Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
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Combatendo o crime com Vivaldi

A arte conhecida há 35 mil anos está sendo usada para curar doenças e espantar criminosos

Você já imaginou um mundo sem música? 

Não precisa imaginar. Basta pegar um avião para o Irã. Ou uma carroça para o Afeganistão. Nesses países, é proibida qualquer forma de música que traga alguma alegria ao cidadão comum. Ouvir uma balada pop é uma atividade que precisa ser praticada clandestinamente, com fones de ouvido, trancado num quarto com as janelas fechadas.

Essa me parece ser uma boa descrição do inferno. Não sei quanto a você, mas eu preciso da música como preciso de ar. Todos os dias, aos montes. Uma das maiores questões existenciais da minha vida é: haverá música após a morte? Terei algum acesso aos sons, ritmos, harmonias, vozes e instrumentos que me mantêm vivo neste mundo?

Tenho idade para ter vivido cada fase da reprodutibilidade musical. Meu pai ouvia a orquestra de Xavier Cugat em velhos “bolachões” 78 RPM. Quando comecei a comprar meus discos, eles eram LPs de vinil, com som estéreo. Depois pude selecionar o que ouvia gravando a música numa fita cassete. Veio então o maravilhoso disquinho brilhante conhecido como CD.

Hoje o CD também está no museu. E com o preço que eu pagava por um único disquinho brilhante hoje tenho todos os discos do mundo através desse milagre chamado streaming. Se quiser ouvir o que eu gosto, está lá, ao alcance de alguns cliques no mouse. Se tiver vontade de ouvir a parada de sucessos da Malásia ou a da Jamaica, estão lá também.

Numa fita cassete, eu colocava minhas músicas favoritas em duas metades de 30 minutos cada uma. Agora, monto playlists de tamanho infinito. Pobres iranianos. Pobres afegãos. Algumas dessas playlists são muito grandes. A de funk (o verdadeiro!) já soma 1.048 músicas, o que representa mais de 24 horas ininterruptas de balanço black nos alto-falantes. Com a bênção de James Brown.

Cura pela música

Playlists me levam a estados diferentes de espírito. O reggae me acalma. Uma bossa nova me coloca à beira de uma piscina ensolarada mesmo que seja julho e faça 5 graus abaixo de zero. O jazz estimula meu cérebro a trabalhar. O funk me faz sair dançando na rua, me lixando para o mundo fora dos meus fones. Uma sonata de Haydn me faz pensar na vida. Músicas que faziam sucesso na minha adolescência me levam à mais confortável cama do mais tranquilo quarto dentro da minha zona de conforto. 

A música estabelece um contato direto com o fundo de nossas almas. É um atalho para as emoções mais profundas. Como consegue fazer isso, permanece um mistério. Mas a ciência está aproveitando essa característica para usar a música como um método de cura.

Quando pacientes com Alzheimer ouviam uma música marcante em suas vidas, uma rede neurológica conectava diferentes regiões cerebrais que a doença havia desligado

Um estudo de pesquisadores da Universidade de Toronto divulgado pela CNN Internacional descobriu que a música tem um efeito notável sobre o córtex pré-frontal. Este é o centro de controle do cérebro, onde tomamos decisões, moderamos o comportamento social, expressamos nossa personalidade e onde ocorre o planejamento de complexos comportamentos mentais. Em outras palavras, a música tem o poder de atingir o comando central das mentes e mudar sua direção.

A descoberta levou a uma pesquisa com pacientes com Alzheimer. Quando eles ouviam uma música marcante em suas vidas, uma rede neurológica conectava diferentes regiões cerebrais que a doença havia desligado. “Música é uma chave de acesso à sua memória”, disse Michael Thaut, coordenador do projeto e especialista em Ciência da Reabilitação. Ele recomenda: “Continue ouvindo a música que você amou sua vida inteira. Suas canções favoritas de todos os tempos, essas que são especialmente significativas para você — faça disso sua academia de ginástica para seu cérebro.” 

Música contra o crime

A música tem também o poder de influenciar no comportamento social. Em 2003, a polícia de Londres já não sabia o que fazer para diminuir os roubos e a violência que tomaram conta da estação de metrô de Elm Park. Os policiais decidiram começar a tocar música clássica na estação. Em 18 meses, o número de roubos caiu 33%; o de ataques aos funcionários, 25%; e os casos de vandalismo, 37%.

O exemplo de Elm Park se espalhou por 40 outras estações do metrô londrino. Uma pesquisa com 700 usuários, segundo o jornal britânico Independent, concluiu que eles se sentiam em sua grande maioria “felizes, menos estressados e relaxados”. Por outro lado, ouvir a música de Vivaldi ou Mozart fazia com que jovens delinquentes acostumados a raps de exaltação ao crime ou ao peso do death metal se sentissem incomodados e se afastassem.

As cadeias de lanchonetes Burger King e 7-Eleven passaram a usar a mesma estratégia em regiões mais tensas de cidades norte-americanas, como Dallas, Seattle e Portland. Os responsáveis pela campanha simplificam a questão. Dizem que os eventuais encrenqueiros apenas acham a música chata e se afastam. 

