Entre os franceses, mais de 70% rejeitam o reconhecimento do Estado Palestino. Quase 90% dos britânicos também são contra. Somente um terço dos australianos concorda com a medida. Mesmo assim, os governos desses três países, além dos de Portugal, do Canadá e outros, decidiram ignorar seus cidadãos. Durante a 80ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), declararam oficialmente que para eles, agora a Palestina é uma entidade política. Obviamente, em nome da democracia.
Um verdadeiro presente para os terroristas islâmicos do Hamas, que ainda mantêm em cativeiro 48 reféns capturados durante os ataques de 7 de outubro de 2023. No mais brutal massacre de judeus ocorrido desde o Holocausto, mais de 1,2 mil cidadãos israelenses foram assassinados e 251 sequestrados.
Nenhuma contrapartida foi demandada. Nem mesmo a entrega dos corpos dos sequestrados já falecidos por causa das condições desumanas às quais foram submetidos. Os líderes que reconheceram a Palestina não tiveram nem sequer a dignidade de exigir a libertação de Evyatar David, filmado enquanto cavava sua própria cova dentro de um túnel. Tão magro que sua figura lembrou as vítimas dos campos de concentração nazistas.

Nada foi demandado. Ao Hamas foi concedido tudo. O grupo de sanguinários matou sem piedade até bebês, estuprou, torturou. Está usando como escudos humanos milhões de palestinos da Faixa de Gaza e ainda divulga dados falsos sobre as mortes no conflito. Menos de dois anos depois, obteve a mais desejada das recompensas: o agraciamento internacional. E não de qualquer país, mas da França e do Reino Unido, as antigas potências coloniais que dominaram o Oriente Médio nos anos em que o conflito entre judeus e palestinos ainda estava em gestação. Uma vitória mais do que simbólica.
Não por acaso, a liderança terrorista festejou. “O poderoso golpe desferido contra Israel em 7 de outubro resultou em conquistas históricas muito importantes. Primeiro, trouxe de volta a causa palestina. Por que todos esses países estão reconhecendo a Palestina agora?”, declarou Ghazi Hamad, membro sênior da ala política do Hamas.
A popularidade do grupo islâmico chegou a picos jamais registrados. Hoje, cerca de 60% dos palestinos apoiam o Hamas, não obstante o sofrimento imenso que infligiu ao seu próprio povo.
Antes da sessão na ONU, o presidente francês Emmanuel Macron tentou recuar para salvar as aparências: sem a libertação dos reféns, não haverá embaixada francesa na Palestina. Mas a avalanche diplomática já tinha se iniciado. E essa decisão minou os Acordos de Oslo de 1993, que impedem qualquer anexação israelense da Cisjordânia ou de Gaza e traçam um limite para a agressão terrorista.
“O problema de legitimar o Hamas é que estamos falando de um grupo fundamentalista islâmico que tem em sua carta fundadora o objetivo de destruir o Estado de Israel. Quando há a religião no meio, não tem como negociar para encerrar o confronto”, explica o professor da USP Samuel Feldberg, especialista em Oriente Médio. “Eles atuam de forma dogmática. Pode haver algum tipo de trégua pelo prazo que for, mas o objetivo do Hamas vai permanecer. Por isso o grupo terrorista deve ser eliminado do território. Claro, a ideia nunca será eliminada, a ideologia também não, mas sua capacidade de ação deve ser eliminada”.

