Uma confusão generalizada foi estabelecida em muitas áreas da moderna vida social. Isso é evidente; basta um olhar rápido sobre as manchetes de hoje — sobre as manchetes de um dia qualquer, de qualquer ano.
Certezas absolutas tornaram-se incertas; direitos que eram considerados indiscutíveis e garantidos em todo o Ocidente, há mais de 200 anos, hoje têm pouca serventia ou garantia; a verdade de ontem é a mentira de hoje e será sobreposta pela narrativa de amanhã. Nas palavras de um famoso (e infame) autodenominado economista e pensador — que é parcialmente responsável pelo atual estado de coisas — “tudo o que é sólido se desmancha no ar”.
Quem disse isso foi Karl Marx, mas não seria correto atribuir-lhe exclusividade na autoria da confusão atual. Na verdade, esse é um problema com múltiplas faces, como se fosse um cruzamento do cão Cérbero, de várias cabeças, que na mitologia grega guardava o inferno, com a letal Esfinge, da mesma mitologia: das várias cabeças desse cruzamento monstruoso vem o desafio: decifra-me ou te devoro.
Há muitos caminhos para enfrentar esse enigma.
Podemos começar pela linguagem.
Podemos começar pela história do livro escrito para produzir analfabetos.
É inacreditável, mas é verdade.
Essa é uma história relevante para entendermos quanto avançamos na direção da desorganização do que costumávamos chamar de civilização ocidental (alguém pode me informar se ainda é permitido usar esse termo?)
É uma história importante neste momento em que se debate, mais uma vez, o ensino estatal brasileiro (e estamos sempre debatendo o ensino estatal brasileiro, sempre usando o termo inadequado “educação pública”).
Uma sociedade roubada do significado e da precisão da sua linguagem é uma sociedade roubada de uma ferramenta essencial para o reconhecimento e a preservação de sua liberdade
A história foi essa:
Em 2011, o Ministério da Educação e Cultura do Governo da República Federativa do Brasil aprovou o livro didático Por Uma Vida Melhor, para o ensino da língua portuguesa nas escolas públicas.
O texto do livro — um livro didático — incluía a frase: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado“. Não, não houve falha da revisão na frase anterior. Ela foi escrita assim mesmo; a frase foi escrita de forma errada de propósito.
O livro explicava que se trata da “variedade popular” de expressão. E adicionava: “Na variedade popular, basta que a palavra ‘os‘ esteja no plural”.
Como em: as casa.
As pessoa.
As ideia.
Os pobre.
As desgraça.
Prestem atenção à orientação que os autores do livro transmitem aos seus leitores, aos estudantes — e escrevo isso refreando um enorme impulso de colocar as palavras “autores” e “livro” entre aspas. Um exemplo dessa orientação pode ser localizado na página 15:
“Mas eu posso falar ‘os livro’?”.
A resposta dos autores é direta: “Claro que pode. Mas, com uma ressalva, ‘dependendo da situação, a pessoa corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico’”.
O MEC, na época, informou que o livro foi aprovado porque “estimula a formação de cidadãos capazes de usar a língua com flexibilidade”.
Segundo disse o MEC, “é preciso se livrar do mito de que existe apenas uma forma certa de falar, e que a escrita deve ser o espelho da fala”.
Poderíamos lembrar aqui quem presidia o Brasil em 2011, e quem era o ministro da Educação da época — mas isso significaria roubar um leitor de uma pequena surpresa, facilmente obtida por uma busca na internet.
Inúmeros livros já foram escritos sobre a importância da linguagem, e o papel fundamental que ela representa na formação e na manutenção de regimes políticos totalitários. Praticamente todo regime político totalitário da era moderna envolveu alto grau de manipulação da linguagem.
No excelente Linguagem e Silêncio, George Steiner fala sobre a relação entre linguagem e autoritarismo, perguntando:
“Quais são as relações da linguagem com as falsidades assassinas que ela foi obrigada a articular e consagrar em certos regimes totalitários? Ou com a grande carga de vulgaridade, imprecisão e ganância que ela é obrigada a carregar em uma democracia baseada no consumo de massa?”.
Uma sociedade roubada do significado e da precisão da sua linguagem é uma sociedade roubada de uma ferramenta essencial para o reconhecimento e a preservação de sua liberdade — começando pela própria liberdade de expressão. Como diz André Assi Barreto, em Arrume Seu Quarto: Um Guia Para Entender Jordan Peterson:
Qual é o futuro de um cidadão, de um trabalhador ou de um eleitor que é convencido — através de um livro didático do Estado — que não há diferença entre dizer ou escrever “os carro” ou “os carros”? A resposta quem dá é Gustavo Bertoche, no seu excelente prefácio para As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem: “Ter seus afetos sequestrados pela propaganda, as suas opiniões direcionadas pela mídia, as suas emoções incendiadas por palavras de ordem”.
