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Multidão assiste Ron DeSantis se reeleger como governador na Florida, 8/11/2022 | Foto: Brett Farmer/Shutterstock
Edição 138

Um novo Ronald para a América

O governador da Flórida não apenas foi reeleito com números extraordinários na última terça-feira, mas redesenhou o mapa político no Estado

Ana Paula Henkel
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Os números finais dos midterms, eleições de meio de mandato nos Estados Unidos realizadas na última terça-feira, ainda não foram contabilizados na sua totalidade, mas o prognóstico é que os republicanos retomem a maioria pelo menos da Câmara. A liderança do Senado ainda depende do resultado das apurações em três Estados: Nevada, Arizona e Geórgia, onde haverá um segundo turno, em dezembro. Mas uma liderança já emergiu de forma contundente para o partido de Ronald Reagan: Ronald DeSantis.

O governador da Flórida não apenas foi reeleito com números extraordinários na última terça-feira, mas redesenhou o mapa político no Estado — que passou de “swing state” (ou “Estado roxo”), denominação para Estados que votam com democratas e republicanos, para um “deep red state”, ou seja: que vota de maneira sólida e consistente com os republicanos. Ron DeSantis derrotou o democrata Charlie Crist com uma vitória avassaladora que moldará a política da Flórida por anos e colocará o governador republicano em uma provável corrida presidencial em 2024.

DeSantis derrotou Crist por uma margem de quase 20 pontos, a margem mais ampla em uma corrida para governador da Flórida desde que Jeb Bush venceu por quase 13 pontos, em 2002. DeSantis também venceu com folga no sólido e famoso reduto democrata do condado de Miami–Dade, tomado pelo partido de oposição há quase duas décadas. No condado de Miami–Dade, o presidente Joe Biden, por exemplo, venceu por 16 pontos porcentuais em 2020, mas DeSantis venceu com facilidade nesta semana. A margem de vitória não foi apenas surpreendente, mas também reforçou uma realidade emergente: os eleitores hispânicos podem estar mudando sua aliança de longo prazo para os republicanos.

DeSantis foi recebido por uma multidão em sua festa eleitoral no Centro de Convenções de Tampa, e o que foi mostrado na TV já é visto como uma prévia do que está por vir: uma corrida presidencial para a Casa Branca. Para quem gosta de números, que podem moldar a dimensão de acontecimentos políticos, sim, eles são impressionantes:

— A diferença entre as margens de vitória de DeSantis em 2018 e 2022 é de 1.474.618 votos. DeSantis derrotou o democrata Charlie Crist por 1,5 milhão de votos na terça-feira, apenas quatro anos após sua vitória apertada com apenas 30 mil votos sobre o democrata Andrew Gillum;

— Dos 67 condados, DeSantis venceu em 62. Ele perdeu quase o triplo desse número de condados em 2018;

— No clássico “condado azul” de Miami–Dade, DeSantis levou a eleição por dois dígitos na terça-feira, apenas seis anos depois de a democrata Hillary Clinton ter vencido por 30 pontos em 2016;

—150 anos. É a primeira vez que o partido alcança o marco desde a Era da Reconstrução (Pós-Guerra Civil);

— Das 40 cadeiras do Senado estadual e 120 da Câmara do Estado, os republicanos ocupam agora 28 e 85, respectivamente, dando-lhes uma margem à prova de veto em ambas as Casas, limitando significativamente o Poder Legislativo dos democratas;

— DeSantis mostrou estupenda performance também entre grupos que já votaram majoritariamente com os democratas: 57% dos hispânicos, 52% das mulheres, 58% dos eleitores dos subúrbios e 52% de eleitores independentes ajudaram na histórica vitória do republicano.

Resultado das eleições 2022 para governador na Flórida | Foto: Reprodução/Associated Press

A vitória por grande margem foi repetida por Marco Rubio, senador reeleito pelo Estado e que venceu por 16 pontos seu oponente. Os republicanos também elegeram o procurador-geral, o diretor-financeiro e o diretor-geral de Agricultura, que venceram por 10 pontos ou mais. Pela primeira vez em muito tempo, os republicanos não apenas venceram na Flórida; eles venceram de lavada na Flórida.

