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Ilustração: Shutterstock
Edição 313

A imprevisibilidade da guerra

A guerra no Irã mostra que não falta petróleo no mundo, mas segurança logística. No Brasil, competência do governo

Na guerra, o desespero do inimigo é o que de pior pode acontecer a quem está vencendo a batalha. Já não existem mais estratégias para as quais contramedidas foram estudadas à exaustão nas mais prestigiadas escolas de comandantes militares mundo afora. No Irã, o regime dos aiatolás está ruindo. Nada do que façam pode mudar o resultado do conflito e a derrota iminente. Mas até lá, jogam tudo o que têm para ganhar tempo. O bloqueio e a ameaça de espalhar minas marítimas pelo estreito de Ormuz, fechando na prática o escoamento de 20% de todo o petróleo consumido diariamente pelo mundo, são uma tentativa desesperada de gerar pressão econômica pelo temor do desabastecimento. Embora o mundo ainda faça as contas e veja a alta inflacionária ameaçando governos ocidentais, a parcimônia e os dados deveriam nos fazer enxergar a tática do desespero do regime sanguinário dos aiatolás como um kamikaze do século 21: deixará um rastro de estragos, mas sem honra alguma, e que vai perder. Ou seja, é tudo uma questão de tempo a suportar e valores humanos a defender. Como o mundo se preparou para enfrentar esse momento de uma guerra inequivocadamente justa e necessária contra a tirania iraniana dos aiatolás é o que nos definirá como civilização a partir de agora.

Não fosse o meu dever de tratar de aspectos econômicos da guerra e do bloqueio de navios que alimentam o mundo de petróleo vindo do Oriente Médio, eu me estenderia um pouco mais nos sentimentos humanos em relação ao conflito, eventualmente diferentes. Por isso, antes de ir adiante, é preciso reconhecer que o mundo se preocupa com as repercussões da guerra no campo econômico porque elas existem e são justas. Mas um olhar para as dores e os custos da guerra pela perspectiva de milhões de iranianos oprimidos é revelador.  Pela janela do mundo, que são as redes sociais, fizeram questão de mostrar a festa da liberdade se aproximando com a queda do ditador sanguinário Ali Khamenei, depois dos ataques coordenados por americanos e israelenses que eliminaram o aiatolá que pregava morte ao Ocidente. Uma guerra tem custos. E não são baixos, tampouco previsíveis. O dilema do mundo agora não é deixar de libertar os iranianos, mas como mitigar os problemas que a dependência do petróleo pode causar nas cadeias de suprimentos — o Brasil, por exemplo, peça-chave na garantia de segurança alimentar do planeta.

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

Em economia, os números se sobrepõem com a força da gravidade, não podem ser evitados. Daí, alguns fatos que contradizem narrativas de ONGs e ambientalistas que não sabem fazer conta precisam ser expostos: o mundo é muito dependente de petróleo, mesmo com a transição energética e o aumento elogiável das fontes alternativas. Depende ainda mais da segurança da logística internacional, o que significa não passar pano para tiranos em nome da soberania. Não há soberania para opressores. Fato é que falta atitude de mais gente defendendo a liberdade, não o petróleo. No início deste ano, a Agência Internacional de Energia projetava produção recorde de óleo e derivados com preços do barril bem abaixo de US$ 80. A combinação virtuosa incluía oferta maior da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep+) e de novos produtores, maior eficiência na prospecção das petroleiras e demanda menor devido ao crescimento da oferta de carros elétricos — sobretudo na China. A operação militar no Irã e a reação desesperada do regime mudaram o cenário. No auge da ameaça iraniana de fechar o estreito de Ormuz, o preço do barril do tipo Brent, referência internacional e negociado na Bolsa de Valores de Londres, atingiu a marca de US$ 119. No início da semana, ficou entre US$ 80 e US$ 90. Com a incerteza da garantia da passagem segura dos navios pela região, voltou a ser negociado acima de US$ 100. Ou seja, a guerra é justa e humanitariamente necessária, os Estados Unidos e os israelenses colocaram no front a maior e mais sofisticada força militar do planeta, mas isso tem um preço diante de aspectos econômicos e geopolíticos ainda muito imprevisíveis.

