A foto de Luis Orlando Lagos Vásquez, conhecido como Chico Lagos, que abre essa matéria, é um registro histórico do momento final do presidente chileno Salvador Allende, 65 anos. Tropas militares chilenas haviam cercado o Palácio La Moneda para derrubar seu governo, no dia 11 de setembro de 1973. Olhando fixo para o céu, onde caças Hawker Hunter voavam baixo, e apresentando-se como um combatente — com o capacete torto e na mão direita o fuzil automático AK-47, presente do amigo cubano Fidel Castro —, Allende tiraria sua própria vida algumas horas depois, com um tiro na cabeça. O golpe marcou o fim da democracia no Chile e o início da ditadura militar encampada pelo chefe das Forças Armadas, o general Augusto Pinochet. A imagem rendeu a Chico Lagos o prêmio World Press Photo em 1973 e foi selecionada pela revista Time como uma das “100 mais influentes” já registradas.
Salvador Allende, aliado dos governos de Cuba e da União Soviética, foi o primeiro socialista marxista democraticamente eleito. Governou o país por três anos. Seu plano político era fazer a transição do capitalismo para o socialismo e instaurar a chamada “via chilena para o socialismo”. Um dos pontos mais polêmicos dessa transição foi a redistribuição de terras e a nacionalização de algumas indústrias e empresas que ocupavam setores-chave da economia. A oposição considerou essas medidas ilegais, mas elas acabaram sendo sancionadas como legais pela Controladoria-Geral da República.

As mineradoras de cobre norte-americanas Kennecott e Anaconda foram estatizadas por Allende e não receberam um único centavo por esta “aquisição” à força. Aliás, muito pelo contrário, as empresas ficaram devendo cifras milionárias para o governo chileno. Essas e outras ações do governo de Allende prejudicaram a relação do Chile com os Estados Unidos e motivaram Richard Nixon e seu secretário de Estado, Henry Kissinger, a tomar algumas providências, como boicote ao governo, corte de empréstimos, além do bloqueio de créditos externos para sufocar a economia chilena.
O impacto na economia chilena foi enorme. Allende elevou o gasto público de 26,4% para 44,9%. Em 1973, a economia entrou em colapso com uma inflação descontrolada, chegando a ficar superior a 381%. Bens de primeira necessidade desapareceram das prateleiras, o desemprego cresceu terrivelmente e a moeda, o escudo chileno, passou a valer quase nada. Tudo isso com uma polarização política e a crescente violência.
O regime socialista de Allende, também acusado de criar milícias e desrespeitar a separação dos Poderes, começou a sofrer um desgaste institucional. Com 81 votos a favor e 47 contra, o Congresso declarou que Allende tinha violado a Constituição chilena e emitiu uma resolução que condenava as ações do governo e instava as Forças Armadas a restaurar a ordem constitucional.
O general Augusto Pinochet, considerado apolítico e leal à Constituição, assumiu as Forças Armadas em 23 de agosto de 1973 e, ao lado do vice-almirante da Marinha, José Toribio Merino, e do então comandante da Força Aérea, Gustavo Leigh, foi responsável por liderar o golpe. A CIA e o governo americano apoiaram ativamente a derrubada do governo de Allende, fornecendo suporte financeiro e militar.

Na manhã de 11 de setembro de 1973, Allende fez seu último discurso — transmitido pela Rádio Magallanes — no Palácio de La Moneda, sede do governo, onde estava entrincheirado. Em linhas gerais, era uma despedida aos chilenos. Eis um trecho:
“(…) Colocado em uma encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E digo-lhes que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente. (…)
Trabalhadores da minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.”
Ao meio-dia, tropas do exército e aviões Hawker Hunter da Força Aérea chilena iniciaram o bombardeio no Palácio Presidencial por cerca de 15 minutos. Durante o ataque, Allende acabou cometendo suicídio com o rifle AK-47 presenteado por Fidel. Esta versão sobre a morte foi confirmada pela perícia forense em 2011. Pinochet proclamou-se presidente do Chile logo após a derrubada do governo socialista e colocou um fim a mais de 40 anos de democracia no Chile. O golpe representou o início de uma das ditaduras militares mais violentas da América Latina, que durou 17 anos. Estima-se que o regime de Pinochet deixou mais de três mil mortos ou desaparecidos, torturou milhares de prisioneiros e forçou mais de 200 mil chilenos, que estavam sofrendo perseguição política, ao exílio.

Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
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Pela primeira vez vou criticar uma matéria da Daniela. Sinceramente nem parece que estou na Oeste. Totalmente esquerdista o texto, foi um giro de 180º no que eu estou acostumado a ler aqui. Ora se o Congresso autorizou a derrubada do ditador Allende conforme a constituição, onde está o golpe? Bola fora da Daniela dessa vez. Mas todos os demais textos dela são bons.
… e essa é a versão da esquerda.
Leiam o livro: Guia Politicamente incorreta da América Latina. Segundo o autor, Duda Teixeira, Allende “perseguiu a imprensa, montou uma guarda pessoal treinada por terroristas cubanos, atropelou ordens da justiça e consentiu com invasões de fazendas. A lista de barbaridades que ele cometeu como presidente foi enorme, e isso sem contar no que tentou fazer quando foi ministro da saúde, quando promoveu uma lei de esterilização em massa, semelhante a uma lei nazista.”
Se vivo fosse, estaria ligado, umbilicamente, ao jaburu de nove dedos que “governa” o Brasil. Esse endeusamento dos esquerdopatas, do passado, não cola mais. São todos farinha do mesmo saco. Obviamente, condeno, veementemente, a violência absurda, pós-golpe.
Não concordo quando se fala na democracia de Salvador Allende para uma ditadura de Augusto Pinochet. É uma ditadura comunista para uma ditadura militar
E isso mesmo , está correto , de uma ditadura para outra
Exatamente!!! Dou um pelo outro e não quero troca.
Dois bostas, Allende e Pinochet