Imagem de Londres, capital da Inglaterra <i>(à esq.)</i> e Malmö, na Suécia, no primeiro semestre de 2020 | Foto: Marton Kerek/Alexander Stock/Shutterstock
Imagem de Londres, capital da Inglaterra (à esq.) e Malmö, na Suécia, no primeiro semestre de 2020 | Foto: Marton Kerek/Alexander Stock/Shutterstock

O lockdown foi em vão?

Sem lockdown, a Suécia teve menos mortes do que a “racional” Alemanha, com seu excesso de fechamentos

De acordo com a sabedoria convencional sobre a pandemia da covid-19, os países que impuseram as restrições mais severas para a população salvaram mais vidas. Os governos foram celebrados por determinar o confinamento com rigor e rapidez. Ou foram condenados por hesitar ou não optar pelo lockdown. Mas as últimas estimativas de mortes durante a pandemia produzidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) implodem essa narrativa simplista.

Vejamos a Suécia. Em vez de seguir o restante da Europa e determinar o lockdown na primavera de 2020, ela impôs restrições muito mais brandas. Numa época em que a maior parte dos europeus estava proibida de sair de casa sem uma desculpa razoável, os suecos estavam livres para ir a bares, restaurantes, cafés e lojas. As escolas continuaram abertas para todos os estudantes com menos de 16 anos. Grandes aglomerações foram proibidas, mas o governo sueco basicamente se pautou pela confiança de que a população seguiria as orientações, em vez de decretar o isolamento social à força.

A reação global à Suécia foi implacavelmente negativa. O New York Times a chamou repetidas vezes de “Estado pária”, cuja política sem lockdown a transformou em uma lição para o mundo. O Guardian, no Reino Unido, no passado admirador da social-democracia sueca, denunciou a nação como um “modelo” para direitistas, chamando sua política em relação à covid-19 de “um desvario mortal”.

A Suécia, todos pareciam concordar, estava fazendo um “experimento” perigoso em “ciência sueca” que fracassou “por completo”. Os suecos optaram por “viver em liberdade e morrer”, proclamaram os defensores do lockdown.

Mas as estimativas de vítimas criam um cenário radicalmente diferente. Mesmo com uma política de não lockdown, a Suécia teve um dos índices de mortalidade mais baixos da União Europeia entre janeiro de 2020 e janeiro de 2022.

Pessoas se reúnem no Parque Tantolunden, em Estocolmo, Suécia. Imagem de 14 de junho de 2020, durante a pandemia | Foto: Alexander Stock/Shutterstock


O “genocida” britânico

Muitas pessoas também vão ficar surpresas com a performance medíocre do Reino Unido. O editor de política da Independent Television (ITV), Robert Peston, afirma que considera “impressionante” que o Reino Unido “parecesse não mais ter o pior índice de mortalidade entre os países ricos”. Na verdade, o Reino Unido nunca teve esse status, mas não é difícil entender por que tantas pessoas acreditem que sim.

A narrativa convencional é mais ou menos assim: o Reino Unido enfrentou o pior número de vítimas da covid-19 na Europa porque Boris Johnson, nosso primeiro-ministro libertário, deliberadamente buscou uma estratégia de “imunidade de rebanho”. Como fomos informados, Johnson planejava “deixar o vírus correr solto”. Então, com relutância, ele concordou em ouvir os cientistas e determinar o lockdown, mas só quando a pressão se tornou esmagadora.

Pelo que se sabe, os três lockdowns nacionais da Inglaterra foram introduzidos tarde demais e interrompidos cedo demais. Pior ainda, no verão de 2020, a política do governo encorajou ativamente encontros em espaços fechados e propagação do vírus ao subsidiar refeições pela metade do preço em restaurantes. Os críticos mais estridentes ao governo no Twitter chegaram a acusar Johnson de promover um #ToryGenocide (um genocídio do partido conservador, em tradução livre).

