Quando Donald Trump anunciou o tarifaço para o mundo inteiro em abril de 2025, meses após seu retorno à Casa Branca, não foi apenas mais uma medida protecionista ou uma nova guerra comercial, como já havia feito contra a China, em seu primeiro mandato. Ali, o presidente americano, mais do que anunciar, escancarou a nova ordem mundial pós-globalização em que os EUA voltariam a dar as cartas. A geoeconomia, essa versão anabolizada de economia determinada pela geopolítica do poder, será de quem detiver o mais poderoso ativo econômico global do momento: o público consumidor. Mas não apenas. Consumidor com alto poder de compra e disposição para consumir. Com 340 milhões de habitantes e uma economia voltada ao consumo, somente os Estados Unidos da América reúnem ambas as coisas. Trump não hesitou em deixar isso bem claro ao mundo inteiro no que ficou conhecido como “Liberation Day”, o “Dia da Libertação”.
Naquele 2 de abril, nos jardins da Casa Branca, ele foi quase simplório na forma, mas o ar professoral deixava claro quem falava e quem tinha de ouvir. Com um quadro de países e percentuais de alíquotas de importação e exportação, o presidente americano individualizou o quanto cada uma daquelas nações passaria a pagar para vender aos Estados Unidos. Não se tratou de um discurso genérico ou sob cuidados dos códigos diplomáticos. Ao contrário, foi tudo exposto sem cerimônia: o preço para vender aos EUA subiria. A imposição de tarifas mais altas aos europeus, japoneses, mexicanos, canadenses e, sim, também aos chineses, além de uma tarifa geral de 10%, obrigou o mundo a ir até o recém-inaugurado reino de Washington. A nova política internacional estava posta. A Casa Branca a imporia, mas, mesmo que depois tivesse de recuar, sempre ficaria com a última palavra. Os hotéis da capital dos EUA ficaram lotados de negociadores. Afinal, ninguém consegue dispensar um mercado assim.

Para entender a economia neste primeiro quarto de século, que termina sob os impactos da inteligência artificial e de relações comerciais digitais, é preciso compreender como o poder, em tempos de relativa paz mundial, se tornou mais fluido. O mundo da Guerra Fria talvez tenha sido o último instante de nossa era em que o poder político internacional era mensurável, previsível, estável e reconhecível à distância. Ou era capitalista e livre ou socialista-comunista e ditatorial. Depois disso, tudo ganhou novos contornos que ampliaram ou redefiniram conceitos. Os ativos econômicos, recursos ou áreas de influência, antes demarcados por um muro ou uma cortina de ferro, em que se separavam os regimes e as pessoas, já não mais respeitam fronteiras. Aliás, que fronteira? A das redes sociais e da comunicação instantânea? A da inteligência artificial e da economia digital? A última e mais abrangente globalização do mundo, ainda no final do século 20, ditou a forma como o século 21 começaria, o que perdurou até a recente reversão no pós-pandemia. Mas a derrocada da União Soviética, que abriu caminho para um mundo mais livre e aberto economicamente — porque o capitalismo e o livre mercado venceram — acabou com a divisão mais perigosa da nossa história, mas não com quem viu no fim da polarização entre EUA e URSS, uma oportunidade. Não existe vácuo de poder. Foi aí que os chineses emergiram.
Sob um modelo híbrido de controle político autoritário e economia de mercado com forte presença estatal, o governo de Pequim transformaria o país na fábrica do mundo sem se preocupar com direitos trabalhistas, regras ambientais ou oposição interna — regras e travas comuns ao mundo democrático. Para o gigante asiático que tinha fome de crescer rapidamente, nada disso o limitava. O que o mundo queria comprar, a China estava pronta para fazer rápido e vender barato. Num primeiro momento, foi um ganha-ganha. Empresas do mundo se instalaram, inicialmente, na região costeira do país, em cidades como Cantão, Fujian e Xangai. Logo depois, para o interior. A mão de obra barata e o exponencial mercado chinês eram atrativos tão imperdíveis que os investidores talvez não tenham precificado corretamente a revolução econômica que patrocinavam: o vertiginoso crescimento chinês que viria a se tornar, em menos de 20 anos, a segunda maior economia do mundo.

