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Edição 285

A esfinge chinesa

Como na mitologia, "decifra-me ou te devoro", a China é hoje a esfinge que oscila entre ameaça e parceira do mundo. A escolha depende do Ocidente

Em meio ao tarifaço da Casa Branca, que estabeleceu um reequilíbrio de alíquotas no comércio global, ouvi de empresários brasileiros que o movimento era preciso, necessário. O alívio, embora tarifas sejam sempre controversas, vinha da sensação de que alguém finalmente decidira enfrentar a China. E em defesa do mundo ocidental, de como fazemos as coisas deste lado do planeta, estava ninguém menos do que Donald Trump — um híbrido político entre o general MacArthur, principal comandante do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, e outro general, o mítico George S. Patton, um estrategista memorável de infantaria sempre ávido pelo combate no teatro de operações. A menção ao período único da Segunda Grande Guerra e a dois generais americanos acostumados às vitórias não é gratuita. O mundo de hoje é baseado justamente no resultado daquele conflito e na hegemonia dos Estados Unidos, desde então. O componente estranho a tudo isso é o desejo de expansão de zona de influência dos chineses. Começaram pela sedução econômica, que inebriou homens de negócios de todos os lados. Parecia só economia. Mas ao ter a Marinha Militar que mais cresce no mundo, com investimento especial na construção de porta-aviões, a pureza se esvai. A história da civilização humana não muda, apenas se recicla. Exércitos defendem fronteiras internas. Navios e aviões vão bem além disso. Um representante comercial chinês no Brasil gostava de dizer que, enquanto os americanos enviavam seus fuzileiros para o mundo — numa crítica ácida e exagerada a um suposto belicismo de Washington —, Pequim mandava seus empresários. Parece altruísta. Mas, quando seus empresários transformam a mesa de negociação em um front de defesa dura dos interesses da megapotência asiática, o romantismo acaba.

O presidente dos EUA, Donald Trump, faz comentários sobre tarifas no Rose Garden, na Casa Branca, em Washington, D.C., EUA (2/4/2025) | Foto: Reuters/Carlos Barria/Foto de arquivo

Volto às questões de ordem global mais adiante. Por ora, retomo o caso brasileiro que, acredite, é peça-chave nesse negócio. Se alguém neste país ainda acredita na bobagem histórica de que somos pouco importantes, um conselho: não confunda frustração pessoal interna pelo desenvolvimento que ainda não atingimos como sociedade com geopolítica externa aplicada sobre o país. O mundo já tem suas conclusões sobre nós e não tem tempo para lamentos domésticos. O Brasil é estratégico, o que diz muito no presente e, sobretudo, no futuro. E todo mundo está de olho. A questão é com quem e com que valores vamos estar.

Esta é a razão de empresários brasileiros terem se sentido inicialmente representados pelas tarifas americanas sobre a China, que ameaçavam ultrapassar 100% no início do embate comercial. O tom duro de Trump contra as exportações chinesas deu alguma esperança ao mundo, que já não conseguia mais competir com a invasão chinesa. E tão somente porque regras diferentes produzem resultados diferentes. E aqui me refiro ao modelo de economia de livre mercado e de democracia — que existe nos EUA, no Brasil e na Europa — diante da estranha combinação de capitalismo na economia e de ditadura na política implementada à força pelo pragmático Partido Comunista Chinês.

A China pobre, de Mao Tsé-Tung, que encantava os esquerdistas incautos que viviam com conforto e liberdade no exterior, deu lugar a um gigante que decidiu influenciar lugares bem distantes de suas muralhas. Nada disso é novidade e parece não ter tirado o sono de ninguém quando rendia ganhos e lucros a investidores estrangeiros ao redor do mundo. As empresas americanas e europeias se refestelaram no início do século, quando produziam a baixo custo com os obedientes trabalhadores chineses, cuja produtividade vinha de algum talento e intermináveis e extenuantes horas nas linhas de produção. Em 2005, uma aula de economia sobre os chineses fazia a singela comparação de que bastaria uma fração de chineses querer consumir determinado produto, que um produtor, em qualquer lugar do mundo, explodiria em lucrativas vendas.

Mao Tsé-Tung, líder dos comunistas da China, se dirige a alguns de seus seguidores (1944) | Foto: Wikimedia Commons

Os ventos viraram: a China continua sendo grande consumidora de comida, o que ainda faz a alegria de produtores agrícolas brasileiros e argentinos, mas se tornou a fábrica do mundo, que vende quantidade e qualidade em profusão. Observe a imensa e crescente indústria de carros elétricos, que ameaça dominar o setor, ou a singela produção de relógios com marcas próprias, que tem enorme similaridade com grandes marcas americanas, japonesas e europeias. Dentro do território chinês, o nome disso é evolução. Fora, é outro: confusão.

