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Bandeiras iranianas em meio ao fogo e à fumaça de um ataque israelense ao depósito de petróleo de Sharan, em Teerã, no Irã (15/6/2025) | Foto: Reuters/Majid Asgaripour/WANA
Edição 276

Tempestade perfeita no Irã

Israel conquistou seus objetivos militares imediatos, mas só a diplomacia pode abrir as portas para a paz

O regime iraniano assombra os israelenses há décadas, seja com suas declarações de ódio e pedidos de sanções na ONU, seja por meio do financiamento e do treinamento de grupos terroristas no Oriente Médio e além, a exemplo dos Houthis, no Iêmen. Ou, ainda, por meio das menções constantes do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em entrevistas e discursos, que foram vistas, por muitos, como paranoicas.

Assim, não foi exatamente uma surpresa para os israelenses quando, no dia 13 de junho, o assombro deu lugar a um ataque coordenado ao regime dos aiatolás, o confronto mais significativo para Israel desde a invasão do Hamas em outubro de 2023.

A maioria dos israelenses — ou 82% deles, segundo a pesquisa do Israel Democracy Institute — considerava o ataque ao Irã necessário. Ainda assim, nem todos apostavam que Netanyahu realmente daria esse passo. O primeiro-ministro enfrenta longos processos judiciais que o forçam a comparecer três tardes por semana ao tribunal em Tel-Aviv, mesmo em meio à guerra, e sua imagem pública e força política foram profundamente afetadas pelas falhas de segurança que levaram ao pior massacre de judeus desde o Holocausto. 

A preparação da população

O planejamento do complexo ataque ao Irã exigiu sigilo. Mesmo assim, o governo aproveitou várias oportunidades para alertar a população sobre sua aproximação. Diferente da ameaça imposta pelo Hezbollah ou pelo Hamas, o contra-ataque iraniano poderia causar destruição em larga escala — de bairros inteiros à infraestrutura nacional — e milhares de mortes.

Permanecer nas escadarias internas dos prédios, opção possível em guerras anteriores, não garantiria proteção suficiente. Nem mesmo os quartos de segurança presentes em muitos apartamentos modernos. A recomendação da Defesa Civil era buscar refúgio em bunkers subterrâneos, públicos ou instalados em edifícios.

Uma orientação, aliás, que se provaria correta mais tarde, depois da morte de seis israelenses dentro de quartos blindados em seus apartamentos, os quais não resistiram ao impacto direto de um míssil balístico.

Havia incerteza em relação à participação americana no ataque, especialmente depois de Donald Trump anunciar, em abril, que retomara negociações nucleares com o Irã — pegando Netanyahu aparentemente de surpresa. O líder da oposição ao governo em Israel, Yair Lapid, acusou publicamente o premiê de ter “perdido Trump”. Após o fim da guerra, os dois políticos apareceram trocando afagos em público. 

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu se reúne com o líder da oposição, Yair Lapid, para uma atualização de segurança (16/6/2025) | Foto: Reprodução/Avi Ohayon, GPO

Também pairava no país a sensação de urgência de combater não só o programa atômico iraniano, como também a acelerada produção de mísseis balísticos planejada pelo regime iraniano após o início da guerra em Gaza. O país já contava com um arsenal de 2,5 mil mísseis superpotentes e lançou a meta de alcançar a marca de 4 mil até março de 2026, e de 8 mil em 2027. O Irã estaria, assim, capacitado a superar a capacidade defensiva e de contra-ataque de Israel.

“Vários elementos criaram uma ‘tempestade perfeita’ sobre o Irã”, explica o major general da reserva Yaakov Amidror, membro do Jerusalem Institute for Strategy and Security, usando o termo oriundo da meteorologia que descreve uma combinação incomum e rara de eventos que causa um impacto muito maior do que cada um deles isoladamente. “Hamas e Hezbollah estavam fora da equação, assim como as milícias iranianas no Iraque e a ameaça da Síria, que para completar abriu seu espaço aéreo para a passagem de nossos jatos. A defesa aérea iraniana havia sido destruída por nossa força aérea em outubro de 2024. Por fim, Washington nos garantia costas quentes”, resume Amidror.

