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Janelas quebradas no Palácio do Planalto após atos de vandalismo no último domingo, 8 | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Edição 147

Brasília, 8 de janeiro de 2023

Tensão, conflito e prisões marcaram as manifestações contra os Três Poderes em Brasília

Cristyan Costa
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Brasília, 8 de janeiro de 2023, 6 horas. A frota de carros que transita diariamente pelas largas vias da capital federal dá lugar a veículos com a inscrição da Força Nacional de Segurança. Nas ruas, o mosaico de cores das pessoas que circulam todos os dias cede espaço ao monocromático das fardas dos agentes de segurança. O clima é de tensão geral, sobretudo na Esplanada dos Ministérios, que aguarda a chegada de manifestantes para um protesto contra Lula.

O ministro da Justiça, Flávio Dino, publicara uma portaria, um dia antes, disponibilizando 400 agentes da Força Nacional para “auxiliar na proteção da ordem pública e do patrimônio público e privado entre a Rodoviária de Brasília e a Praça dos Três Poderes, assim como na proteção de outros bens da União situados em Brasília”. A Força Nacional é agrupamento de soldados da Polícia Militar de diferentes Estados, convocados em casos de emergência, quando o efetivo de determinada localidade é insuficiente. O pedido havia sido feito por Lula, que decidiu viajar para Araraquara (SP), cidade administrada pelo amigo Edinho Silva (PT), no interior paulista. A intenção era “prestar solidariedade” às famílias que perderam suas casas por causa das fortes chuvas.

A quase 7 quilômetros da Esplanada, dezenas de ônibus estacionados em frente ao Quartel-General do Exército trouxeram milhares de pessoas de todos os cantos do Brasil. O objetivo principal: participar da manifestação convocada por meio das redes sociais. Os organizadores do ato ainda não foram totalmente identificados, assim como os patrocinadores que alugaram os meios de transporte que trouxeram a multidão.

É possível ver nas imagens uma quantidade reduzida de agentes de segurança no local, que tentam controlar as pessoas. Enquanto as coisas vão acontecendo rapidamente, podem-se ouvir, em alguns vídeos, pessoas no fundo pedindo para não haver “quebra-quebra”

Às 13 horas, os manifestantes iniciam uma marcha pacífica em direção à Esplanada, em alguns momentos, cantando o Hino Nacional. Ao chegarem ao destino, passam por uma revista da polícia e seguem para o gramado. Às 15 horas, um grupo de manifestantes fura o bloqueio humano que protegia a rua de acesso ao Congresso Nacional e corre em direção à sede do Parlamento, seguido por outras pessoas que agem em comportamento de manada. Ao chegarem ao Parlamento, os manifestantes ocupam a marquise, a rampa e o teto do prédio. Não demora muito para a área interna do edifício ser invadida pelo grupo.

Manifestantes invadiram o Congresso, o STF e o Palácio do Planalto (8/1/2023) | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Vídeos registrados pelos próprios manifestantes, às 15h30, mostram alguns vidros da entrada principal da Câmara dos Deputados já quebrados e placas com orientações derrubadas. Alguns manifestantes gritavam: “Entramos”; “Somos nós que mandamos aqui”. O grupo vai em direção ao Salão Verde — uma espécie de antessala do plenário da Câmara, onde os deputados fazem pronunciamentos e falam com a imprensa — e ali ficam acampados, entoando músicas patrióticas e rezando.

Em seguida, outro grupo vai ao Senado, onde deixa um rastro de destruição — em virtude dos danos, houve alagamento no hall da Casa. Homens tomam conta da Mesa Diretora, onde se senta o presidente Rodrigo Pacheco, e repetem a frase: “Ocupamos a Casa do povo”. É possível ver nas imagens uma quantidade reduzida de agentes de segurança no local, que tentam controlar as pessoas. Enquanto as coisas vão acontecendo rapidamente, podem-se ouvir, em alguns vídeos, pessoas no fundo pedindo para não haver “quebra-quebra”.

https://www.youtube.com/shorts/hmR71bIGOBQ

Embora as autoridades ainda não tenham chegado a uma conclusão, os manifestantes afirmam haver infiltrados no ato. Um vídeo que circula nas redes sociais registra o que seriam esquerdistas causando vandalismo no Congresso. “Estamos lutando contra o próprio povo que está aqui”, diz Vania Regina Mielke, responsável por gravar um vídeo. Nas imagens, alguns homens ateiam fogo em frente à sala da liderança do PT na Câmara, enquanto são repreendidos por um cordão de gente. Em certo momento, um homem chega a descer o gramado para tentar apagar as chamas.

