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Pensando em nossos descendentes

O que estará em jogo nas eleições de outubro é algo muito mais grave e profundo do que uma simples escolha entre candidatos. A opção será quanto ao tipo de sociedade que desejamos

Estamos a poucas semanas das eleições presidenciais mais importantes da nossa história, em que estará em jogo algo muito mais grave e profundo do que uma simples escolha entre candidatos, porque a opção a ser feita — de enormes consequências de longo prazo — será quanto ao tipo de sociedade que desejamos para nós e, principalmente, para as gerações futuras. Não será uma seleção meramente política, entre direita e esquerda, ou simplesmente econômica, entre liberais e intervencionistas, mas, sobretudo, uma decisão moral, entre dignidade e indignidade, liberdade e servidão, mérito e malandragem, trabalhar na semeadura e esperar que frutos despenquem da árvore estatal.

Escolher representantes é sempre uma escolha moral, mas neste ano será muito mais. É importante, portanto, que os eleitores conheçam as implicações do que vão digitar naquela urna que tem sido motivo de tantas querelas e novelas, mas que, segundo a autoridade eleitoral, é uma versão moderna (embora de primeira geração) do dístico da encantadora cidade do Porto, em Portugal: mui leal e invicta, ou seja, confiável e inexpugnável.

A divulgação das propostas dos principais candidatos à Presidência aguça os claríssimos contrastes entre duas visões de mundo: de um lado, o respeito à liberdade dos indivíduos e aos bons princípios da economia, do Direito, da política e da moral, bem como a convicção de que, acima de qualquer outro objetivo, o Estado e a lei só fazem sentido se servem aos cidadãos; e, de outro, a relativização da liberdade individual, da doutrina democrática, da justiça e dos valores morais, movida pela visível suposição de que o Estado deve sobrepor-se aos cidadãos e, portanto, dirigir as suas vidas para promover uma “igualdade” alegórica, impalpável e indefinível, mas de forte apelo para as massas de milhões de indivíduos que, sem que ao menos desconfiem, são utilizados como instrumento de manobra, idiotas úteis necessários a cada quatro anos, para ser invariavelmente descartados em seguida, somente voltando temporariamente a ser lembrados pouco antes das eleições seguintes.

Liberdade

Mas por que as escolhas de outubro serão — mais do que nunca — precipuamente morais? A resposta deve levar em conta que a liberdade plena do ser humano precisa enfeixar a liberdade econômica, a política, a de consciência e a de expressão. Esses ingredientes, quando devidamente combinados, libertam o homem e geram o seu progresso, e sua ausência termina por escravizar os indivíduos e submetê-los à pobreza e à sujeição material e espiritual. É crucial, também, compreender que o desenvolvimento de uma sociedade — ou o “progresso”, como diziam os mais velhos — é um processo de aumento contínuo e generalizado do estoque de capital, que inclui o capital humano, o qual, por sua vez, compreende o capital moral e o intelectual, as habilidades das mãos e do cérebro, dos bíceps e dos neurônios, assim como as do coração. Se as sociedades sabem como criar riqueza — e a receita é conhecida desde o século 18, com Richard Cantillon e Adam Smith — e a desprezam, então a pobreza absoluta e a miséria são imorais.

O simples fato de que os seres humanos são feitos à imagem e à semelhança do Criador implica que todos, durante o tempo que nos é concedido no mundo, somos moralmente obrigados a criar mais do que consumimos. Nisto reside toda a esperança no progresso econômico. Nenhuma economia cresce o que um líder ou um partido político querem que ela cresça, mas apenas o que ela pode crescer. E o que ela pode crescer depende, de um lado, de um ambiente geral estável e seguro, jurídica e fisicamente, e, de outro, de instituições que estimulem a criatividade dos agentes econômicos. Em suma, o progresso é uma tarefa que requer a fadiga da formiga, e não a algazarra da cigarra.

Não há fórmulas mágicas. O avanço das sociedades depende de pessoas e das providências que tomam, de qualidades individuais, de recursos humanos, da disposição de cada um para utilizar esses recursos, de instituições políticas, legais e de motivações morais, fatores esses que quando são espontaneamente desencadeados estimulam os determinantes do desenvolvimento de longo prazo, que nada mais é que o resultado dos fluxos de investimentos em capital físico, humano, tecnológico e moral, que aumentam a capacidade de geração de oferta da economia. Isso equivale a afirmar que o sistema moral-cultural é a principal força dinâmica a explicar a ascensão tanto de um sistema político democrático quanto de um sistema econômico liberal. O sistema moral-cultural é o sine qua non do sistema político e do sistema econômico. Negligenciá-lo significa injetar no organismo os vírus do caos.

