Alexandre de Moraes | Foto: Pedro França/Agência Senado
Alexandre de Moraes | Foto: Pedro França/Agência Senado

3 anos de “fake news”: o STF não é o Judiciário

Na semana em que o inquérito inconstitucional completa seu terceiro aniversário, discurso de desembargador viraliza e expõe profunda divergência entre a Magistratura e o STF

Nesta semana, congratulei o Ministro Alexandre de Moraes pelo aniversário do seu “filho”, celebrado dia 14 de março:

— Ministro, o Brasil acompanha assombrado a sua desenvoltura ao cuidar sozinho dessa criança adoecida, que apesar de todos os problemas de saúde não para de crescer e dar trabalho.

Por isso, doutor, meus parabéns! Parabéns pelo aniversário do seu menino. Eu mal consigo imaginar seu orgulho como pai… O seu orgulho como pai do “inquérito das fake news” — o seu filho, que acaba de completar 3 anos.

Sabemos que o “pai biológico” é o Ministro Dias Toffoli, mas, como ensina a sabedoria popular, pai é quem cria. E foi o senhor que acompanhou tudo desde o comecinho: as primeiras ordens judiciais pra excluir aqueles perfis chatos das redes sociais; a primeira matéria censurada na imprensa — qual era mesmo o título da reportagem que o senhor mandou tirar do ar? Ah, “O amigo do amigo do meu pai”.

Ministro, não se aflija, o senhor foi um pai muito presente. Estava lá desde as primeiras brincadeiras de cala-boca-não-morreu, acompanhou toda a fase de buscas e apreensões — como ele adorava fuçar a vida alheia atrás de alguma coisa, não é?

E a primeira palavra, o senhor se recorda? “Cumpra-se” — quem vai falar que ele não puxou o pai? Lembra daquela vez que ele não conseguia entender de jeito nenhum o que era flagrante permanente?

— O que é isso, papai? Eu nunca vi nada parecido… — uma graça!

Além de presente, o senhor tem sido um pai muito protetor, Ministro, do tipo “pai coruja”: ninguém consegue chegar perto do seu filho, ninguém sabe nada dele, nenhuma informação. Mas o pouco que a gente acompanha aqui de fora é de partir o coração: ele dando os primeiros passos com o senhor segurando a mãozinha trêmula dele é fofo demais — e nós sabemos o que se passa na cabeça de um pai, Ministro; é natural que o senhor também tivesse as suas dúvidas e incertezas sobre o futuro:

— Será que vai dar pra prender um jornalista?

— Será que vai dar pra prender um parlamentar?… Os amiguinhos dele vão aceitar?

Mas mesmo nos momentos mais difíceis o senhor estava lá, impassível ao lado da sua criação, do seu legado, do seu filho. Impossível esquecer a tentativa de tirá-lo do senhor à força; quando aquela moça procuradora exigiu a guarda do seu filho, alegando que ela tinha direito de participar da sua criação, que esse era o devido processo legal — ainda bem que senhor não dá a menor bola pra esse tipo de coisa.

E quer saber? O senhor está certo, doutor! Vai ligar para o que as pessoas pensam?! Ainda mais essa gente maldosa, que acha que pode sair por aí criticando o senhor e as decisões do seu Tribunal — quem eles pensam que são? Donos do país?! Não passam de meros eleitores.

A propósito, Ministro, falando nisso, não sei se o senhor reparou, mas olha que coincidência: faz 1 ano que mais de 2 milhões e 700 mil brasileiros subscreveram aquele abaixo-assinado pedindo pro Congresso Nacional analisar o pedido de impeachment em seu desfavor. Imagina um absurdo desses! Impedir um pai tão zeloso, como o senhor, de continuar cuidando do próprio filho — este país está de ponta-cabeça.