O caso brasileiro é um exemplo bem-acabado sob vários aspectos. Em 2023, os chineses representavam 30,7% de nossas exportações e 21,9% de nossas importações. Uma diferença de balança comercial positiva para o Brasil de quase nove pontos percentuais. No ano passado, em 2024, o aumento das importações e a queda das exportações reduziram essa diferença para a metade. O fato de estarmos vendendo um pouco menos é preocupante. Mas estarmos comprando mais, uma dor de cabeça. Sobretudo no que afeta a indústria nacional. Entre 2023 e 2024, a importação de válvulas e transistores — usados na fabricação de televisões, computadores, celulares e sistemas industriais — aumentou 57%. No caso de carros elétricos e híbridos, foram inacreditáveis 173% de alta nas importações brasileiras da China, com a chegada dos navios da BYD e de outras montadoras ao país.

Navio BYD Explorer 1 | Foto: Divulgação/BYD

O caso da indústria automotiva é único e gerou gritaria entre os outros sócios da Anfavea, a associação das montadoras que produzem aqui. Nem o anúncio da “fábrica” da BYD na antiga unidade da Ford em Camaçari, na Bahia, arrefeceu o clima de insatisfação. O motivo? Além das denúncias de trabalho análogo à escravidão, com operários trazidos de fora, os carros chineses começaram a ser produzidos na Bahia em regime SKD (semi-knocked down), um anglicismo de engenharia de produção que significa que os veículos chegam praticamente prontos da China e terão pouca montagem efetiva na “fábrica” brasileira. Até pouco tempo atrás, apenas uma fabricante de pneus estava credenciada a fornecer peças. O resto é made in China na veia. O que falta em nacionalização de autopeças, sobra em marketing político-ideológico. Em janeiro, a montadora chinesa franqueou um dos seus veículos, que custa quase meio milhão de reais, para o casal Lula e Janja andar alegremente pelo Palácio da Alvorada, residência oficial do casal presidencial. Não existe almoço grátis, sabemos. Nem aqui, nem na China.

E isso diz muito sobre esse novo tabuleiro do poder global, porque já não se trata de uma guerra de qualidade. Os americanos talvez sejam os consumidores que ainda rejeitam os carros chineses, o que não significa que eles não ostentem qualidade e inovação de primeiro mundo, com demanda crescente em vários outros países. O ponto é: como se chega ao produto final, a que custo e com quais regras trabalhistas e direitos sociais, comuns e obrigatórios por aqui, mas inexistentes e proibidos aos trabalhadores de lá.

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Além do mais, acontece que a China se basta. Em muitos casos, ela não é uma parceira de cadeia global, com quem se convive num jogo de regras minimamente semelhantes. Quando chega, toma o mercado do concorrente com oferta e preço asfixiantes. Diante da esfinge gigante que ameaça o modo de vida ocidental, a pergunta é se seremos nós a nos assemelhar aos chineses ou serão os chineses a incorporar minimamente o bem-estar social, os direitos que temos, as conquistas humanas e humanitárias de que não vamos abrir mão. Diante do impasse, os EUA impuseram tarifas para se protegerem. Não é o melhor caminho, mas o jogo não é só comercial.

Algo bem diferente acontece com as exportações de produtos manufaturados pelo Brasil, cujo principal mercado externo são justamente os Estados Unidos. O industrial brasileiro se inseriu como parceiro da cadeia produtiva, oferece qualidade internacional e garantia interna de direitos aos trabalhadores, dentro dos padrões ocidentais. As questões logísticas e tributárias, que encarecem nossos produtos, são um dificultador para nós, não uma vantagem desleal para com o concorrente externo. Mesmo assim, os aviões da Embraer, o suco concentrado de laranja, os produtos de madeira e de metalurgia das empresas nacionais, com alto grau de eficiência, abriram um mercado sólido.

O alívio com as tarifas americanas e o enfrentamento da China como competidor global, que trazem um alento para o mundo, só são relativamente ofuscados pelo peso das tarifas aplicadas ao Brasil, hoje de 50%. A conta fica com o componente político brasileiro de exceção, que se pretende reversível na eleição do ano que vem. É de compreensão geral que o custo econômico ao Brasil, no rearranjo tarifário americano, era de apenas 10%. O aumento de 40 pontos percentuais veio da verborragia irresponsável e do antiamericanismo mofado de Lula, exatamente o oposto do que pensam os brasileiros que trabalham e produzem. Baseado só em um projeto de poder pessoal, Lula acelera o processo de desvio geopolítico do Brasil, sem ganhos ao país.