Pão e circo

Seres humanos não vivem apenas de pão e de circo e tampouco de discursos de demagogos, mormente aqueles com prontuário policial mais sujo do que um poleiro de galinheiro. A maioria dos indivíduos só encontra paz em suas consciências quando acredita que suas atividades econômicas e políticas se revestem de significado moral. O trabalho duro, a perseverança nas dificuldades da vida, o espírito empreendedor, a frugalidade e o próprio sentimento da esperança só fazem sentido, em termos de possibilidade de bem-estar material quando encontram respaldo na força do sistema moral.

Ao votar, iremos decidir se vamos de fato prosseguir em busca de uma sociedade pujante e rica ou se vamos copiar as experiências desastrosas de alguns vizinhos latino-americanos

A degradação de costumes que vem atacando o Brasil e o mundo tem duas causas básicas: a primeira é o relativismo moral que, originado com a “morte de Deus”, decretada por Nietzsche na segunda metade dos oitocentos, se transformou na grande chaga dos novecentos e deste início do século 21, na medida em que deixou um vácuo que foi preenchido pela “vontade de poder”, em substituição aos valores judaico-cristãos. A segunda decorre da primeira, mas merece ser destacada por suas dimensões e sua importância: trata-se do fenômeno do crescimento do Estado, especialmente pela invasão que o sistema político passou a perpetrar sobre o sistema econômico. Em outras palavras, quando se “mata” Deus, está-se implicitamente aceitando um substituto para os valores tradicionais, e o escolhido para esse propósito foi o sistema político. Assim, tudo foi sendo crescentemente politizado, desde decisões puramente econômicas, como a de determinar salários; legais, como a politização do judiciário; e morais, que não deveriam depender de decisões políticas, mas das consciências individuais, como a delicada questão do aborto.

A capacidade destrutiva dos indivíduos, embora perversa, é insignificante diante da que o Estado, mesmo quando bem-intencionado, possui. Onde são grandes o governo e o Estado, onde as instituições democráticas revelam incapacidade para conter o poder excessivo e a concentração desse poder em poucas mãos e onde os consensos tradicionais do bom e do mau, do bem e do mal, do certo e do errado, da virtude e do vício são desdenhados, o componente de egoísmo que sempre caracterizou os seres humanos não encontra limites à sua expansão. O relativismo moral, então, ao romper com os valores tradicionais, incha o Estado e estimula as tendências erradas dos indivíduos.

Os fins e os meios

Todas essas considerações se fazem necessárias ao compararmos os planos de governo dos dois principais candidatos. É verdade que planejamento social — e, mais especificamente, os planos de governo —, são, invariavelmente, fracassos com datas marcadas. Primeiro, porque os seres humanos não são bonecos, são vivos e, logo, pensam e têm vontade própria, objetivos diversos e reagem de maneiras diferentes a incentivos e desincentivos, incluindo aqueles promovidos pelas autoridades; e, segundo, porque a passagem do tempo muda as suas preferências e seus fins e, portanto, as suas reações a incentivos e desincentivos. Planos de governo, no fundo, são declarações de intenções que, por sua vez, são apenas generalidades a respeito de metas que, inclusive, muitas vezes, são comuns a candidatos diferentes, como, por exemplo, “gerar renda e empregos”. Por isso, o que importa é o caminho que cada plano propõe para que as intenções sejam concretizadas. Ou seja, trata-se muito mais de escolher os melhores meios, e não simplesmente de declarar fins. Não basta que eu diga quero ir a Roma, é preciso que eu explique como vou chegar lá.

Ao fazer isso e lendo o programa do principal candidato da esquerda, constata-se facilmente que se trata do velho e fracassado socialismo, cujo pano de fundo ainda é a chamada teoria da exploração de origem marxista: ricos exploram pobres, patrões exploram trabalhadores, banqueiros exploram o povo, proprietários de terras exploram os sem-terra, quem tem pele azul explora quem tem pele verde, homens exploram mulheres mas, naturalmente, se você votar no candidato do partido, toda a usurpação vai terminar. Com essas minhocas exploratórias na cabeça, os apedeutas econômicos que o redigiram (alguns, até, com diploma de economista) acreditam piamente que, para combater a pobreza, é preciso, antes, destruir a riqueza acumulada e impedir que volte a ser gerada. O resultado, inescapável e mais do que comprovado, é a pobreza generalizada. O fato é que, para a esquerda, riqueza faz mal e pobreza faz bem, já que, quanto maior o número de pobres a dependerem do Estado, se torna mais “produtivo” controlar suas vidas e se manter no poder.

