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Ilustração: Revista Oeste/Feito por IA
Edição 283

Como as democracias morrem

Elas morrem quando se troca a imparcialidade pela militância, quando o ódio por um espectro ideológico fala mais alto do que a defesa dos valores republicanos

Em palestra no Senado esta semana, o escritor americano Steven Levitsky, autor de Como as Democracias Morrem, afirmou ser “irônico” o fato de o governo de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, punir o Brasil por “fazer o que os americanos deveriam ter feito”. “Como cidadão americano, eu sinto vergonha dessa situação”, disse nesta terça-feira, 12, durante seminário em Brasília.

“O que sobressai no caso do Brasil é a Suprema Corte. A Suprema Corte americana atrapalhou os esforços para pararem o Trump. Já a brasileira está agressivamente tentando processar Bolsonaro. Essencialmente, eles são super-heróis que ficaram de pé defendendo a democracia contra Bolsonaro”, afirmou Levitsky. Ou seja, o autor lamenta, em essência, que a Suprema Corte americana não foi tomada por um ativismo político como foi a brasileira.

Ironicamente, é exatamente assim que as democracias morrem: quando o viés político justifica a instrumentalização da Justiça para perseguir opositores. Elas morrem quando se troca a imparcialidade pela militância, quando o ódio por um espectro ideológico fala mais alto do que a defesa dos valores republicanos.

Capa do livro Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky | Foto: Reprodução

O escritor pode tentar se convencer o quanto quiser de que Trump representa uma ameaça terrível à democracia, mas ele não apresenta fatos — apenas uma opinião subjetiva. Mencionar a invasão ao Capitólio é somente uma narrativa, pois ficou claro que Trump não teve nenhuma participação direta naquilo, e que coisas estranhas aconteceram para permitir ou mesmo facilitar a ação dos invasores. Não obstante, e todos condenaram o evento, a democracia seguiu inabalada ali. Mas não sobreviveria se os juízes da Suprema Corte virassem agentes políticos, como ocorreu no Brasil.

Talvez Levitsky não conheça os detalhes no Brasil, e por ignorância aplaude o que não entende. Talvez ele não saiba que o STF sequer tem competência para julgar o ex-presidente Bolsonaro. Talvez ele não tenha noção de que Alexandre de Moraes virou vítima, procurador, investigador e juiz, tudo ao mesmo tempo, nesse julgamento parcial. Ou talvez ninguém tenha dito ao escritor que tudo se baseia na colaboração de Mauro Cid, repleta de contradições e sem qualquer prova concreta sobre o tal “golpe” que seria dado.

Pode ser ainda que Levitsky não tenha conhecimento de prisões arbitrárias, como a de Débora, cabeleireira sem antecedente criminal, condenada a 14 anos de prisão por escrever com um batom na estátua da Justiça. Pois, assumindo que o escritor saiba dessas coisas, seria muito estranho concluir que é assim que se “salva” uma democracia, em vez de matá-la de vez. Democracias morrem, afinal, quando o devido processo legal é jogado para escanteio e o arbítrio toma conta do Poder Judiciário.

Durante julgamento realizado nesta sexta-feira, 25, Fux propôs um ano e seis meses de reclusão para Débora | Foto: Reprodução/Redes sociais
Débora durante protesto do 8 de janeiro em Brasília | Foto: Reprodução/Redes sociais

Chamar os ministros do STF de “super-heróis” chega a ser constrangedor quando até o esquerdista The New York Times admite que Moraes “prendeu pessoas sem julgamento por ameaças feitas on-line, bloqueou veículos de imprensa de publicar conteúdo crítico a políticos e ordenou a remoção de contas populares nas redes sociais, recusando-se a explicar como elas ameaçavam a democracia”. Talvez seja o “preço” a ser pago para salvar a democracia?

Os heróis do escritor praticaram um golpe de Estado, segundo a coluna de Mary O’Grady em The Wall Street Journal. Mas, novamente, deve ser o preço aceitável para “pegar” Bolsonaro, a verdadeira ameaça à democracia, segundo o escritor. Eis como as democracias de fato morrem: quando você define seu adversário político como “fascista” e passa a justificar todos os métodos fascistas para derrotá-lo.

