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Cartaz da série "Better Thas Us", da Netflix | Foto: Reprodução
Edição 214

Melhores que nós?

Série russa levanta uma questão inevitável: a presença cada vez maior de robôs em nossa vida

Dagomir Marquezi
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O que a gente pode esperar da Rússia hoje em dia? Boa vodca? Armas apocalípticas? Invasões de países vizinhos? Pois a Rússia é capaz — ou foi, em 2018 — de produzir uma série de qualidade internacional, que está disponível na Netflix. Better Than Us (“Melhor que nós”) tem um nível artístico e técnico que não deve nada às outras produções internacionais. Outro destaque são os efeitos especiais.

O título original da série (Лучше, чем люди) significa, literalmente, “melhor que os humanos”. A série se passa em Moscou, no ano de 2029. No centro da trama está o médico legista Georgy Safronov.

Georgy vive o drama familiar de uma separação e a disputa legal da guarda dos dois filhos. Sua filha menor, Sonya (a atriz que a interpreta, Vitaliya Kornienko, é uma das atrações da série). O filho mais velho, Egor, é um “aborrecente” daqueles de irritar as paredes.

Paralelamente, uma empresa chamada Cronos importa (ilegalmente) da China um robô humanoide, semelhante a uma mulher com porte de modelo, que se chama Arisa. Ele tem inteligência avançada, poder letal, e é o primeiro robô capaz de compreender as emoções humanas. Um funcionário da Cronos tenta abusar de Arisa e é morto em segundos.

Arisa foge da Cronos e busca um ser humano com o qual possa interagir. E o primeiro humano que encontra é a garotinha Sonya. Em pouco tempo, Arisa faz parte da família do médico Georgy. Mas o clima não é de sitcom, muito pelo contrário. A empresa Cronos está atolada em ilegalidades e é comandada por um gangster que faz qualquer coisa para ter o robô de volta.

Para complicar ainda mais as coisas, Egor, o filho-problema de Georgy, se envolve com um um grupo terrorista chamado Liquidantes, que pretende acabar com todos os robôs. Mal sabe o garoto quem está por trás dos terroristas…

Cartaz da série Better Than Us, da Netflix | Foto: Reprodução
Aposentadoria aos 40 anos

Better Than Us parou na primeira temporada, e uma possível continuação talvez seja produzida na China. A série mostra um futuro onde curiosamente não se veem celulares. A cidade tem monitores por todos os lados. 

Conexões são feitas por vídeo, em grandes telas. A própria pele humana serve como monitor. Os moscovitas do futuro fazem transferências bancárias (no estilo do nosso Pix), e as quantias são projetadas no seu pulso. Uma pequena pulseira condensa os dados da pessoa, sua identidade etc.

Uma das tramas paralelas de Better Than Us mostra um programa chamado Aposentadoria Precoce. Afinal, os robôs fazem as tarefas domésticas, atuam como jardineiros e garçons e são os melhores cozinheiros. Eles fazem o serviço de manutenção de equipamentos públicos e dirigem veículos. O programa do governo oferece aposentadoria aos humanos aos 40 anos de idade.

Essa é uma das questões mais polêmicas que virão com o advento dos robôs. É a mais profunda mudança de perfil no mercado de trabalho desde a Revolução Industrial, que teve início no século 18. Podemos chamá-la de “crise de perda de empregos”. Ou encará-la como uma nova fase necessária à nossa evolução profissional.

Arisa, robô humanoide da série Better Than Us, da Netflix | Foto: Reprodução
Romance com robôs

Um dos momentos mais tensos de Better Than Us é quando o doutor Georgy passa um tempo morando com duas mulheres ao mesmo tempo — sua ex Alla e a robô Arisa. A humana Alla, mãe de seus filhos, se revela uma tratante e mentirosa. Arisa permanece fiel ao seu dever, defendendo a família Safronov com dedicação. “Foi programada para isso” é a explicação simplista para seu comportamento.

A convivência com robôs sofisticados capazes de desenvolver uma relação emocional com os humanos surge como uma das grandes questões éticas de nosso futuro imediato

Arisa ultrapassa esse limite. E desenvolve uma ligação afetiva com Georgy e seus filhos. Parece absurdo ter um relacionamento emocional com um robô? Estamos chegando lá.

Essa realidade chegou por enquanto em forma de aplicativos desenhados para nos servir de companhia e até como fantasia sexual. Em artigo publicado na edição 206 de Oeste (“O amor em tempos de inteligência artificial), conversei com uma inteligência artificial que simula ter interesse afetivo, numa interação forçada.

O que vai acontecer quando surgir o primeiro (ou a primeira) robô com inteligência superior à nossa, aparência humana, capacidade para praticar sexo e 24 horas por dia à nossa disposição? Ninguém sabe.

Cena da série Better Than Us, da Netflix | Foto: Reprodução

A primeira reação a essa possibilidade costuma ser medo. Afinal, fomos programados por décadas de filmes e séries para acharmos que robôs são malignos e podem nos atacar a qualquer momento com seus olhos vermelhos. 

