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Quatro incríveis diferenças

Nossa vida no mundo capitalista moderno é categoricamente diferente da vida de quase todo mundo que viveu apenas alguns séculos atrás

Se existe um propósito específico para minha presença nesta terra — além de ser um pai amoroso e responsável para o meu filho —, esse propósito é ensinar os princípios da economia. Mesmo fazendo ajustes (da melhor maneira possível) de viés profissional, não tenho dúvidas de que nenhum corpus de conhecimento é mais importante para entender a sociedade do que a economia, e poucos outros sendo tão importantes quanto ela. E a parte da economia que, de longe, é a mais importante são os princípios de economia, popularmente conhecidos como a disciplina “Economia 101”. Provavelmente 90% das muitas políticas econômicas prejudiciais que são propostas ou implantadas a qualquer momento seriam interrompidas se uma maioria da população tivesse conhecimentos sólidos sobre economia básica.

No início de cada semestre, eu — diferentemente da maioria dos professores dos princípios de economia — dedico umas duas horas à tarefa de inculcar em meus alunos (cuja maioria é jovem demais para consumir bebidas alcoólicas) a diferença entre o mundo que eles conhecem e o mundo que era conhecido pela maior parte de seus ancestrais. Identifico quatro maneiras como nossa vida no mundo capitalista moderno é categoricamente diferente da vida de quase todo mundo que viveu apenas alguns séculos atrás.

Prosperidade impressionante

A maneira mais óbvia como nossa vida hoje difere da de nossos ancestrais pré-capitalistas é que somos fantasticamente mais ricos. Hoje em dia, pessoas comuns dormem sob telhados firmes e andam sobre pisos em casas equipadas com encanamento interno e luz elétrica, com armários cheios de comida, guarda-roupas cheios de peças e garagens e ruas cheias de carros. Somos tão abastados que é bem plausível que nossos animais de estimação hoje tenham vidas materiais melhores do que nossos ancestrais humanos de antes da era industrial.

Apesar de recontada frequentemente, não se pode reforçar demais essa verdade sobre os padrões modernos de vida. Estamos tão acostumados à nossa espetacular riqueza que não a valorizamos. E o que não é valorizado raramente é apreciado e compreendido de fato.

Vista aérea do centro histórico de São Paulo | Foto: Diego Grandi/Shutterstock

Confiança em estranhos

A segunda maneira como nossa vida difere categoricamente da vida de quase todos os nossos antepassados é que nós, ao contrário de nossos ancestrais, dependemos quase exclusivamente de estranhos para nossa sobrevivência. Antes do capitalismo, alguém ajudava pessoalmente a produzir muitos dos bens que ele ou ela consumiam. Era provável que essa pessoa tivesse uma participação direta na caça, na construção da cabana da família, na tecelagem das roupas ou no cuidado das plantações e dos animais destinados a servir de refeição para a família. Boa parte dos demais produtos e serviços consumidos por esse alguém, mas não diretamente gerados diretamente por seu trabalho, vinha de figuras que ele ou ela conheciam pessoalmente, como o ferreiro, o sapateiro, o tanoeiro, o açougueiro, o alfaiate, o curtidor, o carpinteiro e o fabricante de carroças do vilarejo.

Quase tudo o que consumimos é algo que ninguém sabe ou poderia saber como fazer

Hoje em dia, em um imenso contraste, nós, habitantes das economias capitalistas, não apenas não ajudamos diretamente a produzir os bens que consumimos, mas também não fazemos ideia da identidade de quase todas as pessoas que de fato participaram da produção desses bens. Quase tudo o que consumimos é produzido para nós por pessoas que não conhecemos — por pessoas que são estranhas para nós.

Vamos considerar a camisa que você está vestindo, os sapatos que está usando, o salame na sua geladeira, a lâmpada sobre sua cabeça, o celular próximo a você, a gasolina no seu carro, e a vacina contra a pólio que ainda protege o seu corpo. Pergunte: quem fez essas coisas? Você não faz ideia dos nomes, dos rostos, das crenças religiosas, das afiliações políticas ou de suas localizações. E nenhuma dessas pessoas conhece você. Mas, mesmo assim, esses estranhos que não conhecem você — e, por consequência, presumivelmente não se importam com você — de alguma forma são levados a trabalhar para produzir coisas valiosas para você.

Uau.

Os estranhos são multidões

Uma terceira maneira como nossa vida hoje é categoricamente diferente da vida de todos os humanos que viveram antes do surgimento do capitalismo é que o número de pessoas cujo conhecimento, cujas habilidades e cujos esforços necessários para produzir os bens e os serviços que estamos acostumados a consumir de forma regular é astronômico. Não apenas somos hoje totalmente dependentes de estranhos para nossa sobrevivência, mas o número de estranhos de quem dependemos é espantosamente grande.

