Nos últimos meses, a base aliada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se contorceu para tentar alcançar a direita nas redes sociais. Testaram de tudo: hashtags no X, vídeos em resposta ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que sozinho somou milhões de visualizações ao criticar medidas como o monitoramento do Pix, fraudes no INSS, aumento do IOF e outras polêmicas do governo. Nada funcionou.
Com o crescimento das críticas e o fracasso nas redes, o PT decidiu apelar. A gota d’água foi a derrubada do aumento do IOF pelo Congresso, mais uma tentativa de arrecadação da Fazenda de Fernando Haddad que acabou rejeitada. O episódio foi o bastante para desencadear um surto digital entre os aliados do Planalto.
Desde 26 de junho, o PT e seus defensores passaram a divulgar vídeos produzidos com inteligência artificial como parte da campanha “Taxação BBB” — voltada a bilionários, bancos e bets (casas de apostas). A estratégia tenta vender a ideia de que as novas medidas atingem apenas os “super-ricos”, mas não economiza no tom agressivo contra quem discorda. Em um dos vídeos, um burro aparece criticando a proposta. Ao fim da peça, um personagem crava: só “quem é realmente inteligente” apoia o projeto de Lula.
Por baixo, mais de R$ 170 mil foram investidos até agora para impulsionar essas peças nas redes da Meta, como Facebook e Instagram. A campanha rendeu ao PT uma rara vitória digital — um alívio para quem vinha colecionando fiascos e virando meme toda vez que tentava “lacrar” on-line.

O tom hostil, as ofensas e a retórica binária do “nós contra eles” não são novidade, mas chegaram a tal ponto que mesmo a velha imprensa não pode mais ignorar. A fórmula, no entanto, vem de longe. A chamada militância digital — ou, como viraram sinônimos, “milícia digital” ou “gabinete do ódio” — é uma invenção petista.
As origens

As críticas à atuação nas redes sociais se intensificaram durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), quando aliados do PT acusavam o então presidente de comandar um “gabinete do ódio” — uma estrutura dedicada a atacar adversários e espalhar fake news. A acusação ganhou manchetes, CPI e escândalo, mas até hoje nada foi comprovado. A estrutura, na prática, nunca apareceu.
Ironicamente, muito antes do boom das redes sociais, o PT já dominava bem a lógica da comunicação digital. Quando os blogs ainda eram a principal vitrine política da internet, o partido montou seu próprio ecossistema de veículos simpáticos à esquerda. Durante o governo Dilma Rousseff, empresas estatais destinaram milhões para os chamados “blogs sujos”, termo cunhado em 2010 por José Serra para se referir aos blogs que eram assumidamente afeiçoados ao PT.
Segundo reportagem da revista Veja, só em 2014 a gestão petista direcionou cerca de R$ 8,7 milhões a blogs alinhados com o partido, como Brasil 247, Diário do Centro do Mundo e Brasil de Fato — os mesmos que mais tarde se dedicaram a espalhar a narrativa do “golpe” no impeachment de Dilma.
Os repasses vinham direto dos cofres de estatais como Petrobras, Caixa, BNDES e Banco do Brasil — um mimo disfarçado de publicidade institucional. A torneira foi fechada com a chegada de Michel Temer à Presidência da República. “O dinheiro destinado à publicidade não deve financiar opinião, mas, sim, produtos jornalísticos de interesse público”, afirmou Temer.
Com o avanço das redes sociais nos anos 2010, o PT decidiu profissionalizar os militantes digitais. Surgiram os Núcleos de Militância em Ambientes Virtuais (MAV), um nome pomposo para o hábito de patrulhar comentários na internet. Segundo uma reportagem presente nos arquivos da Folha de S. Paulo, o treinamento foi aprovado no 4º Congresso Nacional do partido, em fevereiro de 2010. A tarefa dos filiados era básica: lotar os comentários com palavras de ordem, atacar matérias negativas e pintar o PT como vítima — ou herói — de qualquer enredo.
A iniciativa foi tão longe que o partido chegou a pedir a criação de um “guia do tuiteiro petista”, para que a tropa não se perdesse no front do Twitter — hoje rebatizado de X, mas ainda um dos campos de batalha favoritos do petismo.