Temos razão para temer robôs antes mesmo que eles se desenvolvam plenamente? Esse temor está explícito nas três leis da robótica estabelecidas pelo escritor Isaac Asimov em 1950 (que são citadas logo na abertura da série Better Than Us):

  • Primeira Lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
  • Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Lei.

Essas leis partem do princípio de que o pior dos seres humanos é melhor que o melhor dos robôs. Asimov não tinha condições de imaginar o que andaria acontecendo nesta terceira década do século 21. 

A convivência com robôs sofisticados capazes de desenvolver uma relação emocional com os humanos surge como uma das grandes questões éticas de nosso futuro imediato. É uma possibilidade que exige mente aberta e uma revisão de velhos conceitos para ser observada em toda a sua potencial complexidade.

A tragédia de David

Um dos melhores filmes nesse sentido é AI — Inteligência Artificial, lançado em 2001. Concebido por Stanley Kubrick e concretizado por Steven Spielberg, AI estava muito à frente de seu tempo, e não foi compreendido à época do seu lançamento.

Livremente inspirado na história de Pinóquio, AI mostra a história de um casal — Henry e Monica — cujo filho ficou em estado vegetativo por causa de um acidente. Monica sofre muito com a situação, e Henry decide dar a ela um menino-robô chamado David, programado para ser um filho perfeito.

Henry alerta a mulher: pense bem no que você vai fazer, porque depois de “ligar” David, o menino vai ser puro amor pela mãe. Num dia de tristeza, ela diz as sete palavras-chaves que transformam David no seu filho. E, por um tempo, eles vivem felizes.

Certo dia, Martin, o filho natural do casal, desperta de seu estado vegetativo. E se revela um monstrinho maldoso contra seu novo “irmão”. Numa cena de cortar o coração, Monica coloca o menino-robô no carro e o leva para um bosque distante, como certas pessoas fazem quando querem se livrar do cão que adotaram.

David vive então o desespero de querer voltar para casa e continuar realizando a tarefa para a qual foi programado: amar sua mãe. Mas ele encontra outros robôs maltratados e rejeitados e passa a viver entre eles. Até um final de profunda tristeza.

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A raça humana passou boa parte de sua existência sendo doutrinada a acreditar que é o centro do universo. A era dos robôs, que foram criados pelos humanos, mal começou. E vai deixar muita gente inconformada e provavelmente assustada com o que pode acontecer. Desde já, está colocando em xeque muitos de nossos velhos valores e conceitos éticos. 

Talvez a gente um dia se esforce para ter a integridade e a capacidade de certos robôs. Isso porque, em vários sentidos, eles poderão ser melhores que os humanos que os criaram.

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@dagomir
dagomirmarquezi.com

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5 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Interessante.

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    O PT vai lançar um filme agora em junho, o cineasta é Zé Dirceu, o filme já está rodando nas salas Vip’s, o título é AI4PTFBCV, os protagonistas são as Inteligência humanas que existe de melhor no partido, Fátima Bezerra e Chico Vigilante. E tem a parte cômica do filme, é o Robô Zé Cuecão, porque de Roubou aquele entende

  3. Flavio Carazato
    Flavio Carazato

    Assisti a série russa com uma certa admiração pela qualidade técnica e também pelo roteiro bem escrito e bem executado. A correlação com o filme foi crescendo ao longo dos capitulos. E a humanidade de Arisa vai ficando mais profunda na medida que sua familia humana vai se apegando a ela, a comecar pela menina, de forma contraria ao filme. Como dã incondicional de Asimonv desde minha juventude, passei a imaginar o que viria a ser o futuro com a robotica. Parte da sua obra ja foi ao cinema: “Eu, robot”, “O homem bicentenario” ja trouxeram essa discussao de robos humanos. Aserie russ traz novos tons e novas situações explorando esse tema com muita inteligência. vale a pena ver de novo todos eles com um novo olhar. Sua coluna foi muito feliz em trazer esse tema nesa edição da Oeste. Você é uma das pricipais razões para ser um fiel assinante da revista. Forte abraço Dagomir!

  4. Luiz Antônio Alves
    Luiz Antônio Alves

    Boa. Lembrei de filmes que já vi com robôs, mas produzidos nos EUA. Você sabe, como o Blade Runner ou robocpo, Arnold, etc. Na época da série russa em questã, o Putin se aproximava do Ocidente e Moscou tinha uma cara bem ocidental… A OTAN e a Europa não se preocupavam muito com ele e não existia o robô Zelinski que obedece ordens e não manda nada. Depois que assisti na juventude o Ivã, o Terrível, comecei a gostar de produções russas. Na prática também estamos sendo governados por um humanóide robotizado com sensores de uma praga que avança sobre nós, o comunismo.

  5. João Cirilo
    João Cirilo

    Interessante. A série é russa, o robô tem origem chinesa e a provável continuação deve ser chinesa… Sem dúvida, dá o que pensar.
    Ora, o que é um robô senão um escravo? Um escravo moderno, mas a bem de ver, a mesma coisa, literalmente.
    Escravos fizeram as civilizações antigas, fizeram Roma, fizeram Grécia, fizeram até mesmo o Brasil e as colônias do Novo Mundo.
    O diabo é que os escravos se rebelam…

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