Pular para o conteúdo
publicidade
americanas rombo
Sergio Rial, ex-CEO da Americanas (AMER3) | Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução/Shutterstock
Edição 147

O rombo de R$ 20 bilhões e o unicórnio brasileiro

A não falência das Americanas, os milhões de Sergio Rial e o bilhão da 99

Bruno Meyer
-

Qual é o papel e a responsabilidade da PriceWaterhouseCoopers (PWC) no rombo de R$ 20 bilhões nas Americanas? Essa foi uma das primeiras e principais perguntas que circularam inicialmente nos mais variados grupos corporativos de investidores no WhatsApp sobre a PWC. A consultoria revisa e chancela os resultados financeiros da varejista, quando saiu a bomba fiscal das Americanas, tendo como consequência a renúncia do CEO, Sérgio Rial, com apenas nove dias no cargo depois do déficit bilionário. Ele ocupou a cadeira de Miguel Gutierrez, executivo que ficou na empresa por três décadas.

O rombo de R$ 20 bilhões…

O interesse nas redes sociais foi intenso com o caso, mesmo sendo um tema do mundo dos negócios, que não costuma repercutir fora da bolha financeira: foram 3,5 mil tuítes sobre o tema entre a noite de quarta-feira até as primeiras horas de quinta-feira 12, além de 240 reportagens, que alimentaram jornais e sites, de acordo com a consultoria Bites. Em nota, a varejista diz que o rombo aconteceu por “inconsistências em lançamentos contábeis”. Na prática, são operações de financiamentos com bancos para o pagamento de fornecedores nos quais as Americanas passam a ser devedora de instituições financeiras e que não apareciam devidamente nos balanços. É isso que pode ter sido subestimado ao longo dos últimos anos.

Fachada das lojas Americanas | Foto: Reprodução

…e a narrativa da falência

Um dos pontos que chamaram atenção nas redes com o caso na pesquisa da Bites foi o verbo falir. “Há a construção de uma narrativa por quem está fora do mercado de uma possibilidade de falência da empresa”, diz Manoel Fernandes, CEO da Bites. Dos seis gestores de fundos de investimentos consultados pela coluna, apenas um falou em falência das Americanas, grupo fundado em 1929, em Niterói. Mas a magnitude do caso da varejista só teve precedente uma vez no mercado acionário brasileiro. “Não foi igual, mas proporcional com a Telemar (antiga Oi) em 1999”, diz Michael Viriato, da Casa do Investidor.

Foto: Shutterstock

Milhões para a Globo

Meio na brincadeira, meio a sério, um ponto foi lembrado por investidores: as Americanas — em meio a uma crise sem precedentes, desde a última semana — aparecem na lista como uma das principais patrocinadoras do programa Big Brother Brasil, ao lado da Seara e da Stone. A varejista desembolsou R$ 105 milhões por uma cota premium da atração da Globo.

O executivo mais bem pago do país…

Sergio Rial, ex-presidente do Santander, anunciou em agosto de 2022 o novo desafio profissional: o comando de uma varejista amplamente conhecida dos brasileiros, mas que sofria — como a Via (das Casas Bahia) e o Magazine Luiza — com a forte concorrência estrangeira. As ações no dia do anúncio tiveram alta de 20% na B3. Aos 62 anos, Rial é um dos executivos mais bem pagos do país. Em 2022, ganhou R$ 59 milhões, na soma entre salário e bônus, à frente do banco espanhol. Estava destinado a assumir um cargo na presidência global do Santander, mas um conflito com a presidente, Ana Botín (chairman do banco), mudou os planos. Na manhã e até o início da tarde da quinta-feira, as ações da varejista ficaram travadas, sinalizando uma queda de 90%. Quando destravou, a ação recuou imediatamente 76,25%, um número negativo que já entra para a história de uma empresa local na bolsa brasileira.