Com forte investimento estrangeiro e geração de empregos qualificados, o que elevaria sua economia a outro patamar, o governo chinês também se beneficiou das compulsórias joint ventures firmadas entre o Estado e as empresas estrangeiras. Como sócios, a transferência de tecnologia era obrigatória e prevista em contrato, sobretudo em setores estratégicos e de alta tecnologia e de manufatura avançada, como automotivo, aeroespacial, telecomunicações, geração de energia, químicos e farmacêuticos. Se o mundo ficou dependente de insumos médicos chineses na pandemia, se as empresas chinesas hoje investem no planeta inteiro ou se líderes da indústria automotiva americana e europeia invejam os carros elétricos vindos da China, nada disso é fruto do acaso. Houve planejamento e estratégia aplicados com precisão e disciplina orientais.
Com o domínio crescente da produção de quase tudo o que era feito numa fábrica, o made in China invadiu o mundo. O império do gigante asiático estava de pé novamente, com o consumidor global dependente das vigorosas e incansáveis linhas de produção das fábricas chinesas dotadas do melhor da tecnologia ocidental, que viria a ser aperfeiçoada ao longo do tempo. O lucro animava ambos os lados. Ao mesmo tempo em que a China consumia commodities agrícolas e minerais com uma voracidade colossal, incrementando a economia de países em desenvolvimento como o Brasil, gerava ganhos econômicos às multinacionais de países ricos instaladas em solo chinês. Até que veio a pandemia, a China não entregou tudo o que o mundo precisava — porque privilegiou suas próprias necessidades ou quis fazer um jogo de poder usando a escassez como arma — e a dependência extrema que o mundo tinha dos chineses ficou exposta. A globalização, que de certa forma havia nivelado o mundo, revelou uma deformação insuperável: a China no comando da oferta. A segunda maior economia do globo tinha crescido tanto e se tornado tão poderosa, também militar e diplomaticamente, que havia tomado o lugar dos russos. Não era uma nova Guerra Fria, mas também não era uma convivência de interdependência pacífica. É nesse ponto que o jogo atual começa a virar, moldando a economia sob a geopolítica que vivemos nos dias de hoje.
Assim como na política internacional, a economia não é uma ciência exata. O componente humano é decisivo.
Coube a Emmanuel Macron, o deslumbrado presidente francês, ser um dos primeiros a dizer que a dependência de uma China, sem regras e valores ocidentais, era temerária ao planeta. No mesmo discurso, defendeu a volta das fábricas à França como garantia de autossuficiência e soberania. Foi um choque aos globalistas, assim como à imprensa militante woke, prepotente e com sério déficit de cognição acerca da realidade. O velho protecionismo francês estava de volta e liderava o discurso contra a globalização.

Logo a seguir, cairia também a política extremista Environmental, Social, and Governance (ESG), ou “Ambiental, Social e de Governança”, o pesadelo da livre iniciativa e das liberdades empresariais. Aqui, uma pausa para ilustrar como boas intenções foram transformadas em veneno para a economia e a vida pública. No momento mais pesado da ditadura ESG, os xiitas da proteção ambiental, social e de compliance em governança sequestraram pautas legítimas e subverteram os nobres valores da responsabilidade social em causa própria, como um negócio. Quem não os seguia à risca em seu radicalismo era publicamente cancelado, fossem estes governos ou empresas. A economia e a política foram feitas reféns em redes sociais manipuladas por grupos da esquerda mundial disfarçados com o manto do politicamente correto. A Europa, com a Alemanha à frente, talvez seja a vítima mais evidente desse movimento. A região hoje parece paralisada, econômica e politicamente, dominada por uma crise energética, ao abandonar ou reduzir suas usinas nucleares ou a carvão, e debates sobre imigração descontrolada.
O modo de vida europeu está sob ataque. Paris, que já sofreu ataques terroristas, cancelou a tradicional festa de Réveillon da Champs Elysées deste ano de 2025, alegando não poder garantir a segurança do público. Mercados de Natal tradicionais de outras cidades no continente tiveram o mesmo fim, o cancelamento. Do outro lado do Atlântico, a administração Joe Biden não ficou para trás. Ao dificultar a exploração de petróleo por uma torta agenda ambiental, tornou os EUA mais dependentes do óleo da Venezuela, por exemplo, financiando indiretamente o regime do ditador Nicolás Maduro. Com o fim da pandemia e o questionamento sobre a eficácia dos métodos de controle da covid-19, que tirou uma imensa parte da economia global da tomada, uma revoada de investidores de volta ao Ocidente começou a mudar o cenário econômico mundial. De sócia lucrativa, a China se tornara uma ameaça.

