publicidade
Zohran Mamdani, candidato do Partido Democrata nas eleições municipais de Nova York | Foto: Shutterstock
Edição 277

Nova York em alerta

Candidato muçulmano e socialista enfrenta críticas por suas posições contra Israel e apoio a movimentos considerados antissemitas

Assim que Zohran Kwame Mamdani, de 33 anos, tornou-se o candidato do Partido Democrata nas eleições municipais de Nova York, que ocorrerão em 4 de novembro próximo, o investidor Bill Ackman não se conteve. “Nova York acordou em um pesadelo”, declarou Ackman, um dos nomes mais influentes de Wall Street, no X. “Um socialista sem experiência gerencial vai comandar um orçamento de US$ 100 bilhões?”

Como deputado da Assembleia Estadual de Nova York desde 2020, Mamdani ganhou projeção nacional no ano seguinte. Ele se juntou a uma greve de fome de taxistas endividados. A visibilidade lhe deu fôlego para sonhar em comandar a maior cidade do país.

Em tom assistencialista, suas propostas soaram como ameaças a quem defende a contenção do gasto público, os investimentos privados e os cuidados para não sobretaxar contribuintes. 

Entre elas estão o congelamento do aluguel para quase 1 milhão de moradores, transporte público gratuito, creches universais e preços subsidiados em supermercados de propriedade pública.

Seus projetos esquerdistas receberam a chancela dos mais radicais do partido, como a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, membro da Câmara dos Representantes, e o senador por Vermont, Bernie Sanders. 

Mamdani, de religião muçulmana, chegou a Nova York em 1998, aos 7 anos, com os pais, o acadêmico Mahmood Mamdani e a cineasta Mira Nair, ambos indianos. Antes, a família tinha morado na Cidade do Cabo, na África do Sul, para onde foram quando ele tinha 5 anos.

Antes de ser político, Mamdani atuou como rapper, com o nome Young Cardamom e, mais tarde, Mr. Cardamom. Uma de suas músicas, de 2017, Salam, elogiou os Holy Land Five, líderes de uma antiga ONG islâmica dos EUA condenados por apoiar o Hamas. 

Na política, Mamdani manteve suas convicções de rapper. A causa palestina foi a ferramenta para incrementar cada vez mais o discurso anti-Israel. Em junho, já como candidato, comparou a intifada palestina com a revolta judaica no Gueto de Varsóvia, contra os nazistas, em 1943.

Em uma entrevista ao portal The Bulwark, ele justificou a expressão “globalize a intifada”. Descreveu tal frase como um “desejo desesperado por igualdade e direitos iguais na defesa dos direitos humanos dos palestinos”. E afirmou que o Museu do Holocausto dos EUA havia usado a palavra “intifada” em descrições em árabe sobre a Revolta do Gueto de Varsóvia.

A declaração estremeceu os cerca de 80% de judeus nova-iorquinos contrários à sua candidatura. A cidade conta com a maior comunidade judaica mundial fora de Israel. A população de judeus em Nova York é de aproximadamente 1,3 milhão, maior que a de muçulmanos, que são 270 mil. Nos EUA, são 8 milhões de judeus e 4,5 milhões de muçulmanos.

“Comparar a Revolta do Gueto de Varsóvia com a expressão ‘globalize a intifada’ evidencia o caráter ofensivo da tentativa de Mamdani de suavizar um termo associado à violência contra judeus”, declarou o presidente dos Sionistas Religiosos da América, Stephen M. Flatow. A entidade não é ligada a qualquer partido.

Flatow é pai de Alisa Flatow, assassinada, em 1995, em um ataque terrorista palestino patrocinado pelo Irã, e autor de A Father’s Story: My Fight for Justice Against Iranian Terror (“A história de um pai: minha luta por justiça contra o terrorismo iraniano”, em tradução livre). Segundo ele:

“Não se trata apenas de uma questão semântica; isso revela uma falta fundamental de compreensão ou um desrespeito pela experiência vivida e pelo trauma histórico da comunidade judaica. Quando um candidato à prefeitura parece legitimar ou minimizar apelos que muitos judeus percebem como incitação à violência, contribui para um clima de medo e insegurança.”

Boicote a Israel

Mamdani declarou seu apoio às manifestações consideradas antissemitas, realizadas recentemente em universidades norte-americanas. Esteve, inclusive, no palco, de mãos dadas com Mahmoud Khalil, líder de protestos pró-palestinos. O encontro ocorreu durante um show do comediante Ramy Youssef.