As democracias morrem quando jornalistas são censurados em nome do combate à “desinformação” ou ao “discurso de ódio”, criando-se o crime de opinião por canetada da Suprema Corte. As democracias morrem quando se criminalizam as críticas ao processo eleitoral. Elas sucumbem quando somente um lado ideológico é alvo de inquéritos, e pior: por suas opiniões, não por crimes cometidos!

Morrem as democracias quando quem deveria ser juiz imparcial se gaba de ter derrotado um dos lados políticos. “Derrotamos o bolsonarismo”; “Perdeu mané, não amola”: essas são frases que atestam o óbito da democracia se ditas por quem deveria cuidar com isonomia do processo eleitoral. Talvez Levitsky não saiba de nada disso. Ou talvez ele saiba e não ligue, o que o coloca como alguém perigoso para a própria democracia que tanto diz defender.  

Às vezes, as democracias são ameaçadas por figuras populistas autoritárias, gente caricata com um perfil fascista. Mas muitas outras vezes as democracias se veem ameaçadas justamente por lobos em pele de cordeiro, por “democratas” que juram defendê-las, mas que pregam métodos autoritários sob o pretexto de que é preciso fazer de tudo para combater os “fascistas” imaginários.

Não há nada tão perigoso para a democracia como o aparelhamento do Estado por militantes, a instrumentalização da Justiça por agentes políticos. Foi o que a turma democrata tentou fazer nos Estados Unidos, e quase conseguiu. Foi o que a turma tucanopetista conseguiu efetivar no Brasil. E por isso nossa democracia morreu de fato, enquanto a americana continua viva.

Ilustração: Shutterstock

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14 comentários
  1. Jose Luiz Pereira
    Jose Luiz Pereira

    Triste é saber que nossas universidades, totalmente aparelhadas, continuam e continuarão formando legiões de esquerdistas. Tive a oportunidade de oferecer aos meus filhos uma boa base de ensino, fato que possibilitou entrarem em universidades públicas. Como pai, me deparei com minha impotência, diante dos professores militantes que sequestraram suas mentes.
    A lavagem cerebral permanecerá, infelizmente para as gerações vindouras.

  2. Julio José Pinto Eira Velha
    Julio José Pinto Eira Velha

    Sem distinção de nacionalidade, todo esquerdista é cego, surdo e burro.

  3. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Ou é desconhecimento ou cinismo mesmo, por parte deste escritor americano que esteve no senado brasileiro.

  4. Rubens Mário Mazzini Rodrigues
    Rubens Mário Mazzini Rodrigues

    O panfleto do Levitsky (poderiam até criar uma lei com esse nome para punir intelectuais farsantes) é uma tentativa patética de fazer uma paródia mal feita do livro quase homônimo – esse sim uma obra consistente – de Jean-François Revel: “Comment les démocraties finissent” (Como as Democracias Acabam), de 1983, que fez um alerta ao mundo ocidental sobre o risco do avanço da ideologia comunista. O livro dá continuidade ao trabalho de conscientização iniciado em sua obra anterior de Revel, “La tentation totalitaire” (A Tentação Totalitária), na qual ele tenta ajudar o ocidente a se livrar da ingenuidade e da cegueira dos políticos e intelectuais europeus diante do expansionismo soviético determinado, tortuoso e constante. Ele percebeu e escancarou a tendência das democracias ocidentais a ceder à astúcia soviética. Tudo se passa como se já tivessem abdicado diante da força. Como se as estruturas mentais já estivessem prontas para aceitar a servidão. E assim foi. Pena que seus avisos não foram levados a sério.