Às 15h45, com efetivo reduzido, a Polícia Militar do Distrito Federal começou a dispersar os manifestantes com bombas de efeito moral. Autoridades, como os presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, começam a se pronunciar nas redes sociais. A cobertura da imprensa se intensifica. O ministro da Justiça, Flávio Dino, escrevera minutos antes que acompanhara os atos “com atenção”.

Palácio do Planalto

Às 15h50, enquanto o Congresso Nacional já estava sitiado, outro grupo de pessoas entrava no Palácio do Planalto. O Batalhão da Guarda Presidencial, que deveria estar a postos no momento da invasão, foi aparecer apenas depois que os manifestantes já estavam no interior do prédio. Como no Congresso, o Planalto também foi alvo de vandalismo. A galeria dos ex-presidentes foi totalmente destruída. Obras de arte, como o quadro As Mulatas, de Di Cavalcanti, ficaram danificadas, além de mobílias antigas, como uma mesa de trabalho de Juscelino Kubitschek, usada de escudo contra projéteis disparados pela polícia.

Do lado de fora, a Cavalaria da Polícia Militar tenta afastar a multidão, em meio à gritaria e a bombas de efeito moral, mas não consegue ultrapassar a rampa e acaba obrigada a recuar. Há registros de agressão aos animais e até a um policial montado.

Supremo Tribunal Federal

Às 16 horas, os manifestantes conseguem entrar no Supremo Tribunal Federal (STF). O local de maior interesse era o plenário, onde os ministros da Corte tomam uma série de decisões em colegiado. Imagens mostram cadeiras rasgadas e removidas de seus lugares, gabinetes destruídos e portas arrancadas — uma delas, do armário onde fica a toga do ministro Alexandre de Moraes.

Manifestante segura porta com o nome do ministro Alexandre de Moraes, depois de protesto na sede da Corte (8/1/2022) | Foto: Reprodução

Do lado de fora, pichações nas janelas do Palácio da Justiça diziam: “Perdeu, mané”, em alusão a uma frase do ministro Luís Roberto Barroso. Durante um ciclo de palestras em Nova Iorque, em novembro de 2022, o magistrado usou a expressão para responder a um manifestante que o interpelara sobre quando o STF entregaria o código-fonte das urnas eletrônicas aos militares. Também a estátua da Justiça foi pichada com o termo usado por Barroso.

Palácio do Supremo Tribunal Federal destruído, após vandalismo de manifestantes no domingo 8 | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Militares e veículos da Força Nacional de Segurança Pública do Brasil, em frente ao Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, em Brasília | Foto: José Cruz/Agência Brasil


Prisões e consequências

A situação foi normalizada apenas às 18h20, com a chegada do pleno efetivo das forças de segurança do Distrito Federal (DF) à Esplanada. Os policiais prenderam várias pessoas que se encontravam nos prédios públicos. O presidente Lula decretou intervenção federal na segurança pública do DF naquela noite. O governador Ibaneis Rocha demitiu o então secretário de Segurança, Anderson Torres, ex-ministro do governo Bolsonaro, e desculpou-se publicamente por não ter conseguido evitar o ocorrido.

Diversos políticos se manifestam contra as cenas de vandalismo, entre eles, figuras de centro-direita, como os governadores Tarcísio Gomes de Freitas (São Paulo) e Romeu Zema (Minas Gerais). O ex-presidente Jair Bolsonaro repudiou a violência.  “Manifestações pacíficas, na forma da lei, fazem parte da democracia”, observou. “Contudo, depredações e invasões de prédios públicos, como ocorridos no dia de hoje, assim como os praticados pela esquerda em 2013 e 2017, fogem à regra.”

No dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes decreta o afastamento de Ibaneis do cargo, por 90 dias, e manda a polícia desfazer o acampamento em frente ao QG do Exército. Mais de mil pessoas são levadas a um ginásio, entre elas, idosos e crianças (algumas separadas dos pais). No local, os manifestantes assinam — obrigados — uma “nota de culpa”, que os responsabiliza por alguns crimes.

“Dos artigos previstos nos artigos 2°, 3°, 5° e 6° (atos terroristas, inclusive preparatórios) da Lei 13.260, de 16 de março de 2016, artigos 288 (associação criminosa), 359-L (abolição violenta do Estado Democrático de Direito) e 359-M (golpe de Estado), 147 (ameaça), 147-A, § 1°, III (perseguição), 286 (incitação ao crime), além de dano ao patrimônio público (artigo 163, III), todos do Código Penal”, diz trecho da nota de culpa assinada por manifestantes.

Nesta semana, soube-se que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) emitiu uma série de alertas ao governo federal sobre o risco iminente de invasão de prédios públicos, antes de as manifestações saírem do controle. O órgão é subordinado ao Gabinete de Segurança Institucional do Executivo. De acordo com a Folha, os órgãos que compõem o Sistema Brasileiro de Inteligência receberam os comunicados. A estrutura contém 48 órgãos, que estão subordinados a 16 ministérios, portanto, ao presidente da República. A lista inclui, por exemplo, o Ministério da Justiça.

