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Como nos distanciamos da beleza

Vivemos em um mundo cada vez mais feio, que nós mesmos criamos. E a descartabilidade é sinal de que nos preocupamos mais com a conveniência do que com a beleza

Na última vez que estive em São Paulo, fui ao Masp duas vezes. O museu tem o melhor acervo de pinturas europeias do Hemisfério Sul, exibidas de forma não tradicional e altamente original. Mas não foi para olhar para as pinturas de novo que voltei ao museu.

Na época de minhas visitas, estava acontecendo no andar inferior uma exposição de artefatos das plantações do século 19, a maioria de uso prático, mas não totalmente, como era de esperar. O que me impressionou foi sua grande beleza, apesar da natureza utilitária. Sem dúvida, de todos os artefatos que ainda existem, eles foram selecionados por sua qualidade, e por terem sido os melhores de seu tipo, mas foi impossível não ficar admirado. Aquelas peças foram feitas para durar mil anos, e seus artífices obviamente tinham tino para a elegância das formas.

No andar superior do museu, onde as pinturas estavam, havia uma instalação de vídeo. Essa é uma mídia de arte que eu normalmente desprezo, mas por acaso se tratava de uma de apenas duas que já me pareceram ter algum valor. A outra, por mais estranho que pareça, também estava na América Latina, na Colômbia.

Ela se chamava La Bandeja de Bolívar, e nesse vídeo uma sucessão de stills era acompanhada por som: um fac-símile da bandeja de porcelana dada a Bolívar em comemoração a seu papel de “libertador” é gradualmente quebrado com um martelo — o primeiro golpe significando a ruptura de sua Gran Colombia; os golpes subsequentes, as guerras civis quase constantes que assolaram o país — até que a bandeja se torne uma pilha de pó branco de porcelana fina. O pó significa, claro, o papel que o cultivo de coca e a exportação de cocaína desempenharam no país em anos recentes. Uma das características impressionantes da instalação é que cada um dos stills era esteticamente agradável em si, ainda que o significado geral — deprimente ou trágico — só ficasse evidente para alguém que conhecesse pelo menos uma mínima fração da história da Colômbia.

Vivemos num mundo em que quase nunca esperamos que algo dure mais do que nós

A instalação no Masp era igualmente impressionante. Ela consistia em um pedaço de asfalto mais ou menos sem forma, com sons vagamente urbanos de fundo. À direita, fora do enquadramento, objetos de uso cotidiano — cadeiras e garrafas plásticas, latas, rodas velhas de bicicleta e assim por diante — são jogados (não vemos por quem) no chão asfaltado, fazendo barulho. Eles se acumulam e, gradualmente, cobrem boa parte do chão. Então o vídeo para e é repetido como uma imagem espelhada, os objetos dessa vez vindo do lado esquerdo.

O surpreendente é que, enquanto cada item jogado é, sozinho, absurdamente feio, barato e repugnante, a composição dos detritos é agradável aos olhos. Os criadores devem ter levado muito tempo e feito muito esforço (suponho) para garantir isso por meio de longos ensaios; mas, ainda mais importante, pelo menos para mim, foi o significado que se pode atribuir a essa videoinstalação.

Para começar, ela chama a atenção pelo simples horror de nossa civilização materialista e de sua abundância: uma abundância, no entanto, de artefatos industrializados feios, descartáveis e insossos. Vivemos num mundo em que quase nunca esperamos que algo dure mais do que nós. Ou até mesmo mais que uma semana ou um ano. Portanto, não nos importamos profundamente com nada a nosso redor. Quando algo quebra, simplesmente substituímos, jogando fora a coisa quebrada que nem valorizávamos muito antes, sem nos preocupar de fato com onde ou como o que descartamos vai parar.

Ao nos considerarmos esteticamente incompetentes em comparação com nossos ancestrais, decidimos nos vingar deles

A descartabilidade significa que nos importamos mais com a conveniência do que com a beleza, com o resultado de que vivemos em um mundo cada vez mais feio, que nós mesmos criamos.

Não sei dizer se os criadores dessa instalação tinham como objetivo estimular reflexões políticas mais específicas ou não, mas o fato é que a mesma pilha de coisas feias ser gerada (ainda que em imagem espelhada) quer os objetos viessem da direita ou da esquerda sugere que o problema estético de nossa civilização é mais profundo do que costumamos considerar. Nenhum político vai solucioná-lo e duvido até que ele seja passível de solução. O que seria preciso, por exemplo, para transformar São Paulo em uma cidade bonita, em vez de interessante? Não acho que possa ser feito; e hoje em dia é preciso ser rico para viver em qualquer tipo de beleza. Mesmo assim, alguma feiura vai chegar até você, mesmo que você não vá ao encontro dela.

O problema do que é feio em nossa civilização não é só do Brasil, claro. É um problema mundial. Meu país de origem, a Grã-Bretanha, é espetacularmente bem-dotado de cidades feias: o começo da industrialização não foi bonito. Mas o que é de fato terrível é como tudo o que era grandioso ou belo ou digno foi deliberadamente maculado pelo modernismo. Como se, ao nos considerarmos esteticamente incompetentes em comparação com nossos ancestrais, tivéssemos decidido nos vingar deles por nos humilhar assim arruinando o que construíram.

É como se toda a nossa sensibilidade estética agora estivesse concentrada no estômago

Um aspecto da sensibilidade estética, entretanto, sobreviveu, ou até se intensificou. Perto de onde moro na Inglaterra há uma cidade antiga que cresceu rapidamente com a Revolução Industrial. Não é preciso dizer que as partes industriais da cidade eram muito feias, mas o centro, que manteve os monumentos antigos, incluindo uma igreja medieval esplêndida, foi agraciado muito grandiosamente durante o período vitoriano por edifícios municipais de grande dignidade. Mas, em questão de uma ou duas décadas, o modernismo o transformou em um pesadelo visual, que se mantém apesar da sobrevivência de algumas construções belas.

Ninguém parece se importar muito hoje em dia, nem mesmo notar. Talvez as pessoas não percebam por causa da própria impotência em fazer alguma coisa, caso reparassem. Mas no centro desse pesadelo visual fica um restaurante ótimo, onde a comida mais refinada e deliciosa é servida. É como se toda a nossa sensibilidade estética agora estivesse concentrada no estômago (preciso acrescentar que não sou nenhum puritano da culinária; gosto de comida boa).

O contraste estético entre os implementos da exposição no Masp e o que era mostrado da instalação de vídeo não poderia ser mais doloroso. Esse é um tema ao qual espero voltar.

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Theodore Dalrymple é o pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. Daniels é autor de mais de trinta livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações), estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou O Que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.

 

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