Sergio Rial | Foto: Divulgação

…e a mudança no atendimento do agro

A fama de Rial como bom gestor se formou no mercado justamente pelo crescimento do Santander. Ele é um espelho do líder atual. Midiático e exibido, gosta de falar publicamente. Em um evento da empresa, chegou a descer por uma corda envolto em fumaça branca diante de uma plateia de 40 mil funcionários, tendo Ivete Sangalo como atração. É valorizado por ser a personificação do que o ambiente corporativo chama de liderança transformacional, quando um líder pega uma empresa e a transforma. Dois dos legados de Rial à frente do banco espanhol: reduzir agências físicas em grandes centros urbanos — muitas com até três unidades na mesma avenida — e expandir pelo interior e pelo litoral do Brasil um atendimento personalizado para clientes do agronegócio. Rial teve uma sacada única: recrutou gerentes de agências técnicos — e não do setor financeiro — para atender produtores rurais brasileiros.

O resultado faz a diferença

Um alto executivo do Santander lembrou de uma frase conhecida de Rial entre funcionários horas depois da hecatombe das Americanas, e que traduz a renúncia do executivo. “O resultado sempre fala mais alto”, dizia Rial. Ao ver um rombo da magnitude das Americanas, Rial caiu fora.

* * * *

2023 começou com o pé esquerdo. Depois de uma sequência de aportes, chegou a vez dos rombos e das demissões — dos gigantes norte-americanos às brasileiras.

Cortes na 99

As demissões na 99 nos últimos dias não surpreenderam os funcionários, que já ouviam conversas de cortes desde novembro. Há dois meses, profissionais foram desligados, em áreas consideradas inchadas.

Foto: Shutterstock

30% na rua

O que surpreendeu a muitos foi o volume: o aplicativo não divulga a quantidade de profissionais atingidos, mas a coluna apurou que foram cerca de 30% do quadro de funcionários demitidos nos últimos dias. Fundada em 2012 no Brasil, a empresa alega em uma nota lacônica razões de “reorganização interna” e cita a “conjuntura macroeconômica”.

Primeiro unicórnio brasileiro

A 99 é o primeiro unicórnio brasileiro – quando a empresa passa a valer US$ 1 bilhão, após ser adquirida, seis anos depois da fundação, por US$ 960 milhões pelo gigante da mobilidade chinês DiDi. Atualmente, a companhia tem ainda dois braços de negócios: um de meio de pagamento e outro de delivery. Mas o ganha-pão vem da mobilidade. O aplicativo tem uma base de 750 mil motoristas e atende a 20 milhões de passageiros no país em 1,6 mil cidades brasileiras.

[email protected]

Leia também “Nunca fui de esquerda”

11 comentários
  1. GUILHERME GARNETT
    GUILHERME GARNETT

    Interessante. Eu me lembro, quando trabalhei na Embraer, que a auditoria, na época, PW, fazia todas as verificações na empresa. Eu trabalhava na área financeira e sofria com os auditores que exigiam um monte de informações e tiravam daí, suas conclusões. Como uma auditoria deste nível, não vê uma falha tão grosseira na contabilidade com um rombo de 20 bilhões de falha de registro? Eu acho que está na hora de haver uma maneira de responsabilizar estas empresas e autarquias responsáveis por garantir aos investidores segurança. Nem a Price e nem a CVM foram capazes de enxergar? Estranho.

  2. Joel Luiz Oliveira Rios
    Joel Luiz Oliveira Rios

    Aprender o mandarim é preciso e urgente. Com estes que tomaram o poder, a China concluiu a etapa mais importante pra ocupação do Brasil sem dar um tiro de bala de borracha. Foi no conluio mesmo, junto às autoridades lesa Pátria. Escolas de mandarim urgente para podermos nos comunicar com os novos donos do Brasil.