O ex-presidente Jair Bolsonaro repudiou a violência.  “Manifestações pacíficas, na forma da lei, fazem parte da democracia”, observou. “Contudo, depredações e invasões de prédios públicos, como ocorridos no dia de hoje, assim como os praticados pela esquerda em 2013 e 2017, fogem à regra”

Não se sabe, ainda, por que apenas o governo do Distrito Federal e os manifestantes estão sendo os únicos responsabilizados pelo que houve, tampouco a razão de o Estado ter demorado tanto para agir. Sabe-se, contudo, que, apesar das cenas de vandalismo registradas na Praça dos Três Poderes, não se tem notícia na história do Brasil da prisão, em condições precárias, de milhares de pessoas que saíram para se manifestar — leia-se: detenções sem individualização de conduta. A multidão de presos não tem parâmetro na história, nem mesmo no histórico Congresso da UNE, em Ibiúna, na década de 1960, quando agentes do regime militar invadiram o evento e prenderam militantes de esquerda.

Palácio do Supremo Tribunal Federal destruído, no domingo 8 | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Leia também “A Era da Grande Mentira”

5 comentários
  1. ANTONIO CARLOS BRUM DE SOUZA
    ANTONIO CARLOS BRUM DE SOUZA

    Uma ARMADILHA bem montada! Ouvi, das pessoas acampadas em frente ao QGEx, que a ocupação da Esplanada seria realizada no domingo (8), à noite. Na ocasião, alguém disse que, isso só poderia acontecer se houvesse, pelo menos, um milhão de pessoas na manifestação; que, menos que isso, iriam lá “só para apanhar”. No domingo, quando vi a notícia do início da ocupação da Esplanada, achei que haviam se precipitado. Mas, quando vi, logo em seguida, vídeos dando a informação de que os prédios já haviam sido ocupados, pensei: “Algo está errado! Foi fácil demais!!!”. Dito e feito: os cidadãos de bem foram enganados por todos! Foram enganados pela PM/DF, que disse aos acampados que eles poderiam ir à esplanada e que, inclusive, a polícia iria garantir a segurança dos mesmos. Foram enganados pela Esquerda, que, mesmo com a informação da ABIN, dispensou grande parte do efetivo da segurança do Palácio do Planalto; além de infiltrar os “black blocs” para a depredação dos prédios. E, foram enganados e TRAÍDOS PELO EXÉRCITO, que os entregou, sem nenhuma providência garantidora de suas integridades físicas e direitos fundamentais da pessoa humana, à PF, que também as enganou, dizendo que iriam ser levadas para a Rodoviária, mas as trancafiou no CAMPO DE CONCENTRAÇÃO da Academia Nacional de Polícia. E, nada será feito por elas, a não ser essas manifestações na internet, que de nada servirão…

  2. Humberto José Silva
    Humberto José Silva

    Sou paulista criado nas Usinas Junqueira sub região de Franca onde Vivi até os 20 anos Hoje tenho 75 anos eu contemplava o sonho de Roberto Campos dos anos 60 o Brasil uma economia pujante o professor Darcy Ribeiro um entusiasta da miscigenação hoje tudo mudou mudou para pior não se pode discutir ideias tem que aceitar doutrinações aos amigos tudo pode aos inimigos a lei Quando olho o nível das pessoas que ocupa os três poderes tenho vergonha de ser brasileiro tenho Desgosto de ter que viver esses dias não poderia deixar de elogiar a grandeza e a coragem dos comentaristas e editores da revista Oeste vocês são ímpar

  3. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Tem de chamar com o nome certo: Campo de concentração

  4. Joel Luiz Oliveira Rios
    Joel Luiz Oliveira Rios

    Isto é uma vergonha. Como brasileiro jamais poderia imaginar vivenciar tudo isso causado por omissão do nosso congresso nacional repleto de maioria canalhas, patifes e omissos em cumprirem a constituição, estão deixando a nação e o povo sofrer todas as consequências das arbitrariedades de todos que deveriam cumprí-la e fazê-la valer pra todos os cidadãos brasileiros indistintamente. Todos pagaremos o preço da nossa irresponsabilidade e falta de amor à Pátria e à nós mesmos, comprometendo de forma talvez irreversível o futuro dos nossos filhos e netos. às vezes não quero acreditar no que estou vendo. Triste realidade.

  5. Marc Temmerman
    Marc Temmerman

    Eu sou estrangeiro e o que acontece no Brasil não poderia acontecer na Europa.
    Não é esquerda mas extrema esquerda, todos as leis básicas são ultrapassadas!
    Um Tribunal Superior que governe o pais!!!

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