Xangai entra no segundo mês de bloqueio e levanta preocupações com a política de covid zero do governo. Imagem do dia 10 de maio de 2022 | Foto: Graeme Kennedy/Shutterstock
Xangai entra no segundo mês de bloqueio e levanta preocupações com a política de covid zero do governo. Imagem do dia 10 de maio de 2022 | Foto: Graeme Kennedy/Shutterstock

A insanidade da ‘covid zero’ na China

Enquanto o mundo caminha para o fim da pandemia, o Partido Comunista retoma lockdowns, amplia a vigilância estatal e reprime quem se opõe às ‘autoridades sanitárias’

Por dois anos, a maior parte do mundo se fechou com a covid-19. Bares e restaurantes proibidos de receber clientes, transporte público sem funcionar e pessoas isoladas em casa. Agora o mundo está se abrindo. Menos a China.

O país asiático está em confinamento quase completo para tentar conter surtos de covid-19 em algumas cidades. É uma política que o Partido Comunista chinês (PCC) chamou de “tolerância zero” ao anunciá-la no fim de março. Em Pequim, desde a semana passada, o governo fechou academias de ginástica e locais de entretenimento, proibiu bares e restaurantes de operar com serviços presenciais. Interrompeu também dezenas de rotas de ônibus e quase 15% do extenso sistema de metrô da capital, além de determinar o regime de home office. A população teme o pior: um lockdown, como ocorreu nos primeiros meses da pandemia.

Essas e outras medidas irracionais, que não deram certo em outros países, se espalham pela China. O retrato da insanidade da política de covid zero, contudo, se concretizou em Xangai, maior cidade do país. O PCC confinou os 25 milhões de habitantes da metrópole em um lockdown que já dura mais de um mês. O relaxamento das restrições ainda é uma distante miragem.

A ordem dada por Xi Jinping, o todo-poderoso secretário-geral do PCC, foi clara: fiquem em casa. O ditador busca um terceiro mandato — inédito — até o fim deste ano e enfrenta disputas internas na legenda. Um congresso do Partido (o único) vai definir o novo dirigente do país, e Xi pretende exibir programas que são vitrines de seu governo. Além de demonstrar autoridade e continuar controlando 1,4 bilhão de habitantes.

Polícia em Xangai com roupas de proteção contra a covid-19, em 10 de maio de 2022 | Foto: Graeme Kennedy/Shutterstock


Black Mirror
chinês

Desde o início do lockdown em Xangai, a população está proibida até de ir à calçada da própria casa, exceto nos horários definidos pelas “autoridades sanitárias” para a testagem da covid-19. A comida e outros mantimentos estão sendo entregues pelo governo, de modo racionado. A logística é tão ruim que muitos moradores têm relatado na rede social Weibo (versão chinesa do Twitter) que estão passando fome. Os vídeos acabam chegando ao Ocidente. 

A situação é difícil até para entregadores a serviço do regime comunista. Muitos que saíram para fazer serviços de delivery nos poucos dias que Xangai relaxou o lockdown ficaram proibidos de voltar para casa, para evitar contaminar os parentes, e acabam vivendo nas ruas, segundo reportagem do Wall Street Journal. Um motoboy disse ao WSJ que estava morando debaixo de uma ponte com mais de 30 pessoas, a maioria das quais também era motorista de entrega.

A política de covid zero expõe o desespero de Xi Jinping e de parte da elite chinesa que o apoia para permanecerem no poder

Numa situação que lembra a série Black Mirror, o PCC colocou robôs em formato de cachorro com um megafone amarrado às costas para patrulhar as ruas. Os “animais” medem entre 28 e 35 centímetros de altura e são capazes de “latir” ordens para os cidadãos: “Fiquem dentro de casa, lavem as mãos, verifiquem sua temperatura”. À noite, período em que as autoridades locais ordenaram a realização de testes de covid-19 nas pessoas, o cão-robô marcha pelos corredores de apartamentos ou em frente a casas da cidade, despertando os moradores e os convocando para a testagem.

