O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve um gosto peculiar na hora de montar o primeiro escalão de seu atual governo. Para chefiar ministérios, o petista escolheu figuras como Fernando Haddad (Fazenda), Simone Tebet (Planejamento), Márcio França (Empreendedorismo) e Alexandre Silveira (Minas e Energia). Os quatro ganharam vez na Esplanada depois de serem rejeitados pelos eleitores e saírem derrotados das urnas em 2022. A predileção por perdedores ganhou mais um capítulo nos últimos dias, com a eleição de Edinho Silva para presidir o diretório nacional do Partido dos Trabalhadores (PT). Escolha que passou pela validação pessoal do presidente da República.
Assim como o quarteto que integra o primeiro escalão do Poder Executivo federal, Edinho vem de derrota eleitoral. Em 2024, ele, então prefeito de Araraquara (SP), não conseguiu fazer sucessora. Pior, viu a sua ex-secretária de Saúde, Eliana Honain, perder para Doutor Lapena, representante do PL na disputa municipal.
Covidão e Lava Jato
A dupla Eliana e Edinho vai além da derrota eleitoral para o PL. Como secretária de Saúde e prefeito de Araraquara, os dois gastaram R$ 1 milhão dos pagadores de impostos na compra de respiradores em meio à pandemia de covid-19. Detalhe: os aparelhos nunca foram entregues.

O esquema conhecido como “Covidão” chegou a incomodar o hoje presidente nacional do PT. Ele foi alvo de Comissão Parlamentar de Inquérito na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. O nome do petista ainda consta em inquérito que corre no Superior Tribunal de Justiça, justamente a respeito de fraude na compra de respiradores na época da pandemia. Sobre o caso, o Tribunal de Contas da União considerou, em 2021, como irregular a compra de 25 ventiladores pulmonares, por mais de R$ 4 milhões, pela Prefeitura de Araraquara — então gerida por Edinho Silva.
Deputado estadual por São Paulo por apenas um mandato e ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social durante o momento derradeiro de Dilma Rousseff como presidente da República, Edinho também foi mencionado em outra investigação que atingiu petistas. Ele chegou a ser alvo da Operação Lava Jato, mas o Poder Judiciário o livrou de quaisquer punições — apesar de delatores o definirem como “intermediador” para o pagamento de propinas.



Como prefeito de Araraquara, Edinho teve relação com o 8 de janeiro de 2023. Foi a partir de um pedido dele que Lula se ausentou de Brasília na data em que as manifestações resultaram nas invasões às sedes dos três Poderes. No dia, o presidente foi à cidade do interior paulista para conferir de perto uma cratera que havia sido aberta em decorrência de fortes chuvas. O buraco, que chegou a “engolir” carros e provocar a morte de seis pessoas de uma mesma família, estava ativo desde 28 de dezembro de 2022, mas Lula resolveu ir ao local justamente no dia 8 de janeiro para, nas palavras dele, “examinar danos”.

