Barracas ocupam as calçadas dos dois lados da rua no distrito de Skid Row, região central de Los Angeles | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste
Barracas ocupam as calçadas dos dois lados da rua no distrito de Skid Row, região central de Los Angeles | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste

Na Califórnia, é permitido roubar

Além dos moradores de rua que tomam as ruas de Los Angeles, desde 2014, quem furta até US$ 950 não vai preso — não importa quantas vezes o crime se repita

LOS ANGELES — Um homem caminha nu a poucos metros da prefeitura. Outro urina onde um dia houve uma árvore, na calçada de uma avenida movimentada e de frente para os carros, sem qualquer preocupação em esconder a genitália. Um terceiro ameaça agredir um rapaz com um pedaço de madeira enquanto profere insultos. Uma prostituta quase é atingida por uma garrafa arremessada por um morador de rua. Uma jovem, aparentando uma espécie de transe, se deita numa pequena faixa de cimento entre duas ruas movimentadas. Outra mulher grita, fora de si, às 6h30 da manhã de domingo, enquanto um transeunte tenta convencê-la a colocar sua calça de volta.

Dependente químico usando fentanil, uma droga nova, no distrito de Skid Row. Eles cobrem o rosto para aumentar o efeito e permanecem nessa posição, paralisados pelo efeito da droga | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste

Estas são algumas das cenas que a reportagem de Oeste testemunhou em apenas 36 horas em Los Angeles — que, como outras cidades da Califórnia, está imersa numa onda sem precedentes de crime e desordem. A face mais visível do problema são as incontáveis barracas que se espalham pela segunda maior cidade dos Estados Unidos. Geralmente cercadas por lixo, pichações e imóveis abandonados, essas áreas se tornaram focos de venda e uso de drogas, além de crimes que acompanham o vício. O problema sempre existiu, mas nunca foi tão grave.

Segundo o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano do governo federal, o número de sem-teto na Califórnia aumentou 57% de 2010 a 2020. O crescimento continuou durante a pandemia. No condado de Los Angeles, o número atingiu 69 mil pessoas neste ano, de acordo com o órgão local que lida com o tema.

Muito se especula sobre as razões para a Califórnia ter o maior número de moradores de rua do país. Fala-se do clima agradável, sem invernos rigorosos. Mas a Flórida tem um clima ainda mais amigável e não vive crise semelhante.

Fala-se na representação simbólica (e por vezes ilusória) do Estado como um lugar de oportunidades para quem quer vencer na vida. Mas Nova Iorque oferece ainda mais atrativos e tem menos moradores de rua — embora também passe por uma situação parecida.

Outra explicação parece ser mais plausível: a cultura progressista da Califórnia — progressista demais até mesmo para os liberais de outros Estados —, que leva os californianos a elegerem políticos muito à esquerda. Estes, por sua vez, implementam medidas que podem ser baseadas em boas intenções, mas têm sido inefetivas. Em vez de retirar as pessoas das ruas, o tipo de abordagem proposto pelo Estado atrai sem-teto de outros lugares. Eles sabem que, na Califórnia, as drogas são mais fáceis, e o auxílio do governo é generoso e sem prazo de validade.

É difícil culpar os republicanos pelo problema.

Dos 120 membros do Legislativo estadual, 91 são democratas, 28 são republicanos e um é independente. Em Los Angeles, o equivalente à Câmara dos Vereadores tem 14 democratas, um independente… e só. Faz 21 anos que o último republicano deixou a prefeitura da cidade. Em 2020, Joe Biden teve 71% dos votos em Los Angeles, contra menos de 27% para Donald Trump. Em São Francisco, onde os moradores de rua também se multiplicaram, todos os 11 “vereadores” são democratas.

A “cracolândia” californiana

No mapa que a Downtown Center Bid (uma espécie de associação comercial do Centro de Los Angeles) distribui aos turistas nos hotéis da cidade, Skid Row não aparece — fica estrategicamente escondida sob as informações a respeito das rotas de ônibus.

Mas é difícil ignorar a região de quase 50 quarteirões. Skid Row se transformou em uma referência pouco abonadora para a cidade. Embora seja difícil obter dados objetivos sobre o assunto, é muito provável que esta seja a maior concentração de moradores de rua do planeta.

