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Ato por justiça marca os seis anos do assassinato de Marielle Franco, no Centro do Rio de Janeiro (14/3/2024) | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Edição 266

Marielle, ausente

A esquerda ignora a soltura do deputado acusado de ter sido o mandante dos assassinatos da vereadora carioca e do motorista Anderson Gomes

Início da tarde de sábado, 12 de abril, na quase sempre ensolarada Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. O deputado federal Chiquinho Brazão (sem partido-RJ) deixou o presídio depois de passar um ano atrás das grades. Saiu pela porta da frente graças à decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que lhe concedeu o direito à prisão domiciliar. O benefício foi dado apesar da acusação que pesa sobre os ombros do parlamentar: ter sido, conforme investigações, o mandante dos assassinatos da vereadora carioca Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018.

Durante mais de cinco anos, as frases “Marielle, presente”, “Quem matou Marielle Franco?” e “Quem mandou matar Marielle Franco?” estamparam camisetas e cartazes, foram gritadas em shows e repetidas inúmeras vezes nas redes sociais por aliados do presidente Lula e pela esquerda em geral. Sua morte foi transformada em símbolo de injustiça, e seu esclarecimento era cobrado diuturnamente. Não foram poucas as ilações que tentaram envolver Jair Bolsonaro e seus familiares no duplo homicídio. Mas, desde que as investigações apontaram para Brazão e a inocência do ex-presidente foi comprovada, o silêncio desse espectro político tem sido ensurdecedor.

Para Mauricio Marcon (Podemos-RS), vice-líder da oposição na Câmara dos Deputados, a falta de críticas à decisão do STF que tirou Brazão da cadeia evidencia a hipocrisia da esquerda. De acordo com Marcon, tal situação só reforça a certeza de que o objetivo real nunca foi cobrar justiça por Marielle ou Anderson, mas tentar desgastar o então presidente Bolsonaro.

deputado mauricio marcon fala do caso marielle x chiquinho brazão
O deputado federal Mauricio Marcon (Podemos-RS) critica o silêncio da esquerda diante da ida de Chiquinho Brazão, acusado de mandar matar Marielle Franco, para a prisão domiciliar | Foto: Arquivo/Agência Câmara

“Usaram o cadáver dela para tentar desmontar a imagem do então presidente da República”, afirma Marcon. “Quando tiveram a prova cabal de que Bolsonaro não tinha nada em relação a isso, eles a largaram como um absoluto nada. Hoje, no mundo dos vivos, Moraes é muito mais importante para a esquerda do que a imagem da Marielle.”

Brazão perdeu o mandato de deputado nesta quinta-feira, 24, por ter faltado a mais sessões do que o permitido. A decisão se baseou no artigo 55 da Constituição, que prevê a cassação do parlamentar que “deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada”. Nesse caso, a decisão não precisa passar pelo plenário.

Silêncio geral

Marcon observa que nem mesmo a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, a irmã de Marielle, manifestou-se contra a prisão domiciliar de Brazão. Sem comentar a decisão de Moraes em favor do acusado, Anielle segue no cargo acumulando polêmicas. Na mais recente, faltou a um debate da Organização das Nações Unidas em Nova York, sendo que havia viajado aos Estados Unidos — com comitiva — justamente para participar do evento.

Anielle — que se filiou ao PT em abril do ano passado e chegou a ser cogitada como candidata a vice-prefeita do Rio de Janeiro na chapa encabeçada por Eduardo Paes (PSD) — não foi a única pessoa próxima de Marielle a se dar bem na política. Companheira da vereadora, a arquiteta Monica Benício passou a militar no Psol e, hoje, cumpre o segundo mandato consecutivo na Câmara Municipal carioca. Detalhe: logo depois de ser eleita pela primeira vez, em 2020, ela avisou, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, que seu primeiro compromisso seria “enfrentar o bolsonarismo”.

Monica não parece disposta a enfrentar a família Brazão com o mesmo afinco. Desde a concessão da prisão domiciliar, não há registros em seus perfis no Instagram e no X de reclamações direcionadas ao deputado, muito menos ao ministro que o tirou da cadeia. Ela parece mais preocupada em criticar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por marcar “gênero masculino” no visto da deputada federal Erika Hilton (Psol-SP).

Antes de ser vereadora, Marielle trabalhou como assessora de Marcelo Freixo durante dez anos, no período em que ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. Meses depois do assassinato da vereadora, Freixo, ainda pelo Psol, trocou a Assembleia Legislativa pela Câmara dos Deputados, sendo o segundo mais bem votado no Estado, com mais de 340 mil votos.

‘Dia de alegria’

Em 2022, Freixo, que reclamava publicamente da ausência do desfecho das investigações das mortes de Marielle e Anderson, deixou o Psol, foi para o PSB e se candidatou a governador do Rio de Janeiro. Rejeitado pelos eleitores, migrou de partido mais uma vez e, assim como Anielle, filiou-se ao PT. A decisão lhe rendeu a presidência da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), cargo que ocupa desde janeiro de 2023. Freixo não só se calou diante da soltura de Brazão como, em 12 de abril, data em que o acusado ganhou a prisão domiciliar, afirmou no Instagram que vivia um “dia de alegria”. Na postagem, aparece ao lado do prefeito Eduardo Paes, de quem Brazão foi secretário de Ação Comunitária.

