Eduardo Suplicy interrompe reunião da chapa Lula-Alckmin na terça-feira 21 | Foto: Reprodução
Eduardo Suplicy interrompe reunião da chapa Lula-Alckmin na terça-feira 21 | Foto: Reprodução

Barraco no museu

O confronto entre Suplicy e Mercadante é o fato mais marcante da nação desde o assassinato de Odete Roitman

O debate entre Aloísio Mercadante e Eduardo Suplicy tirou o Brasil do marasmo. Até que enfim alguma coisa relevante na política brasileira. Ninguém aguentava mais essa oposição xexelenta de dorias, leites, moros, randolfes e companhia limitada, limitadíssima. Chegou finalmente a hora da verdade: o confronto entre Suplicy e Mercadante é o fato mais marcante da nação desde o assassinato de Odete Roitman.

Tudo começou com mais um evento fechado de bajulação a Lula, o ladrão honesto que trocou o xadrez pelo cárcere itinerante em que se transformou sua vida. Em qualquer lugar onde não tenha povo ele pode estar. A qualquer lugar onde não tenha gente livre e trabalhadora ele pode ir. De claque em claque, de cenário em cenário, de gaiola chique em gaiola chique, de chiqueiro de luxo em chiqueiro de luxo, de confraria 171 em confraria 171 lá vai o herói dos cínicos, com a desenvoltura dos que se casaram em comunhão de bens com a mentira. Aí apareceu o invasor.

Mas não fez tanto sucesso assim. Invadir um evento de aclamação da picaretagem com uma câmera de celular para chamar Lula de corrupto não chega a ser uma apoteose. Esse invasor foi logo contido. Apoteótica mesmo foi a aparição inesperada de outro invasor — Eduardo Suplicy, que surgiu como um raio em câmera lenta desafiando Aloísio Mercadante. Isso muda o mundo.

Era um evento de lançamento de um suposto programa de governo — de mentira, claro, como tudo que vem do PT. Mas aí surgiu a verdade. Com Mercadante presidindo os trabalhos numa grande mesa em “U” — ou seja, um filme de época (ruim) —, Suplicy se insinuou no espaço vazio, se projetou como elemento surpresa no vão central do “U” e se postou de pé diante de um Mercadante sentado e perplexo. Aí se impôs, gloriosa e inexorável, a verdade.

Suplicy emergindo do nada como um monstro do Lago Ness para esculhambar Mercadante não tem preço

Basicamente, numa tradução livre do falatório, Suplicy acusou Mercadante de só pensar nele, e Mercadante replicou acusando Suplicy de só pensar nele. Até que enfim, a verdade! Não foi bem isso que eles disseram, mas foi. Suplicy protestou contra a exclusão da sua proposta de renda básica na formulação do programa petista e reclamou da arrogância de Mercadante, afirmando que sequer foi convidado para o evento. Mercadante tratou Suplicy como um intruso personalista, dizendo que o evento tinha convidados demais e a lista não era problema dele.

Ou seja: o embate foi um resumo do fisiologismo petista — cada um acusando o outro de só olhar para o seu umbigo, ambos repletos de razão.

Visitar o museu da impostura não deixa de ser pedagógico. Voltar a ver um Mercadante, a estátua do economista de papelão, associado a todas as teses esdrúxulas, obtusas, anacrônicas e estúpidas que subsidiaram tudo que deu errado na economia nacional é como ter a chance de estar diante de um dinossauro extinto pelo meteoro da Lava Jato. E, como diria Dilma Rousseff (se lhe dessem a chance), o que está extinto já se extinguiu. Se reaparece, é assombração.

Mas, por incrível que pareça, mesmo uma assombração pode passar despercebida — e é por isso que Mercadante deve tudo a Suplicy. O tal sujeito detido pelos seguranças petistas por chamar Lula de corrupto não daria uma fração da repercussão que o evento obteve. Suplicy emergindo do nada como um monstro do Lago Ness para esculhambar Mercadante — com sua famosa fala modorrenta e interminável — não tem preço e não se encontra em museu nenhum de Paris ou Nova York.