Reconhecendo o irreconhecível
Além do problema político, existe uma questão jurídica que contraria esse reconhecimento. No direito internacional, reconhecer um Estado significa deixar claro que aquela entidade tem um governo, um povo e fronteiras definidas. No caso da Palestina, nenhuma dessas três características é verdadeira.
Aquilo que deveria ser o Estado Palestino tem, no mínimo, dois governos. Um em Ramallah, na Cisjordânia, chamado de Autoridade Nacional Palestina (ANP), dominado pela Organização pela Libertação da Palestina (OLP), do quase nonagenário Mahmoud Abbas. Uma múmia política local, que guia um governo famoso por corrupção e incapacidade, detestado pela maioria dos palestinos.
O Hamas domina a Faixa de Gaza desde 2006. O grupo islâmico ganhou as eleições daquele ano, mas o resultado não foi reconhecido pela OLP. Assim começou uma guerra civil entre os próprios palestinos. Nunca mais se votou, as duas regiões da Palestina se dividiram. Depois de 20 anos separados, esses dois territórios se tornaram dois mundos, carregados de microcosmos e rivalidades armadas, incapazes de se unir sob a bandeira da causa palestina.
Com esse reconhecimento, quem lideraria o Estado Palestino? Um grupo terrorista ou um governo ilegítimo aos olhos dos próprios habitantes do novo país?
As fronteiras da Palestina, mesmo que agora reconhecida, nunca foram definidas com precisão. Os acordos de Oslo de 1993 iniciaram uma lenta devolução de territórios por parte de Israel. Mas isso tudo se interrompeu em meados dos anos 2000. Abu Mazen, mais agudo do que Macron, nunca quis rejeitar aqueles acordos e proclamar sua independência. Nem com o reconhecimento internacional do Estado Palestino, pois sabe muito bem que a resposta de Israel seria a anexação de toda a Cisjordânia e o fim do sonho de uma nação soberana.
Por último, o povo. Os palestinos que moram na Terra Santa são cerca de 6 milhões. Mas o mesmo número está espalhado entre Líbano, Síria, Egito e Jordânia. Sem contar os milhões presentes em vários países do mundo, do Canadá ao Chile, da Suécia até os países do Golfo. Se todos eles se tornassem cidadãos do novo país e decidissem exercer seu direito de retorno, não haveria espaço físico para acolhê-los e, em muitos Estados, haveria convulsões sociais, como na Jordânia, onde os palestinos já são a maioria da população.
Hoje não existe um povo palestino, no sentido de uma nação que como tal, pode reivindicar o seu próprio Estado. Algo que aparece evidente nos fatos. Os palestinos de Israel, que segundo a vulgata seriam cidadãos de série B, ou talvez até menos, dentro do Estado Hebraico se comportam mais como israelenses do que como palestinos. Desde que a guerra começou, não foram registrados em Israel protestos ou revoltas em massa em nome dos supostos “irmãos de Gaza”. O parentesco de sangue presumido cedeu ao pragmatismo. Melhor viver como palestinos em Israel do que como palestinos em territórios administrados por outros palestinos.
Sem contar que muitos palestinos de Gaza, que pertencem a várias tribos locais, aceitaram lutar — em troca de um generoso pagamento — no Exército israelense contra o Hamas. A guerra de Tzahal contra o grupo terrorista se transformou em um acerto de contas entre clãs locais. Mesmo que as tropas israelenses se retirassem amanhã da Faixa, essas violências tribais para a obtenção do poder continuariam.
Não surpreende, portanto, a falta de solidariedade de outros países e povos árabes. Ninguém moveu um dedo pelos hipotéticos irmãos palestinos.
“O reconhecimento da Palestina por parte dos países europeus é apenas uma expressão política e não tem nenhum tipo de consequência, na prática”, diz o professor Feldberg. “Reconhecer um país significa que um governo tem condições de exercer soberania sobre um determinado território, tem instituições que funcionam e capacidade de controlar as fronteiras. No caso da Palestina não existe nenhuma dessas características”. Segundo o especialista, “se a Autoridade Palestina reconhecer o que está sendo declarado pelos países que hoje são a maioria dos membros da ONU, estará efetivamente renegando os acordos de Oslo”.

