Toda ditadura é cruel, mas a tirania dos aiatolás no Irã está fazendo um esforço especial para superar as rivais. O regime enfrentou este mês a maior resistência popular desde sua instalação, em 1979. Multidões foram às ruas expressar seu cansaço e repúdio aos dirigentes de turbante que permanecem mentalmente na Idade Média. “Vários milhares morreram”, reconheceu o Líder Supremo do regime, o aiatolá Ali Khamenei. O número, vago e impessoal, esconde os detalhes da matança.
Reportagem do jornal britânico The Times mostra os requintes de crueldade. Os pais de uma garota de vinte e poucos anos, depois de muita busca entre centenas de cadáveres embrulhados em sacos negros, finalmente encontraram o corpo da filha. O oficial responsável deu um prazo: “Vocês têm dez minutos para chorar”.
Em seguida, chegou a conta: o equivalente a cerca de R$ 27 mil como compensação pelas balas gastas pelo governo no assassinato. Os pais foram transportados por cinco horas para ver o corpo da filha ser jogado numa vala comum numa cidade distante.
O regime não pretende produzir uma estatística exata das vítimas. Esse trabalho está sendo realizado por uma rede de médicos. Segundo um relatório dessa rede, entre 16,5 mil e 18 mil manifestantes foram mortos. De 330 mil a 380 mil ficaram feridos. Entre as vítimas, a maioria tem menos de 30 anos de idade — eram a esperança da juventude iraniana, potenciais esportistas, estudantes, artistas —, além de crianças e grávidas.
Nas manifestações contra a ditadura iraniana em 2022, os soldados usaram balas de borracha. Agora utilizam armas militares como o rifle Heckler & Koch G3. Snipers instalados nos topos dos edifícios miram as cabeças dos manifestantes. Convidadas pelo regime, milícias de terroristas xiitas vindas do Iraque patrulham as ruas e agem com brutalidade.
O massacre gerou uma epidemia de cegueira. A clínica oftalmológica Noor, de Teerã, registrou 7 mil ferimentos nos olhos. Segundo as fontes consultadas por The Times, 8 mil pessoas já ficaram cegas por causa dos tiros.
Muitos morreram por falta de sangue para transfusão no hospital. Alguns feridos se negaram ao atendimento médico, pois as forças da repressão caçavam os manifestantes dentro dos hospitais. Milícias do regime cercavam pessoas e as obrigavam a exibir fotos dos celulares. Se houvesse registro das manifestações, eram presas. Ferimentos por tiros também foram considerados uma confissão de culpa de que participaram das manifestações. Famílias inteiras foram assassinadas dentro de seus carros nas carreatas de protesto.

Trevas digitais
Este é o quarto levante da população iraniana desde a Revolução Verde de 2009. As vítimas do regime não tiveram a solidariedade de manifestações lotando as ruas das cidades europeias e americanas como as organizadas em apoio ao grupo terrorista Hamas. Artistas de Hollywood se entregaram a uma silenciosa omissão. Na ONU, foi pedida uma sessão urgente para tratar do massacre, e 12 governos se recusaram a assinar o pedido — entre eles, a China, Cuba e o Brasil.
A ditadura vai cair? A matéria do Times entrevistou líderes dos protestos que garantem que o regime está fraturado por dentro e que sua queda é uma questão de tempo. Um alto funcionário do Ministério do Interior desertou do regime, segundo o site Iran International, e pediu que o presidente Donald Trump cumpra sua promessa de interferir no conflito. Manifestantes que sobreviveram garantem que não desistiram e que voltarão às ruas assim que possível.
Além da luta política, há outro fator em jogo: a necessidade de manter a luz da verdade acesa. Para tentar impedir que isso aconteça, a ditadura iraniana promoveu o que um médico definiu como “genocídio sob a cobertura das trevas digitais”. Antes de iniciar o massacre, o regime apagou a internet no país. Tinha dois objetivos: evitar que os manifestantes se comunicassem entre si para organizar os protestos e agir à vontade sem que o resto do mundo tivesse acesso às cenas da carnificina.
Guerras civis estão tornando o uso da tecnologia cada vez mais crucial, especialmente para a população civil. “Toda vez que o governo bloqueou a internet”, disse a pesquisadora Garzaneh Badiei ao site NPR, “matou muito mais do que quando as pessoas tinham acesso à internet e podiam denunciar e transmitir os acontecimentos ao vivo”, afirmou. “É por isso que ter acesso a uma internet que não pode ser bloqueada é fundamental para a garantia dos direitos humanos.”
“Somos 90 milhões de prisioneiros no Irã, e precisamos de apoio”, disse um morador de Teerã ao site independente de notícias Iran International. Eles temem que o massacre seja apagado da memória devido ao controle do Estado.
Caminhões de limpeza foram usados para apagar os sinais de sangue. “Eu vi intestinos na rua”, declarou um dos cidadãos mantidos no anonimato. “Eles estavam atirando nas pessoas desde os telhados e muitos foram atingidos por trás enquanto corriam.” Manifestantes ainda vivos eram jogados em pilhas de cadáveres e levados para local desconhecido. Muitos dos mortos foram enterrados nos quintais das próprias casas para evitar a burocracia estatal.

