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Manifestante anti-imigração segura uma bandeira da Inglaterra, do lado de fora do Britannia International Hotel, em Canary Wharf, Londres (25/7/2025) | Foto: Reuters/Isabel Infantes
Edição 279

Um lugar sombrio e perigoso

Como o asilo, o multiculturalismo e o desprezo pelas massas transformaram a Grã-Bretanha num barril de pólvora

Faz quase um ano desde o massacre de Southport. Aquela manhã ensolarada, quando Axel Rudakubana cometeu os assassinatos bárbaros e perversos de três meninas em uma aula de dança na cidade litorânea de Southport, Merseyside, ficou gravada para sempre na infâmia. Isso deflagrou as piores manifestações anti-imigrantes que a Grã-Bretanha viu nos tempos modernos, alimentadas por falsas alegações de que Rudakubana era um muçulmano pedindo asilo, daqueles que chegam em pequenos botes. Mas qualquer um que estivesse atento saberia que as sementes daquela terrível agitação haviam sido plantadas muito antes disso.

Antes que Southport, Middlesbrough, Rotherham e muitas outras cidades e vilas caíssem em uma violência niilista no verão passado, com protestos pacíficos sendo tomados por racistas e oportunistas que tentavam incendiar hotéis de migrantes e apedrejar mesquitas com garrafas e tijolos, havia muitos sinais de que algo estava prestes a estourar.

Axel Rudakubana, de 18 anos, foi considerado culpado por assassinato múltiplo e tentativa de assassinato de crianças em Southport, no Reino Unido | Foto: Divulgação/Merseyside Police

Em Knowsley, também em Merseyside, em fevereiro de 2023, um protesto em frente a um hotel que abrigava pessoas em busca de asilo foi invadido por arruaceiros e transformado num motim. A manifestação havia sido convocada porque uma jovem teria sido assediada por um imigrante na rua. Esse detalhe foi, naturalmente, omitido em grande parte da cobertura da mídia mainstream, embora a mídia local tivesse noticiado e a polícia estivesse investigando. A verdadeira culpa, entoavam compadecidas as emissoras, estava na “desinformação”.

Esse padrão continua a se repetir. Um crime violento ou sexual supostamente cometido por um imigrante faz as tensões aumentarem, enquanto a mídia e os políticos se fazem de desentendidos. Vimos isso novamente em Ballymena no mês passado, onde a tentativa de estupro oral de uma garota por dois meninos ciganos romenos foi seguida por dias de perturbações, visando primeiro as casas dos supostos estupradores, antes de se transformar em uma fúria racista indiscriminada — que atingiu também imigrantes inocentes. De forma desoladora, membros da próspera comunidade filipina da área começaram a colocar placas em suas portas, ostentando bandeiras da União e as palavras “aqui moram filipinos”, na esperança de serem poupados da carnificina.

A arborizada cidade comercial de Epping, em Essex, é o mais recente lugar a explodir. Um protesto foi realizado em frente ao Bell Hotel, onde migrantes estão sendo abrigados desde 2020. Uma semana antes, um etíope residente do hotel foi acusado de três crimes de agressão sexual, um de incitação de uma garota a se envolver em atividade sexual e um de assédio sem violência. Ele havia chegado ao país, em um pequeno barco, apenas oito dias antes.

The Bell Hotel, em Epping, Grã-Bretanha | Foto: WIkimedia Commons

O que começou pacificamente, observa o Evening Standard, foi mais tarde “sequestrado”. Depois que alguns contramanifestantes mascarados apareceram e a polícia de choque tentou separá-los dos manifestantes do hotel, a já habitual confusão se seguiu, com jovens partindo para cima da polícia, subindo nas viaturas e chutando os retrovisores. Enquanto a polícia tentava fugir, um manifestante foi atropelado.

As coisas pioraram em Epping. Após outro protesto em frente ao Bell, dois seguranças do hotel foram agredidos, no que está sendo tratado pela polícia como um ataque com o agravante de racismo. Dias depois, pichações apareceram nas janelas do hotel, dizendo “voltem para casa”, “aqui é a Inglaterra” e “morram”. Imigrantes residentes no hotel também alegaram terem sido agredidos física e verbalmente na rua.