(São Paulo, por exemplo, onde as barracas se proliferam pelas calçadas, praças e canteiros numa velocidade impressionante, tem pouco mais de 12 milhões de habitantes e 32 mil moradores de rua. Los Angeles, com seus quase 70 mil sem-teto, tem menos de 4 milhões de pessoas.)

Distrito de Skid Row, na região central de Los Angeles | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste
Distrito de Skid Row, em Los Angeles | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste

Skid Row lembra a cracolândia de São Paulo, com duas diferenças. Primeira: em vez de crack, as drogas preferidas são a heroína e o fentanil (uma espécie de analgésico superpotente). Segunda: há muito mais usuários de drogas em Skid Row do que na cracolândia. O número oscila, mas algumas estimativas falam em mais de 10 mil moradores de rua só naquela região. A cracolândia não costuma ter mais de 2 mil frequentadores regulares.

Em Skid Row, ruas e mais ruas são tomadas por barracas e lixo. E, assim como em São Paulo, ninguém passa fome: igrejas e ONGs oferecem alimento aos sem-teto em pontos diferentes do distrito.

Extensão do distrito de Skid Row, em Los Angeles | Foto: Reprodução

Na verdade, assistentes sociais dizem que, justamente por receberem benefícios sem qualquer expectativa de contrapartida, esses moradores de rua (em cerca de 80% dos casos, dependentes químicos) ficam presos em um ciclo de dependência. “Muitas pessoas adotam uma solução de curto prazo, mas o problema requer soluções de longo prazo”, diz Michael Parker, que trabalhou como policial em Los Angeles por 32 anos e hoje é consultor de segurança.

Centro morto

O prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti, não precisa ir muito longe para deparar com o problema dos moradores de rua. Barracas também se enfileiram à beira de um terreno vazio em frente à prefeitura, o prédio imponente em estilo art déco que foi inaugurado em 1928 e é um dos pontos turísticos da cidade.

Barracas também se enfileiram à beira de um terreno vazio em frente à prefeitura, um dos pontos turísticos da cidade | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste
Barracas no terreno em frente à prefeitura de Los Angeles | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste

Em uma tarde de sábado, a poucos passos dali, um grupo de cinco turistas espanhóis parece decepcionado. “Eu esperava mais. Achava que a cidade seria mais viva”, afirma Cristian Hernandez. Ele diz que não se sentiria seguro em andar no mesmo local à noite.

O crime e a presença dos moradores de rua espantaram não só os turistas, mas os californianos do centro de Los Angeles. Ao contrário do que acontece em outras grandes cidades, como Miami e Filadélfia, a região central de Los Angeles parece sem vida.

Também falta policiamento. Em Los Angeles, diferentemente de Nova Iorque, caminha-se por quarteirões e mais quarteirões do centro da cidade sem encontrar um policial sequer.

De fato, a polícia da cidade tem um número de homens abaixo da média nacional. “É uma decisão política”, diz Michael Parker.

Pesadelo em Hollywood

David (nome fictício), 56 anos, tem o endereço dos sonhos de muita gente: vive a exatamente um quarteirão da calçada da fama de Hollywood e do Dolby Theater, onde são realizadas as cerimônias do Oscar. Seu apartamento, no 1° andar, tem vista para um pequeno parque.

Quando ele se mudou para o prédio, em janeiro deste ano, o parque tinha gramado verde e era frequentado pelos moradores da região, que usavam os equipamentos de ginástica do local.

Agora, apenas oito meses depois, a vida dele mudou. Quando olha pela sacada, David depara com um grupo de sem-teto vivendo em barracas. Elas estão apoiadas exatamente no frágil alambrado que faz a separação entre o parque e a área do prédio.

Cracolândia localizada a um quarteirão da calçada da fama de Hollywood | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste

David já viu moradores de rua consumirem todo o tipo de droga, manterem relações sexuais e agredirem uns aos outros. Com frequência, ele também acorda de madrugada com o som de gritos — fruto do transe produzido pelos entorpecentes. Os moradores de rua também puxaram fios de energia de um poste próximo.

Recentemente, os moradores do prédio vizinho deram início a um abaixo-assinado para que o parque seja cercado, com a remoção das barracas. Enquanto isto não acontece, David vive em alerta. Algumas semanas atrás, entorpecido, um dos moradores de rua fez um buraco na cerca e foi parar na área comum do prédio. Um vizinho de David foi até o acampamento dos sem-teto para pedir que pelo menos este limite fosse respeitado. “Moro na região de Los Angeles há 35 anos e posso dizer que a situação nunca esteve tão ruim”, diz David, que prefere não se identificar, à reportagem de Oeste.