O consórcio norte-americano está de cabelo em pé e sem entender o que aconteceu no “Sunshine State”. DeSantis, agora num possível caminho para a Casa Branca, pode ser uma pedra bem maior no sapato democrata do que o Donald Trump. DeSantis foi elevado ao primeiro mandato com a ajuda de Trump, fato; e exatamente porque abraçou as políticas trumpianas, mantendo-se firme contra a turba esquerdista, liderando seu Estado durante a pandemia com brilhantismo, coragem e responsabilidade e, mais recentemente, administrando com grande competência os danos horríveis causados pelo furacão Ian.

DeSantis é inegavelmente um produto das políticas de Trump, descartando, no entanto, o lado “tóxico” que muitos ainda veem no ex-presidente

Seria tentador supor que essa vitória pode ter sido impulsionada principalmente pelos recém-chegados à Flórida, cidadãos de todo o país poderiam estar, na verdade, votando contra os Estados que deixaram para trás que viraram verdadeiras Cortes draconianas durante a pandemia. Mas há mais. Certamente, os votos dessas pessoas pesaram e continuarão mexendo na balança política daqui para a frente, mas a reeleição de DeSantis foi uma tempestade perfeita para a coroação da coragem.

Muitos já correram para dizer também que “o voto hispânico” foi o divisor de águas, sem se atentar a que no pacote da espetacular vitória há os gastos irresponsáveis dos democratas em Washington, D.C.; a caótica e irresponsável crise na fronteira sul; a marca de Ron DeSantis como um baluarte contra o “Estado-babá”; um governo que lutou contra os efeitos persistentes da esquizofrenia da covid, especialmente os lockdowns eternos em quase todos os Estados norte-americanos. As escolas públicas da Flórida nunca foram fechadas, o comércio seguiu aberto desde 2020 e um plano de uma segregação de vulneráveis e idoso foi colocado em ação — a vida seguiu de maneira responsável.

DeSantis sempre fez questão de estabelecer um paralelo em sua administração com Ronald Reagan, que, antes de se tornar presidente em 1980, governou a Califórnia por dois mandatos. Para os admiradores de Reagan, é clara a conexão que o novo Ronald faz com o velho Ronald, não apenas na agenda política, mas nas palavras recheadas de referências ao ídolo do passado. Em seu discurso de vitória, na terça-feira, o governador Ronald da Flórida mostrou que será difícil evitar o caminho até a Casa Branca trilhado pelo governador Ronald da Califórnia. Diante de uma multidão ensurdecedora, aquele que pode ser o novo líder do partido de Reagan foi enfático e certeiro em seu discurso:

“Nos últimos quatro anos, vimos grandes desafios para o povo de nosso Estado, para os cidadãos dos Estados Unidos e, acima de tudo, para a causa da liberdade. Vimos a liberdade em nosso próprio modo de vida e tantas outras jurisdições neste país murcharem. A Flórida manteve o fronte. Escolhemos os fatos ao invés do medo. Escolhemos a educação ao invés da doutrinação. Escolhemos a lei e a ordem em vez de tumultos e desordem. A Flórida foi um refúgio de sanidade quando o mundo enlouquecia. Permanecemos como uma cidadela de liberdade para as pessoas em todo o país e, de fato, em todo o mundo. Enfrentamos ataques, sofremos golpes, resistimos às tempestades, mas nos mantivemos firmes. Nós não recuamos. Tínhamos a convicção de nos guiar de modo independente e tivemos a coragem de liderar. A liberdade veio para ficar.

Praias do Condado de Pinellas, FL, fechadas devido à pandemia de coronavírus (covid-19). St. Pete Beach, FL, 27/3/2020 | Foto: Shutterstock

(…) A Flórida, para muitos, serviu como a terra prometida. Abraçamos a liberdade. Mantivemos a lei e a ordem. Nós protegemos os direitos dos pais. Respeitamos nossos contribuintes e rejeitamos a ideologia da esquerda. Lutamos contra a “lacração” (woke) na legislatura. Lutamos contra a “lacração” nas escolas. Lutamos contra a “lacração” nas corporações. Nós nunca, jamais nos renderemos à turba esquerdista. A Flórida é onde essa “lacração” vai morrer. Enquanto nosso país se debate devido à liderança fracassada em Washington, a Flórida está no caminho certo. A Flórida será o farol da liberdade”.

