Nos anos 1990, quando ainda havia liberdade para fazer piadas e ironias políticas, o então presidente Fernando Henrique Cardoso ganhou o apelido de “Viajando Henrique Cardoso”. A alcunha, criada pelo programa de humor Casseta & Planeta, da TV Globo, ironizava a frequência de seus deslocamentos internacionais. Em uma das esquetes, o humorista Hubert reproduziu o personagem com uma frase que se tornaria icônica: “Eu adoro o Brasil. O Brasil é um país maravilhoso. Sempre que eu posso, eu dou um pulo lá.”
Três décadas depois, a piada só faria sentido se mudasse o alvo — não fosse o risco de a brincadeira terminar no Supremo Tribunal Federal. Em três mandatos, Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se o presidente que mais viajou ao exterior na história do país, com 299 viagens internacionais. O número tende a crescer: o petista já anunciou novas visitas à Coreia do Sul, à Índia e à Alemanha no primeiro semestre de 2026. A frequência não é casual. Lula sustenta que o chamado “prestígio internacional” do Brasil decorre justamente de sua presença constante fora do país.
Atrás de Lula aparece Fernando Henrique, com 108 viagens internacionais em dois mandatos. Entre os presidentes dos últimos dez anos, Dilma Rousseff realizou 72 deslocamentos, Michel Temer, 26, e Jair Bolsonaro, 31. O levantamento feito pela reportagem considera cada deslocamento internacional como uma viagem, mesmo quando o destino se repete.
Os números de 2025 ajudam a dimensionar essa lógica em funcionamento. Ao longo do ano, Lula passou cerca de 52 dias fora do Brasil, distribuídos em 20 viagens internacionais, com média de dois dias e meio por deslocamento — o equivalente a uma saída do país a cada 18 dias.
O “prestígio internacional” invocado por Lula, contudo, não acompanhou o ritmo das viagens. Em 2025, a agenda externa concentrou-se sobretudo em fóruns multilaterais, encontros protocolares e diálogos com governos já alinhados, com poucas movimentações relevantes junto a potências globais ou blocos decisórios centrais.
Não seria exagero afirmar que a atuação internacional do presidente se resumiu a deslocamentos frequentes em aeronaves da Força Aérea Brasileira, estadias em hotéis de altíssimo padrão e discursos em série — muitas vezes dedicados à defesa política do governo, ao confronto com críticos e a declarações controversas sobre a conjuntura internacional. A pergunta que fica é simples: depois de tantos carimbos no passaporte, o que surgiu de resultado concreto?
Conversa-fiada institucionalizada
Ao longo de 2025, a maior parte das viagens internacionais de Lula seguiu um roteiro previsível — quase um manual de influenciador de viagens: muito gesto, muita foto e muitas legendas positivas. A primeira agenda do ano, em Montevidéu, para a posse do presidente uruguaio Yamandú Orsi, funcionou como abertura simbólica desse padrão.
A visita foi marcada pela retomada do discurso sobre o fortalecimento do Mercosul e da Unasul. Houve reuniões bilaterais, encontros informais com líderes esquerdistas como Gabriel Boric e Gustavo Petro, com ampla repercussão. Na prática, o evento teve mais cara de reunião improvisada do Foro de São Paulo do que de uma agenda diplomática com efeitos relevantes.
Em abril, o presidente participou da IX Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, em Honduras. Discursos sobre integração regional, democracia e governança global dominaram a agenda, acompanhados da já tradicional proposta de uma candidatura latino-americana unificada à Secretaria-Geral da ONU. A declaração final reiterou compromissos genéricos, sem definição de nomes, cronograma ou estratégia, tampouco anúncios econômicos ou decisões operacionais. O saldo foi simbólico.

Nem mesmo as viagens de caráter extraordinário escaparam ao script. Ainda em abril, no funeral do Papa Francisco, no Vaticano, Lula liderou uma das maiores delegações presentes, com mais de 20 pessoas, superando até a comitiva de Donald Trump, e transformou o velório do pontífice em uma espécie de excursão turística. Reuniu os presidentes dos Três Poderes, membros do Congresso e até uma tesoureira do PT em nome da “unidade” — e, claro, das fotos para as redes sociais.