O destino dessa vítima de destruição intelectual em massa é ter sua vida guiada pelo que vê “nas novela” de TV, nos reality shows e na fala fácil, despudorada e apenas marginalmente mais estruturada de políticos populistas e patrimonialistas.
Como conclui Gustavo Bertoche:
“Assim, a pessoa iletrada age em função de gatilhos linguísticos: os chavões, as frases de efeito, as ‘lacrações’. Esses gatilhos condicionam-lhe a vontade, envenenam-lhe o pensamento e estabelecem limites restritos para o seu julgamento crítico. O problema é que não podemos perceber a nossa própria insuficiência: no campo da interpretação, não somos capazes de perceber onde estão as nossas próprias deficiências, porque somente as enxergamos quando por fim as superamos. Há quem repita palavras de ordem e frases feitas — e de acordo com elas paute as suas ações — sem suspeitar, por um único instante, da sua transmutação num autômato político, num boneco de ventríloquo cujo discurso, sequestrado por ideologias, determina o seu juízo e as suas decisões”.
Leia também “Pequeno manual de sanidade para redes sociais”
Será que um candidato a emprego em seu currículo usaria esta linguagem e seria contratado em detrimento do que entregou o mesmo com o português impecável? Este linguajar já nasceu morto.
Parabéns pelo texto Motta. O que vc relata é mais uma estratégia da esquerda, que vem sendo implantada há muito tempo. A regressão da população, em termos educacionais, vem piorando exponencialmente e não sei onde essa e as próximas gerações chegar. Eu já estou mais perto da morte do que da vida, mas meus filho e netos voltarão a ser primitivos se comunicando por sinais e fumaça!!
Motta, incomparável. O ” exemplo vem de cima”, o impostor (menas, veja bem, sabe, nunca na história desse país, etc.), TV globolixo, novelas, reallity shows, janja impondo linguagem neutra, essa é a grande contribuição que temos hoje. Precisamos reagir.
Prezado e admirado Roberto Motta,
A leitura do seu artigo nos transmuta ao mundo dos lúcidos, dos sensatos e dos pensadores de antes da famigerada era política que passamos a viver nesse triste milênio. Sou-lhe grato por sua lucidez, por sua perspicácia, por sua inteligência e acuidade jornalística. Penas que hoje temos o jornalismo de joelhos ao famigerado Consórcio de mídia, que de mídia não tem nada. É o consórcio da Propaganda. Acho que Goebels está vivo e que talvez presida esse consórcio.
Dá náuseas e cólica gástrica ouvir a CNN, pois a globo já não vejo há mais de 4 anos.
Grato por sua existência, meu prezado. Que Deus o proteja da Insanidade que assola o Nosso País.
Meu pai, Prof Geraldo Bastos Silva, foi prof do Pedro II e inspetor federal de ensino do MEC. Contribuiu para a reforma do ensino médio, PREMEM anos 70. Publicou livros sobre o ensino secundário. Trabalhou na FGV. Eu, ainda menino, frequentei o Ed. Capanema, onde conheci o Prof. Gildásio Amado, diretor do ensino secundário. Êle introduziu OSPB no currículo do secundário. Morreriam de vergonha ao ler essa inacreditável história.
Jamais aceitarei esse culto à ignorância. Apologia ao errado e ao feio dando sempre “bons argumentos” criados por embustes. O Brasileiro escreve mal, mas sabe disso hoje. Não saber que é ignorante é terceirizar para gente não confiável seu próprio destino.
Lastimável. Fico abismado quando ligo o rádio ou a tevê e vejo/escuto jornalistas atropelando a gramática, sem qualquer rubor. Repito: jornalistas. Pessoas que abrem a boca e usam o “tu” e o “você” com a mesma flexão verbal. Nos estados onde se fala tradicionalmente o “tu”, o verbo flexionado corresponde ao “você” (tu falou; tu disse); nos estados onde se fala “você”, este é sobrepujado pelo “tu”, mas o verbo é flexionado em alusão a “você” (linguajar típico de malandros e traficantes cariocas, adotado sem cerimônia em novelas e reportagens). Dizem que se trata de evolução da língua! Eu já penso que se trata de má-fé misturada à preguiça, com a graça progressista, claro!