(Neurologistas explicam essa reação de uma forma mais complexa: a música de que gostamos produz dopamina, um neurotransmissor que nos traz bem-estar e prazer. Músicas de que não gostamos cortam a produção de dopamina. Simples assim.)

A música de qualidade também traz uma conexão com a dignidade humana onde ela já não existe mais. Os violinistas que aliviavam o horror dos campos de concentração nazista com sua música se tornaram lendários pelo heroísmo. Hoje, a violinista ucraniana Vera Lytovchenko faz um papel semelhante. A cada bombardeio russo, ela descia ao abrigo de seu prédio em Kharkiv e tocava no meio dos escombros as obras de autores como Vivaldi e Tchaikovsky  para seus vizinhos. “Minha música pode mostrar que ainda somos humanos”, disse ela, para o New York Times

A playlist da alegria

A música, claro, também serve como um apego à dor. São tantos os boleros passionais, tantas as canções que nos fazem tremer o beiço e derramar lágrimas. Músicas que lembram alguém que te deu um fora, que nos ligam a quem já morreu. De vez em quando, precisamos disso, e essa tristeza pode ter um efeito catártico muito positivo. O problema é quando a gente entra na sala da sofrência e não consegue mais sair dela.

O neurocientista cognitivo Jacob Jolij, da Universidade de Groningen (Holanda), teve uma ideia simples e efetiva para criar uma espécie de pronto-socorro para o baixo-astral. Jolij descobriu que uma marca de produtos eletrônicos estava fazendo uma pesquisa para saber quais eram as músicas mais alegres para cada um. A pesquisa levantou as 110 músicas “mais alegres” entre os pesquisados.

O doutor Jolij então criou uma playlist no Spotify reunindo essas 110 músicas. Quem estiver precisando dar uma levantada no humor, teoricamente encontra nessa lista um clima que agrada a milhares de pessoas, e que portanto pode dar uma força a você.

Essa lista acaba mostrando como somos diferentes uns dos outros. A pesquisa foi realizada num universo limitado ao Reino Unido e Irlanda. O que muitos deles consideram “música alegre” me dá vontade de desligar o som e ficar em silêncio. Cada um é cada um.

Ao mesmo tempo, algumas escolhas são universais. Alguns compositores e produtores parecem dominar a tecnologia musical para nos provocar um sorriso imediato, desarmado, logo nos primeiros acordes. Duas das músicas na playlist da felicidade do doutor Jacob Jolij ainda por cima estão ligadas para sempre ao berço quentinho da nostalgia de séries que conquistaram gerações diferentes:

O passado, refeito

Não vivemos um período musicalmente dos melhores, especialmente no Brasil. O que estão nos empurrando como a melhor coisa do mundo é uma “canttora” que confunde música com vídeo pornô. Assim, fica difícil partir para novas descobertas. Tudo bem. Novas tecnologias estão permitindo que a gente ouça o que sempre gostou como se fosse completamente novo. 

Novos sistemas de som superaram o velho estéreo, uma tecnologia criada na década de 1930, limitada a dois canais. O Dolby Atmos, por exemplo, cria um cenário sonoro real, com três dimensões. Se você nunca experimentou, coloque seus fones de ouvido e ouça isso:

A tecnologia deu um passo além. O site Moises divide os instrumentos e vozes de qualquer música. Pegue aquela velha canção, tire o vocal e curta só seus instrumentos. Ou tire seus instrumentos e ouça apenas a voz. Combine apenas piano com voz, ou só a “cozinha” (baixo e bateria). E a mesma velha música vai parecer nova a cada combinação. John Lennon fica tão presente isolado dos instrumentos que parece nos dizer que não morreu, está apenas dormindo.


O melhor de tudo

“Música é um instrumento mais potente que qualquer outro para a educação”, dizia Platão em 300 a.C. Dá alma ao universo, asas para a mente, voo para a imaginação. “Informação não é conhecimento”, escreveu Frank Zappa, um dos maiores compositores do século 20. “Conhecimento não é sabedoria. Sabedoria não é verdade. Verdade não é beleza. Beleza não é amor. Amor não é música. Música é o melhor.”

É difícil calcular quanta esperança cabe nesses seis minutos de orgia sonora produzida na Faculdade Berklee de Música. Com tanta porcaria musical no mundo, esses 35 jovens estudantes de 18 países se dedicam a preservar e aperfeiçoar uma arte que existe há pelo menos 35 mil anos. São produtores de dopamina, conexões neurais, saúde mental e beleza em estado puro.

Leia também “O voo da liberdade” 

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16 comentários Ver comentários

      1. Obrigado Maria Emília! A vida sem música deve ser muito triste…
        @dagomirmarquezi

  1. Mais uma vez , Parabéns Dagomir !!
    Excelente artigo e espetacular lembrança do poeminha fantástico do Zappa, Music is the Best ! Podia ter posto um link para o mais fabuloso solo de guitarra que vem logo após a menina declamando o poema!

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