Em maio, Lula fez uma viagem relâmpago a Montevidéu para o velório de Pepe Mujica. Houve discursos emocionados, abraços simbólicos, contatos informais e até um encontro protocolar com Javier Milei, presidente da Argentina. A passagem cumpriu bem o papel de homenagem. E ficou por aí.
Junho levou o presidente ao G7, no Canadá, como convidado. Lula discursou sobre multilateralismo, cobrou financiamento climático e voltou a defender a reforma da ONU. Teve reunião com o premiê Mark Carney e o anúncio da retomada das negociações Mercosul–Canadá. Tudo isso sem data, sem prazo e sem compromisso vinculante.
Já em julho, o roteiro apertou. Na Cúpula do Mercosul, em Buenos Aires, Lula assumiu a presidência do bloco, reafirmou a intenção de concluir o acordo com a União Europeia, reduziu temporariamente a Tarifa Externa Comum em alguns itens e criou novos grupos de trabalho. Também aproveitou a viagem para visitar a companheirada, reunindo-se com Cristina Kirchner e o então presidente da Bolívia, Luis Arce. Foi um dos raros momentos do ano com algo minimamente concreto, mas não empolgou ninguém.
Para uma agenda sem resultados concretos, o padrão de conforto foi inversamente proporcional às entregas obtidas.
Dias depois, no Encontro sobre Democracia, no Chile, o manual voltou ao modo automático: discursos enfáticos, uma declaração conjunta sem consequências e a criação de mais um grupo de trabalho. A defesa da regulação das plataformas digitais cumpriu a cota de alertas contra o bicho-papão da “desinformação”. Nenhum outro ocorrido se destacou.
Em setembro, Lula embarcou para Nova York com mais uma excursão turística bancada pelo dinheiro público: mais de 100 pessoas formaram a comitiva brasileira na Assembleia Geral da ONU. Integrantes do governo registraram passeios em ônibus turísticos e corridas matinais no Central Park, na ilha de Manhattan. Tudo isso em meio à tensão causada pelo tarifaço aplicado aos produtos brasileiros. No evento em si, o script foi seguido sem improviso: discurso de abertura, defesa do multilateralismo, cobrança por financiamento climático, apelo pela reforma do Conselho de Segurança e a já conhecida apresentação do Brasil como liderança do Sul Global. Entrega concreta, como manda a tradição da ONU, ficou para outra sessão.
O calendário político regional se encerrou em novembro, com a Cúpula da CELAC em Santa Marta, na Colômbia. Desta vez, houve uma exceção digna de nota: o apoio formal à candidatura de Mia Mottley à Secretaria-Geral da ONU e o anúncio do Fundo Latino-Americano de Infraestrutura. Ainda assim, a maior parte das decisões permaneceu no plano institucional e declaratório.
Negócios? Apenas com amigos

Quando a agenda internacional de 2025 saiu do modo conversa fiada e produziu alguma entrega, quase sempre havia um padrão claro: o interlocutor era um parceiro conhecido ou um aliado natural do roteiro diplomático do governo. Negócio, quando houve, foi majoritariamente entre amigos.
A principal exceção apareceu em março, no giro por Japão e Vietnã. Lula levou mais de 100 empresários, ministros e lideranças políticas em uma missão institucional que, desta vez, rendeu resultado. No Japão, o saldo ficou acima da média: acordos bilaterais, planos de cooperação e a venda de aeronaves da Embraer. A abertura do mercado japonês para carnes brasileiras, porém, permaneceu no terreno do “encaminhamento” — ótimo para a coletiva, insuficiente para a exportação.
Em maio, a fórmula se repetiu em uma viagem dividida entre Rússia e China — com saldo desigual. Em Moscou, o presidente acumulou desgaste simbólico ao usar um adereço associado ao apoio a Vladimir Putin na guerra da Ucrânia e participar de um desfile militar ao lado de líderes autoritários. A manobra não rendeu resultados concretos: Lula saiu praticamente de mãos vazias. Já em Pequim, onde os interesses econômicos brasileiros são claros e consolidados, houve entrega — com acordos, anúncios de investimentos e reforço do papel do Brasil no Brics.
