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Os palestinos recebem refeições quentes (takiya) da cozinha beneficente Rafah na área de Al-Mawasi, a oeste de Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, em 13 de maio de 2025 | Foto: Shutterstock
Edição 284

Jerusalém entre a cruz e a espada

A imagem de Israel se degrada enquanto o país tenta conciliar a erradicação do Hamas com a libertação de seus reféns

As ruas de Tel-Aviv foram novamente tomadas pela população israelense no dia 18. Atendendo à convocação de algumas das famílias dos reféns ainda mantidos prisioneiros pelo Hamas na Faixa de Gaza depois de mais de 22 meses, parte do comércio manteve suas portas fechadas enquanto cerca de 500 mil pessoas protestavam pelas ruas e interditavam rodovias. Dois temas novamente se misturavam na multidão: a derrubada do governo Netanyahu e o fim da guerra.

O evento foi uma resposta direta à decisão do primeiro-ministro de aumentar a pressão militar contra o Hamas, dessa vez por meio da conquista da Cidade de Gaza. Ela é considerada o último reduto de terror do Hamas no enclave e o local onde, segundo a Inteligência israelense, estão sendo mantidos os 50 reféns ainda aprisionados pelo grupo terrorista — dos quais, acredita-se, 20 ainda estejam vivos.

Foto: Reprodução

A decisão foi resultado do fracasso das negociações em andamento até o mês passado e, também, do anúncio da última proposta apresentada pelo Hamas, considerada ultrajante por Israel: o fim da guerra com a total retirada do Exército israelense em troca da libertação dos reféns ao longo dos anos, à medida que a Faixa de Gaza fosse sendo reconstruída.

A nova investida prevê inicialmente a evacuação dos cerca de um milhão de civis palestinos que vivem na Cidade de Gaza para zonas humanitárias. Em seguida, o Exército cercará a cidade. Mais de 60 mil reservistas foram convocados para se juntar, nas próximas semanas, a outros 20 mil que já estão em campo.

A população israelense está dividida em relação à decisão: 48% dos judeus e 27,5% dos árabes acreditam que o Exército conseguirá resgatar os reféns com essa iniciativa; 50% dos judeus e 41% dos árabes creem que o Hamas será assim derrotado.

Imagem de drone mostra pessoas protestando depois que as famílias dos reféns convocaram uma greve nacional para exigir o retorno de todos os reféns e o fim da guerra em Gaza, na área da chamada Praça dos Reféns, em Tel Aviv, Israel, em 17 de agosto de 2025 | Foto: Reuters/Aviv Atlas

Sociedade dividida

Comum a todos os israelenses é a esperança de que o Hamas ceda frente à ameaça e disponha-se a discutir, longe do campo de batalha, as condições atualmente exigidas por Israel: a libertação de todos os reféns em uma só fase, a desmilitarização da Faixa de Gaza e a entrega do poder para um conselho de países capaz de realizar uma gestão transitória e pacífica. A Autoridade Palestina, vista por alguns como opção de liderança, não configura opção para Israel.

A operação está sendo duramente discutida entre os israelenses, aumentando ainda mais o atrito entre diferentes setores da sociedade. O plano também gerou desgaste entre Netanyahu e Eyal Zamir, Chefe do Estado-Maior do Exército, responsável por planejar o ataque que obrigará os soldados israelenses a combater em áreas repletas de armadilhas e túneis que ameaçam suas vidas enquanto atuam de forma cautelosa e lenta para prevenir baixas entre os reféns.

A morte de reféns e de soldados é, sem dúvida, o resultado mais indesejável e que mais afeta a moral do país. Miri Eisin, coronel da reserva e membro sênior do International Institute for Counterterrorism da Reichman University, que apoia a ação militar, resumiu: “Acredito que a operação será efetiva, mas também acredito que ela levará à execução de reféns pelo Hamas, como vimos há um ano, e os israelenses culparão a si e a seu governo por isso”.

A morte de reféns e de soldados é, sem dúvida, o resultado mais indesejável e que mais afeta a moral do país | Foto: Shutterstock

O jogo do Hamas

Diante da mobilização do Exército e do posicionamento de Donald Trump — “só veremos o retorno dos reféns quando o Hamas for confrontado e destruído; quanto mais cedo isso acontecer, maiores serão as chances de sucesso” — o grupo terrorista, que há cerca de um mês havia abandonado as negociações, decidiu retomá-las essa semana ignorando a atual proposta de Israel e aceitando o acordo parcial apresentado pelo enviado americano Steve Witkoff meses atrás. Ele prevê a libertação de 10 reféns vivos e a entrega dos corpos de 18, em troca de 60 dias de cessar-fogo, além de outras exigências que permitiriam ao Hamas rearmar-se e recuperar parte da infraestrutura dos túneis.