Perto dali, ao lado da estrela do ator Patrick Stewart na calçada da fama, um morador de rua aparentemente conserta o próprio sapato. A cola de sapateiro se espalha pelo chão, ao lado de alguns parcos pertences. Quase ao lado, outro sem-teto de rua ouve música em um fone de ouvido enquanto exibe uma placa de papelão pedindo esmolas.

Morador de rua sentado na calçada da fama de Hollywood | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste

O crime compensa

A onipresença dos moradores de rua é apenas parte dos problemas enfrentados pelos moradores da Califórnia. Mudanças na legislação do Estado nos últimos anos facilitaram a vida de criminosos de todo o tipo. Por exemplo: desde 2014, quem furta até US$ 950 (quase R$ 5 mil) não vai preso — não importa quantas vezes o crime se repita. Além disso, com a pandemia, o governo estadual e os promotores do Estado resolveram esvaziar ainda mais os presídios. O uso de drogas é praticamente liberado.

Os números mostram que essas mudanças não foram benéficas para os californianos. Em 2020, houve um salto de 31% no total de homicídios na Califórnia. Em 2021, as estatísticas foram ainda mais alarmantes. E, proporcionalmente, 2022 está ainda pior que o ano anterior. Hoje, a taxa de homicídios da cidade é o dobro da registrada na cidade de São Paulo.

A alta tolerância com furtos tem consequências previsíveis. Há menos de um mês, dezenas de pessoas invadiram uma loja da 7-Eleven (espécie de loja de conveniência que fica aberta 24 horas). Era pouco mais de meia-noite em Harbor Gateway, um bairro de maioria hispânica.

O bando, que aparentemente havia combinado a invasão pela internet, levou tudo o que podia — cigarros, bebidas e toda a sorte de produtos. Os atendentes, sem ter o que fazer, simplesmente deixaram a loja. As imagens das câmeras de segurança são chocantes mesmo para os padrões da Califórnia, e talvez por isso ganharam a atenção da imprensa internacional.

A reportagem de Oeste esteve no local exatamente três semanas depois. Eram mais de 22 horas. O atendente, aparentemente ressabiado, não quis comentar o incidente.

Na porta, um morador de rua em cadeira de rodas tenta arrecadar alguns trocados. 

Mas, na loja ao lado, uma funcionária que só fala espanhol reclama da falta de segurança. Ela culpa sobretudo os “morenos” (negros). E diz que a mesma loja da 7-Eleven já havia sido assaltada por uma dupla de criminosos. Apesar da declaração da atendente, que revela outro problema de Los Angeles — a falta de integração entre os muitos grupos étnicos que vivem na cidade —, a invasão à loja da 7-Eleven foi feita sobretudo por hispânicos.

Em outra unidade da 7-Eleven, no centro de Los Angeles, um segurança munido de um cassetete fica à porta, avaliando cada pessoa que entra. Ele diz à reportagem que as tentativas de furto são constantes, apesar de o estabelecimento não vender objetos de grande valor. Para comprar um simples copo de café em uma das máquinas automáticas desta loja, é preciso primeiro pedir ao caixa. Normalmente, nas lojas da rede, o copo fica disponível para que os clientes façam tudo sozinhos. Não aqui.

Outros tipos de lojas também têm sido alvo de criminosos depois que o furto foi praticamente descriminalizado. Itens de maior valor, como roupas de marca e aparelhos eletrônicos, são levados e depois revendidos para financiar a compra de drogas. “As pessoas vão a um mercado, enchem um carrinho e vão embora caminhando. Elas podem fazer isso 20 vezes e não são condenadas à prisão”, explica Michael Parker. 

Más políticas

O crime e a desordem não são o único problema a afetar os moradores da Califórnia.

Quando a reportagem de Oeste esteve no Estado, anúncios nas rádios pediam que os moradores economizassem água para evitar o desabastecimento. Ao mesmo tempo, cartazes no hotel informavam que o fornecimento de energia ficaria instável entre 16 horas e 21 horas por decisão do governo, como forma de reduzir a sobrecarga do sistema. Uma campanha nos meios de comunicação não deixava os californianos esquecerem que a infraestrutura elétrica do Estado opera perto do limite.

