— Que correria é essa?
— Cala a boca e corre também.
— Quem tá vindo aí? Madonna?
— Não.
— Lady Gaga?
— Não.
— U2?
— AR-15.
— Não conheço essa banda. Mas já tô ouvindo a bateria.
— Não é bateria.
— Ah, agora ouvi melhor. São fogos.
— E bota fogo nisso.
— Antigamente era só no Réveillon. Eu sou a favor de fogos o ano inteiro.
— Estamos caminhando pra isso.

— Legal! Projeto da prefeitura?
— Não. Da boca.
— Que boca?
— Cala a boca e corre.
— Não calo. E a liberdade de expressão?
— Liberdade de expressão agora tá em outra boca. Bem maior que a sua.
— Não me interessa o tamanho da boca. Todos são iguais perante a lei.
— Que lei?
— Não sabe o que é lei? Eu te explico: lei é uma coisa que impede que os seres humanos vivam como selvagens.
— E o que é aquilo ali?
— Um ônibus.
— Um ônibus cheio de seres humanos inocentes sendo sequestrado por meia dúzia de seres humanos armados.

— Não será uma escolta?
— Pode ser. Ou talvez uma fuga. Aqueles homens mal-encarados armados de fuzil podem estar fugindo dos usuários.
— Será que foram ameaçados pelos passageiros?
— É possível. Os usuários de ônibus e de outros produtos e serviços andam muito nervosos, fazendo vítimas por aí.
— Que absurdo! Onde é que nós vamos parar?
— Eu pretendo parar só quando chegar em casa. Se é que vou chegar.
— Por que?
— Porque as vítimas dos usuários estão mandando fechar geral. Daqui a pouco isso vira uma cidade fantasma.
— Pelo menos a gente vai ter um pouco de tranquilidade.
— Tranquilidade numa cidade fantasma?
— É. Quem pode te estressar numa cidade fantasma?
— Os fantasmas.
— Fantasma não existe.
— Ah, é? E o que é aquilo vindo ali?

— Acho que são as vítimas dos usuários.
— Bom, eu não curto esse tipo de assombração. Fui!
— Vou contigo.
— Desistiu de curtir os fantasmas?
— Não. É que tem um ali apontando um guarda-chuva pra mim. Acho que ele quer me avisar que vai chover. Detesto chegar molhado em casa.
— Vai chover chumbo, seu lunático! Corre!
— Não me apressa. A vida já é muito estressante pra ainda ter que voltar correndo pra casa.
— OK. Vou me adiantar. Tchau!
— Espera! Volta aqui! Socorro! Eles estão me cercando!
— Fala que você não é usuário! Boa sorte!
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Parabéns Fiuza ótimo esse.
Sobrevivi ao togário ,à marginália ,ao menos sorrimos ,ao ler o artigo. Mas ,continuamos de olhos bem abertos para a próxima investida .
Humor surreal. Um dos piores paises do mundo pra se viver ou sobreviver
Só um gênio consegue em poucas linhas dizer tanto.
Excelente Fiuza! Como suas ironias são tão reais!
Magistral. Como sempre.
Parabéns Fiuza!