos. “Em breve, a energia de backup será ligada para restabelecer os canais”, informou o Ministério do Interior. Pelo menos cinco pessoas morreram em decorrência das explosões.

A resposta partiu dos cidadãos ucranianos, que decidiram reforçar a linha de defesa do país com uma estratégia inusitada. Em Dnipro, cidade localizada a 500 quilômetros de Kiev, a população separou garrafas vazias para serem usadas como coquetéis molotov — bombas caseiras produzidas com combustível. Uma rede de televisão local deu instruções de como fazer os artefatos e usá-los contra os soldados russos. A iniciativa foi endossada pelo Ministério da Defesa da Ucrânia.

Sem aperto de mãos

Em meio à escalada militar, diplomatas russos e ucranianos se reuniram na fronteira com Belarus para discutir eventual cessar-fogo. Depois de seis horas de diálogo, porém, não houve acordo entre as partes. “Essas reuniões servem apenas para dar tempo aos dois países”, observou Gunther Rudzit, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de Relações Internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “A Rússia pretende se reestruturar, porque sua estratégia de invasão se mostrou falha. O Kremlin ignorou princípios básicos de uso da força: concentração de poder, de maneira a penetrar no território do oponente e destruí-lo. A Rússia decidiu avançar em três linhas [norte, sul e leste], o que provocou a fragmentação dos soldados. A Ucrânia, por sua vez, quer ganhar tempo para receber os equipamentos militares enviados pela União Europeia.” O segundo encontro também encerrou sem acordo.

Longe das salas com ares-condicionados, o clima permanece quente. Um comboio russo, de 65 quilômetros de extensão, aproxima-se lentamente de Kiev. A coluna é formada por veículos blindados e tanques, o que, em termos práticos, mostra a intenção russa de invadir a capital ucraniana pelas fronteiras terrestres. Segundo a empresa Maxar Technologies, responsável pela captação das imagens via satélite, 30 quilômetros separam os soldados russos da sede do governo ucraniano. Essa estratégia é similar àquela escolhida pelo Kremlin durante a invasão da Chechênia, em 1998. “O Exército da Rússia cercou a capital do país, Grózni, e ordenou que os rebeldes deixassem imediatamente a região”, explicou Rudzit. “A cidade foi bombardeada até virar escombros. Ninguém sabe exatamente quantas pessoas morreram naquele episódio. Então, quando Moscou ordena que a população ucraniana deixe Kiev, é algo sério.”

Comboio russo em direção a Kiev

Apesar do poderio militar do Exército da Rússia, Rudzit argumenta que é improvável a hipótese de o Kremlin controlar o território ucraniano. “A Rússia é um leopardo que matou um porco-espinho e está tentando engoli-lo, mas não conseguirá”, afirmou. “Ao contrário do que Putin imaginava, a população ucraniana não recebeu o Exército da Rússia como um agente libertador. Além disso, Moscou subestimou os países ocidentais e seus empresários, que aplicaram sanções gigantescas.”

As memórias do terror soviético

Noventa anos atrás, quase 4 milhões de ucranianos morreram de fome pelas mãos de Josef Stalin, o líder sanguinário da União Soviética. O Holodomor, como ficou conhecido o genocídio da população local, foi resultado direto do controle da produção agrícola dos camponeses soviéticos. Assim que assumiram o comando do país, os comunistas exigiram dos trabalhadores rurais uma requisição compulsória de grande parte dos cereais produzidos. Na prática, a atividade agrícola passou a ser administrada pela burocracia estatal, e não pelos proprietários de terras cultiváveis. Os campos agrícolas foram confiscados dos produtores e entregues aos carrascos do regime soviético. A escassez de alimentos passou a ser a regra; a morte tornou-se banal.

Quase um século depois, as memórias do terror socialista voltam a assombrar a Ucrânia.

Leia também “Putin desafia o Ocidente”

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10 comentários Ver comentários

  1. Bom resumo, em um conflito que tem dezenas de notícias diárias e que ajuda a quem trabalha e não tempo para ficar garimpando notícias e ouvir “especialistas”.
    Obrigado Edilson, talvez um resumo semanal será necessário.

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