Esse anúncio veio no timing exato — para o Hamas. Israel não declarou sua decisão (até o momento da publicação desta reportagem) e continua a preparação para o ataque. Netanyahu está entre a cruz e a espada: aceitar o acordo parcial significará deixar reféns para trás e adiar o fim da guerra; caso o recuse, Israel passará por mais um confronto brutal dentro do campo de batalha e também na arena internacional.

Enviado Especial dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e o Embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, caminham durante sua visita à Faixa de Gaza, em 1º de agosto de 2025. | Foto: Reuters/X/Handout

Longa crise diplomática

Israel vem enfrentando sua mais longa crise diplomática internacional. “Não é a primeira vez que isso acontece em sua história, mas é a primeira a ser catapultada pelo ambiente cáustico da mídia social, que permite a criação e a manipulação fáceis das informações”, afirma Jacob Dayan, ex-diplomata sênior israelense. É monumental o estrago causado à sua imagem pela guerra em Gaza, especialmente após a “campanha da fome” protagonizada pelo Hamas nas últimas semanas.

No entanto, segundo Dayan, é importante ampliar o ângulo de visão e lembrar das importantes conquistas desses quase dois anos de guerra, momentaneamente preteridas em função do foco no conflito com o Hamas. “Israel se provou um superpoder e está provocando uma mudança real e positiva em todo o Oriente Médio. Basta observar os processos pelos quais estão passando, por exemplo, o Líbano e a Síria”, afirma. A recuperação de sua imagem internacional será uma tarefa para o pós-guerra. “Israel reconstruirá sua legitimidade frente ao mundo em um processo que, embora longo, trará muitos frutos diplomáticos”.

Sua opinião, no entanto, não representa um consenso no país. Para o analista Ben-Dror Yemini, autor do livro Indústria de mentiras, Israel jogará a favor do Hamas caso não aceite o cessar-fogo com a entrega parcial de reféns. “É óbvio que os terroristas estão buscando uma solução que garanta sua sobrevivência após o fim da guerra. Mas se Netanyahu disser não, incentivará ainda mais a deslegitimação de Israel pelo mundo. Uma invasão terrestre à Cidade de Gaza provocará um colapso total do país frente ao mundo”.

Já o Brigadeiro-General da Reserva Harel Knafo, membro do Conselho do Fórum de Segurança e Defesa de Israel, pensa o oposto: “A queda da Cidade de Gaza significará o colapso do Hamas”.

Israel jogará a favor do Hamas caso não aceite o cessar-fogo com a entrega parcial de reféns | Foto: Shutterstock

Guerra em três esferas

“Israel e Gaza lutam em três esferas interconectadas: no campo de batalha, da informação e da ajuda humanitária”, opina Micah Goodman, analista geopolítico e autor de O impasse de 1967. Segundo ele, Israel sai vitorioso na primeira e perde a segunda, que é fundamental para a estratégia do Hamas. Já a terceira foi intensificada em março deste ano, quando Israel decidiu suspender a entrada de ajuda humanitária em Gaza.

O país sempre soube e divulgou amplamente o fato de o Hamas roubar a ajuda humanitária que entra na Faixa de Gaza, seja para garantir alimentação aos seus combatentes, seja para usar como moeda de pagamento para novos terroristas que ingressam na organização. Principalmente, o grupo obtém os recursos necessários para continuar a guerra, vendendo-a a preços exorbitantes aos próprios palestinos.

Segundo o especialista em guerras urbanas John Spencer, não há precedente na história para o volume de ajuda humanitária recebido em Gaza desde o início da guerra.

A campanha da fome

Durante o cessar-fogo de janeiro e fevereiro deste ano, segundo dados da ONU, o volume extraordinário de alimentos que ingressou no território era suficiente para alimentar a população por cinco meses. Naquele momento, o gabinete israelense acreditou que a suspensão do fluxo enfraqueceria o Hamas estruturalmente, levando-o a negociar a libertação dos reféns e entregar as armas — sem que, no processo, a população fosse prejudicada.