Então, DeSantis é o próximo Reagan? Claro que não. E ele não precisa ser. Ele simplesmente tem de ser a melhor versão do único Ronald DeSantis. Ele pode conquistar os eleitores no país sendo ele mesmo, contando suas próprias experiências de vida enquanto fala sobre sua visão e suas realizações. Como Ronald Reagan fez. Alguns acreditam que Reagan entrou de vez na cena política e de forma transformadora com seu discurso de 1964 “A Time for Choosing” (já escrevi sobre esse espetacular discurso aqui em Oeste), observações que ele fez em apoio ao então candidato presidencial do Partido Republicano, Barry Goldwater.

Há dois pontos tocados por Reagan naquele discurso que certamente ressoam hoje para a maioria dos conservadores nos EUA e no mundo — e talvez essa conexão seja o trunfo de DeSantis. O primeiro é a advertência que Reagan faz de que “os Pais Fundadores sabiam que um governo não pode controlar a economia sem controlar as pessoas”. E que “eles sabiam que, quando um governo se propõe a fazer isso, deve usar a força e a coerção para atingir seu objetivo. Então, chegamos a um momento de escolha”. No segundo ponto, Reagan diz que “você e eu fomos avisados que devemos escolher entre esquerda ou direita, mas creio que não há esquerda ou direita. Há apenas para cima ou para baixo. Para cima até o sonho antigo de um homem — o máximo de liberdade individual que consiste na lei e na ordem — ou para baixo até o totalitarismo”.

O deputado Ron DeSantis se dirige a uma multidão, enquanto o presidente Donald Trump assiste, em Tampa, Flórida, em 31 de julho de 2018 | Foto: Shutterstock

As advertências de um dos maiores ícones políticos da história, proferidas há quase seis décadas, podem ecoar alto na mente de muitos norte-americanos (e brasileiros!) hoje. São eleitores que estão esperando para ver se DeSantis ou outro republicano usará temas semelhantes como base para uma campanha nacional.

Antes da pandemia, era difícil para alguns imaginar DeSantis, um garoto vindo da classe trabalhadora norte-americana e que entrou para a famosa Universidade de Yale, formou-se com honras na Harvard Law School e depois serviu na Marinha dos EUA, tornar-se um dos líderes do atual Partido Republicano. O governador entrou no cenário nacional por causa de sua resposta à pandemia e sua oposição aos lockdowns draconianos no Estado da Flórida. Mas ele também se opôs fortemente à teoria racial crítica (RCT) e se tornou a face pública da lei de direitos dos pais liderada pelo Partido Republicano, que restringe os professores de darem instruções em sala de aula sobre orientação sexual e identidade de gênero para alunos do jardim de infância à terceira série. DeSantis acabou de assinar também um projeto de lei que ensinará aos estudantes da Flórida que “o comunismo é perverso”. É um movimento direto do manual de Reagan, que chamou o comunismo de “império do mal”.

Poucos dias antes da eleição, Ron DeSantis fez uma publicação em seu Twitter: “O presidente Reagan nos disse que a liberdade é uma tocha a ser protegida e mantida de geração em geração”.

DeSantis é inegavelmente um produto das políticas de Trump, descartando, no entanto, o lado “tóxico” que muitos ainda veem no ex-presidente. As ambições nacionais da nova sensação do partido republicano podem bater de frente com Trump, que pode anunciar uma corrida à Casa Branca em 2024 em alguns dias.

Resta saber se os eleitores do velho Ronald vão de Ronald ou Donald.

Leia também “Um disco arranhado até 2026”

18 comentários
  1. Gaspar Ferreira Antunes
    Gaspar Ferreira Antunes

    DeSantis: uma luz no fim do túnel.

  2. Vania L M Marinelli
    Vania L M Marinelli

    Ótimo artigo, Ana! Deixa a gente ficar bem a par do que está rolando por aí!

  3. Lucia Maria v. C. Kountouriotis
    Lucia Maria v. C. Kountouriotis

    parabens Revista Oeste. Tinha desistido dos noticiarios da Jovem Pan quando sairam os melhores comentaristas da TV brasileira. Vou para o you tube com vcs e quero renovar a assinatura que fiz, desta revista , em carater de experiencia.