Wang Yushuo, um jovem funcionário da empresa chinesa de drones DJI, controla um desses cães-robôs remotamente. Ele explica que os cachorros fazem três ou quatro patrulhas por dia, dependendo da duração da bateria. “São muito eficientes”, explicou, em entrevista ao Financial Times. “O vírus está por toda parte lá fora. Estamos tentando evitar qualquer contato próximo.”

Os cães auxiliam tropas policiais com roupas que lembram trajes de astronautas. Os agentes fazem patrulhas nas ruas de Xangai para fiscalizar se as pessoas estão cumprindo o isolamento, além de reprimir qualquer rebelião. Caso haja denúncia de alguém contaminado nas residências ou o governo informe quem está contaminado após o teste, os agentes têm autorização para entrar na casa das pessoas e levá-las à força para um “centro de detenção”.

Em um vídeo que circula na internet, é possível ver um policial arrombando um apartamento depois das moradoras se recusarem a sair. Uma delas gravou o episódio. Quando as mulheres ameaçam chamar a polícia, escutam: “Nós somos a polícia”. Em seguida, a ordem: “Você testou positivo para a covid-19. Estamos aqui para transferi-las”. Nas imagens, as mulheres afirmam que os resultados dos testes para o coronavírus que fizeram ainda não estavam disponíveis. Mesmo assim, as duas foram levadas ao centro de detenção de Xangai.

Centros de quarentena

No início da pandemia, o PCC iniciou a construção de “centros de quarentena” em várias regiões do país para abrigar viajantes vindos do exterior. O mais notório deles fica na cidade de Guangzhou, a mais de 2 mil quilômetros ao sul de Pequim. Com a política de covid zero, além dos centros tradicionais, o PCC começou a transformar áreas residenciais em locais de isolamento para abrigar quem testa positivo para a covid-19 ou esteve perto de infectados.

Em Xangai, vídeos publicados nas redes sociais mostram pessoas sendo forçadas a entrar nesses centros que abrigam inclusive crianças e idosos. À revista Time, uma moradora de Xangai chamada Jenny Tao relatou que a filha de 10 anos ficou sozinha em um hospital por cinco dias. “Não havia ninguém cuidando dela”, disse. “Todas as crianças da enfermaria tinham de cuidar de si mesmas. A situação enfermaria era caótica.”

Médicos, advogados e terapeutas fizeram um manifesto na internet condenando a separação de pais e filhos, e diplomatas de mais de 30 países enviaram mensagens ao governo chinês para protestar contra a medida. Uma petição on-line sobre o assunto foi censurada. Em resposta, as autoridades chinesas anunciaram em 6 de abril que algumas das crianças com teste positivo para covid-19 não seriam mais separadas dos pais. Outro vídeo exibe idosos sentados nos corredores de um centro. A cena lembra os corredores de alguns hospitais públicos brasileiros.

@skynews A school in the #Baoshan district of #Shanghai as been turned into a #covid19 isolation centre, according to posts on social media site Weibo #china #chinatok #lockdown #weibo ♬ original sound – Sky News

O cientista político Paulo Kramer, pesquisador da Fundação da Liberdade Econômica, observa que outras barbaridades podem estar ocorrendo em outras cidades chinesas. O especialista lembra da situação de vida deplorável dos uigures, minoria muçulmana que vive em Xinjiang, no noroeste da China, antes da pandemia. “Temos notícias de que mais de 1 milhão de uigures foram encarcerados nesses campos, mas nem tudo chega até nós”, observou. “Um regime iliberal é um regime carcerário.”

Matança de cães e gatos

Apesar de os estudos sobre a transmissão do coronavírus de animais para humanos ainda estarem em andamento, vídeos feitos por habitantes de Xangai mostram servidores públicos matando e recolhendo corpos de cães e gatos nas ruas da cidade. A ação parece ter o objetivo de impedir que os animais passem o vírus adiante.