Se é para avacalhar a eleição presidencial e fingir que o futuro está condenado ao passado, pelo menos tragam os fantasmas mais divertidos.

Leia também “Vocação para o engano”

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42 comentários Ver comentários

  1. Fiuza, este foi um dos seus melhores textos! Tragam um Nobel a este que nos brindou com o “ladrão honesto que trocou o xadrez pelo cárcere itinerante”.

  2. As assombrações aparecem em época de eleição para assombrar os brasileiros de bem, divertir os banqueiros corruptos e dar orgasmos múltiplos aos gays e lésbicas petistas. Agradecemos ao Suplicy, ao Mercadante e ao Lula por só assombrarem os brasileiros em época de eleição.

  3. Fiuza insite em denegrir a imagem de Sergio Moro. Como bom puxa-saco do Bolsonaro, ele não admite o que o ex-juiz não tenha deixado o presidente aparelhar a Polícia Federal para blindar a famiglia.

  4. A reunião dos mais sujos e hipócritas políticos ou politizados da história desse país e no centro o maior lesa-pátria que se faz passar por bom e jovial senhor mas não passa de um bandido da maior espécie, larápio de dinheiro, bens públicos e almas de elevada pobreza de espírito.

  5. Fiuza magistralmente, como sempre, retrata em seu texto todo o absurdo que é essa agremiação escandalosa.
    Assistir Alkmin batendo palmas para Suplicy foi a cereja do bolo. A cara do Mercadante, sem saber o que estou fazendo merece um prêmio, para completar só faltou o famoso jurista , citado por José Eduardo Cardoso, com pompa e circunstância, Thomás Turbando .

  6. Fiquei assombrado com uma redação tão maravilhosa! Mas, algo mais de se deduz: consideração entre eles vai até aonde interessa. Suplicy não lhes interessa mais (A bem da verdade, para todos nós, só que desde sempre).

  7. Parabéns Fiúza você se superou – se é que é possível- ver Suplicy invadir o templo dos cretinos e bradar que o PT continua sendo o PT foi para mim muito melhor que um orgasmo!

  8. Essa companheirada aí só faz lambança em tudo o que põe a sua colher enferrujada. Por isto tem de se esculhambada como fez o divertidíssimo e criativo mestre Fiúza. Palmas para ele, pois.

  9. O colunista foi parcial, depois das acusações que Lula nunca leu um livro, no momento da abordagem do Sr. Eduardo Suplicy ao Sr. Aloysio Mercadante, Lula freneticamente lia uma apostilha, praticando leitura dinâmica. Este homem é um letrado.

  10. Humor ácido e crítico de acordo com os personagens. E, os atores foram muito bem retratados. Se entre eles não se entendem, como querem conduzir o Brasil? Mais um tiro no pé. Parabéns Fiuza.

  11. Gente, fazia muito tempo que não ria tanto com um texto. “Eduardo Suplicy, que surgiu como um raio em câmera lenta desafiando …” Sensacional ! Obrigada, Fiuza.

  12. Mercadante : ¨¨¨Vamos ter um debate a.p.r.o.f.u.n.d.a.d.o ¨¨¨¨ !!!! São mais de trinta anos que estão ¨¨ aprofundando ¨¨!!!!
    E o Alkimista aplaudindo????

  13. O PT seria cômico, se não fosse trágico. Lula, o lado trágico, e Suplicy, o lado cômico (infelizmente, repleto de tragédia também).

  14. “Suplicy emergindo do nada como um monstro do Lago Ness para esculhambar Mercadante — com sua famosa fala modorrenta e interminável — não tem preço” Vc não existe, Fiuza! Hahahahahhaha

  15. Cada vez mais fascinada pela análise e pela linguagem deliciosamente afiadas do Fiuza! Texto construído com humor sem se afastar um milímetro da realidade. Parabéns!

  16. Jurassic Park… conseguiram clonar o DNA dos dinossauros… oooppsssss…. estes aí estão esperando o Cometa pra se extinguirem…

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