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Senador Carlos Viana, presidente CPMI do INSS | Foto: Montagem Revista Oeste/José Cruz/Agência Brasil
Edição 285

A República do Sigilo

A preocupação do presidente da CPMI é que repórteres e fotógrafos possam expor informações que estejam nas telas dos telefones ou computadores dos nobres parlamentares

O presidente da CPMI do INSS, senador Carlos Viana, achou uma boa ideia abrir os trabalhos ameaçando os jornalistas. Ele tem a responsabilidade de conduzir uma investigação parlamentar sobre o maior escândalo de corrupção dos últimos tempos no Brasil — escândalo esse que tem sido abafado de todos os lados, na tentativa de preservar o governo. A missão de Carlos Viana, portanto, é revelar o que está escondido.

E o seu discurso na sessão de abertura da CPMI trouxe um “alerta” na direção contrária. O trabalho da imprensa é vital para qualquer ação investigativa, especialmente de caráter político, dentro do Congresso. Mas a preocupação do presidente da CPMI — expressa em tom intimidatório — é que repórteres e fotógrafos possam expor informações que estejam nas telas dos telefones ou computadores dos nobres parlamentares.

Carlos Viana disse que, se algum veículo publicar informações “particulares” de deputados ou senadores, terá sua credencial de cobertura suspensa. Por que ele não proíbe de uma vez a presença de jornalistas na CPMI e protege toda a “particularidade” de suas excelências? Será que a famosa foto do deputado “pianista” — votando por ele e pelo colega ausente — hoje seria considerada invasão de privacidade? E se um jornalista avistar um diálogo comprometedor numa tela, o que ele tem que fazer? Fingir que não viu?

Senador Carlos Viana, presidente CPMI, durante sessão da CPMI do INSS | Foto: José Cruz/Agência Brasil

Se uma mensagem de texto no WhatsApp é considerada “informação particular” inviolável, uma conversa telefônica também é. E aí? Se um repórter ouve um parlamentar falando algo comprometedor ao telefone na sessão da CPMI, também tem que fingir que não ouviu? O senador Carlos Viana quer ressignificar o conceito de liberdade de imprensa?

Vamos observar o que disse exatamente o presidente da CPMI do INSS (repetindo: disse em tom ameaçador, que parece estar na moda. Quem não tiver assistido ao vídeo, assista):

“E quero também fazer um alerta aos jornalistas que cobrem aqui a CPMI de que toda e qualquer informação particular dos parlamentares, seja em telefone celular, seja em computadores, seja em relatórios, está preservada por sigilo de lei. Os veículos de comunicação — que nós já tivemos essa experiência — que publicarem informações particulares em telefones, computadores ou relatórios fotografados nessa comissão parlamentar de inquérito terão a sua credencial suspensa. Peço a colaboração dos senhores no respeito a esse princípio e à liberdade dos senhores parlamentares de trabalhar nessa comissão”.

Sigilo de lei? O que quer dizer isso? Que lei é essa? Foi promulgada alguma lei determinando para onde as lentes dos fotógrafos devem apontar? E se algum deputado ou senador deixar sobre a mesa alguma “minuta” reveladora — que contenha, por exemplo, uma proposta de convocação de depoente ainda não conhecida do público? O jornalista que passar pelo local deve fechar os olhos?

Deputados e senadores podem perfeitamente ser cuidadosos com seus dispositivos pessoais, da mesma forma que jornalistas não precisam necessariamente flagrar uma tela de celular para fazer sua reportagem. Mas essa tentativa de embargo prévio dos olhares dentro de uma CPI é reveladora do vício autoritário que está se espalhando por todos os setores da sociedade. Todo mundo hoje parece buscar um pretexto para proibir no grito algo que lhe desagrade, invocando o direito imaginário.

O problema é que a contestação frontal à ameaça do presidente da CPMI veio da senadora Eliziane Gama — que é da tropa de choque do regime governista. Aí a bússola do Fla-Flu entra em parafuso. Nas redes sociais, diversos críticos do PT e da roubalheira no INSS passaram imediatamente a apoiar o discurso de Carlos Viana: se Eliziane Gama criticou, é porque ele está certo — raciocinaram os sábios do Fla-Flu. Jornalistas críticos dos desmandos petistas também passaram a se contorcer no terreno escorregadio do “veja bem”.

Senadora Eliziane Gama enfrenta críticas ao contestar declarações na CPMI do INSS | Foto: Jane de Araújo/Agência Senado

Não tem “veja bem”. O flagrante furtivo é parte da liberdade jornalística — e fim de papo. Ah, mas a “esquerda” defendeu, então vamos marcar posição em contrário. Vamos investir no nosso nicho, que é lugar seguro.

Parabéns. A polarização burra está matando a democracia.

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8 comentários
  1. ALEX
    ALEX

    Quando esse período sombrio de nossa história passar – e irá passar – temo que ir atrás de TODOS que sustentaram esse autoritarismo da esquerda/stf/velha mídia. TODOS. Eles devem pagar legalmente por suas atitudes.

  2. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Confiem na relatoria do Alfredo Gaspar. Ele vai dá conta do recado.

  3. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Fiuza, você algum político, “empresário”, instituição financeira, etc que tenham sido punidos por atuação de uma CPI ou CPMI. Isso é circo e palanque político. Vide a CPI do Covid que não explicou nada e a CPI estadual do RN que foi mais a fundo, mas até hoje não saiu dos apontamentos nos autos.
    A liberdade é elemento essencial da democracia e sem imprensa livre não existe regime democrático.

  4. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Lula foi pego dentro de um jatinho sozinho levando 12 malas cheias de papel bordado para levar para o banco do Vaticano daquele papa comunista argentino. Isso no governo Dilma Rousseff. Teve que manter o sigilo. O vagabundo analfabeto topa tudo por dinheiro. É urgente uma Arraia preta aqui em Brasília

  5. Marcial Ferreira da Silva
    Marcial Ferreira da Silva

    O artigo, como sempre, faz muito sentido. A pulga atrás da orelha é que, se essa senadora se revelou, talvez o presidente da CPMI tenha alguma informação de armação de trambique por parte da imprensa adestrada. Nunca vi essa senhora fazer nada de positivo.

  6. JOSE GERALDO VIANA
    JOSE GERALDO VIANA

    E pensar que o oficio de origem do nobre senador foi numa emissora de rádio em BH… Estaria eu enganado? Por favor, pesquisem e me informem. Posso estar equivocado.

    1. JOSE GERALDO VIANA
      JOSE GERALDO VIANA

      Êpa! Já confirmei. Passou por vários veículos de comunicação em BH. Conhece do ofício, o que torna a intimidação dos profissionais de imprensa ainda mais petulante. Pelo visto, é mais uma CPMI que vai pro saco. Lembro-me de um gestor competente com quem trombei na vida, quando filosofava sobre a resolução de problemas no ambiente empresarial. Algo mais ou menos assim: “numa empresa, quando não se quer de fato resolver um problema, cria-se um grupo de trabalho para discutir sobre o tema em questão”. Via de regra (ou quase), é assim que se comporta no Brasil.

  7. Maria Lucia Benevides de Schueler
    Maria Lucia Benevides de Schueler

    Parabéns Guilherme Fiuza! Mais uma vez foi direto no alvo.

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