Colunas de fumaça cobrem o horizonte de Beirute, no Líbano, em meio a uma escalada de tensões entre o Hezbollah e Israel, no contexto do conflito com o Irã, 12 de março de 2026 | Foto: Amr Abdallah Dalsh/Reuters

Enquanto o mundo debate a extensão do conflito e calcula seus custos — volto a eles mais adiante —, veja que a mesma China, que faz carros elétricos de tecnologia invejável em velocidade exponencial e apontada como solução para as mudanças climáticas, é movida a energia não-renovável. Carvão e petróleo transportados por navios são a matriz energética do país que mais faz veículos elétricos e placas fotovoltaicas, de geração de energia solar, no planeta. E de todo o óleo e gás que passam pelo Estreito de Ormuz, que o Irã tenta fechar, 80% vão para o mundo asiático, sobretudo China, Japão, Coreia do Sul e Taiwan — o círculo prodigioso de produção de semicondutores que alimenta todas as inovações e a realidade tecnológica da humanidade. A tática do desespero dos aiatolás explosivos causa, sim, enorme debate na economia mundial, mas expõe uma falha grotesca: além de se isolarem quando atacam todos os países da região com mísseis, os chineses, a segunda maior economia do mundo e dependente de petróleo e insumos do mundo inteiro para ser a fábrica do planeta, eram até outro dia um dos poucos aliados do Irã na política internacional. Com perdas relevantes de seu arsenal de navios de guerra e mísseis balísticos diante da ofensiva de Washington e Tel Aviv, o Irã vai deixando de ser a ameaça militar que se se desenhava, mas persiste em ser problema que causa solavancos na economia global.

Com lições aprendidas na pandemia e com a guerra na Ucrânia, os 32 países-membros da IEA — sigla em inglês para Agência Internacional de Energia — aprovaram de forma unânime, no dia 11 de março de 2026, a liberação de 400 milhões de barris das reservas estratégicas de emergência, a maior da história. É um suprimento extra que tenta controlar os preços internacionais da commodity enquanto o conflito não se resolve. A solução real e duradoura depende de muito mais. Da diplomacia claudicante dos europeus, por exemplo, que ainda insistem com sua cansativa resistência estética à efetiva Casa Branca de Trump. Sem uma coalização internacional, que se dedique a liberar de vez o tráfego normal de todos os navios petroleiros da região, o Irã ganha tempo. A França, de Emmanuel Macron, ensaia uma tímida ajuda. Nesta semana, enviou o porta-aviões Charles de Gaulle e uma pequena frota de navios à região e propôs uma união de países para escoltar navios petroleiros, mas apenas quando o conflito desescalar. Ou seja, não querem se empenhar em derrubar o regime e resolver o caso de vez. O Reino Unido diz estar diplomaticamente mais envolvido, sem que isso seja garantia de algum resultado prático. É muito pouco. Dentro do Irã, o regime dos aiatolás continua perseguindo seu próprio povo. No Estreito de Ormuz, quer sequestrar as liberdades — econômicas, inclusive — do mundo. A guerra tem um preço que costuma ser mais alto para quem se omite na defesa dos direitos humanos. Não por acaso, franceses e ingleses se debatem internamente em suas fronteiras sobre como lidar com a imigração descontrolada — com muitos radicais islâmicos — e manutenção de seu modo de vida.

A crise já é global, sobretudo pela demora do mundo em apoiar os que estão dedicados a resolver, os norte-americanos e os israelenses que permanecem na linha de frente. O Brasil, hoje a maior potência alimentar do planeta, não passaria incólume diante do conflito. O escoamento de sua superprodução de comida, que garante a segurança alimentar de um bilhão de pessoas no mundo, depende de frete marítimo e aéreo. Ambos são impactados pela alta do petróleo. Não apenas isso. Com relação comercial altamente superavitária com o Irã, vende milho — porque o agro é muito competente — e compra fertilizantes — porque não foi capaz de desenvolver produção própria, embora tenha minas de potássio a serem exploradas. O Itamaraty, lá no início da guerra, cuidava da manutenção dos negócios, ignorando ou colocando em segundo plano a violência do governo iraniano contra seu próprio povo, os crimes contra a humanidade, o financiamento de grupos terroristas e o tudo ou nada que os aiatolás impõem ao mundo ao fechar o canal marítimo por onde escoa uma parte imensa da energia do planeta. Como lidar com essa contradição? A falta de resposta no tempo certo elevou o custo atual.