Diante dos resultados escassos no exterior e do caos das medidas internas, fica difícil saber se é melhor que Lula permaneça fora ou dentro do próprio país que diz governar.
A visita de Estado à França, em junho, seguiu lógica semelhante. Houve acordos técnicos e avanços pontuais, mas o principal objetivo político — o acordo Mercosul–União Europeia — continuou limitado sem cronograma ou desfecho.
No segundo semestre, o giro por Indonésia e Malásia e a viagem à África do Sul e Moçambique encerraram o ano com mais resultados modestos, incluindo venda de aeronaves, abertura de mercados e acordos bilaterais. Em compensação, também foi anunciada a retomada de linhas de crédito para países estrangeiros, prática que já rendeu calotes no Brasil em outras gestões petistas.
Gastos exorbitantes
O maior desembolso ocorreu na viagem ao Japão e ao Vietnã. Em aproximadamente uma semana de agenda, a missão custou ao menos R$ 4,5 milhões aos cofres públicos e mobilizou mais de 200 integrantes, entre autoridades, assessores e equipe de apoio. O valor inclui passagens aéreas, hospedagem, diárias e toda a logística da comitiva.
A ida à Itália seguiu a mesma lógica. Em apenas quatro dias, a viagem para compromissos em Roma e no Vaticano, durante o funeral do papa, custou R$ 2,7 milhões. Desse total, R$ 1,4 milhão foi gasto exclusivamente com a locação de veículos — um valor que, sozinho, supera o custo total de missões diplomáticas inteiras em governos anteriores.
Na França, a discrepância entre custo e entrega tornou-se ainda mais evidente. Apesar da ausência de acordos relevantes, a comitiva se hospedou em alguns dos hotéis mais caros do país. Em Paris, integrantes ficaram no InterContinental Le Grand, com diárias entre R$ 5,5 mil e R$ 9,4 mil, na cotação da época. O número total podia chegar a R$ 36,5 mil. Em Nice, outro grupo ocupou o Le Negresco, onde as diárias custavam mais de R$ 5 mil e alcançam valores semelhantes. Para uma agenda sem resultados concretos, o padrão de conforto foi inversamente proporcional às entregas obtidas.


Em Nova York, a passagem do presidente consumiu mais de R$ 3 milhões apenas com hospedagem e aluguel de veículos. Parte da delegação ficou no Grand Hyatt New York, onde a diária mais barata se aproxima de R$ 2 mil — um patamar elevado mesmo para compromissos de curta duração. A agenda, por sua vez, rendeu apenas registros fotográficos e passeios turísticos.
Somados, esses quatro deslocamentos resultaram em um custo mínimo comprovado de quase R$ 14 milhões. O valor, contudo, representa apenas uma fração do gasto total com o giro internacional do presidente em 2025, já que parte das despesas não pôde ser acessada pela imprensa ou permanece fragmentada nos sistemas de divulgação do governo federal.
O contraste entre os valores desembolsados com as viagens e os resultados efetivamente entregues é evidente. Segundo reportagem do site Metrópoles, ao longo de três anos de viagens internacionais, Lula divulgou promessas de R$ 345,6 bilhões em novos investimentos no Brasil. Até agora, apenas R$ 42 bilhões foram efetivamente investidos ou contratados — o equivalente a 12,5% do total propagandeado.
Diante dos resultados escassos no exterior e do caos das medidas internas, fica difícil saber se é melhor que Lula permaneça fora ou dentro do próprio país que diz governar. Uma coisa, porém, é certa: a chamada “retomada da diplomacia” funcionou como justificativa conveniente para um turismo de alto padrão. E quem banca a conta, como sempre, é o pagador de impostos.
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O Brasil tem que botar todos os ladrões que estão no poder na cadeia e agir nas relações comerciais unilateralmente, e fazer eleições igual as da França e o resto vem no novelo
Parafraseando o próprio Nine, “nunca antes na história deste país” tivemos tanto desperdício e desrespeito ao pagador de impostos.