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Governos totalitários e democráticos manipulam estatísticas

Manobras com números e indicadores não são exclusividade de sistemas autoritários

Houve recentemente críticas ao governo brasileiro por supostas manipulações de estatísticas relacionadas à epidemia do novo coronavírus. Trata-se de uma doença ocupacional de governos de praticamente todos os tipos.

A principal diferença entre manipulação totalitária e não totalitária de números está em seu descaramento e sua função. Sob o comunismo, uma estatística, como todas as outras formas de propaganda política, não tem a intenção de informar ou de persuadir, mas de humilhar. Quanto menos ela descrever a realidade, quanto mais obviamente fictícia for, melhor: porque sob o comunismo não era só impossível refutá-la, era preciso expressar publicamente a crença em sua veracidade. Ao forçar a população a concordar com mentiras em público, o regime destruiu a probidade dela por completo, e pessoas sem probidade são fáceis de controlar, uma vez que, tendo mentido abertamente de modo tão ultrajante elas mesmas, não é possível acusar nem criticar os demais.

As mentiras estatísticas em regimes que não são autoritários têm uma função um pouco mais humilde, a saber, fazer o governo parecer melhor do que é, em geral encobrindo erros ou falhas. A mentira costuma ser mais sutil, suprimindo o que é verdade e sugerindo o que é falso. Governos em democracias mentem dessa maneira porque querem ser reeleitos e, portanto, tentam fazer com que as coisas pareçam melhores ou menos ruins do que são. Estatísticas oficiais são mais confiáveis quando são politicamente insignificantes.

Tentar descobrir a realidade a partir de estatísticas do governo é como tentar ouvir o grito de um morcego numa tempestade

Um amigo meu de Paris que trabalhou no Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos dizia que sua principal função era criar impressões enganosas por ordem do governo. Na Inglaterra, notei a mesma coisa. Muitas das estatísticas produzidas não são mentiras no sentido de serem fabricadas e totalmente falsas; são, todavia, mentiras implícitas. E, curiosamente, a demanda por abertura no governo, bem como a facilitação da comunicação eletrônica, resultou não em mais clareza, mas em menos. Nos tempos em que poucas pessoas olhavam para as estatísticas do governo, fosse por falta de interesse ou ausência de meios para fazê-lo, elas podiam ser verdadeiras. Os anos dourados de verdade nua e crua em publicações governamentais, pelo menos na Grã-Bretanha, foram em meados da era vitoriana. Muito poucas pessoas as liam.

Há um obscurecimento só pela quantidade, o objeto da torrente de informações é impedir que o óbvio ou essencial emerja. Tentar estabelecer um cenário da realidade a partir de estatísticas do governo é como tentar ouvir o grito de um morcego numa tempestade. Outra técnica útil para ofuscar enquanto se informa é mudar as definições do que supostamente está sendo medido, de modo que seja impossível definir tendências ao longo do tempo. Problemas podem ser definidos com seu desaparecimento.

Vou dar outro exemplo dessa última técnica. Ele está relacionado às estatísticas criminais inglesas. O propósito aqui é encobrir o fato de que décadas de políticas ridículas, concebidas a partir de ideias absurdas que emanam principalmente de universidade e de intelectuais, transformaram uma sociedade que antes obedecia às leis em uma sociedade com um índice muito alto de criminalidade — talvez não para os padrões brasileiros.

Por algum tempo, a eficácia ou não de diversas punições era medida pelo índice de “recondenação” nos dois anos após o fim do cumprimento de uma sentença. De repente, a estatística foi modificada para o índice de reincidência em três meses. A mudança no período impossibilitou que se soubesse se as coisas estavam melhorando, piorando ou continuavam iguais. Tornou-se impossível a comparação com períodos anteriores, a despeito de enxurradas de leis e da criação de organizações para tratar do comportamento criminal.

O índice de desemprego caiu pelo simples expediente de permitir que os desempregados se declarassem doentes

Mas a mudança na terminologia também foi significativa. O termo anterior (“recondenação”) era preciso; o termo reincidência era na verdade uma mentira, porque o que estava sendo medido ainda era o índice de recondenação, e não de reincidência. Os dois números coincidem apenas se todo crime resultar em condenação, mas isso está longe de ser o caso. O índice de reincidência é pelo menos dez vezes o de recondenação e, na verdade, a proporção está aumentando, devido

à incompetência da polícia, à burocracia e ao politicamente correto que reduzem sua eficácia, e simplesmente pela frequência dos crimes. Em outras palavras, o simples expediente de uma mudança nos termos cria uma impressão totalmente enganosa e superotimista para o público, exceto para as pessoas que mantêm o olhar crítico. Mas elas são poucas e não são ouvidas. E toda essa manipulação, caso seja notada, está ocorrendo em um regime não totalitário, em uma das democracias mais antigas do mundo.

Existem muitas outras instâncias, por exemplo, em que a manipulação de números pode ser observada, como o índice de desemprego. No Reino Unido sob Tony Blair (um homem que não sabia mentir porque não tinha noção da verdade para além do que saía de sua boca), o índice de desemprego foi reduzido drasticamente pelo simples expediente de permitir que os desempregados se declarassem doentes, recebendo, assim, um pouco mais de dinheiro do que receberiam como desempregados. Todo mundo ficou feliz com a mentira, tanto o governo quanto os desempregados. O governo ficou feliz porque podia dizer ao público que tinha diminuído o desemprego, e os desempregados ficaram felizes porque passaram a ter um pouco mais de dinheiro. Foi uma situação em que todos saíram ganhando, menos a verdade.

Nos Estados Unidos, aquelas pessoas que simplesmente saem da força de trabalho e param de procurar emprego, mas continuam vivendo com qualquer parca esmola que conseguem do Estado, mais um pouco de tráfico ou contrabando, não são mais desempregadas. Elas são, do ponto de vista das estatísticas de desemprego, “não pessoas”.

Então, quando surgem alegações de que manipulações de estatísticas são uma manobra de governos totalitários, trata-se de algo que, apesar de ser uma verdade literal, tem uma falsa implicação — a saber, a de que apenas governos totalitários manipulam estatísticas.

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Theodore Dalrymple é o pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. Daniels é autor de mais de trinta livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações), estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura, ou O Que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.

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