Essa é a realidade até mesmo para produtos aparentemente simples, como uma calça jeans, laranjas e uma vidraça. Mas esta realidade é mais fácil de contemplar se pensarmos em um produto mais “moderno” e, no entanto, comum, como o telefone celular. A tela do celular é feita de materiais que alguns estranhos encontraram por meio da exploração e depois são processados por outros estranhos para se tornar vidro. Diferentes estranhos programaram os códigos que permitem que o celular funcione, enquanto outros estranhos desenharam os microprocessadores — pequenas maravilhas que foram fisicamente produzidas por máquinas feitas por outros estranhos ainda e depois transportadas para a fábrica para montagem para um grupo diferente de estranhos. Cada aplicativo, claro, é produto da mente de novos estranhos.

Não sei — ninguém tem como saber — o número exato de pessoas cujos esforços foram empenhados para produzir seu celular e mantê-lo funcionando. Mas estou certo de que esse número é muito maior do que 1 milhão — aliás, é provável que sejam muitos milhões. Quando esse número é adicionado ao número de estranhos cujos esforços foram dedicados a produzir o sofá da sua sala, seu sistema de climatização, os novos medicamentos que você toma, seu carro e o voo comercial que você vai pegar para visitar seus pais ou fechar um negócio, o número de estranhos que rotineiramente trabalham para você provavelmente chega a mais de 1 bilhão.

Uau mais ainda.

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Ninguém sabe como fazer qualquer bem moderno

A quarta diferença categórica entre a nossa vida e a vida de nossos ancestrais pré-capitalistas é que quase tudo o que consumimos é algo que nenhuma pessoa sabe como fazer ou poderia saber como fazer. Essa afirmação inacreditável merece ser repetida: quase tudo o que consumimos é algo que ninguém sabe ou poderia saber como fazer.

A explicação mais famosa para essa incrível realidade está no brilhante ensaio de 1958 de Leonard Read: I, Pencil (“Eu, Lápis”). A produção de algo tão lugar-comum, tão barato e tão aparentemente simples quanto um lápis requer os esforços e os conhecimentos de tantos indivíduos diferentes que nenhuma pessoa — aliás, nem um comitê de gênios incansáveis — teria como possuir tal conhecimento. Essa quantidade inconcebivelmente vasta de conhecimento está espalhada na mente de incontáveis produtores especializados, quase todos eles estranhos uns aos outros, bem como aos consumidores finais de seus produtos. E, no entanto, os lápis são tão abundantes que um trabalhador comum nos Estados Unidos hoje precisa dedicar apenas 13 segundos para ganhar renda suficiente — dez centavos de dólar — para comprar um lápis novo.

Reflita sobre esse fato: hoje um trabalhador comum (não envolvido em supervisão) do setor privado dos Estados Unidos, que ganha cerca de US$ 27 por hora, pode ter renda suficiente em uma questão de segundos para adquirir algo cuja produção é tão complexa que nenhum ser humano pode esperar conhecer totalmente tudo o que está envolvido em sua produção e, portanto, que requeira conhecimento e mão de obra de milhões de estranhos.

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O que gera a coordenação global maravilhosa e extremamente bem-sucedida dos esforços de produção de bilhões de estranhos? E por que essa coordenação é tão silenciosa e incessante que não damos valor a ela? Nós mal a notamos.

Quase não percebemos essa vasta ocorrência de cooperação e coordenação global, isto é, até que nossa atenção seja atraída por um competente professor de Economia 101. A tarefa desse professor então se torna revelar a lógica de como os preços de mercado, lucros e perdas, concorrência e inovação movimentam a especialização e os inúmeros esforços que tornam nosso mundo maravilhoso uma realidade.

A aventura do aprendizado é gloriosa!


Donald J. Boudreaux é doutor em economia pela Universidade Auburn e formado em Direito pela Universidade de Virgínia. Ele é membro sênior do Instituto Americano de Pesquisa em Economia e do Programa F.A. Hayek para Estudos Avançados em Filosofia, Política e Economia do Mercatus Center da Universidade George Mason. Ele também é membro do conselho do Mercatus Center e professor de economia e ex-chefe do Departamento de Economia da Universidade George Mason. Boudreaux é autor dos livros The Essential Hayek, Globalization, Hypocrites and Half-Wits, e seus artigos apareceram em publicações como Wall Street Journal, New York Times, US News & World Report, assim como em diversas revistas acadêmicas. Ele mantém o blog Cafe

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