Ilustração: Daria/Shutterstock
Ilustração: Daria/Shutterstock

Os médicos filhos da pandemia

Isolados em casa e sem aulas práticas, estudantes de medicina atravessaram quase dois anos sem a vivência hospitalar

Os primeiros meses de 2022 foram difíceis para Yann-Luc Patrick Comtesse, estudante de medicina. Por quase dois anos, ele foi obrigado a ficar em casa e a acompanhar as aulas à distância por causa da pandemia de covid-19. Agora, no 5° ano da faculdade, precisou se adaptar à disciplina rígida do internato: acorda às 4 da manhã, segue para o hospital e passa o dia desempenhando práticas médicas, como solicitar e fazer exames, além de realizar o primeiro atendimento de pacientes. Tudo, claro, sob a supervisão de médicos e professores. Ele só chega em casa por volta das 20 horas, quando começa a rotina de estudos. “É uma mudança radical, principalmente para quem saiu da pandemia direto para o internato”, disse Yann-Luc, 26 anos. “Passei o ciclo clínico inteiro em casa. E o objetivo desse período é justamente preparar o estudante para chegar ao internato sabendo como funcionam as coisas. Só que não tive nenhuma prática clínica. Fui direto.”

Além dos impactos sanitários, econômicos e sociais, a pandemia de covid-19 causou prejuízos na educação de milhares de jovens brasileiros, acentuando ainda mais o abismo social e educacional no país. As instituições de ensino fecharam as portas em março de 2020, e foram uma das últimas a reabrir. Enquanto políticas de gabinete de gestores municipais e estaduais, sob as bênçãos do Supremo Tribunal Federal, priorizavam a reabertura de bares, restaurantes, comércio e cinemas, o Brasil foi um dos países que passaram mais tempo com as escolas fechadas. Neste ano, um teste do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo revelou que os alunos do ensino médio paulista tiveram o pior desempenho da história em 2021. 

Tragédia anunciada

Mas o estrago causado pela paralisação das aulas presenciais não foi apenas na educação básica. Os estudantes das instituições de ensino superior também contabilizam suas perdas. E quem escolheu a área da saúde, mais ainda. Afinal, como reproduzir remotamente a vivência de um ambiente hospitalar, fundamental para a formação de médicos, enfermeiros e fisioterapeutas? “Não dá para dizer que houve prática, as práticas eram vistas através de vídeos”, conta Yann-Luc, estudante da Faculdade de Medicina da Uninove, na capital paulista. “O professor mostrava por vídeos cirurgias, exames físicos, como realizar uma manobra no paciente. Depois comentava e cobrava na prova.” 

Yann-Luc Patrick Comtesse, estudante do 5° ano de medicina da Faculdade Uninove, em São Paulo | Foto: Arquivo pessoal

A médica Amanda Araújo, 28 anos, estava no 6° ano de medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em março de 2020, quando estourou a pandemia. “Foi um baque muito grande, porque nesse período a gente quase não tem aula teórica e de repente a rotina virou só aula”, disse. “Ficamos sem prática por muito tempo, só estudando em casa.” A médica conta que a sua turma foi uma das últimas de universidade pública a retornar às aulas presenciais. “Demoramos para voltar, e houve muita dificuldade no retorno”, lembra. “Muitos alunos estavam com medo, havia colegas no grupo de risco, alguns moravam com os pais mais velhos e tinham receio de transmitir a covid-19.” 

Ao retornar ao ambiente hospitalar, a médica relata que os estudantes do internato encontraram um cenário muito diverso e “descaracterizado” por conta do coronavírus. “O pronto socorro não tinha o mesmo fluxo, a maioria era atendimento de pacientes com covid-19 e os internos não podiam atender os contaminados pela doença. Fomos realocados.” As cirurgias eletivas foram suspensas em razão da pandemia. “Não só a gente não acompanhou as cirurgias porque ficamos em casa, como quando voltamos as cirurgias eram em número muito reduzido”, disse. “Tudo estava muito descaracterizado. O interno não podia entubar paciente com covid. Primeiro, porque não poderia ser exposto à doença e, segundo, porque precisava ser um procedimento mais rápido.” 