  5. Claudio Odri
    Claudio Odri

    Li esse livro e ele já se estrutura sobre dados equivocados. É indesculpável para um acadêmico idôneo não checar fatos. À época do lançamento ainda pairavam dúvidas e polêmicas sobre a eleição de Trump. O tempo revelou os bastidores sórdidos daquela eleição e as mentiras criadas pelos democratas e o deep state americano. Ele não ficou em dúvida, comprou a narrativa, não checou fatos e ignorou todos os indícios de que estava produzindo um estelionato acadêmico. Um professor de ciência política, em Harvard, não pode cometer esse ‘equivoco’ intelectual. Tudo é discutível, mas o autor comprou narrativas como um militonto qualquer. No final das contas, fica a certeza que o que muda apenas é a mortadela. Agora, no Congresso, o sujeito segue na mesma cantilena apesar de fatos mostrarem claramente que ele não se enganou. Na verdade, agiu de má fé e insiste numa leitura da realidade absolutamente infame.

    1. Rubens Mário Mazzini Rodrigues
      Rubens Mário Mazzini Rodrigues

      Perfeito! O sujeito é um pseudointelectual, para não dizer como diria Augusto Nunes: uma “Besta Quadrada˜.

  6. Victório Siqueira
    Victório Siqueira

    Brilhante o texto do Constantino. Esse escritor desinformado ou mal intencionado – Steven Levitsky – não pode ser esquecido, para que jamais percamos tempo lendo o que ele escreve.
    Victório

  7. MNJM
    MNJM

    Parabéns Consta como sempre perfeito. O STF é uma Instituição decadente que perdeu o seu rumo, passou a ser uma Corte política que envergonha o país.

  8. José Pedro Scatena
    José Pedro Scatena

    O psycho elegeu alguns perseguidos preferenciais, como Filipe Martins, Débora Rodrigues, Daniel Silveira, Allan Garcia e o PR Jair Bolsonaro. Estes sofrem, com a sanha persecutoria do togado mór, um calvário de torturas físicas e psicológicas dignas de regimes nazifascistas do século passado. Nosso ex PR Jair Bolsonaro está sendo afastado pouco a pouco, com requintes de sadismo, de seus eleitores, apoiadores e de parte da imprensa que ainda resiste ao arbítrio, como um condenado à Bastilha de Alexandre Dumas, O Homem da Máscara de Ferro, que podia ameaçar o trono de Luis XIV, é nosso Bolsonaro, que ameaça o tirânico Luis LI e sua eminência parda, reencarnação do Cardeal Mazzarino, Alexandre vocês sabem quem.

  9. ELIAS
    ELIAS

    Acrescentaria que a Democracia no Brasil foi ferida de morte quando um grupo político alçado à condição de juizes(?) da Suprema Corte descondenou um corrupto e o colocou na presidência do país. E na sequência, tornou sem efeito as condenações de ladravazes confessos e sepultou de vez a lava jato sinalizando de forma inequívoca que aqui é o país onde o crime de assalto aos cofres públicos compensa.

  10. Lauro Patzer
    Lauro Patzer

    Uma frase demolidora de Rodrigo Constantino em seu artigo, frase que transcrevo: “Morrem as democracias quando quem deveria ser juiz imparcial se gaba de ter derrotado um dos lados políticos”, referindo-se àquela toga que disse em público: “Nós derrotamos o bolsonarismo”, uma prova irrefutável da atuação política do STF. Uma prova suficiente para o impeachment.

  11. Fábio Ramos
    Fábio Ramos

    Parabéns, Constantino! O autor do livro nunca quis saber de democracia. Trata-se de um hipócrita, cínico e covarde. Toda pessoa que não se compadece daqueles que estão presos injustamente são hipócritas, cínicos e covardes. Basta de ditadura! É uma lástima não termos um supremo tribunal como o dos EUA.

  12. RODRIGO DE SOUZA COSTA
    RODRIGO DE SOUZA COSTA

    O mundo está a beira do precipício. Nunca as liberdades foram tão ameaçadas.

  13. Marcos Aurélio Camilotti
    Marcos Aurélio Camilotti

    Quando alguém fala que Trump ou Bolsonaro são ameaça a democracia já se sabe quem são: lobos em pele de cordeiro, democratas ou petistas que se adotaram da palavra democracia para se manterem no poder e continuarem a roubar como todo socialista sabe fazer.

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