Essa esquerda é simplesmente diabólica
Grande e oportuna reflexão, Roberto. 👏👏👏 Desde o ano de 2011, já são 12 anos. Que estrago!
Após o artigo do Roberto Mota, me lembrei da velha frase: “Aprender outra língua para que, se português nós já sabe”. Kkkkkkk
Os esquerdopatas querem destruir uma das maiores riquesas de um país que é o seu idioma
Um dos melhores textos que já li na OESTE desde que me tornei assinante. Sensacional!
“Um chopps e dois pastel”.
“No campo da interpretação, não somos capazes de perceber onde estão as nossas próprias deficiências, porque somente as enxergamos quado por fim as superamos”. Gostei dessa frase. Triste pensar que os malfeitores de nossa educação um dia ainda irão reconhecer suas próprias deficiências, mas aí será tarde, pois a essa altura já estarão no inferno e lá quem manda é outro.
A guerra cultural vem se implantando a décadas, além dessa lembrança que trás Motta se não me engano foi o mesmo período que foi “extinto” a reprovação, hoje os alunos alteram de série na escola sem ter aprendido, mesmo que com essa “cartilha errada”, além disso tudo que já está em andamentos desde o 1º governo do ladrão com seu poste, hoje querem a linguagem neutra que vai “assassinar” ainda mais o ensino.
educação se aprende em casa.
Não sei se existe alguma lei ue trata do idioma. Se não tem, deveria ter. O idioma de um país deveria ser uma uestão ligada a soberania nacional. É o clássico e pronto. No dia a dia, a forma colouial, regional, cultural, tudo bem, mas a escrita e a falada em eventos públicos, como políticos, educacionais, jurídicos, etc , deveria ser o idioma correto. Em países como a Itália, onde existem vários dialetos, nas escolas é ensinado e exigido o italiano padrão. No Brasil, nem temos dialetos e uerem mudar a forma de falar e escrever. Os portugueses deveriam se manifestar, afinal tiveram um trabalho danado pra manter nosso idioma em todas as dimensões do enorme país ue somos .
A subversão do ensino, as deformações da linguagem escrita e falada, o culto ao “besteirismo”, as pautas identitárias, o menosprezo aos princípios estruturantes da família e da sociedade, a ridicularização das religiões, a desimportância à meritocracia, tudo faz parte de um mesmo projeto de dominação levado meticulosamente a cabo pelas esquerdas. E o mais triste é a incômoda sensação de que estão tendo sucesso.
depois de um tempo, posso comentar? Em concurso público, como por exemplo, prolação de sentença em prova final para uma vaga de Juiz, como será a correção de texto? Nâo haverá correção? Se houver empate na nota, quem escreveu de forma clássica e no espírito da gramática oficial, levará vantagem? NOs vestibulares, nas redações não haverá mais correção de texto? Finalmente, caro comentarista iluminado, o acordo internacional de países de língua portuguesa concordarão com a moda imposta, ou seja, sem a participação popular em aceitar ou não as novas palavras que deverão ser incluidas no Aurelião?
Excelente !!!! 👏 um oasis num mundo de jornalistas cada vez mais obtusos; a mente necessita de leituras escritas por pessoas inteligentes! 🙏❤️🌹
Quer me parecer que estamos viajando rapidamente para o fim da espécie!
Com linguagem estruturada temos problemas sérios de comunicação, imaginem se cada um resolve falar e escrever o que vem na telha? Os animais são mais inteligentes.
O problema é que toda a cultura, os livros de física, matemática, anatomia etc. são escritos em língua padrão. Será que esses adeptos do “preconceito linguístico” estão pensando em reeditar todos os livros, de todas as bibliotecas, na linguagem iletrada?
Antônio, Não, basta os ‘livro’ de primário. Assim já se consegue maioria para lavar a mente da grande massa e eleger lulas, randolfes, barbalhos, renans……….. (se botarmos na conta “as dentaduras” e os votos proporcionais bras….. , aí danou-se de vez).
Motta como sempre nos faz pensar e refletir!
Ótimo artigo.
O que dizer dessa realidade (?): Ter seus direitos sequestrados por decisões monocráticas antijurídicas, as suas opiniões censuradas ou destorcidas pela mídia, as suas convicções incendiadas ou lacradas por “ministros da verdade”, inquisidores, mentirosos. (Parodiando Gustavo Bertoche, com intertextualidade)…
Digo: DISTORCIDAS pela mídia militante.
Para o buraco.