Apesar da má qualidade dos serviços, custa caro viver na Califórnia. A taxa estadual sobre as vendas é a maior do país, com 7,25% (contra 4% em Nova Iorque, por exemplo).

O combustível também tem o preço mais alto entre todos os Estados Unidos: o valor chega a ultrapassar os US$ 6 por galão (o equivalente a R$ 8,25 por litro), quase o dobro do registrado no Kansas.

Mas os políticos da Califórnia parecem ter outras prioridades. Na semana passada, o prefeito Eric Garcetti participou de uma cerimônia para proclamar o dia 17 de setembro como o Dia do Round 6, em homenagem ao seriado da Netflix. Era uma tentativa de agradar a grande comunidade coreana da cidade — o seriado foi feito na Coreia do Sul. 

Em agosto, a assembleia estadual da Califórnia aprovou uma lei que simplesmente impede a venda de carros a gasolina a partir de 2035. A mesma assembleia aprovou no mês passado a convocação de um plebiscito para que a população decida se hotéis devem ser obrigados a ceder seus quartos vagos a moradores de rua. Não é difícil imaginar algumas das consequências desastrosas da medida sobre o turismo — e, consequentemente, sobre a economia local.

Talvez esses fatores, combinados, ajudem a explicar por que tantos norte-americanos estejam se mudando da Califórnia para Estados como o Texas e a Flórida. A tendência existe há mais de uma década, mas se acelerou com a pandemia. Segundo um estudo do Federal Reserve de Chicago, divulgado em julho, para cada cem pessoas que se mudavam cruzando a divisa da Califórnia, 56 estavam deixando o Estado e aproximadamente 44 estavam chegando. Em 2020 e 2021, a proporção dos que estavam de saída aumentou para quase 60%.

Grandes empresas, como a Tesla, de Elon Musk, têm feito o mesmo. No caso de Musk, o homem mais rico do mundo, o destino foi o Texas. Não há como negar que as políticas adotadas pelo Partido Democrata agravaram, e muito, o problema. Mas isso não explica por que os californianos continuam elegendo o Partido Democrata. 

Ideais socialistas

No dia de seu aniversário, Tuck Dowrey tentava fisgar algum peixe no lago do belo Echo Park, um parque na área central de Los Angeles. Até março deste ano, o local estava ocupado por barracas e mais barracas. Agora, a situação está bem diferente. A prefeitura removeu os sem-teto do local; alguns foram encaminhados a abrigos, e o restante optou por permanecer nas ruas. 

Para Tuck e sua amiga Kirsten Knisley, nada mudou. Ambos disseram à reportagem de Oeste que não se sentem ameaçados com a grande presença dos sem-teto na cidade .“Eles são parte da cultura de Los Angeles e não incomodam, exceto quando algum deles está alterado, e a situação se torna um pouco assustadora”, afirma Kirsten. Ela, que se diz simpática ao socialismo, também apoia as normas que impedem a prisão de quem é flagrado cometendo “pequenos furtos”. “Nós deveríamos oferecer mais apoio a essas pessoas”, acredita ela, que culpa o custo de vida elevado da Califórnia pelo grande número de pessoas vivendo nas ruas.

Tuck Dowrey e sua amiga Kirsten Knisley | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste

Para Tuck, a solução seria um programa universal de renda mínima que garantisse a cada norte-americano um valor mensal capaz de suprir suas necessidades essenciais. “Muita gente prefere ir para a prisão, porque pelo menos lá existe comida e um teto”, teoriza.

Kirsten veio do Michigan há nove anos. Tuck, de Illinois há seis. Ambos trabalham na indústria do cinema. Eles são um exemplo de um fenômeno que talvez ajude a explicar a hegemonia do Partido Democrata na Califórnia, apesar de todos os problemas enfrentados pelo Estado: a Califórnia costuma atrair as pessoas mais liberais de outros Estados. E, com frequência cada vez maior, os conservadores estão deixando a Califórnia. Isso significa que há poucas perspectivas de uma mudança política no futuro próximo.

