publicidade
Foto: Shutterstock
Edição 270

Um governo reborn

Muitas vezes, temos a impressão de que tudo virou um enorme manicômio às avessas, um hospício woke em que os sadios são os loucos, e os malucos, os sãos

Que o mundo enlouqueceu é sabido e notório. Tantas atitudes e comportamentos estranhos têm se tornado cada vez mais comuns que a normalidade, tal como sempre foi entendida, parece ter sido completamente abolida da civilização e substituída por um curioso homônimo fake, que estabelece que o errado é certo, o torcido é endireitado, a sinuosidade é linearidade e o analfabetismo é sabedoria. Muitas vezes, temos a impressão de que tudo virou um enorme manicômio às avessas, um hospício woke em que os sadios são os loucos, e os malucos, os sãos.

O mais recente item no cardápio do sanatório em que transformaram o Ocidente são os bebês reborn, bonecos muito realistas feitos manualmente de vinil ou silicone e que imitam quase que perfeitamente os bebês reais — os de carne e osso, nascidos de uma mulher a partir da união com um homem —, em características como aparência, peso, pele, cabelos, unhas e até artérias. Até aí, nada de errado, uma vez que se trata apenas de peças artesanais. O problema é que muitas pessoas estão tratando esses bonecos como filhos de verdade, com tudo o que isso implica: trocar fraldas, amamentar, levar ao pediatra, cantar canções de ninar, solicitar guarda em caso de divórcio e até mesmo usá-los como pretexto para furar filas em supermercados.

Boneca bebê reborn | Foto: Shutterstock

Psicólogos como Jordan Peterson quase que certamente atribuiriam o comportamento desses “pais” e “mães” de bonecos a uma necessidade de escapar da realidade, de esquivar-se dos desafios da vida real, ou como indicador da ausência de um propósito na vida, ou simples carência, ou busca por maternidade e responsabilidade. Enfim, penso que temos que desejar o melhor para essas pessoas, mas não podemos fugir ao dever de dizer que o seu comportamento não pode ser considerado normal, porque brincar de boneca quando não se é mais uma menina não é mesmo normal. Cada um deve ser livre para fazer o que quer com a própria vida, mas desde que suas doidices não causem danos a terceiros, como no caso daquela moça que exigiu atendimento para o seu boneco em um posto de saúde e, diante da negativa, aprontou uma confusão tamanha que atrasou o atendimento de quem realmente necessitava.

Mas este artigo não é sobre bebês reborn, é sobre o governo reborn de Lula, um governo que, exatamente como o boneco, em tudo se assemelha a um governo de verdade, mas não tem vida, no sentido que se atribui a qualquer governo. Assim como um bebê de silicone jamais aprenderá a ler, um governo reborn em nenhuma hipótese saberá governar. A gestão petista, com suas quase quatro dezenas de ministros, é um acúmulo de desordem, incompetência, ideologia e autoritarismo fantasiado de democracia. Não tem sinais vitais. A rigor, não é um governo, é uma peça reborn. Vamos tentar mostrar alguns porquês?

Um grande boneco inflável de Lula em um ato em Copacabana para comemorar seu 74º aniversário e pedir sua saída da prisão, em Copacabana, Rio de Janeiro (27/10/2019) | Foto: Shutterstock

A economia rupestre

Não obstante o partido do governo, sempre apoiado cegamente por seu exército de militantes na imprensa, tentar vender há 45 anos aos incautos a narrativa de que é voltado para os pobres, hoje, em meio ao seu quinto mandato, o país está submerso em uma crise fiscal aguda, em uma inflação de preços bastante alta e com uma fuga de investimentos significativa, em consequência de suas políticas desastrosas. O Brasil, que já fora considerado uma potência emergente, está com a economia à deriva e à beira do abismo, enquanto o governo não se cansa de privilegiar aliados ideológicos e ignorar as vantagens da economia de mercado.

As promessas populistas de Lula, que refletem uma concepção antediluviana da economia, têm acarretado altos custos para o povo brasileiro e levado o Brasil à desindustrialização, ao aumento da pobreza e à estagnação econômica. Na cartilha econômica do PT, empreendedores e investidores são tratados como inimigos. Isso inevitavelmente gera um ambiente hostil para os negócios e um desestímulo ao empreendedorismo, acendendo o sinal vermelho para investimentos estrangeiros e nacionais, tendências amplificadas pelo inacreditável ambiente de instabilidade jurídica decorrente dos conflitos no terreno das atribuições dos três Poderes.

Para agravar a situação, o governo continua a distribuir benesses para os seus aliados políticos, a ampliar o assistencialismo e os privilégios para sindicatos amigos e a expandir um Estado que já era inchado e ineficiente havia bastante tempo. A receita do PT é perfeita para o declínio econômico.