Foi um cálculo equivocado. “Muitos clãs e organizações criminosas dentro do enclave começaram a armazenar comida, criando escassez e uma ameaça real. Os preços nos mercados dispararam — e a maior parte dos habitantes de Gaza é de classe baixa”, afirma Goodman. Embora a escassez de alimentos não tenha sido provocada por Israel, o país foi acusado de “genocídio por fome”.

Nos últimos dois meses, duas das guerras mencionadas por Goodman — da informação e da ajuda humanitária — foram combinadas em uma “campanha da fome” que levou a reputação de Israel à lona. Seu ápice ocorreu após a publicação de uma foto na capa do jornal The New York Times em 25 de julho, depois reproduzida nas mídias mais importantes do mundo, que trazia a imagem de uma mãe palestina com uma criança cadavérica nos braços. Poucos dias depois, Israel apresentou provas de que a condição da criança era resultado de uma doença genética.

The New York Times em 25 de julho | Foto: Reprodução/The New York Times

O NYT se retratou, mas não as demais mídias. Muito embora a deturpação tenha se tornado conhecida mundo afora, a campanha da fome prosseguiu em volume máximo. A investigação de The Free Press mostrou que as 12 crianças que se tornaram “símbolos da fome” em Gaza sofrem de doenças degenerativas. Em outra reportagem, a revista alemã Bild exibiu fotos de um fotógrafo em ação na área especialmente criada para produzir as famosas imagens de crianças de Gaza chorando com panelas na mão enquanto aparentemente esperam receber comida.

The Free Press mostrou que as 12 crianças que se tornaram “símbolos da fome” em Gaza sofrem de doenças degenerativas | Foto: Reprodução/The Free Press
Revista alemã Bild exibiu fotos de um fotógrafo em ação na área especialmente criada para produzir as famosas imagens de crianças de Gaza | Foto: Reprodução/Bild

Essa campanha provocou um dos piores impactos sobre a imagem de Israel desde o início da guerra e resultou em uma crítica de Donald Trump ao governo Netanyahu: “Intervir na ajuda humanitária foi um grande erro”, declarou em entrevista. Para John Spencer, esse foi mais um passo na estratégia de uma guerra como nunca se viu antes. “O Hamas criou um plano de mestre: transformou Gaza em um campo de batalha com uma vasta fortaleza subterrânea de 500 quilômetros e uma estratégia de guerra inovadora baseada em túneis. Eles foram a maior coisa já construída pelos palestinos e o Hamas dedicou 17 anos da economia de Gaza para criá-la”. Tudo isso às custas do sofrimento palestino.

Zelando por duas reputações

“Nossa liderança falhou ao não entender que a guerra mais importante não acontece nos prédios ou nos túneis de Gaza, mas na arena internacional, e que o objetivo do Hamas não é nos vencer no campo de batalha, mas na guerra pela opinião pública”, afirma a analista geopolítica Einat Wilf, coautora da obra A guerra do retorno. “Israel precisa de líderes que entendam e respeitem nossos inimigos. Já sofremos antes fortes pressões internacionais, mas tínhamos, então, governantes que compreendiam a cabeça de nossos inimigos”.

A recuperação da imagem internacional de Israel não será tarefa simples, uma vez que o país tem de manter duas reputações antagônicas. “Israel precisa ser temido no Oriente Médio e amado no Ocidente, porque é importante que as forças jihadistas o respeitem e que o mundo livre o veja como um parceiro confiável”, reflete Goodman.

O preço do respeito, fundamental para sobreviver em uma vizinhança “pouco amigável” e que segue valores bem diferentes dos ocidentais, cresce à medida que a guerra se prolonga. Em uma pirueta geopolítica, Israel perdeu-o no Ocidente para conquistar o que lhe faltava no Oriente Médio. “Se a guerra é um carro e a vitória é o destino, o combustível é a legitimidade internacional”, ilustra Goodman. “A grande pergunta é: sua legitimidade vai acabar antes de Israel chegar ao final dessa guerra?”.

Leia também “Amizade sob fogo”

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4 comentários
  1. Marcelo Isoni dos Santos Paiva
    Marcelo Isoni dos Santos Paiva

    É óbvio que Israel é o culpado pela fome em Gaza.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Só o povo israelense sabe o que sofre e as consequências de qualquer ato.

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Por que Lula não senta com a diplomacia de Israel e do hamas numa mesa de bar na faixa de gaza pede um litro de 51, linguiça e umas cervejas, resolve em meia hora

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