Mas o desenvolvimento chinês e seu novo status internacional já são uma realidade. Pequim voltou ao jogo global e sem nenhuma disposição de abandonar o posto de influência conquistado, sobretudo pelo poderio econômico que ainda seduz governos de países em desenvolvimento que antes orbitavam ao redor de Washington. A China atual é também uma potência militar e nuclear em ascensão com caças militares de quinta geração, porta-aviões, redes de satélites e com um desejo claro de retomar velhas disputas regionais, como a anexação de Taiwan, o que seria um pesadelo econômico e político ao ressuscitar na região o conceito de guerra de expansão territorial. Operações militares de anexação são um entulho do século passado que fizeram a Rússia cometer seu maior erro: a invasão da Ucrânia. Não foi rápida e exitosa como imaginava Moscou e causou uma inflação global do petróleo, que não se via desde a crise dos anos 1970. O mundo ficou mais inseguro. A economia, mais instável e sancionada.
Fato é que ninguém que se torna tão poderoso abre mão de influenciar. Na vida moderna, os EUA tomaram esse protagonismo desde a Segunda Guerra Mundial. Ao vencer a Guerra Fria, tornaram-se o xerife do mundo. A ascensão chinesa é a ameaça a essa preponderância americana que vinha se perdendo, seja pela ausência de um inimigo, como a União Soviética (cachorro grande só sabe lidar com outro cachorro grande), pela ineficiência do seu aparato militar de escala atacadista diante do terrorismo de varejo ou simplesmente pela visão de lucro do próprio empresário americano, que foi investir e dividir sua tecnologia com os chineses. Ao avançar de milagre econômico para potência global, a China nivela o jogo e dá aos americanos a oportunidade de usar as ferramentas que conhecem.
Durante a era da globalização, o maior ativo era ter capacidade de produção e de oferta acessível para um mundo ávido por consumir e em crescimento. A China entendeu isso como ninguém e se tornou essa fábrica do planeta. Em 2025, diante de um excesso de oferta e com capacidade produtiva ociosa, o maior ativo hoje é outro: gente com alto poder aquisitivo e disposta a comprar. Donos de uma economia de US$ 30 trilhões, são os EUA os que têm mais de 340 milhões de habitantes consumidores com poder aquisitivo e vontade de consumir. Donald Trump também entendeu isso como ninguém, lançou um tarifaço e convidou o mundo inteiro para conversar com ele, desde que na Casa Branca, sob os termos dele. Lá atrás, o mundo empresarial foi à China. Teve de aceitar o governo chinês como sócio. Agora, Trump exigiu investimentos em solo americano e menores tarifas do mundo ao produto made in USA. O jogo é sempre jogado. Principalmente por quem dá as cartas.

Assim como na política internacional, a economia não é uma ciência exata. O componente humano é decisivo. Se a China cometeu um erro estratégico ou se não teve tempo de desenvolver o mercado consumidor interno a ponto de não ser tão dependente de exportações, é algo que a fragiliza quando a demanda de fora sofre um revés, como agora. O mesmo vale para os EUA. A forte restrição de importações gerou inflação interna porque a economia e o consumidor não pararam. O desequilíbrio entre a demanda dos consumidores americanos e a oferta disponível cobrou o preço político dos republicanos de Trump nas eleições especiais do final de 2025, quando os democratas voltaram a vencer em algumas cidades e distritos. As concessões ao Brasil vêm daí, com a retirada das tarifas sobre o suco de laranja, o café e a carne. Permanece, ainda inexplicável, a retirada da sanção Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, chamado de violador de direitos humanos pela mesma Casa Branca que o sancionou e posteriormente revogou a sanção.
Fato é que a guerra tática entre americanos e chineses, que redefine a geopolítica do momento, é pela preservação de zonas regionais de influência e de insumos estratégicos para a economia, de controle de mercados. James Carville, estrategista-chefe da campanha de Bill Clinton na campanha de 1992, cunhou a célebre frase: “é a economia, estúpido”. Porque, no fim do dia, será a economia que definirá o humor do cidadão que elege democracias no Ocidente ou que ainda tolera, por ora, a submissão a regimes ditatoriais como o da China.
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