  4. MB
    MB

    Eita texto bom!
    Muita informação importante e no detalhe. ?Quem sabe uma dobradinha Donald Ronald? Seriam imbatíveis, não acha? O presidente Biden foi Vice 2 vezes e De Santis ainda é moço, sei lá.

    1. Wagner dos Reis Silva
      Wagner dos Reis Silva

      Momento muito importante e espero muito que o Trump tenha o Ronald como aliado, os dois juntos podem mais! Que artigo fantástico, gostei bastante.

  5. Jose Renato Monteiro
    Jose Renato Monteiro

    Recém assinei a Oeste depois que vocês chegaram. Moro em Hollywood, FL ha 24 anos e sou cidadão ha 14. Não tenho preferencia partidária, me considero independente, ao sabor das minhas convicções. Acho o Ron de Santis um político eficiente a moderno. Nunca votei no Trump nem no Lula, e nunca votarei. O agente laranja e o ladrão são os dois maiores mentirosos que conheço. Com origens opostas, são ignorantes e presunçosos igualmente. O Trump é mais perigoso pois milita no pais mais importante do mundo. A unica diferença é que o Trump é um craque na escolha de esposas, e o Lula é um horror. Se o De Santis for candidato terá o meu voto. Em tempo, não votei no Suplicy americano na última eleição, e óbvio, nem no Trump. Escolhi uma libertária não socialista, que não pagou nem placê. O que mais admiro aqui nos USA é a a real alternância do poder. Isso e a liberdade fazem toda a diferença. Tenho 76 anos, liberal, ateu desde os 10 e casado ha 53 anos. Auto exilado por vontade própria aos 52. Arrependimento, só tenho do que não tentei.

  6. Rogerio De Souza
    Rogerio De Souza

    Fico torcendo que o Tarcísio seja um DeSantis aqui em SP

  7. Paulo Kubota
    Paulo Kubota

    Pena que essa vitória do conservadorismo de De Sanctis veio tarde para que nós brasileiros ouvindo-o poderíamos ter dado um resultado maior para a continuidade do Bolsonaro. A grande diferença é que lá a Justiça (é maiúscula) e que na realidade aqui imperou a ditadura em todos os aspectos que Flórida venceu – sem lockdown, ação sanitária baseada na Ciência, etc.

  8. Luiz Antônio Alves
    Luiz Antônio Alves

    tuc tuc tuc

  9. Caio dos Santos Oliveira
    Caio dos Santos Oliveira

    Apesar de eu ser um fã do Donald Trump, acredito que o DeSAntis tem mais capital político para ganhar as próximas eleições.
    Ele é tão duro quanto o Trump em suas convicções e defesa das liberdades, porém consegue dialogar melhor com o eleitorado.

  10. Roberto Gomes
    Roberto Gomes

    Maravilhoso artigo. Aprendi muito, Ana. Obrigado. Abraço forte. P. S. Aqui diz que já disse isso. Mas vale repetir! Kkkkk

  11. Roberto Gomes
    Roberto Gomes

    Maravilhoso artigo. Aprendi muito, Ana. Obrigado. Abraço forte.

  12. Inácio De Loiola Saraiva
    Inácio De Loiola Saraiva

    Parabéns! Excelente análise.

  13. nader murad
    nader murad

    ok gostaria que vc transmite o que se passa na AMERICA foi util

    1. Luzia Helena Lacetda Nunes Da Silva
      Luzia Helena Lacetda Nunes Da Silva

      Meu palpite: os eleitores em 2024 irão de Ronald.
      Assim espero.

      1. Yara
        Yara

        Moro na Flórida e espero não vê-los (Don & Ron!) brigando, porque gosto muito dos dois; espero que estejam no mesmo time.

  14. Jose Carlos Rodrigues Da Silva
    Jose Carlos Rodrigues Da Silva

    AQUI NO BRASIL NO DIA 01 DE JANEIRO SERÁ ASSIM: “Estamos caminhando para o socialismo, um sistema que, como se diz, só funciona no Céu, onde não precisam dele, e no inferno, onde ele já existe”.

  15. José Marcelino Monteiro de Alcantara
    José Marcelino Monteiro de Alcantara

    Excelente conteúdo que nos dá ânimo
    para perseverarmos em nossos ideais.

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