Tenha certeza de que o Brasil inteiro sabe quem é o paizão orgulhoso do inquérito das fake news

Ainda bem que aquele rapaz do Senado, o Pacheco, é seu amigo e engavetou essa história toda. Eu até tentei mandar uma mensagem de agradecimento em seu nome, Ministro, mas algo grave deve ter acontecido, porque as redes sociais do Pacheco estão todas bloqueadas. Acho que é caso de avisá-lo, deve ter um monte de gente que quer elogiar o trabalho do Senador, mas não consegue acesso a ele.

Mas me perdoe a digressão, Ministro Alexandre de Moraes. Sei que o que realmente importa agora é marcar essa data, o 14 de março, em homenagem ao senhor e ao seu rebento. Essa data que, sem querer, passou batida pela grande imprensa — como andam distraídos os jornalistas nesses últimos tempos…

Mais uma vez, parabéns pelo aniversário de 3 anos do seu filho, Ministro! Tenha certeza de que o Brasil inteiro sabe quem é o paizão orgulhoso do inquérito das fake news.

Um voto divergente

Também nesta semana, viralizou nas redes o discurso contundente do desembargador Fernando Carioni ao deixar a presidência do TRE de Santa Catarina. Embora o magistrado tenha — elegantemente — omitido seus destinatários, sua crítica tem endereço certo:

“Precisamos repensar a Justiça Eleitoral. Precisamos definir a sua finalidade, inclusive à vista da diminuição de suas competências legais. Precisamos servir com responsabilidade e em estrita observância à Constituição, a da República e tão somente”.

“Juízes não são eleitos. Quando eles usurpam as funções das autoridades eleitas, estão na verdade fraudando a democracia representativa e o voto popular. Mas os juízes em tribunais ativistas não estão nem aí para o voto da maioria da população. Aliás, eles gostam de ser contramajoritários, outro discurso enganador do ativismo judicial. O tribunal ativista não quer aplicar a lei e sim impor sua visão de mundo, suas convicções ideológicas sobre aborto, drogas, segurança pública, algemas e até sobre urnas eletrônicas. Se a lei não coincide com essas convicções, pior para a Lei”.

A pertinência das observações do desembargador dispensa comentários; a ausência de repercussão desta fala entre os órgãos do consórcio de imprensa também. Mas, ainda que a divulgação da mensagem esteja aquém da sua acuidade e relevância, as colocações do doutor Fernando Carioni expõem profunda — mas ainda velada — divergência entre a Magistratura e a atual composição do Supremo Tribunal Federal, símbolo máximo do ativismo judicial e do atropelo constitucional no país. Que o exemplo corajoso do desembargador, pioneiro em seu protesto, seja seguido por outros meritíssimos, cujas vozes não podem mais calar sob pena de consentir.


Caio Coppolla é comentarista político e apresentador do Boletim do Coppolla,  na TV Jovem Pan News e na Rádio Jovem Pan

Leia também “A tentação lulista de abrasileirar a gasolina”

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37 comentários Ver comentários

  1. Parabéns Caio, que texto! Parabéns Oeste por ter trazido essa mente brilhante que por mais que ameacem e tentem emporcalhar, continua escrevendo o que os brasileiros de bem anseiam.
    Você juntamente com o J.R. Guzzo, Augusto Nunes, Rodrigo Constantino e mais alguns abnegados nos dão esperança de dias melhores.
    obrigado

  2. Alguma coisa tem que ser feita para demitirmos o Alexandre de Morais, para que pague pelos seus desmandos e sirva de exemplo para os demais juízes ativistas desse país. Acho que o grande mal desse país é a sua democracia de fachada, onde juízes e promotores e outros possuem cargos vitalícios, em detrimento dos cargos elegíveis, como são nos EUA. Bem ou mal a melhor democracia do mundo ainda são os EUA!