Fracasso das políticas de esquerda

A opinião de Tuck e Kirsten difere da de Kevin Dahlgren, que atua há 26 anos no atendimento a moradores de rua na Costa Oeste dos Estados Unidos. Para ele, as forças políticas de esquerda não fazem o diagnóstico correto do problema. “Nós nunca temos dificuldades em encontrar moradia”, afirma. “A parte difícil é fazer essas pessoas aceitarem ir para uma moradia.” No dia anterior, em São Francisco, ele havia encontrado uma mulher que, mesmo tendo recebido a chave de seu novo apartamento, continuava passando o dia sentada em uma calçada em uma área degradada da cidade. Ela disse que adotou o hábito por causa dos amigos que fez enquanto morava na rua. Kevin está convencido de que a dependência química é a verdadeira razão para o estranho costume.

Hoje, Kevin (que vive no Estado vizinho do Oregon) atua ao lado da assistente social Andrea Suarez em um projeto chamado We Heart Seattle, que tem sua base no Estado vizinho de Washington. O programa, financiado com doações privadas e apoiado pelo trabalho de 500 voluntários, emprega moradores de rua na limpeza de áreas ocupadas por esses moradores. É um benefício duplo. Pelas contas de Andrea, a iniciativa já retirou 150 pessoas das ruas — apesar do boicote de organizações mais à esquerda, que já tentaram impedir fisicamente o trabalho da We Heart Seattle.

A Oeste, Andrea afirmou que cerca de um terço dos moradores de rua da região vem de outras partes do país. “Encontro pessoas do Arizona, de Utah, Texas dizendo que vieram para cá porque sabem que não serão presas, apesar de terem uma vida de crime”, disse. 

Eric e Andrea são filiados ao Partido Democrata. Eles se definem como “centristas” e criticam a postura do partido diante da crise na Costa Oeste. Sentem-se abandonados por aqueles que dizem se importar com os mais pobres. “A situação atual é o resultado do fracasso das políticas progressistas”, diz ele.

Flagrantes em vídeo

Outro cartão-postal da Califórnia afetado pela crise dos sem-teto é a Praia de Venice. Embora a cidade tenha conseguido remover muitos dos moradores de rua que ocupavam o famoso calçadão em frente ao mar, ainda há dezenas deles vivendo por lá. Basta uma rápida caminhada pela região para atestar isso.

Um grupo de moradores de rua transformou um quiosque público em sua área particular — com direito a varal de roupas.  Assim como em Skid Row, no centro de Los Angeles e em Hollywood, a reportagem de Oeste presenciou alguns desses moradores de rua falando palavras desconexas e consumindo drogas sem serem incomodados pela polícia. 

Moradores de rua dominam os quiosques da Praia de Venice | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste

Em Venice, as cenas de agressão e intimidação dos turistas se repetem com frequência. A página do Twitter “Venice Beach Boardwalk” começou a documentar a situação em abril de 2020, e hoje tem mais de 14 mil seguidores.
Os vídeos são assustadores.

Sentado em uma barraquinha de onde distribui bíblias e panfletos cristãos em um domingo à tarde, em Venice, o pastor Michael Spencer diz a Oeste que a situação em Los Angeles se deve, em grande parte, à ilusão de que os moradores de rua chegaram a esse ponto unicamente por falta de dinheiro. “Ninguém passa fome nos Estados Unidos. Aqui, os moradores de rua chegam a jogar comida fora”, ele diz. 

Pastor Michael Spencer | Foto: Gabriel de Arruda Castro/Revista Oeste

Medindo as palavras, Spencer afirma que até mesmo as igrejas que distribuem alimentos aos moradores de rua podem estar fazendo mais mal do que bem. “As pessoas podem ter boas intenções, mas acabam não colaborando com a solução do problema”, diz o pastor, que também critica as leis penais ineficazes da Califórnia. Ele sabe do que está falando: Spencer atua como capelão em um projeto voltado ao auxílio a moradores de rua em Skid Row.

O pastor não tem dúvidas de que as causas da crise são morais e espirituais — justamente os aspectos mais negligenciados pelos programas do governo. Kevin Dahlgren concorda. “Nós estamos convencidos de que todas as pessoas apreciam um senso de propósito e uma vida estruturada”, diz. “Quando encontramos um morador de rua que compreende isto, é fácil quebrar o ciclo.”

É possível que eles estejam corretos. Se na hedonista Califórnia não faltam alimento, moradia nem dinheiro, talvez a raiz do problema não seja material.

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