publicidade
Branca Nunes e J.R. Guzzo | Foto: Arquivo Pessoal
Edição 281

Título curto, letra grande e um “rostão”

Jamais imaginei que a primeira capa que faria sem o Guzzo seria justamente sobre ele

“Guzzo, adorei a conversa. Quando puder, me passe outras sugestões. Seria ótimo pegar dicas sobre jornalismo com você, virtual ou presencialmente”.

Claro, querida. Quando quiser. Aqui vai a dica número 1: nunca escreva presencialmente. A palavra, além de horrível, não existe”.

Sempre nos divertíamos ao lembrar dessa troca de mensagens, escrita em 2019, sobre uma palavra que, meses depois, se tornaria uma das mais usadas da língua portuguesa. Durante a pandemia de covid-19, nos olhávamos com um sorriso cúmplice quando alguém dizia que tal coisa aconteceria “presencialmente”. 

Naquele dia, eu havia ido ao apartamento de Guzzo para lhe dar mais uma “aula” sobre como usar o Twitter. Não me conformava de que aquele titã do jornalismo ainda não estivesse no digital e me ofereci para cuidar de suas redes e ensiná-lo a usá-las. Ele dizia que, depois disso, seus netos começaram a ler seus textos com muito mais frequência. Acostumado a uma época em que o contato com os leitores ocorria por meio de cartas, Guzzo achava a proximidade que a tecnologia permitia fantástica — e, ao mesmo tempo assustadora, tamanha a quantidade de haters encorajados pelo anonimato.

Sentados na biblioteca, em meio a milhares de livros, perguntei o que ele recomendaria que eu lesse: “Charles Dickens”, respondeu na hora, antes de confessar que não tinha paciência para autores modernos e, por isso, preferia reler os clássicos. Guzzo era assim: objetivo. Tanto nos textos, quanto nas mensagens e conversas.

Um dia, logo no início da pandemia, fui até sua casa de máscara, com muito mais receio por ele do que por mim. Quando abriu a porta, Guzzo me olhou feio e disse que, se fosse para ir daquele jeito, podia dar meia-volta. Tirei a máscara na hora e nos abraçamos. Guzzo foi uma das pouquíssimas pessoas que conheço que ignoraram por completo as restrições  impostas durante a pandemia — e nunca contraiu a doença.

O primeiro encontro

Conheci o Guzzo pessoalmente na época em que trabalhei na Veja. Mas, de certa forma, ele faz parte do meu imaginário desde a infância, quando meu pai contava as histórias da época em que foi redator-chefe da revista. Muito da minha vontade de ser jornalista nasceu ali, entre casos de investigação, bastidores do poder, conversas com gente interessante e fechamentos que varavam a madrugada. Guzzo invariavelmente estava entre os personagens principais.

Conversamos pela primeira vez para um especial de 50 anos da Veja. Sua sala, que ficava no 24º andar da Editora Abril, tinha cheiro de cigarro — e um cinzeiro em cima da mesa. Embora Guzzo não gostasse muito de falar do passado, consegui que me contasse sobre sua viagem à China, quando foi o primeiro jornalista brasileiro a visitar o país que começava a se abrir para o mundo. Também falou do dia em que esperou por horas e, depois que o resto da imprensa internacional se cansou e foi embora, foi o único a entrevistar Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que herdou do pai a presidência do Haiti. E sobre como levou a Veja a se tornar a quarta revista mais lida do mundo.

Em novembro de 2017, vi J. R. Guzzo em ação durante um evento da Veja chamado Amarelas ao Vivo, uma série de entrevistas feitas por alguns dos melhores jornalistas da casa com grandes personalidades do país. Guzzo foi escalado para conversar com João Dória, então prefeito de São Paulo. Embora a recomendação dos organizadores fosse não usar anotações em papel — “por ficar feio no vídeo” —, Guzzo subiu ao palco com um punhado de folhas sulfite dobradas ao meio.

Dória estava todo “pimpão”, relaxado, com um sorriso no rosto, cabeça erguida. Isso até Guzzo começar a fazer as perguntas mais incômodas com a tranquilidade de quem conversa com um vizinho sobre o tempo. Em menos de 10 minutos, a feição de Dória era outra: o cenho franziu, as mãos tensionaram e as risadinhas desapareceram. No fim, o prefeito parecia um passarinho assustado, encolhido na poltrona.

“O segredo é fazer a pergunta óbvia, que uma criança faria”, disse ele no dia em que quis saber se tinha alguma técnica para entrevistas. Quando o repórter especial Cristyan Costa marcou uma entrevista exclusiva com o ministro Luís Roberto Barroso, perguntei a Guzzo se gostaria que o presidente do STF comentasse algum assunto específico. “Pergunte se ele realmente acha que batom é uma substância inflamável”, sugeriu. Simples assim.

A convivência diária

Minha convivência com Guzzo foi aumentando com os anos até que, a partir da Oeste, nossas conversas se tornaram quase diárias. Eu adorava trocar ideias com ele sobre todos os assuntos: desde ciclovias até a doutrinação nas escolas, passando por música, cinema, praia, viagens e, claro, jornalismo.

Na reunião de pauta das segundas-feiras, na qual selecionávamos as reportagens que iriam para a próxima edição da revista, sabia se viria uma crítica ou um elogio só pela forma como Guzzo me cumprimentava. E ele sempre tinha razão. 