Cerimônia de Entrega da Ordem do Mérito Cultural, no Palácio Gustavo Capanema. Na foto (da esquerda para a direita): Lula, Janja e e a Ministra da Cultura, Margareth Menezes, no Rio de Janeiro, RJ (20/5/2025) | Foto: Ricardo Stuckert/PR

A derrocada moral e democrática

As críticas ao governo reborn não se restringem à economia. Há um autoritarismo que contempla perseguição a opositores, aproximação com ditadores espalhados pelo mundo e insistência doentia em controlar a mídia e enfraquecer instituições democráticas. Há, ainda, ataques sistemáticos à liberdade de expressão, tentativas reiteradas de censurar as redes sociais, perseguição a jornalistas e a políticos de oposição, presos políticos e brasileiros asilados no exterior, o que evidencia intolerância a críticas e desejo de apossar-se do Estado.

Na semana passada, na China, Lula, ao tentar defender sua mulher de uma de suas habituais atitudes inconvenientes, deixou escapar que havia pedido pessoalmente ao ditador chinês Xi Jinping — a quem chamou de “companheiro” — que designasse um representante “de confiança” para “discutir o que a gente pode fazer para regulamentar a internet com ênfase na plataforma TikTok”. Para o jurista André Marsiglia, isso é revelador: “Sem dúvida é um sinal, pois a China é um modelo de gestão totalitária da liberdade de expressão. Chega a ser uma confissão de que a regulação é, para o governo, um mero eufemismo para a censura”. Caros leitores, não há como aceitar que o presidente do Brasil, um país supostamente democrático, faça um pedido desse teor ao líder de uma ditadura.

Xi Jinping e Lula durante a cerimônia de boas-vindas, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, China (13/05/2025) |
Foto: Ricardo Stuckert/PR

A impressão que se solidifica é a de que o interesse maior dessa gente que está no leme do país é apenas consolidar o seu projeto de poder, em detrimento de tentar resolver os problemas reais da população. O fato — evidente e patente — é que estamos longe de uma democracia vibrante, reféns de políticos obcecados pelo controle absoluto do poder e com perspectivas incertas de resgate das liberdades que nos vêm sendo paulatinamente surrupiadas. Essa visão de um Estado centralizador e — o que é ainda mais preocupante — aliado de regimes autoritários nos leva a reconhecer que o Brasil está flertando com o fracasso.

Enquanto isso, o povo brasileiro enfrenta as consequências do governo reborn: inflação, desemprego, aumento da criminalidade, perda de confiança nas instituições etc. Como expôs o Wall Street Journal em artigo de novembro do ano passado, Lula, que se apresenta como “o pai dos pobres”, é, na verdade, o pai do caos. Essa crítica acerba ao presidente apenas reflete o que todos já sabíamos havia muito tempo (inclusive muitos “liberais” que o apoiaram em 2022): que sua gestão seria uma tragédia anunciada. Não tinha como ser diferente.

A política externa nanica

Lula e o PT sempre demonstraram simpatia por ditadores de esquerda e era ingenuidade esperar que fosse diferente neste seu terceiro mandato (que já é o quinto do partido): a conhecida nanodiplomacia petista tem reafirmado sua velha paixão por regimes autoritários espalhados pelo planeta: Maduro foi recebido com honras de chefe de Estado; navios de guerra do Irã atracaram misteriosamente no Rio de Janeiro; gestos de antipatia a Israel logo depois dos ataques cometidos pelos terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023; apoio declarado ao Hamas e ao regime dos aiatolás; alinhamento com a ditadura chinesa; agressividade de adolescente contra os Estados Unidos; apego ao Brics e ao Mercosul; afagos subservientes ao ditador Putin; asilo concedido a Nadine Heredia, logo depois de ser condenada a 15 anos de prisão por lavagem de dinheiro durante a campanha eleitoral de seu marido, Ollanta Humala, também sentenciado a 15 anos de reclusão. 

Nadine Heredia e Ollanta Humala, ex-presidente do Peru, durante atividades para o Dia da Independência, em Lima, Peru (28/7/2014) | Foto: Shutterstock

Entre tantos vexames, desponta ainda a presença de Lula em Moscou, no 80º aniversário da derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial, com a presença de cerca de 20 chefes de Estado, todos eles ditadores convictos e contritos, entre os quais o próprio Putin, Xi Jinping (China), Nicolás Maduro (Venezuela), Miguel Díaz-Canel (Cuba), Mahmoud Abbas (Palestina), Masoud Pezeshkian (Irã), Denis Sassou-Nguesso (República do Congo), Abdelmadjid Tebboune (Argélia), Abdul Fatah al-Sisi (Egito) e Tô Lâm (Vietnã). Enquanto o mundo livre celebrava o Dia da Vitória, uma conquista principalmente dos Estados Unidos e das democracias da Europa, o nosso presidente preferiu festejar em um país que era (e ainda é) uma ditadura e que só passou a combater o nazismo quando Stalin percebeu que Hitler não estava disposto a cumprir o acordo que assinaram na própria Moscou em agosto de 1939, conhecido como Pacto Molotov-Ribbentrop ou Pacto Nazi-Soviético, seguido pelo Acordo Comercial Germano-Soviético, de fevereiro de 1940. Lula não hesita em fazer o Brasil passar vergonha.