Essa teoria, na verdade, é a filha bastarda do acasalamento da absoluta ignorância econômica com a inveja, esse traço do comportamento humano que, como Heródoto já observava cerca de 500 anos antes de Cristo, nasceu no homem desde o princípio — um vício peculiar, cujas manifestações são as únicas em que os agressores certamente prefeririam, caso pudessem, ocupar o papel das vítimas.

O suco do atraso

Ora, a esta altura do campeonato, em pleno ano de 2022, se existe exploração, é da parte dos “progressistas”, que continuam azucrinando a nossa paciência com essa baboseira caquética e comatosa. Se batermos em um liquidificador o programa de governo do principal candidato da esquerda, vai sair um “suco de atraso”. É Estado pra lá, Estado pra cá, governo pra cima, governo pra baixo, “entidades” estatais pra um lado, “entidades” estatais pro outro, como naquela velha dança do minueto — ou, mais apropriadamente, uma quadrilha de festa junina —, com trocas de cargos, influências e favores fazendo o papel das tradicionais trocas de casais.

Por outro lado, o plano de Bolsonaro para seu segundo mandato, divulgado há poucos dias, revela a intenção de dar continuidade ao que propôs em 2018 e mostra os meios que pretende utilizar para isso e que, em linhas gerais, são os mesmos que o seu governo vem tentando realizar, em meio a um bombardeio bizarro de 24 horas por dia: consolidação das reformas liberais; políticas públicas sustentáveis; combate à corrupção; recuperação do sistema judicial, ora eivado de ativismo político; mudanças legais para desestimularem os crimes e reporem a segurança pública; valorização do civismo, do patriotismo, da família e dos valores morais e éticos; “desideologizar” o ensino; proteger as crianças, com a proibição da ideologia de gênero; garantir liberdade plena de pensamento; respeito ao meio ambiente sem histeria; e desaparelhamento ideológico do aparato do Estado.

Ao votar, iremos decidir se vamos de fato prosseguir em busca de uma sociedade pujante e rica ou se vamos copiar as experiências desastrosas de alguns vizinhos latino-americanos. O sistema socialista é uma aberração moral: perverte os conceitos de lei e de justiça, instituindo hábitos e concepções viciosos; agride os mais elementares direitos inerentes à pessoa humana, a começar pelas liberdades individuais; desestimula a ética do trabalho; bloqueia a criatividade dos indivíduos; tende a produzir corrupção generalizada; estimula maus investimentos; impede a criação do conhecimento e a geração de informações sobre os desejos dos consumidores, levando à baixa qualidade dos bens e dos serviços produzidos e à escassez; e é extremamente desagregador, ao fomentar o ódio entre irmãos. Sem todos esses vícios morais, ele, simplesmente, não pode sobreviver.

O que vamos decidir em outubro será o futuro dos nossos descendentes.


Ubiratan Jorge Iorio é economista, professor e escritor.
Instagram: @ubiratanjorgeiorio. Twitter: @biraiorio

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13 comentários Ver comentários

  1. Os principais candidatos são obviamente Bolsonaro e Lula. O primeiro demonstrou o que os antecendentes desde Sarney jamais conseguiram: competência e honestidade. Collor foi cassado, Itamar nomeou FHC, este inaugurou a reeleição a custa de esforço negocial com o Congresso, Lula e Dilma patrocinaram além da bandidagem conhecida, a total incompetência e desonestidade administrativa. Duro é ver imbecis, inclusive com diploma superior promover elogios tendenciosos a um criminoso comprovado.

    1. Parabéns professor Ubiratan. Merece enviar para muitos indecisos. Esta é a realidade do BR. JB veio para nos oferecer uma chance real de mudança.
      #Bolsonaro2022. No 1º Turno.

  2. Infelizmente é simples assim: o bem contra o mal. A escolha, e consequências, serão por nós carregadas nas próximas décadas. Basta nos atermos ao estado de coisas de povos vizinhos muito próximos de nós.

  3. Sensacional. Espetacular. Parabéns Prof. Ubiratan Jorge. Espero que os brasileiros façam a escolha certa, Bolsonaro, depois não adianta reclamar. Os avisos estão sendo dados.

  4. O governo Bolsonaro está moralizando a política e conduzindo de forma eficiente a economia. Merece o nosso Total Apoio e os nossos votos em outubro/22

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