  3. 22-03-022, 22h05mim. Depois de dois anos sem sair da cidade, ontem fui visitar uma pessoa numa cidade do interior. Cheguei faz uma hora e assisti eu boletim na JP. Se vc não sabe o assunto é muito pior ou muito mais profundo do que se imagina. A mentira corre solta no interior do Brasil e até mesmo a imprensa não se deu conta. Quem espalha essas informações falsas? Essa pessoa (amiga de longa data, professora) odeia o Bolsonaro porque recentemente ele publicou uma lei determinando que os professores que não “deram” aula não poderiam contar como tempo de serviço o período de pandemia e que não tivessem ministrado aulas. Ora, eu não soube desta lei. Quem conhece um pouco a legislação sabe que o Presidente não tem mando na política previdenciária dos municípios e dos estados. Quem sabe na esfera privada e olha lá. Se um professor da escola privada não ministrou aula presencial continuou recebendo salários e descontada sua contribuição previdenciária… Portanto, nada que pudesse prejudicar os professores, pois a simples contribuição e recebimento do salário já é suficiente para contar como tempo de serviço quando do pedido de aposentadoria. Percebi que a informação está na boca da maioria dos professores da localidade… Por outro lado, noutra cidade, outra pessoa disse que o Bolsonaro está fritando trabalhadores, pois mandou cancelar benefício de pessoas que há anos já estavam aposentadas. Faze alguns anos que o INPS está realizado pente fino para descobrir falcatruas em aposentadorias…. Mas, é o Bolsonaro que está cortando o benfício como um ato desumano e que fere direitos fundamentais dos trabalhadores. Uma medide dessas deveria, só para argumentar, ser aprovada pelo Congresso… A medida administrativa para revisar aposentadorias fraudulentos é fundamental para evitar desvio de dinheiro e corrupção. Assim mesmo corre solto de que Bolsonaro está cancelando aposentadorias para melhor os números da previdência… Quem espalha essas notícias. Qual a fonte? Como é que gente inteligente e preparada faz essa narrativa. Deduzi, então, que existe vários tipos de fake news… o que é divulgado pela imprensa e o que gira por aí no meio do povo e não captda pelos radares….

  4. No século XVII já se previa toda essa tramoia do século XXI !

    “É justo que o que é justo seja seguido, é necessário que o que é mais forte seja seguido.
    A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica.
    A justiça sem força é questionada, porque sempre há maus; a força sem a justiça é acusada.
    É preciso unir a justiça e a força para que o que é justo seja forte ou o que é forte seja justo.
    A justiça está sujeita à disputa, a força é realmente reconhecida e sem disputa.
    Assim, não se conseguiu conferir força à justiça, porque a força questionou a justiça e afirmou que era injusta e que ela era justa.
    E assim, não conseguindo fazer com que o justo fosse forte, se fez com que o forte fosse justo”
    Blaise Pascal 1623-1662
    – puxa que puxa, não são meras coincidências não….

  5. Excelente Caio, hoje pior do que o próprio Alexandre de Moraes e os demais ministros transgressores da Constituição Brasileira é o senhor Rodrigo Pacheco, que sozinho na presidência do Senado, consegue bloquear um país inteiro que é a favor das leis e contra o crime organizado. O senhor Rodrigo Pacheco e seu partido o PSD, Partido Social Democrático, se constituem nos inimigos número 1 da democracia brasileira. Espero que nunca ninguém mais vote no PSD e nunca reelegem o sr. Rodrigo Pacheco

  6. LAMENTAVELMENTE O DESEMBARGADOR TEM RAZÃO !!!
    QUEM DEVERIA PROTEGER A CONSTITUIÇÃO A DESPROTEGE E A SUA EM SEU BENEFICIO E PROPOSITOS . QUAIS PROPOSITOS SERÃO ESTES ????
    E PRESIDENTE DO SENADO ESTÁ COM MEDO DE QUEM E DO QUE ????

  7. A revista OESTE e a salvacao da imprensa brasileira, atualmente. Nao a toa, outros orgaos de imprensa perdem leitores a cada dia.

  8. STF e Senado, o que há de pior neste País. Nojo e indignação com o conluio e a manipulação desses biltres, e com a total indiferença deles ao estado de direito.

  9. Caio parabéns, teus comentários são corajosos e gostaria de vê-lo como entrevistador no “direto ao ponto” da JP em necessárias entrevistas com Rodrigo Pacheco e Edson Fachin. Comenta com o Augusto Nunes para que os convide, porque não poderão negar presença já que ambos estiveram no RODA VIVA daquela ancora ativista Vera Magalhães.
    Evidentemente Augusto tem que convidar você, Fiuza e Constantino como entrevistadores.

