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Ilustração: Revista Oeste/IA
Edição 284

O poder e o voto

Não fosse a vontade de uma minoria sem voto ter-se imposto aos representantes da maioria da nação, não teria acontecido o 8 de janeiro

Esta semana, fez 84 anos o assassinato de Leon Trotsky. No ano em que ele morreu, eu nasci. Foi morto no exílio, no México, a mando de Stálin. Trotsky criticava a burocracia soviética de Stálin e defendia a revolução comunista universal. Seus seguidores trotskistas continuam a defender, pelo mundo, a revolução como forma de chegar ao poder. Os exemplos são muitos, a começar pela revolução de Mao, na China, e a de Castro, na América Latina. No Brasil, os comunistas tentaram, em 1937; depois sofreram um contragolpe em 1964 e ainda tentaram com a guerrilha no Araguaia e na guerra revolucionária urbana, de Marighella. Nos últimos 40 anos, os trotskistas revolucionários foram superados pelos gramscistas brasileiros. Brizola dizia que sopa quente vai se tomando pelas bordas. José Dirceu, o mais destacado pensador do PT, disse: “Vamos tomar o poder, o que é diferente de ganhar eleição.”

A frase precisou de mais esclarecimentos de Dirceu. Foi dita ao espanhol El País no calor da campanha presidencial de 2018, com Lula preso e Haddad o representando, contra Bolsonaro. Dirceu explicou que a pergunta trazia a hipótese de o PT ganhar, mas não levar. Em 2022/23, foi atualizada essa questão, porque os do 8 de janeiro são acusados de não querer que o PT levasse o que teria ganho nos números do TSE. O resultado foi de 50,83% a 49,17%, sem condições de recontagem nem comprovação em voto físico — ainda mais apertado que na reeleição de Dilma sobre Aécio, que foi 51,64% a 48,36%. O PSDB contratou auditoria independente e, um ano depois do segundo turno, o líder Carlos Sampaio concluiu que o sistema é inauditável e que a solução é o comprovante impresso do voto.

Em outubro, Gilmar Mendes estendeu a José Dirceu os efeitos de um julgamento de 2021, que declarou a parcialidade de Sergio Moro nos processos contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva | Foto: Lula Marques/Agência Brasil
José Dirceu relembra declarações de 2018 e volta a defender o voto impresso como solução para a desconfiança eleitoral | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Acoplar impressora à urna eletrônica já foi sugestão de Flávio Dino, como relator, então deputado do PCdoB; Brizola Neto, autor, deputado do PDT; Roberto Requião, autor, do MDB e Jair Bolsonaro, também autor de projeto de lei. O Congresso aprovou a ideia, para que nenhuma das correntes partidárias ficasse em dúvida sobre os resultados, ainda mais com pequenas diferenças. Mas o Supremo derrubou a vontade do Congresso, em 2009 e 2015, Dilma vetou alegando custos, e o Congresso derrubou o veto. Um único ministro do Supremo, por liminar, derrubou a vontade da maioria de 71% dos representantes do povo. Depois, com oito votos, o Supremo confirmou a derrubada, alegando risco para o sigilo do voto. A vontade de 368 deputados e 56 senadores foi anulada por oito do Supremo.

Não fosse a vontade de uma minoria sem voto ter-se imposto aos representantes da maioria da nação, não teria acontecido o 8 de janeiro. Teria havido contagem dos comprovantes físicos dos votos. Não ficaria a dúvida para o ano que vem, que permanece; Bolsonaro não teria precisado convidar os embaixadores para ouvir a preocupação do presidente sobre a confiança nos resultados — e não teria havido o pretexto para deixá-lo inelegível. 