Golpe sistêmico

Israel vinha se preparando para esse ataque havia anos. Observando o Irã a uma distância muito menor do que o regime iraniano podia imaginar, as forças de segurança israelenses receberam do governo, em fevereiro de 2025, luz verde para finalizar os preparativos da campanha.

Documentos da Inteligência revelaram que o Mossad, serviço secreto israelense, monitorou as instalações nucleares por quase 15 anos. A organização protagonizou as cenas mais brilhantes dessa guerra, a começar pela construção de uma base de lançamento de drones explosivos nos arredores da capital Teerã, o que permitiu que Israel destruísse centenas de lançadores de mísseis iranianos pouco antes da chegada dos jatos israelenses.

Essa operação impediu que o Irã cumprisse sua ameaça de reagir lançando simultaneamente centenas de mísseis balísticos contra Israel, além de garantir a segurança e a liberdade a centenas de pilotos e navegadores israelenses que executaram os ataques aéreos ao longo dos 12 dias de conflito.

O Mossad também foi responsável pelo assassinato simultâneo de 12 dos cientistas nucleares mais importantes do Irã, além de líderes do regime e da Guarda Revolucionária.

“Entre os quatro objetivos de Israel estava a destruição do programa balístico iraniano que, apesar de praticamente ignorado pela mídia, é uma ameaça existencial a Israel, e vimos o estrago que cada um deles provoca”, explica o analista Eitan Shamir, analista do Begin-Sadat Center for Strategic Studies da Universidade de Bar-Ilan e ex-diretor do Departamento de Segurança Nacional de Israel. “Os outros três eram: danificar gravemente — e não destruir completamente, como afirmou Trump — o programa nuclear; romper o Eixo da Resistência, que é a aliança anti-Israel e antiocidente entre Síria, Hezbollah, Hamas, Houthis e milícias, sob a liderança do Irã; e criar condições para a obtenção de um acordo nuclear eficiente.”

Havia também, segundo Shamir, o desejo não declarado de oferecer ao povo iraniano a oportunidade de derrubar o regime autocrático e brutal estabelecido depois da Revolução Islâmica de 1979. Trump também citou essa esperança publicamente, mas depois voltou atrás diante da percepção, correta segundo os anais da história, de que mudanças de regime devem ser conduzidas internamente, sem interferência externa.

Israel declarou-se satisfeito com os resultados da campanha militar. Recentemente, o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (FDI), Eyal Zamir, declarou que “nós miramos alto e superamos a meta” e agradeceu especialmente à divisão cibernética do Exército. “Foi mais do que um ataque preciso; foi um golpe sistêmico”, comentou.

Medição de resultados

Até agora há divergências em relação ao resultado dos ataques às usinas iranianas. Um dos motivos é a impossibilidade de checar o nível de destruição causado por Israel e, principalmente, pelos Estados Unidos, que despejaram 14 bombas bunker buster sobre Natanz, Isfahan e Fordow, as três famosas instalações nucleares do Irã. A CNN divulgou que os danos poderiam ser revertidos em poucos meses, e a notícia foi replicada por vários veículos de comunicação importantes. A afirmação foi imediatamente rebatida por Trump, enquanto Israel manteve-se em silêncio. “Eliminamos os cientistas mais importantes do projeto atômico, assim como sua documentação. Pelas imagens, vemos que até mesmo a destruição externa não poderia ser revertida em meses. Foi uma declaração desconectada da realidade”, opina Amidror.

Outro ponto de tensão diz respeito ao desaparecimento de cerca de 400 quilos de urânio enriquecido produzidos pelo Irã. Localizá-los tem um significado prático e também psicológico, conforme explica o analista geopolítico israelense Amit Segal. “Eles podem estar em alguma usina desconhecida por israelenses e americanos. Outra possibilidade é eles virem a ser utilizados em bombas sujas e lançados contra Israel. Ambos são cenários improváveis que, no entanto, precisam ser eliminados. Por fim, a apreensão desse urânio seria uma espécie de certidão de óbito do programa nuclear iraniano.”