50 mil aparelhos contra o esquecimento
Muito acima das ruas, passou a ser travada outra guerra. O empresário Elon Musk anunciou que sua rede de 10 mil satélites Starlink em órbita baixa passaria a fornecer gratuitamente o sinal de internet para iluminar as “trevas digitais” promovidas pelo regime. “O grande benefício disso é que não há fios que o governo possa cortar”, declarou Jonathan McDowell, especialista em satélites do Observatório Astrofísico Smithsonian, à NPR. “É muito difícil censurar porque o sinal vem do céu, então, se você tem uma dessas antenas, não precisa recorrer a uma operadora de telecomunicações local.”
O regime respondeu usando equipamento militar para interromper o sinal da Starlink. O equipamento embaralha os sinais de GPS que possibilitam a recepção do sinal. É o tipo de ação raramente vista longe de campos de batalha, como na Ucrânia.
A ação pode ter consequências trágicas — como desastres aéreos, já que os aviões ficam perdidos sem GPS. Mas a medida não está funcionando como o regime gostaria, segundo a agência Reuters: “Raha Bahreini, uma pesquisadora da Anistia Internacional, diz que já viu dezenas de vídeos vindos do Irã, incluindo cenas de manifestantes mortos ou feridos pelas forças iranianas, e acredita que quase todas essas cenas vieram de pessoas com acesso à Starlink”.
Quase todos os habitantes do Irã tiveram algum parente ou amigo morto ou preso pelo regime.
Um problema para a população é que não basta ter um satélite conectando o país ao resto do mundo, é necessário ter um receptor da Starlink em terra (ou em barcos e aviões). E possuir esse equipamento foi proibido pelo regime dos aiatolás.
Segundo um ativista iraniano, “hoje existem 50 mil terminais da Starlink, contrabandeados e espalhados pelo país desde 2022 com a ajuda de organizações como a Holistic Resilience, com sede em Los Angeles. Graças a eles, o mundo está testemunhando a tragédia do país”.
Cortar o sinal da internet para atrapalhar manifestações já foi usado em países como Índia, Mianmar e Uganda. Segundo o grupo de defesa de direitos civis digitais Access Now, ocorreram 296 interrupções deliberadas dos serviços de internet em 54 países. O Irã está se tornando um laboratório para superar essas ações de repressão, por meio de organizações de resistência como a ASL19.
“A Starlink, fornecida pela SpaceX, empresa de foguetes de Elon Musk, transmite uma conexão de internet de satélites para terminais na Terra, contornando qualquer infraestrutura de censura terrestre”, publicou o New York Times, que não morre de amores por Musk. “Isso ajudou o serviço a desempenhar um papel fundamental nos protestos no Irã, auxiliando os manifestantes a se organizarem e se comunicarem com o mundo exterior.”

50 mil pontos de luz
O regime do Irã criou uma rede interna de internet (ou “intranet”) chamada Rede Nacional de Informação, isolada do resto do mundo. A população só tem acesso a sites permitidos pelo governo — entretenimento, compras, bancos e transporte. Quando os protestos aumentam, segundo o New York Times, a ditadura corta o sinal nas áreas mais tumultuadas e tenta manter os serviços essenciais funcionando. A população então apela para os aplicativos de VPN (Virtual Private Network, ou “Rede Privada Virtual”), que “desviam” o sinal do celular para países onde a internet não é controlada.
Contrabandear os aparelhos Starlink para dentro do Irã custa entre US$ 700 e US$ 800 (o equivalente a R$ 3,8 mil a R$ 4,3 mil). Quem for pego com o equipamento pode ser acusado de “espionagem” e condenado a dez anos de cadeia.
Mas o regime já não consegue controlar a guerrilha digital. As antenas de recepção da Starlink são escondidas. O sinal é distribuído para mais pessoas através de gambiarras desenvolvidas por técnicos iranianos.
Mesmo quando as autoridades usam equipamento militar para interromper a conexão, o alcance da medida é limitado, por causa do grande número de receptores dispersos pelo país. Muitos são disfarçados como painéis solares para evitar que sejam descobertos pelas forças de repressão. É impossível neutralizar 50 mil receptores.
A dúvida agora é: até quando esse regime brutal e corrupto vai se sustentar? Com a matança deste janeiro, muito mais gente dentro do país vai ter razão para odiar os aiatolás. O Irã chegou a um ponto de deterioração em que praticamente todos os seus habitantes tiveram algum parente ou amigo morto ou preso pelo regime.
Com a economia em colapso e apoio internacional cada vez mais restrito, talvez esteja chegando o momento dos aiatolás terem seus dez minutos para chorar.
dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi
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Muito bom saber que há quem se erga corajosamente contra essa tirania cruel e monstruosa. Revoltante saber que o Brasil se alinhe com essas ditaduras torpes.
Mas isso também aconteceu no Brasil lembra? Quando Moraes bloqueou o X, a Starlink assumiu a bronca e disse que iria contrariar o STF e manter o X bloqueado, certo?bom pelo menos provisoriamente, mas aí no caso em escala bem pior
A tragédia da tragédia e saber que o DESgoverno brasileiro apoia toda essa tirania.
Estamos no caminho errado por conta de militantes que pouco ou nada se importam com o que pensam os brasileiros de trabalham, produzem, pagam altíssimos impostos para sustentar esta caterva de sanguessugas.
Bem me lembro de 1979 quando o Irã ficou mais conhecido nos EUA devido às declarações iranianas contra a liberdade. Muitos iranianos já deixavam seu país.