Amanda Araújo, formada pela Unicamp durante a pandemia | Foto: Arquivo Pessoal


Formatura antecipada 

Em março de 2020, ainda durante a gestão de Luiz Henrique Mandetta como ministro da Saúde, o Ministério da Educação (MEC) permitiu a antecipação da formatura dos alunos matriculados no último período dos cursos de medicina, enfermagem, farmácia e fisioterapia. Para ter direito à colação de grau antes do previsto, o estudante deveria completar 75% da carga horária determinada para o período de internato ou estágio supervisionado, durante o estado de calamidade decretado com a pandemia. “Nós vamos antecipar, agora, os meninos do 6° ano [de medicina] que faltam um mês, dois meses para se formarem. Vamos acelerar”, disse Mandetta, durante videoconferência com prefeitos em março de 2020. “Esses meninos são jovens, eles não têm experiência, mas podem fazer uma parte do atendimento.” 

90% das escolas de medicina estão em cidades que não atendem aos critérios considerados essenciais para o exercício da formação prática

Com a decisão, o Brasil antecipou a chegada de mais de 9 mil profissionais da saúde durante a pandemia — foram 6.280 novos médicos lançados ao mercado de trabalho, segundo dados do Ministério da Educação. A medida foi criticada pelo médico Júlio César Braga, coordenador da comissão de ensino médico do Conselho Federal de Medicina. “É uma responsabilidade muito grande formar médicos, e é uma irresponsabilidade ter liberado a formação desses estudantes antes do tempo”, disse Braga. “Um médico sem boa formação é mais passível de cometer erros que podem custar a vida de uma pessoa.” Braga ressalta outro problema: o custo financeiro. “Um médico mal formado pede exames demais, prescreve medicamentos demais, preenche relatórios malfeitos, e isso é ruim para a sociedade e para a saúde pública como um todo.” A turma da Amanda, do último ano de medicina da Unicamp, no entanto, optou por não antecipar a graduação. “Fizemos questão de ter contato com toda a prática possível antes da formatura, por isso preferimos não antecipar a colação”, disse. 

Batalhão de jalecos 

Contudo, a preocupação com a qualidade da formação dos profissionais da saúde no Brasil, em especial na área médica, não coincidiu com a chegada do vírus chinês. Se por um lado a política de abertura de faculdades de medicina no país democratizou o acesso ao conhecimento, por outro há lacunas que precisam ser sanadas para melhorar o ensino. Aos fatos: existem pouco mais de 350 escolas de medicina no Brasil, e 90% delas estão em cidades que não atendem aos critérios considerados essenciais para o exercício da formação prática profissional, segundo dados do CFM. 

Só na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) foram abertas mais de 150 escolas (112 particulares) — a expansão foi estimulada pela criação do programa Mais Médicos, do governo petista. “É catastrófico”, disse o médico cirurgião Mauro Ribeiro, ex-presidente do CFM, em entrevista à Revista Oeste. “Quando nos posicionamos contra essa abertura indiscriminada, imediatamente fomos tachados de corporativistas”, afirmou. Ribeiro alerta para o aumento no número de médicos formados anualmente no país. “Há cerca de dez anos, as escolas formavam por volta de 14 mil médicos por ano. Em 2021, formamos mais de 25 mil médicos. Quando todas as escolas autorizadas forem abertas, formaremos 35 mil médicos por ano.” 

Júlio César Braga também é crítico da abertura indiscriminada de escolas de medicina e cita o exemplo do programa Mais Médicos. “O programa priorizou quantidade, e não a qualidade do profissional”, disse. “Chegamos a ver receita médica em que foi prescrito o nome do laboratório como sendo o nome do remédio. Por exemplo: Europharma 10 mg.” Além de externar preocupação com o batalhão de futuros profissionais de jaleco que entrará no mercado de trabalho nos próximos anos, o ex-presidente do CFM também adverte: “Foram abertas escolas de medicina em cidades que não têm condição de oferecer um ensino de qualidade com a complexidade de um curso de medicina.” No governo do ex-presidente Michel Temer, foi assinada uma moratória que proibiu a abertura de novas escolas médicas por um período de cinco anos. Nesta semana, no entanto, uma portaria do MEC liberou o pedido de novas vagas em cursos de Medicina até o limite de mais cem alunos. Em nota pública, o CFM repudiou a medida: “Lamentavelmente, essa decisão foi tomada sem consulta ao CFM e às demais entidades médicas. Isso expressa uma opção excludente, autoritária e pouco transparente na condução de tema delicado e com consequências para a vida da população e dos profissionais”, informou.