  10. Assisti na JP o teu boletim. Nota dez! Resumindo: o Moraes cometeu um crime e deve ser punido. Alguém deve estudar a possibilidade de ingressar com uma ação civil pública ou outro remédio processual contra o cidadão Alexandre de Moraes. Além de outros pedidos, um que não pode faltar é pedir uma indenização, pois ele prejudicou vários serviços públicos necessários à população, como aquele da defesa civil. O pessoal desses órgãos atingidos terão que se adaptar com outros aplicativos e isto significa custos ao erário público, ou seja, dinheiro nosso. Sem falar na perda do cargo por abuso de autoridade, prejuízo a serviços públicos essenciais, incompetência jurídica, falsidade ideológica, perseguição política, afronta ao povo que paga seu salário, não cumprir a CF, a Lei Orgânica da Magistratura e outros artigos do Código Penal pois pode ser considerado responsável por dano material e moral a pessoas vulneráveis (mulheres e pessoas que sofrem com enchentes e desabamentos) e, por fim, atingir cláusula pétrias como a liberdade de expressão e também prejudicar o trabalho de jornalistas que nada tem a ver com o Alan dos Santos ou o Bolsonaro.

  11. Caio, excepcional artigo.
    O q se ouve nos corredores dos fóruns é indizível aqui.
    Faça uma pesquisa sobre a origem do tal CNJ, quando, porque e para que foi criado.
    Os juízes estão vendo todas essas ilegalidades, mas ñ podem se manifestar, dá afastamento imediato.

    Se

  12. Perfeito. Some-se aviso os 6 juízes amorais do STF que votaram contra a prisão em segunda instância. O povo deveria fazer como os caminhoneiros canadenses, ir pra Brasília e exigir do Senado o impeachment do AM e dos outros inúteis juízes do STF.

  13. Excelente texto, de fina ironia e bom humor. Porém, carece de um apontamento, ao menos quanto a uma percepção que me parece bem equivocada: não há descompasso entre a magistratura brasileira e os iluministros, salvo o exemplo apontado pelo Caio, e que acaba sendo a exceção que confirma a regra, até porque temos visto muitos exemplos de Juízes e Desembargadores usurpando a competência do gestor local, proibindo isso e permitindo aquilo em matéria de gestão da Pandemia, ao arrepio das verdadeiras atribuições e claros limites constitucionais do Poder Judiciário.

  14. A atual formação do STF deixará sequelas na democracia brasileira. Se esses senhores sem um único voto popular continuarem usurpando poderes do legislativo e do executivo, sem que sejam convenientemente impedidos, poderemos dar adeus à nossa democracia, ou seja, à vontade popular da maioria como prega a verdadeira cartilha democrata. A sanha despótica exibida pela corte como um todo é inacreditável.

  15. Caio, fina ironia é como uma chicotada na cacunda carcomida pelos vícios autoritários de Alexandre de Imorais, um Vice Deus, como diz o ” Apóstolo Arnaldo “, também especialista em ironias. Parabéns pelo brilhante texto, mas Rodrigo Pacheco tem Processos no STF, onde ele advoga em favor da Vale no genocídio de Brumadinho. As emas do Planalto Central sabem que os honorários de Pacheco são na casa dos bilhões. Então, é aquele caso de conluio típico de meliantes contumazes. Não mexa comigo, que não mexo com você. Esses caras merecem o lixo da História. Que ela seja impiedosa como os dois!

  16. Caio, assisti seu comentário na JPan, muito oportuna e de de uma forma bem humorada, que demonstra a insatisfação de milhões de brasileiros, preocupados com o nosso Brasil e com suas Entidades.
    Parabens!!

  17. O Senado Federal tem que evitar mais um mandato para o Pacheco e o povo mineiro cuidar de não esquecer sua performance e procurar não reelegê-lo…

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