Foto: Reprodução/Shutterstock
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Um tsunami musical

Os serviços de streaming estão se multiplicando e oferecendo uma qualidade sonora difícil de ser superada

Você gosta de música? Muito mesmo?

Então vamos imaginar que você gostasse muito de música no dia 22 de dezembro de 1808. Gosta tanto que comprou uma entrada para o grande concerto que vai acontecer nessa noite de inverno no grande (e gelado) Teatro de Viena. Como você não pertence à aristocracia austríaca, os 2 guldens que pagou para o concerto pesam muito — são o equivalente a uma semana de trabalho duro. Afinal, você adora música e está disposto a qualquer sacrifício.

A plateia lotada se aquece aplaudindo o maestro assim que ele  entra no palco. É Ludwig van Beethoven em pessoa, que vai reger algumas de suas peças, inclusive duas sinfonias inéditas. Durante as duas primeiras horas, Beethoven faz o possível para não passar vergonha com uma orquestra que teve apenas um dia para ensaiar. Chega o intervalo. Você não se atreve a deixar sua cadeira, com medo de perder o lugar.

As luzes se apagam e Ludwig van Beethoven ressurge ajeitando a cabeleira rebelde. Anuncia sua nova composição, a Sinfonia Número 5. E então o mundo ouve pela primeira vez o imortal “tã-tã-tãtãããããã”. É um choque para todos, uma sinfonia que começa de forma tão estruturada e marcante. 

Você adorou a Quinta de Beethoven. Quando a sinfonia termina, ela deixa de existir para você. A não ser que ela seja interpretada de novo em outro concerto, e você pague mais 2 guldens para ouvi-la. Você não vai encontrar a Quinta numa loja de discos, pois música não se grava em 1808. E as notas tocadas pela orquestra somem no ar como a névoa de Viena.

Começa a era da reprodução

O mundo esperaria outros 69 anos até que Thomas Alva Edison apresentasse o fonógrafo, o primeiro e precário sistema de gravação de som. Em 1912, vieram os discos de 78 rotações por minuto, que gravavam três minutos de cada lado. Foi a primeira mídia musical que se popularizou em escala global.

Thomas Alva Edison lançou o fonógrafo em 12 de agosto de 1877 | Foto: Reprodução

Décadas se passariam até que surgisse — em 1957 — o primeiro álbum de vinil estéreo (ou seja, com dois canais de som), com capacidade para 20 minutos de cada lado. Em 1982, o som foi digitalizado no Compact Disc. 

Com o novo século/milênio, surgiu uma nova forma de ouvir música — o streaming. Em resumo, é música transmitida pela internet. Dezenas de milhões de gravações de todas as épocas. Nesses 20 anos, o streaming se transformou na forma mais completa, acessível, barata e aperfeiçoada de mídia musical. Chegamos ao ponto em que você pode pagar 60 reais por um CD ou 250 por um vinil — ou 30 reais por toda a música do mundo. Numa qualidade infinitamente melhor. Como se diz em política, nunca foi tão fácil escolher.

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A qualidade insuperável do streaming

Para não complicar as coisas, hoje temos três qualidades básicas de gravação digital: 1) o MP3, que é bem compactado e perde parte de sua definição. 2) o “som de CD”, que compacta menos e oferece um som de qualidade no limite da capacidade humana. 3) o som “lossless”, ou seja, sem perdas. Você ouve o que que foi registrado no estúdio, como se estivesse lá dentro.

Sem entrar em minúcias técnicas, existem números para medir essa qualidade sonora. Os números indicam o grau de definição de uma gravação. Quanto maior os números, maior a qualidade do som. Um CD reproduz em 16 bits/44,1 kHz. Alguns serviços de streaming chegam a transmitir em 24 bits/192 kHz.

O som não mais se limita aos dois canais do velho estéreo, mas se espalha pela nossa cabeça

Para chegar a esse paraíso, é preciso assinar pelo menos um desses serviços e ter um bom equipamento. Mesmo quem usa fones de ouvido comuns (de qualidade) vai perceber no lossless sons que nunca tinha percebido em discos ouvidos repetidas vezes em outras mídias. Aquele velho álbum dos Beatles que você cansou de ouvir em vinil ou CD vai soar diferente. 

Como se não bastasse, empresas estão lançando sistemas de som tridimensional (como o Dolby Atmos Music). Com eles, o som não mais se limita aos dois canais do velho estéreo, mas se espalha pela nossa cabeça, mesmo em fones comuns. O que era esquerda e direita vira também acima, embaixo, na frente e atrás.

Óbvio que quanto melhor seu equipamento (fones, caixas, soundbar), melhor o aproveitamento dos recursos técnicos oferecidos. Você pode ouvir suas músicas on-line e também baixar músicas para ouvir se não tiver conexão. Pode ouvir álbuns ou reunir as músicas de que gosta em playlists.

O guia do streaming

A maioria dos usuários conhece apenas o Spotify — que se tornou a pior opção. Os preços são apenas referenciais, podem mudar de um momento para outro. Grande parte desses serviços também oferece assinaturas anuais.