Um partido desunido
Livre judicialmente de processos da Lava Jato e sem avanço das investigações do “Covidão”, Edinho Silva assume, com as bênçãos de Lula, o maior desafio de sua conturbada carreira política: liderar a retomada do PT. Para isso, a sigla, que tanto promove o discurso de unir o Brasil, terá que superar problemas internos e externos.
Atualmente, o PT se mostra como um partido longe da união de seus militantes. A eleição de Edinho é a prova mais recente disso. O planejamento era anunciar a consagração dele como o mais novo presidente da legenda no próprio dia da votação, ocorrida no último domingo. Entretanto, a falta de união interna impediu. O anúncio só foi feito na segunda, depois de o partido conseguir derrubar na Justiça a liminar que determinava a candidatura da deputada federal Dandara Tonantzin à presidência do diretório petista em Minas Gerais.
O processo eleitoral que atingiu o resultado que Lula queria ainda contou com outras duas polêmicas. Em maio, o partido impediu a candidatura da turismóloga Dani Nunes à presidência. Mulher trans, ela acusou o comando da legenda de praticar “violência política de gênero e raça”. No dia do pleito, uma ala do petismo fluminense denunciou a compra de votos por parte de uma das lideranças da sigla no Estado, o prefeito de Maricá, Washington Quaquá. Para ele, a acusação não passou de “choro de quem não tem trabalho político”.
Quaquá também é protagonista de outro caso que evidencia a falta de união do PT. Ele chegou a ser denunciado ao conselho de ética do partido — sim, o PT tem um órgão que chama de “conselho de ética” — pela ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. O motivo? O prefeito de Maricá saiu publicamente em defesa dos irmãos Brazão, acusados do assassinato do motorista Anderson Gomes e da vereadora carioca Marielle Franco, irmã de Anielle.
Homem forte da economia do governo Lula, Haddad também ajuda a demonstrar a desunião petista. No início deste ano, integrantes do partido culparam o ministro da Fazenda pela repercussão negativa do monitoramento do Pix. Meses antes, o partido assinara a carta que ficou conhecida como “manifesto anti-Haddad”, com críticas ao pacote de corte de gastos então recém-apresentado pelo integrante do primeiro escalão da administração lulista.
Em meio à desunião da militância, Edinho ganhou as bênçãos de um antigo cacique do partido. Em carta divulgada em maio, o ex-deputado e ex-ministro José Dirceu ignorou os demais candidatos à presidência do PT e declarou o seu apoio ao ex-prefeito de Araraquara. Para Dirceu, que prepara candidatura para voltar à Câmara depois de passar temporadas na cadeia por causa do Mensalão, Edinho estaria “à altura do desafio de presidir o PT nesse momento histórico e nessa conjuntura que enfrentamos”.
Sem novas lideranças
Edinho Silva assume o cargo de presidente do PT aos 60 anos. Idade que sinaliza outro problema a ser enfrentado pela legenda: o de não contar com novas lideranças. Sem ter quadros relevantes, o partido abriu mão, pela primeira vez em sua história, de ter um candidato próprio à Prefeitura de São Paulo na eleição de 2024. E teve de recorrer à ex-prefeita Marta Suplicy para ser vice na chapa encabeçada pelo deputado federal Guilherme Boulos (Psol), que perdeu para Ricardo Nunes (MDB) no segundo turno.

Único filiado ao PT a liderar o Executivo de uma capital estadual, o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão, de 58 anos, é outro exemplo da falta de renovação de lideranças no petismo. Ele, que é alvo de denúncia de seu antecessor por “inaugurar” uma obra que já havia sido entregue, nem é petista-raiz. Leitão foi membro do PDT por mais de uma década e só migrou para o partido de Lula e de Edinho Silva no fim de 2023, de olho no pleito do ano passado.
Sem renovação de seus quadros, o PT perde espaço até mesmo dentro da esquerda. O partido encerrou as últimas eleições municipais apenas como o nono no ranking de prefeitos eleitos, 252 no total. O número supera as 183 prefeituras conquistadas em 2020, mas deixou a legenda atrás de PSDB (273) e PSB (309). A estrela do petismo perdeu o brilho no dito campo “progressista”.
Por citar outros partidos, os recentes movimentos no Congresso Nacional mostram que o PT não pode contar nem com as agremiações que, oficialmente, integram a base do governo Lula. Exemplo disso foi a derrubada do decreto presidencial que estabelecia aumento da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). As votações se deram em tempo recorde — e no mesmo dia — na Câmara e no Senado. Entre os deputados, a votação contrária ao presidente surpreendeu: derrota por 383 a 98, com uma abstenção.
Humilhado pelo Congresso, sem formar novas lideranças, com excesso de brigas internas e perdendo espaço dentro do espectro da esquerda. Essa é a situação que Edinho Silva encara ao assumir o cargo de presidente nacional do PT. Em seu primeiro discurso na função, ele falou em “reeleger Lula” e protagonizar o “processo de reconstrução do Brasil”. Os fatos, contudo, mostram que, em vez de reconstruir alguma coisa, ele pode acabar como coveiro do petismo.
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Partidos políticos no Brasil não são instituições: eles tem donos que não abrem mão das ação. Melhor exemplo disso é o próprio Lula que nunca permitiu que alguém tomasse “seu” lugar. Os dois devem ter o mesmo destino, felizmente.
Aqui em Alagoas também teve denuncias de falcatruas nesta “eleição”. Curioso ainda ter conselho de etica nisso.
Parabéns Anderson pelo artigo.
Governo de um desclassificado e seus bobos da corte desclassificado$.
Esse Partido Terrorista já devia ter sido cassado há anos e esse bandido da luz vermelha de volta pra cadeia e devolver tudo que eles roubaram e vem roubando todos os dias a nação brasileira