Então, o que trouxe esse medo, ódio e violência para mais uma cidade britânica? Naturalmente, a mídia mainstream sugeriu que tudo faz parte de uma insurgência fascista. Uma reportagem precipitada da BBC (depois corrigida) sobre o episódio de Epping alegou que havia “400 membros de grupos de extrema direita” presentes. Aparentemente, esperava-se que acreditássemos que todos os presentes eram nazistas de carteirinha, e que a BBC teve tempo de checar suas filiações.

Dificilmente seria uma surpresa se alguns dos resquícios da patética e marginal extrema direita britânica decidissem explorar os protestos em Epping para seus próprios fins racistas e violentos. Mas a tendência de apresentar essas badernas como organizadas por grupos fascistas arquitetando cada passo simplesmente não é sustentada pelas evidências disponíveis. Isso serve a dois propósitos, nenhum deles bom.

Manifestante anti-imigração com bandeira inglesa, do lado de fora do Britannia International Hotel, em Canary Wharf, Londres (25/7/2025) | Foto: Reuters/Isabel Infantes

O primeiro, claro, é demonizar as preocupações genuínas sobre asilo, imigração e segurança que estão levando pessoas pacificamente às ruas — preocupações compartilhadas por muitos em toda a nação que nunca sonhariam em se amotinar, brigar com a polícia, ameaçar imigrantes inocentes ou funcionários de hotéis. Os bons e nobres se recusam a aceitar que pode haver risco, por mínimo que seja, em permitir que homens entrem ilegalmente no país e sejam abrigados num endereço de uma rua bem movimentada antes mesmo de terem sua documentação verificada.

Weyman Bennett — veterano irritante que agita cartazes do grupo de fachada Stand Up To Racism, do Partido dos Trabalhadores Socialistas, e que participou da contramanifestação de 17 de julho — disse à BBC que “a Grã-Bretanha é um país pacífico no qual as pessoas deveriam ter permissão para cuidar de seus afazeres sem ser atacadas”. Com uma ironia sombria, essa citação aparece abaixo de dois parágrafos que mencionam os ataques sexuais supostamente cometidos pelo etíope requerente de asilo — de alguma forma, duvido que era a isso que Weyman se referia.

A segunda razão pela qual eles recorrem ao termo “fascista” é tornar a violência que irrompe nesses protestos algo mais explicável, digerível — como se fossem ataques orquestrados por extremistas de direita maquiavélicos ou, no mínimo, produzidos por suas fábricas de baboseiras nas redes sociais. Na verdade, o que parece estarmos vendo é, em certos aspectos, mais assustador. Um surto orgânico de conflito étnico, ainda que entre uma porção infinitamente pequena da sociedade, cuja violência une os britânicos em oposição a eles.

Esse foi certamente o caso após Southport. Quando canalhas começaram a tentar incendiar hotéis de imigrantes enquanto bloqueavam as saídas de emergência, ou montaram postos de controle “apenas para brancos” nas rodovias, o primeiro-ministro Keir Starmer rapidamente atribuiu isso a agitadores de “extrema direita”, trazidos de longe para causar tumultos em uma “comunidade que não é a deles”. Mas essa narrativa desmoronou desde então. Como concluiu um relatório da Inspetoria de Polícia e Bombeiros de Sua Majestade em maio:

“A maioria dos infratores eram moradores da região, que vivem próximo aos locais de desordem. Descobrimos que eram principalmente indivíduos insatisfeitos, influenciadores ou grupos que incitaram as pessoas a agir violentamente e participar da desordem, em vez de facções criminosas ou extremistas — e, principalmente, não estavam vinculados à ideologia ou aos pontos de vista políticos destes.”

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, em Chequers, perto de Aylesbury, Inglaterra (24/7/2025) | Foto: Reuters/Kin Cheung

A direita online em período integral teve seu próprio negacionismo sobre a baderna. Muitos mal conseguiram reconhecer, muito menos condenar abertamente, o racismo desprezível visto nas ruas, mesmo quando jovens mascarados com barras de metal quebravam janelas em redutos de imigrantes enquanto gritavam “quebrem os paquistaneses” — como se isso fosse um agrado à comunidade woke. Porém, mais grave é o negacionismo da classe governante: sua recusa em examinar as políticas que destruíram a coesão social e a confiança pública; seu desprezo pelas preocupações razoáveis da maioria pacífica que permitiu que algo muito mais sombrio brotasse entre uma pequena, mas violenta, parcela de extremistas.