Uma ruptura tão grande em relação ao funcionamento normal da sociedade nunca poderia estar livre de riscos

Quando a Inglaterra finalmente eliminou a maioria de suas restrições relacionadas à covid, em 19 de julho de 2021 — um mês depois que o planejado e uns sete meses depois do início da vacinação —, nos disseram para esperar um massacre. Mais de 1.200 cientistas e consultores governamentais do mundo todo assinaram uma carta aberta condenando o fim do lockdown como um “experimento perigoso e antiético”, que representava uma ameaça para o mundo todo. Eles temiam que os idosos doentes da Inglaterra, recém-liberados para ter contato físico entre si, incubassem e disseminassem uma nova variante da covid-19 resistente à vacina.

Não há dúvida de que o governo do Reino Unido cometeu muitos erros terríveis durante a pandemia — sobretudo ao enviar pacientes não testados e que tiveram resultado positivo na testagem para a covid-19 para casas de repouso durante a primeira onda. Mas, em termos de mortes, quando comparado com os 27 países da União Europeia, o Reino Unido fica na posição de 15º.

Alemanha: a farsa do “país adulto”

Enquanto isso, alguns países tiverem um resultado surpreendentemente baixo nas estimativas da OMS. No início da pandemia, a Alemanha foi considerada o modelo a ser seguido. Ela parecia ter feito tudo “certo”. O lockdown foi determinado num momento razoável, quando o vírus tinha acabado de chegar à Europa. E no ano passado ela só retomou o convívio social quando já havia um sistema de passaporte vacinal implementado. No inverno de 2021, a Alemanha baniu as pessoas não vacinadas de boa parte da vida pública.

Outras razões, menos convincentes, também foram dadas para o “sucesso” da Alemanha em relação à covid-19. Na época, o país era governado por Angela Merkel, que tem formação em ciências exatas. Isso aparentemente a tornava mais racional e confortável com os dados que outros líderes do mundo. Ela também é uma mulher. E, de acordo com um dos primeiros “estudos” de 2020, os países liderados por mulheres tiveram um desempenho “sistemática e significativamente melhor” na pandemia. Além disso, nos disseram, a Alemanha é um “país adulto”, racional, sensato que faz coisas “melhor” que o restante da Europa. No entanto, de acordo com a OMS, a Alemanha na verdade teve mais mortes per capita do que o Reino Unido, a Espanha e Portugal.

Mais liberdade não significa mais mortes

Então, por que os números das mortes não se encaixam na narrativa a que estamos acostumados? Uma razão é que os índices de mortalidade podem revelar quais países subnotificaram as mortes por covid-19. A Alemanha, por exemplo, parece ter subnotificado consideravelmente o verdadeiro número de mortes.

Outra razão é que o lockdown é muito menos eficaz do que seus defensores fizeram crer. Apenas alguns lugares conseguiram manter o índice de mortes por covid-19 perto do zero usando o confinamento e controles de fronteira. E como o lockdown aparentemente infinito e assustador de Xangai demonstra, até mesmo as medidas mais duras podem vacilar diante de novas variantes mais transmissíveis.

Também existe o fato de que os números englobam todas as causas mortis — não só as mortes por covid-19. Os índices não conseguem nos dizer como as pessoas morreram. Sem dúvida, uma grande parte dessas fatalidades não foi notificada como morte por covid-19. Mas os números também englobam as mortes indiretas, não causadas por covid-19, mas pelas políticas da covid-19: lockdown, interrupção do atendimento de saúde, entre outras causas. Uma ruptura tão grande em relação ao funcionamento normal da sociedade nunca poderia estar livre de riscos. E isso com certeza é uma área em que países como a Suécia, sem lockdown, conseguiram evitar causar danos excessivos.

Obviamente, a pandemia foi muito mais complexa do que as narrativas de mídia levaram em conta. Nunca foi simplesmente um caso de que mais liberdade significaria mais mortes. Tampouco um lockdown mais rigoroso foi uma estratégia sustentável. Anos de restrições relacionadas à covid-19 tiveram um impacto enorme na sociedade. Será que foi tudo em vão?


Fraser Myers é editor assistente da Spiked e apresentador do podcast da Spiked. Siga-o no Twitter: @FraserMyers

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