Um vídeo que causou especial indignação mostra um cão da raça corgi sendo morto por um funcionário que atua na prevenção da covid-19: ele o persegue pelo distrito de Pudong e depois o mata com golpes de pá. Conforme a revista estatal China News Weekly, o dono do animal explicou num grupo on-line que teve de entrar em quarentena e decidiu deixar o cachorro solto nas ruas para que buscasse comida e “não morresse de fome”. Ele não havia conseguido ninguém para cuidar do cão durante sua ausência e não tinha ração canina em casa. “Nunca pensei que, após nos separarmos, ele apanharia até a morte”, lamentou.

Xangai, em 10 de maio de 2022 | Foto: Graeme Kennedy/Shutterstock


Política do desespero

A estratégia de tolerância zero com a covid-19 gerou críticas até mesmo de Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), notório aliado da China. Nesta semana, Adhanom classificou as restrições de “insustentáveis”, nos campos político e econômico. A insistência nessa política deve surtir efeitos drásticos na economia chinesa: economistas ouvidos pela agência de notícias Bloomberg estimam que a economia da China vai crescer 5% neste ano, abaixo da meta de 5,5%.

Rafael Fontana, jornalista e autor do livro Chinobyl: Uma Jornada pelas Entranhas da Ditadura Comunista, explica que a política de covid zero expõe o desespero de Xi Jinping e de parte da elite chinesa que o apoia para permanecerem no poder. Segundo o jornalista, há disputas entre a elite econômica e política do país. 

“Xi Jinping e seu grupo precisam garantir o cargo de secretário-geral do Partido, o mais importante, para que não sejam punidos por seus atos durante o governo, caso deixem o poder”, afirmou Fontana, ao mencionar possível prisão perpétua e pena de morte. “Essa política enfraquece Xi. Mesmo que ele seja reconduzido ao cargo, a partir de 2023 vamos ver mais claramente a luta entre essa elite. Até o fim desta década, teremos uma mudança drástica no regime chinês, o que seria muito bom para o mundo.”

Leia também “Agora eles querem cancelar Yuri Gagarin”

-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

16 comentários Ver comentários

  1. Ótimo texto. Parabéns. Mais uma vez: por isso Bolsonaro tem que ser reeleito no primeiro turno em outubro deste ano. O Aborto do Súcubo e seus devotos que morram e apodreçam no inferno. O que acontece com China é o que eles querem implementar no Brasil.

  2. Obrigada pelo excelente artigo, Cristyan! Não encontramos nada similar na mídia tradicional.
    Obviamente algo muito estranho ocorre por lá: quando o número de contágios explodiu no mundo, eles apresentavam números baixos tanto em contágio quanto em óbitos. Agora q o vírus exportado por eles se encontra em remissão, eles escancaram o caos em q se encontram. A China sempre foi e será misteriosa.

  3. Parabéns pela matéria Cristyan Costa, por compartilhar conosco notícias que não teríamos acesso sem os excelentes jornalistas da Oeste.A China continua um país obscuro e cruel, conheço bem a história desde Mão Tse Tung.Tive acesso a toda literatura disponível no Brasil.A tirania é marcante para o povo chinês e para quem os observa de fora.Nao conseguiram conviver com a pandemia que exportaram, não aprenderam nada sobre o vírus e tiranizam seu povo em pleno século vinte e um.A tecnologia é desprovida de sentido quando a liberdade é negada.Comunismo caótico e bizarro.

  4. Jamais se esqueçam: esta é a forma de combate à pandemia dos sonhos da Folha, Uol, Globo, Estadão, Veja, CNN, STF, Pacheco, Dória, Moro, Eduardo Leite e lulistas.

  5. E é bom lembrar que este é o modelo defendido pelo candidato de esquerda que, apoiado pelo STF, bancos, sindicatos e grande mídia, tem 187% das intenções de voto em outubro.

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 23,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.