  3. MARCO ANTONIO CARDOSO VILARINHO
    MARCO ANTONIO CARDOSO VILARINHO

    Pergunta: Quais bancos financiavam a Americanas? Porquê a CVM não viu que as informações sobre dívidas com bancos estavam sendo omitidas? Todo mundo sabe que empresa de varejo necessita de muito, muito capital de giro. Se não tiver um grupo forte por trás, elas não sobrevivem. Só quando chegou a 20 bi (ou 40 bi, segundo outras fontes) que a CVM viu? Ceguinha essa CVM, né? E a venda de ações, durante a passagem do senhor Sergio Rial, O Breve, no comando da empresa, ocasião em que ações deram uma subida forte, pois o mercado achou, naquele momento, que a empresa iria decolar. Aí, vários acionistas das Americanas venderam suas ações e muitos incautos as compraram. Aí, a empresa não decolou e o prejuízo ficou para quem comprou essas ações. Será que essa passagem pelo comando da empresa foi “barata”? Será que esse senhor Sérgio não tinha olhado bem as demonstrações contábeis da Americanas e, somente depois de nove dias lá dentro, foi que “viu” que haviam sido omitidas informações? Tá difícil acreditar nesse conto. Tem ainda a decisão de um juiz invertendo a ordem de preferência dos credores e dando preferência a um certo credor, rico pra dedéu, que financiava boa parte ou toda a operação da Americanas e, pelo que saiu na imprensa, está sendo quem recebe o que a empresa receber. Isso tudo não foi sequer citado na reportagem. Então, achei a reportagem fraca a superficial.

  4. CAIO TACLA
    CAIO TACLA

    Eu to acompanhando esse caso da Americanas. Estou lendo muita coisa sobre esse assunto. Por curiosidade mesmo, pois esse é realmente um caso peculiar, em vários aspectos. Um deles é o tamanho da confusão jurídica em potencial. Tem tantos interesses envolvidos que parece um “case montado”. Mas não foi montado, pelo menos nesse aspecto. Pois dificilmente alguém seria capaz de imaginar o tanto de consequência que um único caso poderia gerar. Li ontem a petição do BTG no Agravo. Petição nível briga de processo de família, em termos de ataques pessoais, ofensas. O BTG perdeu o primeiro pedido no Agravo. Daí entrou com Mandado de Segurança (algo raríssimo de ser aceito pelos Tribunais de Justiça em sede de Agravo) e conseguiu suspender a decisão que suspendeu a compensação de ativos diretamente pelo próprio banco. Enfim, é um caso muito interessante mesmo, e, claro, preocupante, pois as consequências poderão ser sinistras e acabar chegando uma conta pra todos pagarem, no caso de o governo querer ajudar a empresa para “resguardar o social”. Já vi manifestações (críticas) sobre essa eventual possibilidade em alguns blogs, e acho que a preocupação tem razão de ser.

  5. CAIO TACLA
    CAIO TACLA

    Que texto espetacular !! Realmente a Oeste é a melhor empresa jornalística do Brasil !!!

  6. Rogerio De Souza
    Rogerio De Souza

    Com certeza tem mais coisas no meio de tudo isso.

  7. Rogerio De Souza
    Rogerio De Souza

    Com certeza tem mais coisas no meu, como custos e despesas tbm.

  8. rogerio vaz mendelski
    rogerio vaz mendelski

    Excelente análise! Dá gosto ser assinante da “Oeste”.

  9. Claudio Augusto de Oliveira
    Claudio Augusto de Oliveira

    Só para lembrar
    A PWC era a empresa que fazia a auditoria do Banco Noroeste lá nos idos de 2000 e que tinha um rombo de R$ 200 milhões não identificado por ela

  10. Daniel BG
    Daniel BG

    Tem um livro, “Chinobil”, fantástico, para ser lido e que fala daquele local. O pior é que o FMI aponta à retomada econômica chinesa para a melhoria da economia global! Está tudo invertido. É o que o senhor disse, “o chinês vai comprando tudo”.

  11. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    Adquirida pelo gigante chinês DiDi. O chinês vai comprando tudo, começa por comprar consciências a troco de ideologia, e depois negócios. No centro velho de São Paulo, nas lojas da região, agora só dá chinês. Mestres do contrabando de quinquilharias baratas e ruins a preço que outrora era de bananas. Compra quem quer; eu não compro. Com a extrema esquerda do poder, o chinês vai deitar e rolar. Acho bom ir aprendendo o mandarim.

Anterior:
‘O estado de espírito modula o sistema imunológico’
Próximo:
Carta ao Leitor — Edição 225
Newsletter

Seja o primeiro a saber sobre notícias, acontecimentos e eventos semanais no seu e-mail.