Em suma, a política externa do PT está muito mais focada na agenda ideológica esquerdista e globalista, como a pasmaceira do Sul Global, o nhe-nhe-nhem do clima e a mesmice das pautas woke, do que na boa diplomacia para obter ganhos geopolíticos e econômicos para o Brasil mediante um pragmatismo de acordos comerciais mais amplos com países reconhecidamente democráticos. É antiquada, é estulta, é desastrosa. É o nanismo diplomático. Parece que os responsáveis por nossa atual política externa acreditam piamente em um falso teorema, o de que o somatório das pobrezas é igual à riqueza.

Lula e Janja ao lado de ditadores em cerimônia de oferenda floral no Túmulo do Soldado Desconhecido, Jardim de Alexander, Muralha do Kremlin, em Moscou, Rússia (9/5/2025) | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Outras críticas

Há muitas outras críticas ao governo reborn do PT. Vamos apenas citar algumas: (a) a visível inoperância e falta de qualificação da maioria dos quase 40 ministros; (b) a volta dos escândalos de corrupção ao noticiário, com a revelação, pela Operação Arcanjo, de fraudes gigantescas no INSS, que levaram à demissão do ministro da Previdência (que foi substituído, inacreditavelmente, por seu próprio homem de confiança) e a pressões da oposição pela instauração de uma CPI; (c) a priorização de despesas desnecessárias, como diversos eventos ditos “culturais”, a renovação da mobília e do enxoval do casal presidencial e a ideia de comprar um novo avião para o presidente, tudo isso pago com recursos dos pagadores de impostos, ao mesmo tempo em que o governo se nega a cortar gastos para buscar o equilíbrio fiscal; (d) a falta de diálogo com o Congresso e o recurso ao socorro do Judiciário; (e) o descumprimento de dezenas de promessas de campanha, como a da picanha para todos e a da acessibilidade a viagens aéreas para os pobres, que caíram no terreno das chacotas; (f) a ausência total de um projeto claro de governo (que é diferente de projeto de poder), citada até mesmo por bases que o apoiaram em 2022; (g) o acirramento da polarização, com a insistência na criminalização da oposição por meio da narrativa descabida de uma pretensa tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023; (h) as críticas, endossadas por setores do próprio governo, à primeira-dama, no sentido de que mistura frequentemente o papel institucional com ativismo.

Se somarmos a todos os porquês apontados até aqui a omissão indesculpável do Congresso, especialmente do Senado, e a invasão, por parte do Judiciário, da esfera de competência dos outros Poderes (judicial overreach), concluiremos que não apenas o governo é reborn, mas nossa própria democracia. O Executivo brinca de governar, e o Legislativo e o Judiciário, de democracia. Só que os bonecos, aí, somos nós.


Ubiratan Jorge Iorio é economista, professor e escritor.
Instagram: @ubiratanjorgeiorio
Rede X: @biraiorio

Leia também “Tamanho do Estado e corrupção”

Leia mais sobre:

6 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Excelente artigo Professor Iorio.
    Ninguém em sã consciência poderia esperar algo diferente, mesmo aqueles que assinaram a carta da democracia, a turma da Faria Lima, etc.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Veja que a malandra de porta de cadeia sempre aparece ao lado do ladrão de volta a cena do crime. O planejamento sucessório dele, passa por ela, o próprio apelido “janja” ja foi feito nos mesmos moldes do “Lula” para popularizar.
    Meu receio é, com a morta do Ladrão, o povo se comover e eleger esta malandra. Infelizmente boa parte da população brasileira carece de racionalidade.

  3. José Sergio do Amaral Mello Filho
    José Sergio do Amaral Mello Filho

    Excelente, Ubiratan. Eu que sou seu seguidor em seus textos sobre liberalismo, faço de suas palavras as minhas.

  4. Ana Cláudia Chaves da Silva
    Ana Cláudia Chaves da Silva

    Excelente artigo. Um perfil de um governo irresponsável, incompetente e sem apoio da população.

Anterior:
De olho em 2026, gringos estão otimistas com a bolsa brasileira
Próximo:
INSS: a mãe de todas as pirâmides financeiras
publicidade