Ivan Kuliak, ginasta russo | Foto: Divulgação
Ivan Kuliak, ginasta russo | Foto: Divulgação

Nós avisamos que o esporte não deveria ser politizado

O ginasta que apoia a guerra da Rússia contra a Ucrânia é apenas uma inversão da sinalização da virtude ocidental

Vamos chamar de sinalização do vício. É essencialmente o que o ginasta russo Ivan Kuliak fez em um evento da Copa do Mundo de Ginástica Artística nesta semana, ao declarar apoio à invasão da Ucrânia. O canalha apoiador do Putin subiu ao pódio para receber sua medalha de bronze nas barras paralelas com uma letra “Z” colada na roupa.

Na Rússia, a letra “Z” passou a simbolizar um forte apoio à guerra de Putin. Soldados russos na Ucrânia pintam a letra em seus tanques. Ela foi pichada em pontos de ônibus em Moscou. Motoristas russos colam letras “Z” na janela traseira de seus carros. E lá estava o senhor Kuliak, devidamente identificado com o “Z”, usando seu momento sob os holofotes do esporte para anunciar suas crenças, para comunicar ao mundo o que ele sem dúvida considera um apoio virtuoso à valente repressão da Rússia contra a Ucrânia fascista; mas que para o resto de nós pareceu uma defesa devotada e estúpida de uma guerra de agressão imperialista.

Nós avisamos que o esporte não deveria ser politizado. O gesto idiota e chauvinista do jovem Ivan causou um turbilhão de condenações no Ocidente. A Federação Internacional de Ginástica o encaminhou para a Fundação de Ética na Ginástica “depois de seu comportamento chocante”. O ginasta agora enfrenta uma longa proibição no esporte. Ele “causou um alvoroço” ao portar um “símbolo nacional de guerra”, afirmou o Daily Mail.

Tudo isso é justo — apoiar uma violenta dominação da Ucrânia é algo repulsivo, que merece ser condenado. Mas, ao mesmo tempo, o que nós achamos que ia acontecer quando liberamos a politização do esporte? Quando permitimos que tudo, do futebol americano ao atletismo, fosse invadido por demonstrações incessantes de sinalização política e de virtude? Quando autorizamos gestos de ficar de joelhos, os cadarços de orgulho LGBT e visibilidade trans e outras causas que foram tão incongruentemente ligadas ao esporte nos anos recentes? Não se pode politizar o esporte e depois ficar surpreso quando as pessoas usam os esportes para ser políticas.

Jogadores ingleses de futebol ainda estão se ajoelhando

Há um elemento divertido na peripécia sinalizadora de vício de Kuliak. A medalha de ouro nas barras paralelas nesse evento realizado no Catar ficou com um ginasta da… Ucrânia. Perfeito. Então tínhamos o senhor Kuliak parecendo muito satisfeito com seu gesto pró-guerra, tendo de olhar para cima, para Illia Kovtun, o medalhista de ouro ucraniano. Foi um retrato no esporte do que como muitos de nós esperamos que aconteça com a guerra em si.

Mas claro que existe toda a fúria também. As pessoas pareciam genuinamente inquietas que um esportista usasse o pódio para divulgar uma mensagem que ofenderia tantos espectadores. E a nossa reação deve ser a pergunta: onde você andou nos últimos anos? Os esportes agora estão tomados de adereços e mensagens políticas e, às vezes, até ofendendo a multidão de propósito, para fazê-la sair de seu estupor não politicamente correto. Kuliak é apenas uma inversão de tudo isso, uma imagem espelhada e distorcida da nossa própria sinalização de virtude.

Os esportes deveriam ser um espetáculo de excelência em vez de um campo de batalha por virtude

Os esportes foram realmente maculados por gestos políticos. Jogadores ingleses de futebol ainda estão se ajoelhando, quase dois anos depois que George Floyd foi assassinado, a cerca de 6.500 quilômetros de distância. Colin Kaepernick se tornou um santo da cena descolada, amplamente valorizado por sua incapacidade de jogar uma partida sem se ajoelhar ostensivamente antes.

Grandes organizações do esporte agora abraçam ativamente os gestos dos esportistas. Antes das Olimpíadas de Tóquio do ano passado, o Comitê Olímpico Internacional informou que permitiria que os participantes “fizessem gestos políticos” antes de seu evento (mas não durante o evento ou no pódio). Quanto a Ivan Kuliak enfurecendo as pessoas, o que ele sem dúvida fez, isso também pareceu ser o objetivo de alguns gestos mais simpáticos a que astros ocidentais dos esportes se renderam. Quando torcedores ingleses vaiaram os jogadores por ficarem de joelhos durante a Eurocopa de 2020, Gary Lineker afirmou que a vaia era “parte da razão por que os jogadores estavam de joelhos”. Em resumo, vamos dar corda.

O esporte foi colonizado por guerras culturais

Não, isso não significa comparar o apoio ao movimento Black Lives Matter com o apoio ao massacre russo do povo ucraniano. Mesmo aqueles dentre nós que não são fãs do Black Lives Matter não cairiam numa falsa equivalência tão absurda. Mas parece inegável que, quando você libera esse tipo de ação nos esportes, incluindo gestos de apoio a organizações controversas, você coloca em movimento uma cadeia de eventos sobre a qual vai acabar perdendo o controle. “Ah, não estávamos falando desse tipo de gestos.”

Tarde demais. Você já estabeleceu que esportistas são portadores legítimos de crenças políticas, mesmo que essas crenças irritem os espectadores. Vamos pegar o exemplo do Black Lives Matter. Não, apoiar o BLM não se compara a apoiar a guerra de Putin. Mas o Black Lives Matter é um grupo controverso, que promove ideias malucas sobre o fim da família nuclear. Sob suas bandeiras, uma enorme quantidade de destruição ocorreu e vidas até foram perdidas nos Estados Unidos em 2020. Se figuras como Ivan Kuliak veem esportistas apoiando causas polêmicas e pensam “vou fazer isso também”, podemos culpá-los?

O esporte foi colonizado por guerras culturais. Se ele agora passou a ser tão infundido por opiniões sobre guerras de fato, então a cena woke precisa fazer uma séria reflexão. Talvez ela finalmente escute aqueles dentre nós que disseram que os esportes deveriam ser um espetáculo de excelência — até mesmo a excelência de ginastas russos com princípios questionáveis — em vez de um campo de batalha por virtude, significado e como corrigir as atitudes das massas problemáticas. Expulsem toda a política dos esportes.


Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do The Brendan O’Neill Show, podcast da Spiked. Você pode se inscrever aqui. Ele está no Instagram: @burntoakboy

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