Era uma manhã normal na cidade de São Paulo. O metrô lotado trilhava pelos bairros da maior metrópole da América Latina, levando milhares de pessoas para o trabalho. Dentro de um dos vagões viajava o segundo político mais importante da capital paulista. O vice-prefeito coronel Mello Araújo (PL) desembarcou na Estação da Luz e caminhou até a Rua dos Protestantes. Naquele 5 de maio, a região conhecida como cracolândia ainda abrigava dezenas de usuários de drogas. Além dos assessores, o ex-comandante da Rota estava acompanhado de profissionais da saúde.
Mello Araújo dividia o tempo dando entrevistas e conversando com os dependentes químicos. Havia, também, uma assistente social, que carregava uma prancheta. Ela conversava com os usuários de drogas e oferecia tratamento em uma casa de recuperação. Naquele dia, a equipe de reportagem viu um dependente entrando em uma van, que o levou a uma clínica.
O trabalho de “formiguinha”, como mencionou o vice-prefeito, era feito todos os dias. O número de pessoas que frequentavam o lugar diminuiu gradativamente. Nas semanas anteriores, havia cerca de 200 usuários na região. Naquele dia, eram aproximadamente 50. Cinco dias depois, o local estava vazio.
De acordo com Mello Araújo, a maioria das pessoas que estava na cracolândia naquela semana pediu internação. O motivo: “Não havia mais traficantes no entorno. Todos foram presos”, afirmou. Contudo, os usuários que não foram para a internação se dispersaram pela cidade e formaram novos fluxos. A Praça Princesa Isabel, no bairro Campos Elíseos, voltou a abrigar dependentes. O vice-prefeito afirmou que o trabalho é duro, porque o crime organizado controla os usuários da cracolândia. Dita, por exemplo, o que eles devem dizer à polícia.
Para entender melhor a situação, Oeste conversou com o vice-prefeito. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que aconteceu para a cracolândia ficar vazia da noite para o dia?
Tenho acompanhado a queda dos números de usuários porque vou todos os dias à cracolândia. Eles foram saindo de forma gradual. Em 6 de maio, havia apenas 71 pessoas na Rua dos Protestantes. Reforçamos o policiamento com cavalos e cachorros quando vimos que havia poucos dependentes e era o momento ideal para acabar com o fluxo. Prendemos traficantes que vendiam drogas dentro dos hotéis da região. O Primeiro Comando da Capital [PCC] usa muitos desses imóveis, inclusive, para lavar dinheiro. Como a droga acabou, muitos dependentes foram procurar internação. No domingo 11, já não havia ninguém na cracolândia. Na segunda-feira 12, funcionários da saúde me disseram que havia 60 pessoas na porta do Caps [Centro de Atenção Psicossocial] pedindo internação. Liguei para o vice-governador, Felicio Ramuth [PSD], e disse que precisávamos fazer um mutirão para mandá-los às clínicas de recuperação. No fim do mesmo dia, 90 já tinham procurado ajuda. Isso ocorre todos os dias. Agora precisamos estar atentos em relação a qualquer agrupamento que apareça no centro de São Paulo. O pessoal pode se juntar para começar a vender drogas em outros lugares. Vamos abordá-los caso isso aconteça.
Depois que os usuários saíram da cracolândia, novos fluxos se formaram no centro de São Paulo. Isso sugere que o problema não foi resolvido. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Muitos se dispersaram, é verdade, mas vamos continuar trabalhando. A polícia vai abordar quando encontrar algum fluxo concentrado. Se houver criminosos, vai prender. Se for usuário, vamos conversar e oferecer internação. Há uma van que está sempre à disposição para levá-los para o tratamento.

Os dependentes são unânimes em dizer que a Guarda Civil Metropolitana os expulsou da Rua dos Protestantes. É verdade?
Ninguém os expulsou da cracolândia. Temos de entender que os traficantes que atuam no centro de São Paulo têm domínio sobre os dependentes. Para ter uma ideia, os bandidos ficam com o cartão do Bolsa Família dos usuários para depois trocar por drogas. Os criminosos ditam as regras para os dependentes. Então, há uma possibilidade de os traficantes mandarem os dependentes colocarem a culpa na polícia. Há, inclusive, fotos que mostram os líderes do tráfico conversando com os usuários.
Os traficantes podem ter mandado os dependentes saírem da cracolândia?
As informações que tivemos não são essas. Estou falando o que constatei. As internações estão ocorrendo. É real.
Como o senhor vê esse trabalho no longo prazo?
São Paulo é muito grande. O trabalho é complicado. Ainda há vários moradores de rua que vagam pela cidade. Da mesma forma que há dependentes que buscam internação, há outros que entram para o mundo das drogas. É claro que os usuários que estavam na cracolândia podem formar grupos em diferentes pontos. Mas continuamos trabalhando.
A droga que é vendida no centro de São Paulo vem da Favela do Moinho?
Uma grande parte vinha do Moinho. Depois que a polícia começou a fazer operações na favela, acredito que os traficantes tenham saído de lá. Apreendemos drogas e armas lá dentro. As coisas melhoraram naquele lugar depois que o governo federal aceitou fazer a revitalização. Estamos demolindo as casas e levando as famílias para outros lugares. Os moradores têm Auxílio Aluguel, que é pago pela prefeitura e pelo governo do Estado. Até o momento, conseguimos tirar 216 famílias do Moinho, mas ainda faltam mais de 400.

Os moradores do bairro Belém dizem que o padre Júlio Lancellotti está levando os usuários de drogas para aquela região. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Isso, de fato, está ocorrendo. O padre trabalha para dar migalhas para essas pessoas. Não quer que se tratem. Lancellotti fez um vídeo incentivando um usuário a não se internar. Ele dizia para o rapaz que os enfermeiros da clínica aplicariam injeções, que ele ficaria louco. O sacerdote faz um completo desserviço para a comunidade.
Como está a segurança do centro de São Paulo depois do desmantelamento do tráfico na região da cracolândia e na Favela do Moinho?
Não tenho os últimos dados, mas o centro está mais seguro. Conversei com comerciantes, e eles elogiaram o trabalho da prefeitura. Levaram-me até o local onde era a cracolândia e disseram que querem fazer um parque para crianças. Trabalhadores da região relataram que as empresas começaram a lucrar depois que a operação sufocou o tráfico. Não vencemos a guerra, mas ganhamos algumas batalhas.
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Parabéns pela atuação, Mello Araújo.
É só colocar gente decente e honesta em qualquer função pública que tudo melhora
Este padre não pode ser preso por contravenção? Ele está a favor do tráfego de drogas então é traficante.
Não, pois não há comprovação de que ele tenha cometido qualquer delito. Dar maus conselhos a alguém não é crime, nem contravenção. E não gosto do Lancelotti
O trabalho é incessante.
Coragem e persistência eternas.
Tolerância zero para tráfico de drogas. E a sede do governo, e suas secretarias, têm que voltar para o Centro da cidade.