Vista aérea de um arrozal no Rio Grande do Sul | Foto: Shutterstock

Em plena época de colheita, produtores rurais de arroz e soja na região Sul do Brasil têm paralisado máquinas colheitadeiras e tratores por falta de diesel nas propriedades. É por demais preocupante. A suspensão temporária da colheita aumenta o risco de perda dos grãos ou o custo devido ao atraso da chegada dos caminhões aos portos. No Rio Grande do Sul (RS), onde a situação é mais grave, a colheita de arroz, que representa 70% da produção nacional, e de parte importante da soja nacional, está paralisada em algumas regiões do Estado, segundo informações da Federação da Agricultura do RS, da Aprosoja Brasil e da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). No Paraná, sindicatos rurais alertam para a falta de combustível nas bombas dos silos e o risco no escoamento da safra, sendo que quase 50% da soja já foi colhida. Em regiões mais distantes de portos, como o Centro-Oeste, que detém a maior parte da produção de grãos do país, além dos frigoríficos, a maior preocupação relatada por produtores e associações do setor é com a alta de custos e logística. Ao consumidor, significa preços mais altos e inflação que corrói o poder de compra.

Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA

Pressionado, o governo brasileiro corre atrás de dar respostas a quem trabalha, produz e não pode esperar. Nesta quinta-feira, 12, anunciou uma série de medidas para conter a alta dos combustíveis no país. O Palácio do Planalto zerou a cobrança de PIS e Cofins do diesel, o que pode gerar uma redução de R$ 0,32 no preço do litro. É uma cópia parcial do que fez o governo Bolsonaro diante da guerra na Ucrânia, quando a alta do preço do barril do petróleo causou inflação global sem precedentes. À época, a equipe do ministro da Economia Paulo Guedes foi mais ousada e efetiva: propôs ao Congresso também a redução do ICMS, um imposto estadual. Conseguiu a aprovação de deputados e senadores e controlou a inflação doméstica, permitindo um crescimento de quase 3% do PIB em 2022. O atual governo ainda tenta aumentar a oferta interna. Por isso, editou uma Medida Provisória que aumenta o imposto de exportação de petróleo e do diesel para reduzir o risco de desabastecimento. Crises costumam expor deficiências e falácias. No seu segundo mandato (2007-2010), Lula espalhou a narrativa de que o Brasil havia se tornado autossuficiente em petróleo, dando a impressão de que não precisávamos mais importar combustíveis, não éramos mais dependentes do mercado externo. Muito longe da verdade, escondeu o fato de que as refinarias do Brasil não eram — e ainda não são — capazes de refinar a maior parte do petróleo produzido pela Petrobras. O Brasil continua exposto ao mercado internacional, às guerras e instabilidades geopolíticas, como o próprio governo admite ao sair agora correndo para editar medidas de emergência na tentativa de controlar os preços no país.

Errático na economia doméstica, na diplomacia internacional e na defesa dos direitos humanos — aqui dentro e lá fora —, o governo Lula está exposto e mostra suas vulnerabilidades. A atual crise do petróleo pega o país com a economia interna cambaleante, com recorde de pedidos de recuperação judicial de empresas, juros altíssimos causados pelos sucessivos rombos fiscais, asfixiado pela alta carga tributária e um time completo de gente que está há mais de três anos no governo sem uma única ideia que faça sentido para o desenvolvimento do país. Ao contrário, é uma turma ruim de serviço que joga contra todos os ganhos da sociedade herdados dos governos anteriores, como a responsabilidade fiscal, a redução dos impostos e a liberdade de empreender. A guerra no Irã está obrigando o mundo a fazer escolhas. Os brasileiros têm uma chance de mudar para melhor já em outubro.

Leia também “O tombo no PIB e a guerra no Irã”

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2 comentários
  1. Renato Perim
    Renato Perim

    Tem uma chance de mudar para melhor nada, Piotto. Enquanto os ladrões continuarem comandando as eleições, eu nem me dou ao trabalho de ir votar.

    1. Valdy Fernandes da Silva
      Valdy Fernandes da Silva

      Renato, se o Sr não for votar aí é que os ladrões continuarão mandando no nosso País.

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