Às vésperas da eleição de 2018, que terminou com a vitória de Jair Bolsonaro sobre Fernando Haddad, o chamado “Mensalinho do Twitter” escancarou que os MAVs estavam longe de ter sumido. Denúncias revelaram um esquema de pagamentos a influenciadores de esquerda para postar conteúdos pró-PT. O pacote incluía R$ 2 mil por mês e a exigência de pelo menos uma publicação diária — sempre dentro da cartilha partidária.
As mensagens eram guiadas por um aplicativo da campanha “Brasil Feliz de Novo” e incluíam elogios coreografados a nomes como Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias. A jornalista Paula Holanda foi a primeira a abrir o jogo: entrou por acreditar nas pautas progressistas, mas pulou fora ao perceber que a missão era bajular lideranças específicas.
A militância se repagina
Depois do escândalo do “Mensalinho do Twitter”, o gabinete do ódio petista passou por uma repaginada para voltar com força total nas eleições de 2022, quando Lula enfrentou Bolsonaro. Em março daquele ano, o partido anunciou que o treinamento dos MAVs deixaria de ser feito internamente e passaria para as mãos da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Rebatizados de Brigadas Digitais, os militantes virtuais teriam como missão central “ampliar a presença do campo democrático e popular nas redes sociais”, articulando uma rede de comunicação digital em defesa da candidatura de Lula.
Segundo o próprio material do movimento, a estratégia das brigadas digitais incluía elogios coreografados a Lula, apresentado como “a única e real alternativa para derrotar o bolsonarismo” e impedir o que chamavam de “destruição completa do atual regime democrático inaugurado pela Constituição de 1988”. Um enredo apocalíptico que servia para justificar qualquer tática — inclusive as mais questionáveis — em nome da salvação nacional.
O modelo das chamadas brigadas digitais se apoia em grupos de WhatsApp usados para disparar conteúdo de interesse da esquerda em massa. Mas a estratégia era mais ampla — e incluía o Twitter, dominado pelo petismo militante desde os tempos do “guia do tuiteiro”.
Em 2024, a influenciadora digital Denise Tremura admitiu, durante uma live no X, que existia um esquema de disseminação de fake news contra o então presidente Jair Bolsonaro. Segundo Denise, o responsável pelo esquema era o deputado federal André Janones, que também teria “comandado a campanha inteira” de Lula nas redes sociais. A tática consistia em espalhar mentiras sobre Bolsonaro para forçar a direita a gastar tempo o defendendo, enquanto o PT navegava livre no debate público.
🚨 BOMBA
— The Incorrupt (@TheIncorrupt_) June 13, 2024
– Influenciadora digital confessa em Sala de Voz na rede X, que havia um esquema de disseminação de desinformação contra opositores a esquerda nas eleições de 2022.
– Segundo a Detremura (Denise), quem operava o briefing das informações era o André Janones. pic.twitter.com/a3DeKmfKIF
Com a repercussão do caso depois de uma reportagem de Oeste, Denise Tremura tentou inverter o jogo: acusou a publicação de integrar a “rede de fake news” do suposto “gabinete do ódio” de Bolsonaro. Lula, por sua vez, entrou em cena com um post solidário à influenciadora, em uma publicação na qual ela contava que já fora antipetista, e classificou o relato como “importante”.
Naquela mesma semana, o Estadão revelou a existência do “Gabinete da Ousadia”, uma espécie de tropa de choque digital em defesa de Lula. Influenciadores, membros do governo e lideranças do PT realizavam reuniões diárias para definir as pautas que seriam exploradas nas redes sociais.
Entre os integrantes estava Thiago dos Reis — conhecido por discursos inflamados a favor do governo e que se encontrava foragido da Justiça, com mandado de prisão em aberto. Mesmo assim, já deu aula de comunicação digital para quadros do partido.

Tanto Denise quanto Thiago têm impulsionado a nova campanha do PT em seus perfis no X. Em novembro de 2024, o partido realizou um seminário para discutir o domínio da direita nas redes sociais.
A solução, segundo os petistas, seria reforçar a presença da esquerda on-line — e, claro, retomar a velha pauta da “regulamentação” das plataformas. A narrativa voltou com força nos meses seguintes, à medida que o partido acumulava derrotas digitais para figuras da oposição.