Agora passou na principal comissão do Senado, a de Constituição e Justiça, emenda do senador Esperidião Amin, trazendo de volta o bendito comprovante impresso do voto eletrônico. Foi 14 a 12, o escore que incluiu o pacificador comprovante no projeto de lei complementar do novo Código Eleitoral, que ainda precisa passar pelo plenário do Senado e voltar ao plenário da Câmara. Os contrários, que concordam com o Supremo, argumentam que em 30 anos nunca se detectou uma fraude eleitoral. Claro! Com esse sistema inauditável é impossível detectar fraude. Ninguém tem certeza se houve ou não fraude, o que é péssimo, pois não podem restar dúvidas no que é sagrado em democracia: eleição. 

O Supremo declarou em 2020 que o comprovante do voto é inconstitucional, porque não protege o sigilo do voto. Mas a Constituição, no art. 37, estabelece que a administração pública, em qualquer dos poderes, tem que obedecer à publicidade — o que significa que a apuração de votos, que é um ato administrativo do Judiciário, tem que ser pública. O argumento de uma das principais cortes europeias, ao vetar a apuração digital, é que o eleitor tem o direito de saber como seu voto é contado. E ter certeza de que seu voto foi somado aos demais. Se for aprovado o comprovante impresso, será que a maioria do Supremo vai teimar, contra a vontade dos representantes do povo, que significa adotar o sagrado direito de poder saber que o voto foi contado?

O poder do voto — do povo ou de seus representantes — é o mais supremo de todos.

Debate sobre voto impresso opõe decisão do STF à defesa de transparência e publicidade na apuração eleitoral | Foto: Rosinei Coutinho/STF

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5 comentários
  1. Rubens Mário Mazzini Rodrigues
    Rubens Mário Mazzini Rodrigues

    Perfeito! Pena que jornalistas do seu calibre estejam em extinção.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Alexandre, relembra aqui em meu estado, Alagoas, o que ocorreu nas eleições para governador em 2006.
    João Lyra x Teotonio Vilela (este último aliado de Renan Calheiros).

  3. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    É como penso Alexandre e fico estarrecido com o silencio de FHC e tucanato a respeito do assunto, até porque questionaram o resultado em 2014.
    Como ex tucano desde a fundação do PSDB até 2019, aos 80 anos revolta-me essas ilustres celebridades tucanas que fizeram o “L” sabendo que Lula voltaria à cena do crime. Gente sem caráter como FHC, ALCKIMIN, DORIA e outros que unicamente por ódio ao cidadão Bolsonaro, desconhece o que seu competente ministério fez em 4 anos, mesmo com 2 anos de pandemia.
    Alexandre, como tradicional jornalista e seguramente respeitado por celebridades políticas, militares e da velha imprensa, não da para entrevistar FHC e seus tucanos na Revista Oeste, para nos dizerem como interpretam o desastre que trouxeram para nosso pais e os abusos judiciais contra a direita brasileira?.

  4. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Alexandre Garcia, suas análises são sempre esclarecedoras.
    Na minha juventude fui participante ativo em campanhas eleitorais em Curitiba para candidatos a vereadores e prefeitos.
    Também trabalhei na campanha de José Richa, um dois fundadores do PSDB ao lado de Franco Montoro e Mario Covas, ao governo do Paraná.
    Terminada a votação, as urnas com os votos em papel saiam das seções eleitorais escoltadas pela PM até o local da apuração.
    Lá os escrutinadores trabalhavam na apuração sob vigilância dos fiscais dos partidos, da imprensa e dos eleitores.
    Hoje além dos bits e bytes ninguém tem acesso a nada. Não sabemos o que acontece nos bastidores da sala secreta onde a “apuração dos votos” é realizada.
    O Brasil tem o sistema bancário mais informatizado do mundo, eficiente e transparente e quantas vezes já tive que questionar a instituição bancária sobre lançamentos duvidosos em minha conta corrente.
    Por que não posso duvidar da “apuração” da urna eletrônica? Só porque o STF julga desnecessário?

  5. Maria Dulce De Lima
    Maria Dulce De Lima

    Alexandre Garcia, não é apenas um Mestre….é uma enciclopédia! Obrigada por nos ensinar tanto!

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