Covardia não é um atributo raro. Incoerência também não. Em um país como o Brasil, as vantagens de ser covarde e incoerente são muitas, para pessoas e instituições. A hipocrisia permite que posições covardes e incoerentes sejam apresentadas como heroicas. Nosso papel aqui é desafinar o coro dos contentes, por isso lembramos: a censura que agora provoca o choro das empresas de rede social foi criada por elas próprias.
As gerações mais novas talvez não se lembrem, mas houve um tempo em que podíamos falar livremente nas redes. Sim, amiguinhos: na época do Orkut não havia censura. Lembro quando o Facebook surgiu. Naquele tempo pioneiro, quando tudo na internet ainda era mato, não havia controle de “conteúdo” (aliás, ninguém usava esse termo ridículo). Mesmo assim, as redes não eram uma terra de ninguém, cheia de violência, ódio e incitação ao crime. Pelo contrário, na sua infância, as redes eram uma descoberta maravilhosa, um lugar para reencontrar amigos e postar poemas, textões sobre política e fotos do final de semana. Ainda se passariam muitos anos até que surgissem as polícias do pensamento que as redes sociais decidiram criar para vigiar usuários.

É difícil dizer quando isso começou. Preciso fazer força para lembrar algum episódio de censura antes de 2018. Esse foi o ano em que a política foi tomada pelo fenômeno Jair Bolsonaro. Bolsonaro não foi um evento isolado. Já nos anos anteriores o ambiente virtual, que fora um dia dominado pela militância de esquerda, vinha sendo gradualmente conquistado por gente que não era de esquerda — pessoas que, por falta de um termo melhor, englobamos debaixo da denominação genérica, mas muitas vezes inapropriada e contestável, de “direita”.
A direita bolou memes incríveis e descobriu como viralizar vídeos. Depois de retirar da esquerda o domínio das ruas — que a partir de 2014 foram se tornando verde e amarela —, a direita tomou de assalto as redes. Processos semelhantes devem ter acontecido em outros países. Mas, em algum momento, o establishment acordou. De repente, usuários das redes começaram a receber avisos de que tinham violado os “termos da comunidade”, aquele conjunto gigantesco de regras em letrinha miúda que ninguém lê, mas que todo mundo aceita quando cria um login em uma rede social.
Postagens começaram a ser apagadas; contas, bloqueadas; e alguns usuários, até banidos definitivamente (como o Twitter fez com o atual presidente dos EUA, na época ex-presidente, Donald Trump). A explicação, quando havia alguma, era sempre a mesma: “Você violou os termos da comunidade”. Ponto final.

Isso aconteceu comigo nas três principais redes que eu usava: Twitter, YouTube e Facebook. O Facebook decidiu classificar algumas das minhas postagens como inapropriadas. Depois de retirá-las do ar, os fiscais me mandavam mensagens oferecendo a opção de recorrer da decisão. Tudo o que eu precisava fazer era passar horas preenchendo formulários complicadíssimos, alguns dos quais não esboçavam nenhuma reação quando eu clicava o botão “enviar”. Em alguns desses casos, depois de um prazo aleatório, o Facebook colocou as postagens de volta, sem qualquer explicação sobre o motivo pelo qual elas tinham sido suspensas.
Com o Twitter, pelo que me lembro, era ainda pior. Simplesmente aparecia uma tarja avisando do cancelamento da postagem, sem qualquer explicação e sem oportunidade para recorrer. Depois, Elon Musk comprou o Twitter, mudou o nome para X e alterou as regras, prometendo liberdade de expressão. Quando Musk determinou a publicação dos chamados “Arquivos do Twitter”, ficamos sabendo da colaboração íntima dos executivos da rede com agências de informação e segurança americanas para censurar usuários, em flagrante violação das leis e da própria Constituição dos EUA. Só podemos imaginar o que aconteceu por aqui.

O caso do YouTube foi o pior de todos. Escrevi artigos sobre isso; portanto, serei breve. Basta dizer que meu canal, que havia experimentado um crescimento meteórico depois que foi criado, foi desmonetizado, sem qualquer explicação, por cinco meses. Minha tentativa de obter alguma explicação ou correção por parte do YouTube daria um romance de Kafka.
Elon Musk prometeu liberdade no X. O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg — que estava na posse de Donald Trump —, publicou uma carta aberta na qual se comprometia a lutar pela liberdade de expressão em todo o mundo. Meu canal foi remonetizado no YouTube. Esses são bons sinais. Mas coisas estranhas continuam a acontecer nas redes. Os famosos “algoritmos” ainda se comportam de forma imprevisível. Uma das reclamações mais comuns, em todas as redes, é a de pessoas que me seguem e um dia descobrem que a conexão foi desfeita. Existe uma explicação oficial: isso seria o resultado de um “processo de limpeza” feito com o objetivo de impedir a atuação de robôs. Se for verdade, essa “limpeza” está sendo feita de forma muito grosseira e desastrada. O passado das redes justifica nossas suspeitas.

Se alguém lutou pela plena liberdade de expressão nas redes sociais, não foram as empresas controladoras delas. Nos Estados Unidos e no Brasil, foram justamente essas empresas que iniciaram o movimento de policiamento dos usuários. É compreensível que elas se justifiquem dizendo que fizeram isso pelos melhores motivos. As informações reveladas pelos “Arquivos do Twitter” contam outra história.
Em um universo paralelo, poderíamos ter esperança de uma solução jurídica para a assimetria de poder entre os usuários e as empresas de rede. Mas vivemos em um tempo em que o Direito foi capturado por interesses políticos e ideológicos alinhados com a agenda das grandes corporações multinacionais, como são as empresas de rede. A narrativa dominante faz crer que existe um conflito entre regulamentações — como a que acaba de ser decidida pelo tribunal máximo do Brasil — e os interesses das redes. Esse conflito é apenas aparente.
Redes sociais são ambientes privados. Na minha opinião, as empresas de rede social deveriam ter total poder para determinar o que desejam ou não exibir. Mas que sejam transparentes e coerentes em relação a isso. Não vale usar chapéu de censor de manhã e boné de vítima à tarde.
A hipocrisia das redes é uma evidente violação dos termos da nossa comunidade.
Leia também “A Praça do Único Poder”




E hoje com a Internet as redes informando e no mundo todo os jovens caminhando para trás. Hoje todos sabem que o comunismo foi uma tragédia humana em todo planeta e a jumentauada continua do lado avesso
Exato, Motta. Ajudaram a chegar nesse nível. Igual os ”puritanos” que fizeram o L e agora se fazem de doido!
Caro Roberto Motta,
Pelo menos pra mim, foi uma novidade pois nunca havia pensado nessa hipocrisia das redes sociais! Devemos lembrar da máxima brasileira “quem procura acha e não perde tempo”! E, pelo visto, as redes acharam a censura que procuraram e algumas vezes praticaram! E o STF foi no alvo ao mirar o artigo 19 do Marco Civil da Internet! Parabéns pela sua analise precisa.
Caro Roberto Motta,
Pelo menos pra mim, foi uma novidade pois nunca havia pensado nessa hipocrisia das redes sociais! Devemos lembrar da máxima brasileira “quem procura acha e não perde tempo”! E, pelo visto, as redes acharam a censura que procuraram e algumas vezes praticaram! E o STF foi no alvo ao mirar o artigo 19 do Marco Civil da Internet! Parabéns pela sua analise precisa.