Fracasso evidente
Os primeiros meses de 2025 foram um desastre nas redes para o governo Lula. Em janeiro, o Planalto propôs o monitoramento de transações a partir de R$ 5 mil no Pix. Dado o histórico de aumentos tributários da gestão petista, a proposta foi vista como prelúdio de um novo imposto. Em resposta, o deputado Nikolas Ferreira publicou um vídeo detonando a medida. Resultado: mais de 300 milhões de visualizações.
A pancada foi tão forte que o governo recuou. Aliados como Erika Hilton e Lindbergh Farias tentaram reagir com vídeos próprios, mas o engajamento foi irrisório. A crise foi tamanha que o PT decidiu organizar um curso sobre redes sociais para seus dirigentes — um esforço de emergência para tentar entender por que a militância digital vinha fracassando.
Em maio, a história se repetiu. Em meio às denúncias de fraude no INSS, Nikolas voltou a viralizar e conseguiu mais de 60 milhões de visualizações em menos de 24 horas. As reações da linha de frente do governo foram pífias. Juntos, Lindbergh, Gleisi Hoffmann e André Janones não chegaram a 5 milhões de views. O total de engajamento da tropa governista foi de apenas 4,1% em comparação com o vídeo do deputado mineiro.
Tentativas de reverter o cenário com campanhas institucionais também fracassaram. Uma peça voltada para o público evangélico mal passou de 1,4 mil visualizações no YouTube. Outra, exaltando a primeira-dama Janja da Silva, não chegou a 30 mil curtidas no Instagram.
Diante do fiasco generalizado, o governo decidiu radicalizar o discurso, apelando ao confronto direto como último recurso para tentar sobreviver digitalmente.
Radicalização sem limites
No dia 2 de julho foi lançada uma plataforma digital dirigida a influenciadores pró-Lula, em parceria com a Fundação Perseu Abramo. Durante a reunião virtual de estreia, o deputado Jilmar Tatto (PT-SP), secretário de comunicação do partido, deu o recado: a ideia é assumir de vez o embate “nós contra eles”.
O recado veio com incentivo prático. No encontro, foi oferecido até apoio jurídico para que os influenciadores se sintam mais à vontade para atacar os adversários com menos filtro.
Os vídeos da campanha “Taxação BBB”, produzidos com inteligência artificial, atacam os críticos da taxação e exaltam a isenção do Imposto de Renda como grande trunfo da gestão. A sutileza passou longe: o tom é agressivo, provocativo — e proposital.
À imprensa, o partido confirmou que pretende manter a estratégia, surfando na rara vitória digital sem mexer no tom. O que antes era prática de bastidor virou diretriz oficial: o PT agora incentiva abertamente o uso de ataques diretos e argumentos exagerados como ferramenta de propaganda — mesmo que o sucesso venha no grito, pelo escândalo, e não pela razão.
Se a reedição da velha tática dos MAVs funcionará só o tempo e o Congresso Nacional dirão. Uma coisa é certa: a radicalização do discurso petista é sintoma do desespero de um governo que já não consegue esconder sua crise. O tom só tende a piorar.
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Quer dizer que agora a quadrilha tem apoio jurídico?
Eis aí o verdadeiro gabinete do ódio. Agora escancarado e sem pudor. Acuse-os do que vc é, xingue-os do que vc faz.
Impressionante a capacidade desta gangue de agir contra a sociedade brasileira.
Parabéns Rachel Diaz pelo artigo minucioso.
Ernando N Barros
Adianta mais. Tudo o que eles propagam só gera nojo e repulsa
Esses jumentos cabras-safados ladrões bem não sabem que a população toda está contra eles. Bando de idiotas vocês vão é pra cadeia jumentaiada
Tudo o que eles divulgam e ainda divulgarão. faz parte de um enredo macabro, digno de pena pela ignorância, antiética e hipocrisia que carregam! O pior é ter supostos advogados que defendem abertamente a criminalidade executada por esse Partido das Trevas, o tal de Prerrogativas é um verdadeiro escárnio da advocacia, porta voz de bandidos, ladroes, sequestradores e assassinos do passado; que agem quase igual atualmente. Só a ajuda externa como tentativa de freio nisso!