Por onde começar? Temos a nossa combinação tóxica de imigração em massa, imigração ilegal descontrolada e integração insignificante. Temos o projeto de décadas de autoaversão nacional em que estivemos engajados, enfurecendo britânicos patriotas que veem todas as culturas celebradas, menos a sua própria, enquanto priva a sociedade em geral de uma história que poderia unir a todos. Temos o nosso estado multicultural, que institucionaliza a diferença — tratando-nos não como cidadãos, mas como blocos étnico-religiosos a serem policiados e até mesmo sentenciados, em graus diferentes, supostamente para o bem das “relações raciais”. Temos as nossas elites identitárias, que insistem que nos vejamos sob uma ótica racial, mas depois ficam horrorizadas ao descobrir que alguns britânicos brancos estão começando a se ver exatamente dessa maneira. Temos a régua do politicamente correto, que levou políticos e a polícia a fazer vista grossa para o estupro de garotas jovens e pobres por homens muçulmanos paquistaneses, desproporcionalmente, por medo de serem criticados. Poderíamos continuar. E continuar.

Estamos desintegrando, em todo lugar. Vemos isso não apenas no rescaldo tumultuado de Southport ou em protestos em frente a hotéis de imigrantes, mas também nas batalhas de rua entre hindus e muçulmanos travadas em Leicester em 2022, desencadeadas por uma partida de críquete entre Índia e Paquistão. Vimos isso no motim de Harehills, apenas 11 dias antes do massacre de Southport, onde essa comunidade de Leeds incrivelmente diversa, muito carente, em grande parte nascida no estrangeiro, pegou fogo depois que os serviços sociais tentaram tirar algumas crianças ciganas para serem cuidadas. E vimos isso nos jovens muçulmanos armados e encapuzados que tomaram as ruas de Bordesley Green, em Birmingham, em meio aos tumultos de Southport, ameaçando equipes de televisão e espancando violentamente um homem inocente em frente a um pub.

O asilo, em particular, está se tornando a questão central de nossos tempos globalizados, de hipermobilidade e cada vez mais assolados pela guerra. No entanto, a maneira como nosso descuidado establishment lidou com isso parece quase projetada para gerar conflito social. As comunidades mais empobrecidas do Reino Unido foram forçadas a arcar com o fardo da “crise dos pequenos barcos”, unicamente porque os quartos de hotel lá são mais baratos, enquanto as preocupações com crime, segurança e integração são ignoradas.

Você não precisa ser um fanático intolerante para reconhecer que alguns dos jovens dispostos a entrar ilegalmente em uma nação, sem documentação, definhando por anos na dependência de esmolas e de empregos no mercado informal, podem cometer outros crimes. Também não precisa de um Ph.D. em coesão social para reconhecer que a chegada de pessoas de culturas mais misóginas e violentas, em uma nação sem interesse em integrá-las à sociedade, gerará medo, tensão e riscos muito reais para os cidadãos.

O escândalo da violação de dados de afegãos, finalmente revelado após anos de sigilo oficial, é o sinal mais claro até agora da mistura de desprezo, negligência e pura e velha incompetência com que a burocracia trata a questão do asilo. Até 100 mil afegãos foram colocados em grave risco quando uma planilha daqueles que solicitavam asilo foi vazada, circulando pela internet despercebida por 18 meses, podendo cair nas mãos do Talibã. Então, quando o Ministério da Defesa percebeu seu erro potencialmente fatal, lançou um plano de evacuação apressado para os afetados — levando milhares de afegãos para o Reino Unido, que aterrissaram em bases da Força Aérea Real (RAF) no meio da noite antes de serem levados para as cidades e vilas empobrecidas da Grã-Bretanha. Em seguida, obteve uma superordem judicial para “deixar no escuro” a mídia, os membros do Parlamento e os eleitores.