O Brasil tem hoje 500 mil estudantes formados em medicina e registra uma taxa anual de dez médicos recém-formados por 100 mil habitantes — maior que a dos Estados Unidos (7,7), do Chile (8,8) e do Canadá (7,7). Uma projeção realizada pelo CFM com base no estudo “Demografia Médica no Brasil 2020”, da USP, mostra que em 30 anos o Brasil poderá ser o país com o maior número de médicos do mundo: 1,7 milhão de profissionais em atividade. Apesar do grande número de formados, algumas regiões do país carecem de médicos para atender a população local. Isso porque há pouco estímulo para atrair profissionais da saúde para trabalhar em locais mais afastados e em periferias. Uma das principais mudanças do Médicos pelo Brasil, que substituiu o programa Mais Médicos, é a possibilidade de os profissionais de saúde terem um plano de carreira, com a remuneração podendo chegar a até R$ 21 mil. Benefícios adicionais são oferecidos para aqueles que atuarem em áreas mais distantes. 

Ao todo, o Brasil ganhou pouco mais de 24 mil novos médicos em 2020, primeiro ano da pandemia. A crise sanitária forçou países e sistemas de saúde do mundo inteiro a relembrarem a importância de existirem profissionais qualificados, em quantidade suficiente, bem distribuídos e com habilidades para atender a população de maneira eficaz. Mas, se a pandemia foi um desafio gigante para médicos e cientistas com vasta experiência, imagina para quem estava prestes a dar os primeiros passos no árduo ofício de salvar vidas? Será possível compensar os gargalos que impactaram a formação de milhares de jovens? “Todas as universidades tiveram prejuízos”, observou a médica e cientista Angelita Gama, em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan. “Parou tudo e não é fácil compensar. O ensino teórico é facilmente reposto, mas aquele número de operações e procedimentos que o aluno precisa cumprir e participar no último ano é determinante. E diminuiu muito, quase não houve.” 

Para o coordenador da comissão de ensino médico do CFM, é difícil minimizar os prejuízos. “A atividade de médico é artesanal, a pessoa tem de aprender aos poucos”, pondera Braga. “Sair do ensino teórico para a prática é muito diferente. E, depois que o aluno recebe o diploma, é impossível ter outro critério de exigência.” O CFM defende a realização de um teste de qualificação para os alunos formados em medicina, semelhante ao que ocorre com os egressos da faculdade de Direito, que precisam prestar o exame da OAB para advogar. “O ensino médico vem engatinhando nas formas de avaliação de ensino”, afirma Braga. “É preciso algo que garanta a qualidade desses profissionais formados. Hoje, praticamente não há reprovação de alunos nem de escolas de medicina. Os estudantes que frequentam as aulas e pagam a mensalidade recebem o diploma.” 

Durante o período mais tenebroso da pandemia, houve milhares de manifestações em homenagem aos profissionais de saúde, em reconhecimento ao trabalho de um exército disposto a arriscar a própria vida para salvar a de outras pessoas. Sem o trabalho incansável de médicos, enfermeiros e fisioterapeutas na linha de frente da covid-19, a tragédia sanitária no país seria ainda pior. Se os veteranos jamais esquecerão a batalha diante de um inimigo invisível, a geração de estudantes que atravessou a crise sanitária ficará marcada pela adaptação do ensino médico em tempos excepcionais. “Não há como dizer que cheguei seguro ao internato porque não cheguei”, disse Yann-Luc. “A prática é essencial, até porque num vídeo você não tem contato com o paciente, nem parece real. Já na prática, se você fizer algo errado, há consequência.”

Amanda formou-se em janeiro de 2021 e lidou diretamente com pacientes contaminados pelo coronavírus. “Trabalhei no pico da pandemia, foi desesperador”, contou. “Houve falta de leitos de UTI e de materiais.” Do que ela mais sentiu falta durante o período em que ficou sem aulas? Colocar a mão na massa. Ela e outros médicos filhos da pandemia sabem bem o que os espera no futuro. “O estudo nunca vai ser suficiente”, reconhece Amanda. “O médico precisa estudar pelo resto da vida. Aprendo muito mais ouvindo o professor na beira de um leito, observando uma cirurgia ou atendendo um paciente do que abrindo um livro.”

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