Governos impopulares submissos às praças
Todos os governos que decidiram reconhecer a Palestina sofrem do mesmo mal: são extremamente impopulares entre seus cidadãos. Na França, Macron é recordista em desgaste: mais de 80% dos franceses não confiam mais em seu presidente. Em três anos o país teve cinco primeiros-ministros. Duração média dos governos: poucos meses.
No Reino Unido, cerca de 70% dos eleitores têm uma visão desfavorável do governo de Keir Starmer, que já sofreu importantes baixas, como da vice-premiê Angela Rayner, que renunciou após um escândalo de fraudes tributárias. O embaixador britânico nos Estados Unidos, Peter Mandelson, um dos grandes apoiadores de Starmer, foi sumariamente removido depois da divulgação do seu envolvimento com o bilionário pedófilo condenado Jeffrey Epstein. O Executivo de Sua Majestade pode cair a qualquer momento. Na Austrália, apenas 35% dos entrevistados têm uma opinião favorável do governo de Anthony Albanese, que só existe por causa da surpreendente reviravolta eleitoral deste ano.
Nenhum desses governos consegue entregar respostas sólidas às demandas de suas populações, cada vez mais inquietas. Todos enfrentam economias em dificuldades. A segurança pública se tornou um problema endêmico. E a imigração em massa ameaça o pacto social.
Na França vivem entre 8 e 10 milhões de muçulmanos, cerca de 20% da população. É a maior comunidade islâmica da Europa. No Reino Unido, entre 4 e 5 milhões. Até o prefeito de Londres, Sadiq Khan, e o premiê da Escócia são muçulmanos. Nesses países, conceder o reconhecimento da Palestina, mesmo sabendo que essa entidade não atende aos critérios para ser um Estado, é uma clara forma de garantir a paz social. Um teatro diplomático seguro para o público doméstico ocidental, distante da dura realidade do Oriente Médio. Uma forma de reduzir riscos de terrorismo islâmico em países traumatizados por frequentes ataques nos últimos anos e com sérios problemas de antissemitismo crescente.
Por outro lado, os protestos ocorridos em várias cidades europeias nos últimos meses tiveram pouco a ver com a causa palestina, e foram válvulas de escape para um mal-estar social difuso entre essas populações. Tanto que as convocações para as ruas vieram majoritariamente de sindicatos, e não de partidos políticos. E mesmo assim, não obstante, foram minoritários. Na Itália foi decretada greve geral na segunda-feira, 22, mas apenas 6% dos trabalhadores participaram.
O apressado reconhecimento da Palestina ocorreu em um momento histórico. Desde 1948 a perspectiva de um Estado Palestino nunca esteve tão distante de se concretizar. E representou uma gigantesca hipocrisia, pois existe fortíssima dependência de Israel. A maioria dos países europeus não conseguiria garantir suas defesas militares sem a tecnologia do Estado judeu. O único país europeu que realmente cortou algo foi a Espanha, com o governo de extrema esquerda de Pedro Sánchez interrompendo contratos. Todos os outros os mantiveram.

Ainda há sensatez
A única posição sensata parece ser a da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, que condicionou o reconhecimento do Estado Palestino à saída do Hamas. Algo também muito difícil de se concretizar, mas que, pelo menos, não legitima um grupo terrorista, deixa claras as regras para o futuro relacionamento diplomático e coloca a responsabilidade desse feito nas mãos dos palestinos.
“Meloni demonstra ser a única chefe de governo coerente entre os europeus”, afirma Feldberg. “Mas mesmo países muçulmanos reconhecem a impossibilidade de ter o Hamas como interlocutor político no futuro. Por exemplo, o líder da Indonésia, maior país islâmico do mundo, fez o mesmo tipo de declaração”.
O reconhecimento da Palestina se tornou uma arma política contra o esforço militar israelense, ignorando que, desde 1948, os palestinos têm consistentemente escolhido a luta para destruir Israel em vez da oferta de um Estado ao lado dele. O que está em jogo são sanções contra Israel no futuro e uma vitória do Hamas hoje.
Como dizia Joseph Fouché, ministro de Napoleão, “é pior que um crime, é um erro”. Uma recompensa aos assassinos que incentivará outros “7 de outubro” no futuro, atrapalhando, e muito, a busca da paz no Oriente Médio. Agora, qualquer grupo de fanáticos sabe que, no final, a violência compensa.

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Excelente artigo ! Parabéns Carlo Cauti
Aprendi muuuuuuito com sua matéria, Carlo Cauti! Muito obrigada!
Fiquei surpresa: palestinos integram o Exército de Israel! Jamais imaginei!
Nao fosse o sistema anti-misseis de Israel (Domo de Ferro), o genocidio contra os judeus ja estaria acontecendo ha anos. Com ajuda do Irã, o Hamas (e outros grupos terroristas) despejam centenas de misseis, foguetes com alto poder destrutivo, contra Israel.
Viva Meloni!