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Os políticos vão admitir o erro do ‘lockdown’?

Os gestores públicos e seus consultores precisam pedir desculpas e declarar mea culpa, mea maxima culpa

Vamos ver se você consegue dar sentido à seguinte transcrição de um trecho de uma entrevista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump:

Trump: Então, eu estava ouvindo milhões de pessoas, e teriam sido milhões de pessoas se nós não tivéssemos fechado. Agora, eu fecharia de novo? Não, porque agora nós entendemos a coisa muito melhor. Nós não sabíamos nada sobre isso, era algo novo, era novidade.

Pergunta: O senhor quer dizer que, em retrospecto, fechar a…

Trump: Eu teria feito exatamente o que fiz. E fiz isso cedo. Em retrospecto, nunca ninguém imaginou que seria tão severo quanto foi. Tomei sozinho aquela decisão pelo lockdown e depois ficou claro que foi uma excelente decisão. Centenas de milhares de vidas foram salvas.

Qual Trump é o real? Entendo que os políticos sejam resistentes a admitir erros, quanto mais expressar arrependimento. Não é só Trump. Ouvi alguma versão dessa história de especialistas de todos os níveis que tanta pressão fizeram pelo lockdown, mas agora dizem que foi um erro — mas um erro que de alguma forma precisava ser cometido porque “o que mais se pode fazer?”.

Uma coisa que se pode fazer: na ausência de informação, pode-se manter o padrão de preservar a dignidade humana, a liberdade e o estado de direito, e então ir atrás de informação. Em vez disso, fez-se a opção de paralisar a sociedade por causa de incertezas.

A liberdade e os princípios básicos são luxos que nos concedemos e nos permitimos apenas em condições ideais? Nossos direitos existem apenas por concessão do Estado, de modo que podem ser retirados sob qualquer pretexto?

Nas pandemias anteriores, os políticos ficaram de fora e os governos deixaram a economia quieta

Agora, você pode dizer que um novo vírus na ausência de testes é uma rara exceção. O problema é que isso não está correto. Um século de história dos Estados Unidos está repleto de novos vírus, e os testes nem sempre estiveram disponíveis, quanto mais foram universais. Além disso, o registro real aqui demonstra que um pequeno grupo de especialistas de alto nível estava esperando há catorze anos para utilizar seus experimentos em um novo paradigma para lidar com doenças. Nas pandemias anteriores, os políticos ficaram de fora e os governos deixaram a economia quieta. Nós confiamos nos indivíduos e nos médicos especializados para lidar com o problema, e funcionou. Só que, desta vez, fomos na direção oposta, e é provável que leve anos até que se admita universalmente que foi um erro catastrófico.

Há também um elemento psicológico aqui, alimentado pela pressão da mídia. Logo no começo, um amigo meu comparou os defensores do lockdown apavorados aos novos moradores de cidades litorâneas durante a temporada dos furacões. A mídia, sempre e em toda parte, declara que todo furacão é a mãe de todas as tempestades. Eles gritam e esperneiam para que todos fujam e se escondam, que vão para algum lugar, qualquer lugar, menos ali. Então a tempestade muda de direção, o que gera outra desculpa para uma atualização nas notícias, dizendo a mais pessoas para entrar em pânico e sair correndo.

É poderosa a tentação de oferecer racionalizações a posteriori para comportamentos irracionais

Ninguém sabe ao certo como vai ser a tempestade nem onde ela vai acontecer. Em geral, leva uns dois anos até que os novos moradores se deem conta disso, deem um desconto para o que a mídia está vociferando, tomem cuidado, mas lembrem que a avaliação de riscos é difícil. Principalmente, é provável que não haja um bom motivo para passar dias colocando tábuas nas janelas de casa e então correr para as montanhas — considerando que o furação pode chegar às montanhas também. Em outras palavras, leva algum tempo para alguém se tornar racional sobre essas coisas, mas todo mundo que mora no litoral acaba chegando lá.

E quanto àqueles que passam semanas protegendo a casa, gastam milhares de dólares em comida e congeladores, e depois passam dias no carro com a família a reboque fugindo de algo que nunca se materializa nem se torna nada além de um pouco de vento e chuva? Então, a resposta certa é que tudo isso foi um erro. Claramente. Mas essa não costuma ser a reposta que você recebe.

Em vez disso, a pessoa em pânico em geral diz: “Fiz o que tinha que fazer dadas as informações a meu dispor. Então, sim, se tivesse que fazer de novo, faria tudo exatamente igual”. Isso, claro, é totalmente irracional, uma vez que não há nenhuma condição climática extrema, e isso é um fato sabido. Mesmo assim, é poderosa a tentação de oferecer racionalizações a posteriori para comportamentos irracionais.

Esse problema agora aflige milhares de políticos nos Estados Unidos. Muitos dos rituais absurdos que estamos vivendo — essas restrições de distanciamento, a obrigatoriedade da máscara, os limites de ocupação e assim por diante — não são nada além de protocolos impostos para dar a impressão de que há um mundo muito perigoso e infectado por um vírus lá fora, então o lockdown estava correto, mesmo que no fim das contas o vírus não seja quase nada para 99% da população.