Khalil ficou preso por um tempo, por causa das manifestações. O governo considerou que suas ações estavam em desacordo com os interesses dos EUA em relação ao combate ao antissemitismo.

Na campanha, Mamdani afirmou que Israel tem o direito de existir, mas não como Estado judaico. Em um debate realizado em maio pela United Jewish Appeal (UJA) Federation, de Nova York, e mediado por Lisa Keys, do New York Jewish Week, ele ressaltou que Israel deveria existir “com direitos iguais para todos”. Em um programa da Fox, reiterou: “Não me sinto à vontade para apoiar qualquer Estado que tenha uma hierarquia de cidadania baseada em religião ou qualquer outro critério”.

Ele sempre repete que seu apoio ao movimento de boicote, desinvestimento e sanções (BDS) contra Israel é coerente com o “cerne de uma política contrária à violência”. Já apoiou, em 2014, quando estudava no Bowdoin College, um boicote da American Studies Association às instituições acadêmicas israelenses. Apenas concordou com a admissão de projetos individuais de acadêmicos dessas instituições.

A postura de combatente do antissemitismo, como o candidato se define, soa vaga. Ele declarou, em maio, que gostaria de ver mais educação sobre o Holocausto nas escolas da cidade de Nova York. Mas não assinou uma resolução na Assembleia Legislativa de homenagem às vítimas do genocídio na Segunda Guerra, o que lhe rendeu inúmeras críticas. 

“Genocídio”, aliás, é o termo usado por ele em relação às ações de Israel. Muito antes de o país realizar a atual incursão na Faixa de Gaza. No dia seguinte aos ataques do grupo terrorista Hamas ao território israelense, em 7 de outubro de 2023, Mamdani publicou uma nota com uma mensagem dúbia. Nela, lamentou “as centenas de mortos em Israel e na Palestina nas últimas 36 horas”.

Blogueiro pró-Hamas

Na hipótese de Mamdani ser eleito, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não poderá mais ir à cidade para participar de eventos da Organização das Nações Unidas (ONU). Mamdani já adiantou que o primeiro-ministro israelense será preso se estiver em Nova York, caso ele seja o prefeito.

“Minha resposta é a mesma, seja sobre Vladimir Putin [presidente da Rússia] ou Netanyahu”, afirmou. “Acredito que esta deva ser uma cidade que cumpre o direito internacional”, disse, ao se referir ao mandado de prisão contra Netanyahu, emitido pelo Tribunal Penal Internacional.

Mamdani se diz humanista. No entanto, costuma aparecer sempre ao lado de figuras hostis aos judeus. Em abril, deu uma entrevista de três horas a Hasan Piker, blogueiro que já utilizou, de forma pejorativa, o termo “endogâmico” (fechado em um próprio grupo) ao se referir a judeus ortodoxos, além de defender o ataque do Hamas em 7 de outubro.

Os republicanos ainda não lançaram um candidato para barrar as ambições do socialista. Mas o presidente Donald Trump garantiu que o adversário de Mamdani sairá vencedor. Para o partido, essa é uma prioridade.

“Como presidente dos EUA, não vou deixar esse lunático comunista destruir Nova York”, prometeu Trump, nas redes sociais. “Fiquem tranquilos: eu tenho todos os controles e todas as cartas na mão. Vou salvar a cidade e torná-la ‘quente’ e ‘grandiosa’ novamente, exatamente como fiz com os bons e velhos EUA.”

Trump fala com base em dados. O Federal Bureau of Investigation (FBI) registrou aumento nos crimes de ódio motivados por antissemitismo nos últimos anos. O antissemitismo e o discurso anti-Israel têm ganhado força nos EUA, o que coloca a comunidade judaica e os defensores dos valores ocidentais em alerta. Não adianta a hipocrisia de Zohran Mamdani tentar separar uma coisa da outra.

Leia também “O pacifista do terror”

Leia mais sobre:

4 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Será possível que o Novayorquino vai votar num idiota desse socialista, prometendo esmolas com o dinheiro dos impostos da população

  2. Leonardo de Almeida Queiroz
    Leonardo de Almeida Queiroz

    Como uma cidade que pode ser reconhecida como centro cultural mundial chega a essa degradaçao politica? A cultura ocidental se idiotizou nesse nivel? O partido Democrata americano derreteu!

Anterior:
A indústria do sequestro de veículos
Próximo:
Londres 7/7: a atrocidade da qual ninguém fala
publicidade