Na guerra, o desespero do inimigo é o que de pior pode acontecer a quem está vencendo a batalha. Já não existem mais estratégias para as quais contramedidas foram estudadas à exaustão nas mais prestigiadas escolas de comandantes militares mundo afora. No Irã, o regime dos aiatolás está ruindo. Nada do que façam pode mudar o resultado do conflito e a derrota iminente. Mas até lá, jogam tudo o que têm para ganhar tempo. O bloqueio e a ameaça de espalhar minas marítimas pelo estreito de Ormuz, fechando na prática o escoamento de 20% de todo o petróleo consumido diariamente pelo mundo, são uma tentativa desesperada de gerar pressão econômica pelo temor do desabastecimento. Embora o mundo ainda faça as contas e veja a alta inflacionária ameaçando governos ocidentais, a parcimônia e os dados deveriam nos fazer enxergar a tática do desespero do regime sanguinário dos aiatolás como um kamikaze do século 21: deixará um rastro de estragos, mas sem honra alguma, e que vai perder. Ou seja, é tudo uma questão de tempo a suportar e valores humanos a defender. Como o mundo se preparou para enfrentar esse momento de uma guerra inequivocadamente justa e necessária contra a tirania iraniana dos aiatolás é o que nos definirá como civilização a partir de agora.
Não fosse o meu dever de tratar de aspectos econômicos da guerra e do bloqueio de navios que alimentam o mundo de petróleo vindo do Oriente Médio, eu me estenderia um pouco mais nos sentimentos humanos em relação ao conflito, eventualmente diferentes. Por isso, antes de ir adiante, é preciso reconhecer que o mundo se preocupa com as repercussões da guerra no campo econômico porque elas existem e são justas. Mas um olhar para as dores e os custos da guerra pela perspectiva de milhões de iranianos oprimidos é revelador. Pela janela do mundo, que são as redes sociais, fizeram questão de mostrar a festa da liberdade se aproximando com a queda do ditador sanguinário Ali Khamenei, depois dos ataques coordenados por americanos e israelenses que eliminaram o aiatolá que pregava morte ao Ocidente. Uma guerra tem custos. E não são baixos, tampouco previsíveis. O dilema do mundo agora não é deixar de libertar os iranianos, mas como mitigar os problemas que a dependência do petróleo pode causar nas cadeias de suprimentos — o Brasil, por exemplo, peça-chave na garantia de segurança alimentar do planeta.

Em economia, os números se sobrepõem com a força da gravidade, não podem ser evitados. Daí, alguns fatos que contradizem narrativas de ONGs e ambientalistas que não sabem fazer conta precisam ser expostos: o mundo é muito dependente de petróleo, mesmo com a transição energética e o aumento elogiável das fontes alternativas. Depende ainda mais da segurança da logística internacional, o que significa não passar pano para tiranos em nome da soberania. Não há soberania para opressores. Fato é que falta atitude de mais gente defendendo a liberdade, não o petróleo. No início deste ano, a Agência Internacional de Energia projetava produção recorde de óleo e derivados com preços do barril bem abaixo de US$ 80. A combinação virtuosa incluía oferta maior da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep+) e de novos produtores, maior eficiência na prospecção das petroleiras e demanda menor devido ao crescimento da oferta de carros elétricos — sobretudo na China. A operação militar no Irã e a reação desesperada do regime mudaram o cenário. No auge da ameaça iraniana de fechar o estreito de Ormuz, o preço do barril do tipo Brent, referência internacional e negociado na Bolsa de Valores de Londres, atingiu a marca de US$ 119. No início da semana, ficou entre US$ 80 e US$ 90. Com a incerteza da garantia da passagem segura dos navios pela região, voltou a ser negociado acima de US$ 100. Ou seja, a guerra é justa e humanitariamente necessária, os Estados Unidos e os israelenses colocaram no front a maior e mais sofisticada força militar do planeta, mas isso tem um preço diante de aspectos econômicos e geopolíticos ainda muito imprevisíveis.