Seria como um prefeito que, de modo irracional, ordenou uma evacuação por causa de um centímetro e pouco de chuva, para depois mandar os residentes que voltaram usar galochas e óculos de proteção por um mês. É uma forma de espalhar e compartilhar o medo para desviar dos erros terríveis do próprio prefeito. É uma justificativa a posteriori por coagir as pessoas sem motivo, mas tentar evitar a culpa (“Nós não sabíamos nada sobre a tempestade, então fizemos a coisa certa”).

Leia mais sobre a ação de prefeitos brasileiros no artigo de J. R. Guzzo

Assim, vamos continuar essa dança por mais alguns meses apenas para que os políticos e os apavorados entre nós possam manter as aparências e evitar admitir o erro.

Nos Estados Unidos, 65 mil vidas perdidas para cada mês por causa da paralisação da economia

E, mesmo assim, chovem evidências diárias sobre a calamidade. Os cálculos mais recentes das perdas revelam um estrago muito além das mortes por covid-19. Os autores Scott W. Atlas (Instituto Hoover), John R. Birge (Universidade de Chicago), Ralph L. Keeney (Universidade Duke e Universidade do Sul da Califórnia) e Alexander Lipton (Universidade Hebraica) escrevem:

O século passado foi testemunha de três pandemias com pelo menos 100 mil mortes nos Estados Unidos: a “gripe espanhola” (1918-1919), com algo entre 20 milhões e 50 milhões de vítimas no mundo todo, incluindo 675 mil nos Estados Unidos; a gripe asiática (1957-1958), com cerca de 1,1 milhão de mortes no mundo inteiro, 116 mil delas nos EUA; e a gripe de Hong Kong (1968-1972), com aproximadamente 1 milhão de pessoas mortas no mundo, incluindo 100 mil nos EUA.

Até agora, a atual pandemia resultou em quase 100 mil mortes nos Estados Unidos, mas a reação de um fechamento econômico quase completo não tem precedentes. A produção econômica perdida no país está estimada em 5% do PIB, ou US$ 1,1 trilhão para cada mês de fechamento econômico. Essa renda perdida resulta em vidas perdidas, uma vez que o estresse do desemprego e de prover as necessidades básicas aumenta a incidência de suicídio, abuso de álcool ou drogas e doenças causadas pelo estresse. Esses efeitos são especialmente severos para a população de baixa renda, uma vez que ela enfrenta maior risco de perder o emprego e os índices de mortalidade são muito mais altos para indivíduos de baixa renda.

Estatisticamente, cada US$ 10 milhões até US$ 24 milhões perdidos na renda norte-americana resultam em uma morte adicional. Uma parte desse efeito acontece pela via do desemprego, que leva a um aumento na média de mortalidade de pelo menos 60%. Isso se traduz em 7.200 vidas perdidas por mês entre os 36 milhões de recém-desempregados, mais de 40% dos quais sem expectativa de recuperar o emprego. Acrescente-se a isso que muitas pequenas empresas estão perto do colapso financeiro, gerando perda de riqueza, o que resulta em aumentos de 50% na mortalidade. Com a média estimada de uma morte adicional por perda de renda de US$ 17 milhões, isso significaria 65 mil vidas perdidas nos Estados Unidos para cada mês por causa do shutdown econômico.

Além das mortes causadas pela renda perdida, vidas também se perdem em razão da demora ou privação de assistência de saúde impostas pelo fechamento e pelo medo que isso gera entre os pacientes. Com base em comunicações pessoais com colegas da neurocirurgia, cerca de metade dos pacientes não apareceu para cuidar de doenças que, deixadas sem tratamento, têm risco de hemorragia cerebral, paralisia ou morte.

A seguir, alguns exemplos de atendimento médico em que baseamos nossos cálculos: avaliações de emergência de derrame diminuíram 40%. Dos 650 mil pacientes de câncer fazendo quimioterapia nos Estados Unidos, estima-se que metade não esteja continuando o tratamento. Dos 150 mil novos casos de câncer tipicamente descobertos todo mês nos EUA, a maioria — assim como em outras partes do mundo — não está sendo diagnosticada, e de dois terços a três quartos dos exames de câncer de rotina não estão acontecendo por causa de políticas de shutdown e medo entre a população. Quase 85% menos transplantes com doador vivo estão acontecendo agora, comparados ao mesmo período no ano passado. Além disso, mais de metade das vacinações infantis não está sendo realizada, o que cria o cenário potencial de um enorme desastre de saúde futuro.

Conclui-se que o lockdown foi um erro. Está na hora de admitir isso. É necessário haver atos de contrição por parte da classe política e dos consultores que a aconselharam. Essas pessoas precisam declarar em alto e bom som que pedem desculpas sinceras por seus erros, mea culpa, mea maxima culpa.

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Jeffrey Tucker é economista norte-americano, defensor da Escola Austríaca e do libertarianismo, associado do Action Institute e autor do livro Coletivismo de Direita (2017), publicado no Brasil pela LVM Editora.

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