Guzzo passava as quase três horas de reunião tomando água com bastante gelo, comendo bala de goma e desenhando. Colecionei dezenas desses desenhos, cheios de letras, personagens, nomes e frases. Era encantador ver parte das conversas, das tiradas e dos debates que aconteciam ali serem transformados em trechos dos seus artigos, escritos com a mesma naturalidade com que eram ditos.

Desenhos feitos pelo J.R. Guzzo durante a reunião de pauta da Revista Oeste | Foto: Arquivo Pessoal
Desenhos feitos pelo J.R. Guzzo durante a reunião de pauta da Revista Oeste | Foto: Arquivo Pessoal

Depois de definida a capa da semana, Daniela Giorno, diretora de arte, me enviava algumas sugestões de imagens e eu repassava as melhores para ele. Nós duas sabíamos que Guzzo preferia chamadas curtas, letras grandes e imagens com poucos elementos.

Muitas vezes, ele pedia mudanças pontuais que mostravam mais um lado de sua genialidade: a troca de uma cor no logo, a substituição de uma palavra, o acréscimo de uma legenda. Pareciam detalhes, mas faziam toda a diferença. Nossa glória era receber as mensagens de aprovação, sempre pontuadas por seus inseparáveis emojis:

“É isso aí 👏👏👏👏”, “Vamos nessa 👍👍👍👍”, “Ótimo!!! ❤️❤️❤️❤️”.
Guzzo adorava emojis.

Assim como adorava charutos, uma cachacinha e comida boa, com bastante pimenta. Era um homem que gostava de apreciar as coisas boas da vida — e sabia onde encontrá-las. O leitão à Bairrada do restaurante Rancho Português, o pato do Song Qi, o cabrito da Cantina Roperto, as carnes do Varanda e as massas de Taquaritinga, que meus pais lhe davam de presente.

Fizemos mais de 200 capas juntos. Na última delas, Guzzo me escreveu: “É assim mesmo que tem de ser: direto, na veia, dizendo com precisão o que tem de ser dito”. Parece que estava descrevendo exatamente como seus próprios textos.

Eu não cansava de elogiá-lo. Ao comentar seu mais recente artigo na Oeste, escrevi: “Seu artigo está maravilhoso! Não sei de qual parte gosto mais… E também não sei como você consegue se superar a cada semana”. Guzzo respondeu: “Fico tão contente quando vc gosta… e vc sempre gosta. Um jeito de não ficar para trás é ler — sempre — o último texto que a gente escreveu antes de começar o próximo. Assim, você já sai na frente”. Foi a última dica que me deu. 

Jamais imaginei que a primeira capa que faria sem o Guzzo seria justamente sobre ele. Segui suas orientações à risca: logo amarelo, título curto, letra grande e um “rostão”, como ele gostava de pedir. Acho que ele teria aprovado. Afinal, aprendi com o melhor.

Leia todos os artigos de J. R. Guzzo na Oeste

6 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Belo relato, Branca. Sigam fortes!

  2. JOSÉ PEREIRA DE SOUZA
    JOSÉ PEREIRA DE SOUZA

    Excelente matéria!! Não entendi a inexistência da palavra “PRESENCIALMENTE”…poderiam me esclarecer?

    At.te
    José Souza

  3. Marcelo Gurgel
    Marcelo Gurgel

    Sou leitor da Oeste desde o primeiro número e me acostumei toda sexta feira ligar meu tablet entrar na Oeste e primeiramente ler a coluna do brilhante jornalista Guzzo.

  4. Alberto Santa Cruz Coimbra
    Alberto Santa Cruz Coimbra

    E aprendeu muito bem. Já escrevi aqui algumas vezes como se tem prazer em ler seus textos. A senhora escreve muito bem, demonstra capacidade de articulação acima da média e, ao que consta, tem gratidão em si. Uma bela combinação para um ser humano. Vamos em frente cada vez mais órfãos, a honrar os que vieram antes de nós. Persista, por favor. Nós, vossos leitores, agradecemos muito.

  5. Sueli Itaboray
    Sueli Itaboray

    Os artigos de Guzzo são maravilhosos. Uso o vervo no presente porque texto é texto. É como um bom livro. Um bom texto vai além do tempo.
    É interessante ver que bons jornalistas como você, Alexandre Garcia, Ana Paula Henkel tiveram uma voa influência de excelentes jornalistas veteranos. Sinal de que boas influências formam bons profissionais.

    P.S.: “Istrimi” é sensacional!
    P.S 2: É o Cauti logo acima da palvra istrimi? Rsrsrsrsrs

    Sucesso sempre.

  6. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Branca Nunes,você fez a mais perfeita descrição de Guzzo, ele era exatamente assim. Muitas vezes mandava pelo Watts um comentário sobre seu artigo da semana, ele sempre agradecia falava que isso lhe dava forças para continuar. O comentário que mais gostou foi o mais curto que consegui, tirei um raio X de Alexandre de Moraes, ele amou.Ri muito com a resposta que deu para Cristyan Costa para a entrevista com Barroso. Bjo.

Anterior:
Carta para o meu Zé Roberto
Próximo:
Sobre os ombros de um mestre
publicidade