Não é sempre que podemos dizer que J. D. Vance e a BBC têm algo em comum. O incisivo vice-presidente dos Estados Unidos e os hipersensíveis militantes da cultura woke da emissora pública britânica provavelmente discordam em todos os grandes tópicos. Mas, por um breve momento, eles ficaram do mesmo lado: ambos cometeram o vergonhoso erro moral de não mencionar os judeus ao lembrar o Holocausto.
Ainda me choca que as pessoas possam falar sobre o Holocausto sem pronunciar a “palavra com J”. É como discorrer sobre o tráfico transatlântico de escravos sem dizer “africanos” uma única vez. Ou lamentar o bombardeio nuclear de Hiroshima e esquecer de citar os japoneses. No entanto, aqui estamos nós, 80 anos depois da Shoah, cercados por uma discurseira sem menção aos judeus sobre o evento mais calamitoso da história.
“Hoje relembramos os milhões de vidas perdidas durante o Holocausto”, disse Vance no X. Ele fez uma menção a “milhões de histórias” do que foi “um dos capítulos mais sombrios da história humana”. Milhões isso, milhões aquilo, mas sequer uma referência às seis milhões de almas baleadas, gaseadas e vaporizadas pelo regime nazista unicamente por sua etnia. Vance lamentou a “brutalidade indescritível” daquele período. Brutalidade indescritível contra quem, J. D.?

A BBC deve ter se mordido de raiva. A coisa que mais ama na vida é a chance de alfinetar o braço direito de Trump, mas ela própria cometeu o mesmíssimo erro imperdoável. Em 27 de janeiro, Dia Internacional da Memória do Holocausto, a emissora fez várias transmissões deixando os judeus de fora. Uma delas, com sete minutos, no BBC Breakfast, não fez menção nem a judeus nem ao antissemitismo. A Rádio 4 disse que “seis milhões de pessoas” foram mortas. Que tipo de pessoas? Budistas? Maçons?
Mais tarde, a BBC pediu desculpas. “Nossas transmissões tiveram ‘falas mal colocadas’”, confessou. “Deveríamos ter dito ‘seis milhões de judeus’.” Publicou uma correção em seu site. Entenda bem: é 2026, temos oito décadas de provas da barbaridade antissemita e da carnificina do Holocausto, e uma das emissoras mais conhecidas do mundo tem que dizer: “Foi mal. Pedimos desculpas por esquecer os judeus. Vamos incluí-los agora”.
Para mim, o pedido de desculpas da BBC vale de nada. Grandes questões ainda pairam sobre o conteúdo de suas transmissões. Esses lamentos de uma falsa virtude foram escritos por alguém, editados por alguém, inseridos em um teleprompter por alguém, lidos por alguém e filmados, cortados e transmitidos por uma penca de gente. E nenhum deles — nenhum — disse: “Caramba. Esquecemos de mencionar os judeus”. Isso é muito mais que um erro — revela uma intensa podridão moral nas altas esferas da sociedade, nas quais o veneno da política identitária aniquilou a decência e a verdade.
Esta não é a primeira vez que os judeus são dissociados de modo tão leviano do crime que quase os exterminou. Em 2008, o Socialist Workers Party (“Partido dos Trabalhadores Socialistas”) distribuiu um folheto lamentando o massacre nazista de “LGBTs, sindicalistas e pessoas com deficiência”. Mais alguém? No ano passado, a então vice-primeira-ministra do Reino Unido, Angela Rayner, prestou homenagem a “todos aqueles que foram assassinados apenas por serem quem eram”, como se o Holocausto fosse um ato militante politicamente incorreto, e não um esforço industrializado para varrer da Terra até o último judeu.
Em parte, os memoriais “sem judeus” são alimentados por um instinto nocivo de apaziguamento. Consciente ou inconscientemente, as pessoas deixam de fora “os judeus” para evitar irritar aqueles setores da sociedade que não gostam deles. Essa é uma das razões pelas quais menos escolas britânicas estão promovendo o Dia da Memória do Holocausto — elas não querem acirrar crianças muçulmanas e outros membros do corpo estudantil que podem ter sido radicalizados ao aderir à “judeufobia” no turbulento rescaldo de 7 de outubro de 2023.
Josh Shapiro, o governador democrata da Pensilvânia, questiona se um impulso semelhante esteve por trás da postagem “sem judeus” de JD Vance. Ele afirmou que o fato de Vance “não ter conseguido se dar ao trabalho de reconhecer que seis milhões de judeus foram mortos por Hitler diz muita coisa”. Talvez ele esteja tentando “acalmar” os “antissemitas da direita que infectam o Partido Republicano”. Shapiro levanta uma questão premente. Vance é um cara esperto. Ele sabe quem foi alvo de Hitler. Ele também sabe que a arena digital onde tudo o que diz gera repercussão está infestada de aberrações frenologistas que detestam os judeus e a pátria judaica. Se ele deixou de mencionar os judeus para agradar a esses canalhas, isso ultrapassa o imoral.