O caso da venda de uma planta de níquel, em Goiás, que pertencia à multinacional Anglo American, aos chineses da MMG (China Minmetals Group) por US$ 500 milhões, é emblemático. O negócio seria apenas uma troca de dono, não fosse a denúncia do megaempresário turco Robert Yüksel, dono da Corex Holding, uma de suas empresas com sede na Holanda. Ele diz ter feito uma oferta de US$ 900 milhões, quase o dobro, que não foi aceita. “Nunca vi um vendedor recusar um preço maior”, reclamou. O negócio seria só estranho, não fosse a vencedora uma estatal chinesa. O caso promete ser investigado no Congresso e em órgãos de combate à concorrência desleal. Mas o silêncio do governo Lula não passa despercebido. Descuido é que não é. Os rumos do país neste momento tornam-no uma parte indelével do jogo geopolítico que acontece agora. Além de sermos o decantado país com enormes recursos naturais, temos reservas de minerais críticos, como o níquel, que moldarão os blocos de poder internacional em um futuro muito breve. O níquel é essencial em baterias e chips. Isso já explica muita coisa. Com a aquisição das minas brasileiras pela estatal chinesa MMG, a China se torna controladora de 60% da produção de níquel no Brasil.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, usa um boné com os dizeres “O Brasil é dos brasileiros” durante uma reunião ministerial no Palácio do Planalto, em Brasília, Brasil (26/8/2025) | Foto: Reuters/Adriano Machado

Um resumo do que nos trouxe até aqui delimita o front global de disputa por influência externa das grandes potências e o nosso papel nesse roteiro. O aumento das exportações chinesas pelo Brasil e a perda em exportações na relação com a China aconteceu entre 2023 e 2024, nos dois primeiros anos do terceiro mandato de Lula. O grito de ajuda do empresário brasileiro radicado aqui, que sofre com aumento de impostos e da burocracia, além da competição com os chineses, não é ouvido pelo governo atual. Empresários da indústria, que tinham mercado em alta e sustentável com os EUA, foram prejudicados não pela tarifa mínima de 10%, aplicada a vários países, mas pelos 50% de tarifaço diante do tresloucado discurso de Lula. Discurso contra o dólar, contra Trump, contra os Estados Unidos e simpático a ditaduras, em especial à chinesa, com quem o presidente brasileiro mantém laços de proximidade ideológica, contra tudo o que a democracia e a Constituição estabelecem e o que a sociedade brasileira quer. Nada é de graça.

Volto ao título deste artigo. A China é a esfinge moderna que, tal como a Esfinge de Tebas — do enigma que precisava ser decifrado sob risco de a pessoa ser devorada pela mitológica criatura —, parece estar nos portões do futuro do planeta. É preciso compreendê-la, antes de ir adiante num ou noutro sentido. Ninguém vai excluir da vida no planeta a China de quase 1,5 bilhão de pessoas, um mercado consumidor gigante que move parte do comércio global e que se inseriu na vida de cada canto do globo terrestre. Não se trata de, se me permite o trocadilho, “chinofobia”. Ao contrário. A questão é delimitar as coisas, não permitir a imposição de um modo de vida ou o controle estratégico do planeta sob valores que não sejam os ocidentais democráticos, os vencedores da Segunda Guerra.

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Na pandemia, os chineses não deixaram uma boa lembrança de sua dinâmica de distribuição de bens em períodos de escassez, justamente quando o mundo demandava os produtos hospitalares de suas fábricas. Vem de lá o cavalo de pau da globalização e o retorno do protecionismo como medida de defesa, de tamanho controle e concentração na produção de bens. Decifra-me ou te devoro, diria em mandarim a esfinge chinesa, com tradução em todas as línguas. Os EUA de Trump ignoraram o enigma, chamaram a cavalaria, atiraram contra o modelo ditatorial chinês e impuseram uma negociação. Coisa que a pragmática esfinge chinesa, veja só, não rejeitou.

O Brasil fará o quê? Digo o Brasil que produz, não Lula, que já escolheu o pior lado possível, contra tudo o que acreditamos como nação, e que precisa ser detido. Falo do empresário do agronegócio brasileiro, por exemplo, que ganha muito ao exportar bilhões em soja e milho aos chineses. Ele ainda vive o dilema entre se rebaixar, pensando ser dependente da China compradora, ou se erguer com mais altivez e entender que são os chineses que precisam da comida produzida aqui. No país que é a única potência alimentar capaz de atender à crescente demanda de alimentos no mundo, um soft power inigualável, a segunda alternativa parece óbvia. E escolher ser grande e forte no comércio global não é uma declaração de guerra. É só a reafirmação de que somos uma nação ocidental democrática, que lutou e venceu, ao lado dos aliados, a Segunda Guerra. E como vencedores, a nossa mesa está aberta e é farta, mas é nossa, sob nossas regras e nossos valores.

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4 comentários
  1. Osvaldo Pasqual Castanha
    Osvaldo Pasqual Castanha

    Excelente artigo. Análise perfeita. Pena que o atual presidente é um idiota que não sabe enxerga um palmo à frente do nariz. E muito menos o responsável pela nossa política externa.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Ótimo artigo, Piotto. Aqui em Alagoas, também teve mineradora chinesa no jogo, adquirindo uma planta de cobre em Craíbas, próximo a Arapiraca.

  3. Marcio Cruz
    Marcio Cruz

    Esse governo previlegia os chineses em detrimento dos produtores locais, que geram empregos e riquezas

  4. Raimundo Penaforte Dias de Sousa
    Raimundo Penaforte Dias de Sousa

    A imprensa, artistas, intelectuais e milionários querem a China. É estarrecedor.

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