Essa superordem judicial, sem precedentes na história política britânica, foi justificada com base na segurança dos afegãos expostos, visto que eles haviam cooperado com a imprudente ocupação de 20 anos do Ocidente. Mesmo que isso fosse verdade no início, é claro que essa não foi a única razão pela qual os governos conservador e, depois, trabalhista sustentaram essa indignação democrática por dois anos. Ministros do gabinete receberam um briefing privado em outubro passado, observando que “15 dos 20 principais pontos de atenção” durante as perturbações do verão passado “estão localizados nos 20% de distritos com os maiores números de solicitantes de asilo e de pessoas chegadas de reassentamento afegão que já recebem apoio”. No início deste mês, uma nota informativa de Whitehall enfatizou que o governo precisaria “mitigar qualquer risco de desordem pública após a anulação da ordem judicial”.

Manifestantes pró-imigração protestam em frente ao Britannia International Hotel, em Canary Wharf, Londres (25/7/2025) | Foto: Reuters/Isabel Infantes

É um exemplo clássico de como o Estado britânico moderno inflama tensões sob o pretexto de aliviá-las. Em vez de defender — publicamente — esse esquema de asilo, permitindo que eleitores e seus representantes o escrutinassem, expressassem suas preocupações ou oposição, ou mesmo ficassem sabendo de sua existência, os ministros seguiram adiante em silêncio. Sem dúvida, porque o tipo de verificações e medidas de segurança necessárias para realizar algo assim, enquanto se obtinha qualquer grau de apoio público, teria sido impossível no contexto do Estado evacuando milhares de pessoas em pânico cego. E, assim, comunidades já tensas e carentes viram mais recém-chegados surgirem de repente em seu meio. O fato de que isso pode ter sido parte do estopim da agitação do verão passado não parece ter abalado o governo. A necessidade de melhor gestão da informação, de melhor “mitigação” dos riscos, é a única conclusão que parecem ter tirado.

Ninguém se beneficia disso. De fato, o sistema de asilo tornou-se tão desordenado e disfuncional — incapaz de erradicar até mesmo criminosos comprovadamente perigosos — que está colocando tanto imigrantes quanto cidadãos em risco. Lembram-se de Abdul Ezedi, o afegão que obteve asilo em sua terceira tentativa — apesar de ter cometido uma série de crimes sexuais após sua chegada —, apenas para acabar atacando com ácido uma mulher refugiada e seus filhos? Ou Ahmed Alid, o marroquino solicitante de asilo que foi tão inspirado pelo pogrom do Hamas em 7 de outubro que esfaqueou o iraniano com quem dividia a casa, também solicitante de asilo, antes de assassinar um idoso britânico na rua? Outro hotel de migrantes em Epping, o Phoenix em North Weald Bassett, foi quase completamente incendiado em março. Oito dias depois, os bombeiros também foram chamados para um incêndio, felizmente muito menor, no Bell, onde esses protestos continuam a se alastrar. A polícia prendeu um homem sob suspeita de iniciar ambos os incêndios. Rawand Abdulrih, aparentemente, já foi residente do Bell.

A única coisa que parece capaz de deter os protestos em Epping é o clima. Chuvas torrenciais os paralisaram, apenas para dar lugar a uma manifestação muito maior no dia seguinte, depois que o sol apareceu. Assim como o governo parece estar à mercê dos fatores climáticos quando se trata da constante procissão de botes infláveis atravessando o canal, com fluxos e refluxos nas chegadas ditados mais pelas estações do que pela ação governamental, assim também acontece com a agitação em nossas ruas, que os políticos não conseguem compreender, muito menos tentar reprimir. Como poderiam? Foi justamente a irresponsabilidade de nossos governantes, suas ortodoxias falhas, seu desprezo pelas preocupações do público, que nos trouxeram a este lugar sombrio e perigoso.


Tom Slater é editor da Spiked. Ele está no X: @Tom_Slater_

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1 comentário
  1. João Antônio Dohms
    João Antônio Dohms

    Senhor Tom Slater qual país está pronto pra receber essa turba de imigrantes ?
    Nenhum está !
    Interessante que o senhor joga toda a culpa em um governo “negligente ” segundo suas palavras !
    Se esquece que fundações ,ongs podem ajudar a conciliar a chegada de imigrantes !
    Mas é mais comodo culpar o governo !
    E assim caminha a humanidade .

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