Spotify

O pioneiro na popularização do streaming ficou para trás. Não soube se modernizar com a alta definição e estacionou num som medíocre de CD. Ultimamente está mais focado em podcasts do que em música. E também em paradas de sucesso, de cada capital brasileira e de países do mundo, para quem quer saber o que está bombando no Cazaquistão, no Marrocos ou na Costa Rica. Os preços estão na média do mercado: de R$ 9,90 a R$ 34,90 mensais.


Tidal

Foi o primeiro a apostar na alta qualidade de som. O Tidal lançou um padrão de elegância visual no seu tom dark. No plano Master, pode chegar à definição máxima de 24/192. Os preços vão de R$ 16,90 a R$ 50,70 mensais.


Qobuz

Este é um dos mais satisfatórios. O design é bonito como o do Tidal, e a qualidade sonora é equivalente. Alguns detalhes fazem a diferença, como poder escolher o que quer ouvir através dos selos. Se você dissesse há alguns anos a um amante de jazz que teria o catálogo completo da Blue Note ou da Verve à disposição, isso pareceria delírio. Não é mais.


Amazon Music

Jeff Bezos não podia ignorar esse mercado e lançou um dos serviços mais baratos do mercado. A Amazon oferece música em Dolby Atmos e cobra um preço camarada: R$ 16,90 mensais. O design não é dos mais bonitos. Mas a Amazon possui muitos discos “alternativos” no seu catálogo — que antigamente eram chamados de “disco pirata”, não lançados oficialmente pelas gravadoras. Outro destaque é que na grande maioria das músicas você pode ler a letra e cantar junto, como num karaokê.


Apple Music

Foi a pioneira em oferecer o “som espacial”. O preço também é muito camarada — R$ 16,90 por mês. A única chatice — também presente na Apple TV — é a mania de importunar o usuário pedindo a senha constantemente e dificultando o acesso quando a senha é esquecida.


Deezer

Outro serviço de primeira linha, com som em alta definição, letras das músicas e atenção especial para conexão entre usuários. Nascido na França, soube se adaptar à evolução da mídia. Seu aplicativo para celular é um primor de design. 


Napster

Este veterano, criado em 1999, começou como um serviço de troca de arquivos MP3. Hoje está no streaming, mas sem muita competitividade. Seu aplicativo para computador é pesado e lento. Além disso, não prima pela honestidade: anuncia que transmite em lossless, mas só entrega um som de CD.


YTMusic

Pouca gente sabe, mas o YouTube tem um site/aplicativo dedicado só à música. Mistura áudio com clipes e registros de shows. Uma de suas vantagens é que os usuários podem gravar discos que sumiram do mercado e colocá-los à disposição de todo mundo.


Idagio

Um streaming especializado em música clássica. Apresenta não só os discos, mas também vídeos e entrevistas com instrumentistas e maestros. O parque de diversões dos fãs da música erudita, com um design muito chique e sóbrio. Infelizmente o preço da assinatura é de elite cultural: € 10, o equivalente a R$ 52/mês. É possível usar o Idagio de graça, com uma qualidade de som bem inferior e sem a possibilidade de pular entre uma faixa e outra de cada disco.


Radio Tunes

Este serviço pertence à categoria “uso passivo” — você ouve as músicas sem escolher, como num rádio. É gratuito, com uma qualidade de som menor (MP3/128) e comerciais. Para subscrever, você paga cerca de R$ 20. E ganha as chaves para o mais vasto universo musical conhecido (com qualidade MP3/320 e sem anúncios). O Radio Tunes forma um complexo de seis players, cada um com dezenas de canais específicos: jazz, clássico, rock, zen (música para meditação e relaxamento) e DI (música eletrônica). O usuário pode ouvir gêneros muito específicos nessa teia de canais: Bollywood, pop japonês, salsa, bossa nova, blues, canto gregoriano, música medieval, canais exclusivos de compositores como Vivaldi e Bach, heavy metal, new age, música tibetana, trance, dub. Isso sim é diversidade.


AccuRadio

Funciona de maneira parecida com o Radio Tunes. Seu uso é gratuito, e o som não é dos melhores. Mas a combinação de canais é um show de originalidade. São centenas, agrupados em categorias ultraespecíficas, como canções de protesto, covers dos Beatles, música para quando você espera ser atendido no telefone, versões de Garota de Ipanema, country canadense, canções com referências geográficas, sucessos de 1967, reggae cantado por mulheres, músicas usadas em comerciais, fados portugueses, canções de restaurantes italianos, música de índios norte-americanos.

Esse é o panorama. Quem gosta muito, mas muito mesmo de música não vai se importar em gastar algum dinheiro nesse tsunami de sons em alta definição. É investimento para a alma. E uma homenagem a quem passou frio naquele dezembro de 1808 no Teatro de Viena porque gostava demais de música e só tinha o direito a ouvi-la uma única vez.

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