Doutrina Begin

Há uma particularidade dessa guerra que merece ser pontuada: esta foi a primeira vez que os Estados Unidos, por meio da adoção da Doutrina Begin — como é conhecida em Israel —, atacaram um país do Oriente Médio em vias de se tornar uma potência nuclear.

O nome remete ao ex-primeiro-ministro Menachem Begin, que determinou na década de 1980 que Israel nunca permitisse a construção de bombas atômicas por nações hostis. A doutrina foi posta em prática duas vezes no passado: em 1981, quando Begin ordenou a destruição dos reatores nucleares no Iraque, e em 2007, quando, sob a ordem do ex-primeiro-ministro Ehud Olmert, Israel fez o mesmo na Síria. Mas não há como compará-los com o ataque feito ao Irã, já que não se tratou de uma única instalação atômica, mas de dezenas de locais que precisariam ser destruídos em um único golpe de forma a minimizar ao máximo a resposta iraniana — mísseis e lançadores móveis, sites de lançamento e de armazenagem, suprimentos de combustível, líderes da Guarda Revolucionária e cientistas nucleares, entre outros alvos.

Os ataques à Síria e ao Iraque não se transformaram em guerras, e o mesmo ocorreu desta vez. Essa foi, vale lembrar, uma das condições de Trump, que antes mesmo de iniciar seu mandato prometeu não iniciar guerras, mas, sim, encerrá-las. Nesse aspecto, sua atuação foi brilhante, uma vez que de fato os EUA bombardearam as usinas e, em seguida, Trump vociferou para que Irã e Israel acatassem o cessar-fogo imposto por ele. Isso foi, segundo a análise de Shamir, a opção certa para Israel. “O nível de destruição foi grande e nossa economia foi bastante afetada: foram quase duas semanas tensas e ameaçadoras, sem aulas, sem trabalho, sem comércio, com os aeroportos fechados, edifícios destruídos, quase 30 mortos, milhares de feridos e desabrigados. Além disso, Israel tem a política de evitar guerras longas.”

Mesmo curta, esta custou caro: de acordo com as estimativas do governo, US$ 12 bilhões, dos quais US$ 3 bilhões serão destinados à reconstrução e a indenizações, segundo declarações do ministro da Economia, Betzalel Smotrich.

Donald Trump, antes mesmo de iniciar seu mandato, prometeu não iniciar guerras, mas, sim, encerrá-las | Foto: Reuters/U.S. Air Force

É hora da diplomacia

A pergunta central, agora, é como a diplomacia será usada para aproveitar as conquistas militares e assegurar que o Irã, seus apoiadores e vizinhos pouco amistosos sejam incapazes de ameaçar Israel ou o mundo ocidental, avalia Sarit Zehavi, fundadora e presidente do Alma Research and Education Center. “O mundo viu a capacidade de Israel de eliminar comandantes do Hamas, do Hezbollah e da Guarda Revolucionária Iraniana. A ideologia destrutiva, no entanto, não desapareceu: ao contrário, vemos seus seguidores trabalhando dia e noite para recuperá-la. Israel e a comunidade internacional precisarão construir uma parceria estreita que garanta que eles falhem toda vez que tentarem se rearmar.”

Zehavi afirma que é necessário implantar nesses países um novo sistema de Educação para que se comece a semear um cenário de paz entre as nações do Oriente Médio. “Enquanto houver radicais ao nosso redor, e enquanto seus governos não os dirigirem para a paz, Israel precisará manter-se forte e alerta.”

Por fim, depois dessa extensa campanha iniciada no dia 7 de outubro de 2023, chega a hora de encontrar uma saída para a guerra em Gaza que obrigatoriamente preveja a libertação dos 50 reféns ainda aprisionados embaixo da terra. “O Hamas está enfraquecido, enquanto Netanyahu e Trump estão fortalecidos — e a ambos interessa o fim dessa guerra. Acredito que estejamos próximos do fim, agora que Netanyahu ganhou força política com a qual poderá se impor sobre membros de sua coalizão”, analisa Shamir.

Sem dúvida, chegou a hora.

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