Dois séculos depois, o serviço postal ganhou importância estratégica. Uma vez independente, o Brasil precisou estruturar a unidade territorial. No século 19, o Correio Imperial foi importante para integrar as províncias por meio de cartas transportadas a cavalo.
Mas foi no século 20 que a empresa ganhou relevância internacional. Conseguiu status de estatal moderna depois de o regime militar mudar o nome para Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. A partir da década de 1970 até a virada do século, a companhia foi elogiada em razão da eficiência, da capilaridade e da confiabilidade.
Chegada do PT
Os negócios mudaram quando o Partido dos Trabalhadores (PT) assumiu o poder. A gênese do primeiro escândalo do partido de Lula foi justamente os Correios, em 2005. O que era símbolo de eficiência passou a ser motivo de chacota.
Naquele ano, a revista Veja divulgou um vídeo que mostra Maurício Marinho, um dos diretores da empresa, recebendo R$ 3 mil em propina. Apesar do valor pífio comparado a outros escândalos, a divulgação do material deu início a uma das maiores crises políticas que o Brasil enfrentou.
A oposição ao governo Lula agiu rápido. Articulou-se para criar a CPI dos Correios. Lula fez de tudo para impedir o avanço das investigações. Abriu uma sindicância interna para supostamente apurar o caso. No entanto, a ação foi insuficiente para blindar o governo. Não satisfeitos, deputados governistas propuseram a retirada de assinaturas dos parlamentares para a CPI e atrasaram a nomeação de integrantes para a comissão. Contudo, os petistas não esperavam que Roberto Jefferson, à época deputado federal e presidente do PTB, entrasse em ação.
O político carioca revelou um arsenal de denúncias do esquema que ficou conhecido como “Mensalão”. Para piorar a situação, Marinho confirmou ter participado do esquema. O objetivo, segundo o então diretor, era beneficiar empresas em licitações em troca de doações para partidos. A partir daí os Correios nunca mais foram os mesmos.
Desculpas do governo
O governo Lula 3 não assume a culpa, apesar de a estatal estar afundada em dívidas. Prefere responsabilizar a gestão de Jair Bolsonaro pela atual crise. Contudo, os números mostram que a administração do ex-presidente tentou fazer diferente — entregou a empresa com lucro de quase R$ 4 bilhões.

Bolsonaro não foi o primeiro a ter lucro com os Correios, já que a boa fase vinha desde Michel Temer. Depois de anos no vermelho sob Dilma, a empresa registrou superávit em 2017 e 2018 — quase R$ 670 milhões e pouco mais de R$ 160 milhões, respectivamente.
Privatização dos Correios
Mesmo com os ganhos em 2021, o governo Bolsonaro entregou ao então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, o Projeto de Lei (PL) 591/21. A proposta visava privatizar os Correios.
Em dezembro do mesmo ano, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, justificou a medida ao alegar risco de perder apoio e ver a empresa se tornar irrelevante em um curto espaço de tempo.
O projeto não foi concretizado porque Lula frustrou o plano de desestatização no primeiro dia do terceiro mandato. Prometeu, durante a cerimônia de posse, modernizar a estatal. Revogou o plano de desestatização e prometeu manter os Correios no colo do governo. Era o fim de um sonho liberal.
As trapalhadas do governo colocaram a estatal nas últimas posições na corrida da modernização. Enquanto Lula e o PT preferem controlar os Correios, o Reino Unido aprovou a venda do Royal Mail — serviço postal nacional, criado em 1516 e privatizado em 2013, para o grupo da República Tcheca EPH.
A decisão de dezembro de 2024 marca o ineditismo do controle do Royal Mail por um proprietário estrangeiro ao Reino Unido, em um contexto de diversas greves e paralisações dos funcionários da empresa ao longo do ano passado.
O governo dos Estados Unidos parece ter a mesma linha de pensamento. O presidente Donald Trump sugeriu a venda do serviço postal do país. O republicano não está contente com o déficit de US$ 9,5 bilhões do United States Postal Service (USPS).
O “Churrasqueiro de Lula”
O presidente brasileiro, por sua vez, decidiu seguir na contramão. Nomeou Fabiano Silva dos Santos como diretor dos Correios. Apelidado de “Churrasqueiro de Lula”, Santos foi indicado para o cargo pelo Prerrogativas, grupo de advogados de esquerda alinhado ao petismo e crítico à Operação Lava Jato.
O “Churrasqueiro de Lula” optou por não mudar a política da estatal. Decidiu, por exemplo, não recorrer de uma ação trabalhista superior a R$ 600 milhões no Tribunal Superior do Trabalho. Preferiu, ainda, evitar desgastes com os sindicatos, principalmente com a Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos e Similares, que moveu o processo.
Mas a resolução que mais impactou o caixa da empresa foi a transferência de R$ 7,6 bilhões para o fundo de pensão do Instituto de Seguridade Social dos Correios e Telégrafos (Postalis). O instituto tem o objetivo de “garantir aos empregadores benefícios previdenciários complementares aos da Previdência Social”. A estatal tomou a decisão para cobrir metade do déficit de R$ 15 bilhões.
Somente na gestão do “Churrasqueiro de Lula”, de 2023 a 2025, o prejuízo foi de mais de R$ 7,5 bilhões. O último balanço mostra que o rombo registrado no primeiro semestre de 2025 foi de quase R$ 4,5 bilhões — muito acima do déficit de 2024, de R$ 2,6 bilhões, que já foi um recorde negativo na série histórica. Apesar de o executivo tentar se demitir desde julho passado, o governo insiste em mantê-lo no cargo.
O atual escândalo fez a Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle do Consumidor do Senado aprovar, no começo de setembro, um requerimento para investigar as irregularidades dos Correios. A iniciativa, contudo, pode ser prejudicada porque o PT repete o que fez em 2005 — tenta atrapalhar as investigações. O senador Rogério Carvalho (PT-SE), por exemplo, manifestou-se contra a aprovação do requerimento.

De olho no dinheiro público
O futuro financeiro dos Correios acende um alerta. Mais uma vez, a conta deverá ficar para os pagadores de impostos. A empresa — que vende produtos e serviços e deveria ser autossuficiente financeiramente — poderá solicitar auxílio ao Tesouro Nacional.
Se o Tesouro socorrer a estatal, aproximadamente R$ 20 bilhões em despesas extras terão de ser incluídas nas contas públicas. Cálculos compartilhados com a equipe econômica de Lula indicam risco de falta de caixa ainda em outubro.
A lógica capitalista não permite a uma empresa sobreviver no vermelho por muito tempo. Diante do histórico da gestão de Lula com os Correios e dos pífios resultados recentes, que podem atingir o pior déficit anual de todos os tempos, comparar a estatal com uma bomba-relógio não é nenhum absurdo, e a contagem pode estar chegando ao fim.
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Esses déficits no mandato da gangue petista é roubo. O fato de não recorrer na questão trabalhista, dessa outra questão previdenciária, tudo isso é roubo. Está na espinha dorsal desta quadrilha saquear tudo que vê a frente colocando seus soldadinhos a serviço.
Gostaria que os autores dessa matéria checassem mais aprofundadamente sobre o “prejuizo” da estatal no último ano do governo Bolsonaro (2022), pois, já vi reportagem informando, que na verdade, em 2022, os correios não tiveram prejuízo, e sim, uma manobra, em que o PT, já no governo lula, imputou um prejuizo que não existiu. Por favor, revejam essa parte! Obrigado!