Aexemplo da maioria — afinal, é muito difícil ir contra a manada —, eu não parava de checar as notícias de minuto em minuto assim que o bombardeio ao Irã e o contra-ataque começaram.
Faz quase 60 anos desde a minha única visita ao Irã, quando o país estava no auge da chamada Revolução Branca do Xá. Eu era jovem e ingênuo, e fiquei muito impressionado com a ocidentalização de Teerã, ou pelo menos do norte da cidade, que se poderia facilmente confundir com uma capital europeia. Embora o resto do país fosse bem menos ocidentalizado, não percebi o quão profundo era o ressentimento que se acumulava contra o regime. Fui cegado, talvez, pela ideia de que a secularização era um caminho sem volta e de que a religião, como força, estava fadada a desaparecer assim que o processo secularizador fosse deflagrado.
Recentemente, contudo, visitei o Reino do Bahrein, de onde, em um dia claro, é possível ver o Irã do outro lado das águas. O Bahrein é árabe, mas 80% de sua população é xiita, não sunita. Os árabes não são lá muito amigos dos iranianos, e vice-versa; mas nem os xiitas são amigos dos sunitas e vice-versa (a família governante do Bahrein é sunita). Fiquei surpreso — até chocado — ao descobrir o quanto sunitas e xiitas se detestavam e desprezavam mutuamente. No entanto, o cotidiano parecia seguir pacificamente, pelo menos até a próxima explosão.

Os Estados do Golfo, entre eles o Bahrein, têm uma atmosfera peculiar. O Bahrein é o menos abastado e depende da Arábia Saudita, à qual está ligado por uma ponte. É mais liberal do que a Arábia Saudita na questão do consumo de álcool — cem mil sauditas (homens) cruzam a fronteira semanalmente, pouco antes do “shabbat” muçulmano, a sexta-feira, para se embebedar. Essa transumância em busca de álcool me lembra os velhos tempos em São Petersburgo, quando os finlandeses cruzavam o Golfo da Finlândia em busca de bebida barata, negada em seu próprio país. Nunca vi tanta bebedeira, nem mesmo na Inglaterra: homens caíam embriagados aos nossos pés assim que o elevador do hotel se abria. Não sou puritano, mas não posso dizer que achava aquilo bonito.
O que impressiona nos Estados do Golfo é sua artificialidade. O mais admirável deles, de certa forma, é Dubai, pois não possui petróleo como fonte de riqueza, mas conseguiu se transformar em um importante entreposto comercial, centro financeiro e destino turístico para onde pessoas viajam milhares de quilômetros apenas para comprar bens que estão igualmente disponíveis, ainda que um pouco mais caros, em seus países de origem. Turistas podem até esquiar em Dubai, que construiu uma pista de esqui coberta, enquanto a temperatura externa chega a quase 50 graus Celsius. Novamente, de certa maneira, isso é um triunfo do espírito humano, que torna possível o que antes era inimaginável. Visto de outro ângulo, porém, é extremamente absurdo e, sem dúvida, nada bom para o meio ambiente, pelo menos se o meio ambiente consistir na biosfera como um todo.
De fato, Dubai é um paraíso para um certo tipo de pessoa, para quem o conforto físico ou até o luxo, comprados a preço de banana, são o summum bonum da existência humana. Dubai oferece — ou, pelo menos, oferecia antes da guerra atual — uma infinidade de piscinas, campos de golfe, restaurantes climatizados e afins; em suma, a boa vida para o europeu sibarita, porém não muito culto.
Talvez você se pergunte: Como isso tudo foi possível? A resposta é muito simples: mão de obra barata, sem qualquer proteção legal. Essa força de trabalho veio, e ainda vem, do subcontinente indiano, e está sujeita a condições que se assemelham à servidão por dívida. Mas antes que alguém tenha um ataque de indignação moral, é preciso considerar que, apesar das péssimas condições em que trabalham — baixa remuneração, ausência de direitos e seguro social, pouco tempo de folga, quase sem férias, e até mesmo abusos — essa mão de obra é livre. Os trabalhadores que aceitam essas condições fazem o cálculo de que vale a pena fazê-lo, pois ainda é melhor para eles do que as alternativas disponíveis. Podemos desejar que assim não fosse, mas é assim que funciona.

Quando se observa como eram os Estados do Golfo há apenas 50 ou 60 anos, pouco depois da partida dos britânicos, sob cuja égide foram protetorados (e que os obrigaram a extinguir a escravidão), a reação é de espanto. Nesse período relativamente curto, os poucos habitantes — agora em número imensamente menor que o de expatriados — passaram de nativos desprezados a “senhores do universo”.
Tornaram-se não só consumidores refinados, exigindo o melhor de tudo, mas também — pelo menos alguns deles — intelectualmente sofisticados. Não direi a profissão de um bareinita com quem tive uma conversa (em um inglês elegante) por receio de que ele possa ser identificado, mas ficou bastante claro que ele não considerava o Islã como a resposta para todos os problemas da humanidade. Na verdade, o via como um de seus maiores problemas. O Islã — em sua opinião, pelo menos — cegava, em vez de iluminar.
Aliás, ele mostrou surpreendentemente uma visão positiva sobre o papel dos britânicos na região. Novamente, em sua opinião, eles haviam aberto os olhos fortemente fechados dos árabes. Lembrava-se com gratidão da educação que proporcionaram a ele. Curiosamente, não teria liberdade para expressar esse tipo de opinião hoje em uma universidade europeia ou americana: seria vaiado e talvez até atacado fisicamente.
Visitamos amigos no Bahrein e eles nos mandaram repetidas mensagens para avisar que estavam seguros, apesar das explosões frequentes causadas por drones iranianos (muito mais do que a mídia ocidental divulgou). Estavam a uma certa distância das bases militares americanas no país.
Quais serão as consequências disso tudo? Não faço a menor ideia. De fato, em que momento se pode dizer: “Estas, e somente estas, são as consequências”? A história é uma obra eternamente inacabada: as consequências se perpetuam. No entanto, é preciso avaliar quais são ou, pelo menos, quais provavelmente serão.

Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.
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Com essa reportagem a gente observa que a natureza se adapta a qualquer deformação feita pelo homem