PT elogia

No PT, os comentários mais recentes voltados para Chiquinho Brazão são elogiosos. Washington Quaquá, vice-presidente nacional do partido e prefeito de Maricá (RJ), por exemplo, saiu publicamente em defesa do parlamentar e do irmão dele, Domingos Brazão, conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, também acusado de mandar matar Marielle. Em janeiro deste ano, Quaquá afirmou não haver provas contra a dupla. Também fez questão de divulgar uma foto em que aparece ao lado de familiares dos irmãos Brazão. Ao site G1, disse que não precisava “usar a morte de ninguém para fazer política”.

Quaquá não é, contudo, o único elo do PT com a família Brazão. Em 2010, Domingos participou ativamente da campanha de Dilma Rousseff à Presidência da República.

domingos brazão
O conselheiro Domingos Brazão, do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, durante campanha em prol de Dilma Rousseff, em 2010 | Foto: Reprodução/Redes Sociais
brazão - marielle franco - campanha dilma
Domingos Brazão fez campanha pró-Dilma, em 2010 | Foto: Reprodução/Twitter/X/@EdRaposo_
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Ao lado de Eduardo Cunha (à esquerda), Brazão divulga a candidatura da petista Dilma Rousseff, em 2010 | Foto: Reprodução/Twitter/X/@EdRaposo_
Chiquinho Brazão e Eduardo Paes: sorridentes no dia da nomeação do secretário de Ação Comunitária do Município do Rio de Janeiro — 3/10/2023 | Foto: Divulgação/PMRJ
Chiquinho Brazão e Eduardo Paes, sorridentes, no dia da nomeação do secretário de Ação Comunitária do Município do Rio de Janeiro (3/10/2023) | Foto: Divulgação/PMRJ
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O vice-presidente do PT, Washington Quaquá (à direita), e familiares do clã Brazão | Foto: Reprodução/Instagram

Papelão midiático

Boa parte da imprensa também ignorou a saída de Chiquinho Brazão da cadeia. Comportamento diferente de anos anteriores, quando a cobertura do caso Marielle se dava com afinco em diversas redações espalhadas pelo país — sobretudo no tempo em que Bolsonaro era o presidente da República. Em novembro de 2019, o colunista Bernardo Mello Franco, do jornal O Globo, chegou a perguntar se Bolsonaro não teria obstruído a Justiça em meio às investigações. Por ora, não consta a publicação de nenhum artigo de Mello Franco a respeito da prisão domiciliar de Brazão.

A ida para casa do acusado também não rendeu reportagens especiais no Fantástico e no Jornal Nacional, da TV Globo. A emissora se viu obrigada a fazer um mea culpa em outubro de 2019, depois de sugerir que Élcio de Queiroz, outro acusado de envolvimento no crime, teria ido à casa de Bolsonaro na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, horas antes da morte da vereadora. Em artigo no Estadão, o jornalista José Nêumanne Pinto classificou a cobertura desse episódio como um “vexame”.

Na edição 265 da Revista Oeste (“A caminho do cemitério”), J. R. Guzzo afirma que não é de hoje que o Grupo Globo e outros conglomerados de mídia do país têm passado por vexames. Para Guzzo, o silêncio diante da decisão que liberou da cadeia o acusado de ser o mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco é uma das provas de que, no Brasil, o verdadeiro jornalismo está a caminho da extinção.


Com colaboração de Deborah Sena

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6 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Não conseguir associar Bolsonaro a esse crime enquanto outros permanecem no esquecimento da “justiça”.
    Celso Daniel prefeito de Santo André, Toninho do PT prefeito de Campinas, Vinícius Gritzbach assassinado em plena luz do dia no aeroporto de Guarulhos, assassinatos de sindicalistas, associação com o crime organizado.
    Todas essas mazelas tem as digitais do PT, que não é partido político mas facção criminosa onde cada um procura defender seus territórios e interesses.

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Essa esquerda é mais traiçoeiras e todos os outros adjetivos de crimes do que o Hamas e o Hesbolar juntos

  3. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Parabéns Anderson por mais uma bela reportagem, e expor as sem vergonhices destes canalhas.
    Esta outra picareta chamando Anielle Franco, só está alocada em Brasília para viajar mundo afora com nosso dinheiro.

  4. José Luís da Silva Bastos
    José Luís da Silva Bastos

    Uma pilantra sambando no caixão da irmã, simples assim.

  5. Lúcia Kharmandayan
    Lúcia Kharmandayan

    A esquerda tem um projeto: aniquilar a direita, pq sabe q está a caminho da guilhotina. Entre suas várias narrativas p atingir seu propósito,vai deixando de lado aquelas q não lhes tem mais utilidade

  6. Denis R.
    Denis R.

    Obviamente a esquerda progressista nunca deu a mínima para a morte da Marielle! Quem realmente achou que esta turma se preocupava com a ex vereadora precisa crescer e sair do jardim da infância… Agora que ela não serve mais a narrativa foi esquecida, inclusive pela irmã, que não se pronunciou até agora.

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