Tanto entre a nova direita quanto entre os liberais palermas que contaminam nossas instituições, parece que a verdade do Holocausto está sendo sacrificada no altar do identitarismo. Falsos progressistas abandonam os judeus em nome do objetivo cínico de manter uma ordem multicultural em que “pessoas de cor” são eternas vítimas e “brancos”, incluindo judeus, eternos opressores. Abordar os esforços psicóticos do racismo industrializado para aniquilar a comunidade judaica europeia contraria as narrativas contemporâneas de vitimismo e privilégio; então, isso é “jogado no limbo”. De outro lado, o que está por trás dessa memória deficiente do Holocausto, partilhada por Vance e outros, é uma relutância em cutucar os identitários brancos que têm prevenção contra os judeus.
É uma espécie de negação do Holocausto. Não estou dizendo que essas pessoas são racistas ideológicos como David Irving e outras figuras desprezíveis que dedicam cada minuto de suas vidas a mentir sobre o maior crime da história. Mas a consequência de sua omissão em usar a “palavra com J” é, no entanto, obscurecer, embaçar, negar. Ao dizer que o Holocausto foi um acontecimento triste no qual pessoas morreram, você deturpa a verdade do evento mais marcante e transformador de uma era — o empenho dos nazistas em exterminar os judeus.
Há algo mais acontecendo. Algo incrivelmente assustador. Em meu livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilization (“Depois do Pogrom: o 7 de Outubro, Israel e a Crise da Civilização”), eu chamo isso de “inveja do Holocausto”. A atual cultura onipresente de ressentimento, esse espetáculo abjeto de vitimismo competitivo, deu origem a uma situação em que as pessoas apagam a essência judaica do Holocausto para enfraquecer a reivindicação dos judeus ao vitimismo histórico e fortalecer a sua própria. Assim, vemos cada vez mais grupos que defendem causas dizendo que o Holocausto foi um crime tanto contra pessoas gays, trans e de esquerda quanto contra o povo judeu.

Agora criou-se uma verdadeira obscenidade na qual os que insistem que o Holocausto foi uma campanha organizada para destruir os judeus e sua história são eles próprios acusados de “negação do Holocausto”. “Como ousa desviar a atenção do sofrimento trans e do sofrimento gay, seu negacionista!” — isso agora é vociferado aos quatro ventos, principalmente para os judeus, que se agarram com todas as forças à verdade da Shoah enquanto um mar de relativismo moral, autocomiseração institucionalizada e racismo indiscriminado se agita perigosamente ao seu redor. Neste universo kafkiano distorcido, a verdade é o negacionismo, e o negacionismo é a verdade.
Sejamos claros: todos sofreram nas mãos dos nazistas. As classes trabalhadoras, os sindicalistas, os homossexuais e, especialmente, as pessoas com deficiência e os ciganos. Mas apenas um povo foi alvo incontestável de destruição completa e absoluta. Vamos, digam: os judeus. O Holocausto foi uma tentativa de desjudaizar a Europa. Agora estamos testemunhando a desjudaização do próprio Holocausto. “Libertar” esse crime daqueles que o sofreram para que outros grupos com interesses próprios o reivindiquem para si e, no processo, satisfaçam seu talento fútil para a autopiedade e a autopromoção é algo ainda pior do que a negação do Holocausto — é o sequestro do Holocausto.
Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show, também da Spiked. Seu novo livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilisation, foi lançado em 2024. Brendan está no Instagram: @burntoakboy
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Na reportagem sobre o catar. Como se admite o terrorismo diplomático. O ocidente devia tomar vergonha na cara
Essa aberração woke nunca ouviu falar que o Holocausto iniciou nas perseguições aos judeus, nem da Noite dos cristais, nem do gueto de Varsóvia. Será que os wokes sabem onde fica Varsóvia? Eles já fizeram o levantamento quantos LGTBs, ciganos e deficientes foram marcados com a estrela de David? Porque 6 milhões de judeus foram e nenhum LGBT foi marcado com o arco-íris.
O problema não é só o que o colunista escreveu. É que existe uma onda global contra os judeus, e de morte. O que está escondido atrás da ideologia é o ódio contra a civilização ocidental de maneira geral.