Enquanto o mundo debate a extensão do conflito e calcula seus custos — volto a eles mais adiante —, veja que a mesma China, que faz carros elétricos de tecnologia invejável em velocidade exponencial e apontada como solução para as mudanças climáticas, é movida a energia não-renovável. Carvão e petróleo transportados por navios são a matriz energética do país que mais faz veículos elétricos e placas fotovoltaicas, de geração de energia solar, no planeta. E de todo o óleo e gás que passam pelo Estreito de Ormuz, que o Irã tenta fechar, 80% vão para o mundo asiático, sobretudo China, Japão, Coreia do Sul e Taiwan — o círculo prodigioso de produção de semicondutores que alimenta todas as inovações e a realidade tecnológica da humanidade. A tática do desespero dos aiatolás explosivos causa, sim, enorme debate na economia mundial, mas expõe uma falha grotesca: além de se isolarem quando atacam todos os países da região com mísseis, os chineses, a segunda maior economia do mundo e dependente de petróleo e insumos do mundo inteiro para ser a fábrica do planeta, eram até outro dia um dos poucos aliados do Irã na política internacional. Com perdas relevantes de seu arsenal de navios de guerra e mísseis balísticos diante da ofensiva de Washington e Tel Aviv, o Irã vai deixando de ser a ameaça militar que se se desenhava, mas persiste em ser problema que causa solavancos na economia global.
Com lições aprendidas na pandemia e com a guerra na Ucrânia, os 32 países-membros da IEA — sigla em inglês para Agência Internacional de Energia — aprovaram de forma unânime, no dia 11 de março de 2026, a liberação de 400 milhões de barris das reservas estratégicas de emergência, a maior da história. É um suprimento extra que tenta controlar os preços internacionais da commodity enquanto o conflito não se resolve. A solução real e duradoura depende de muito mais. Da diplomacia claudicante dos europeus, por exemplo, que ainda insistem com sua cansativa resistência estética à efetiva Casa Branca de Trump. Sem uma coalização internacional, que se dedique a liberar de vez o tráfego normal de todos os navios petroleiros da região, o Irã ganha tempo. A França, de Emmanuel Macron, ensaia uma tímida ajuda. Nesta semana, enviou o porta-aviões Charles de Gaulle e uma pequena frota de navios à região e propôs uma união de países para escoltar navios petroleiros, mas apenas quando o conflito desescalar. Ou seja, não querem se empenhar em derrubar o regime e resolver o caso de vez. O Reino Unido diz estar diplomaticamente mais envolvido, sem que isso seja garantia de algum resultado prático. É muito pouco. Dentro do Irã, o regime dos aiatolás continua perseguindo seu próprio povo. No Estreito de Ormuz, quer sequestrar as liberdades — econômicas, inclusive — do mundo. A guerra tem um preço que costuma ser mais alto para quem se omite na defesa dos direitos humanos. Não por acaso, franceses e ingleses se debatem internamente em suas fronteiras sobre como lidar com a imigração descontrolada — com muitos radicais islâmicos — e manutenção de seu modo de vida.
A crise já é global, sobretudo pela demora do mundo em apoiar os que estão dedicados a resolver, os norte-americanos e os israelenses que permanecem na linha de frente. O Brasil, hoje a maior potência alimentar do planeta, não passaria incólume diante do conflito. O escoamento de sua superprodução de comida, que garante a segurança alimentar de um bilhão de pessoas no mundo, depende de frete marítimo e aéreo. Ambos são impactados pela alta do petróleo. Não apenas isso. Com relação comercial altamente superavitária com o Irã, vende milho — porque o agro é muito competente — e compra fertilizantes — porque não foi capaz de desenvolver produção própria, embora tenha minas de potássio a serem exploradas. O Itamaraty, lá no início da guerra, cuidava da manutenção dos negócios, ignorando ou colocando em segundo plano a violência do governo iraniano contra seu próprio povo, os crimes contra a humanidade, o financiamento de grupos terroristas e o tudo ou nada que os aiatolás impõem ao mundo ao fechar o canal marítimo por onde escoa uma parte imensa da energia do planeta. Como lidar com essa contradição? A falta de resposta no tempo certo elevou o custo atual.

Em plena época de colheita, produtores rurais de arroz e soja na região Sul do Brasil têm paralisado máquinas colheitadeiras e tratores por falta de diesel nas propriedades. É por demais preocupante. A suspensão temporária da colheita aumenta o risco de perda dos grãos ou o custo devido ao atraso da chegada dos caminhões aos portos. No Rio Grande do Sul (RS), onde a situação é mais grave, a colheita de arroz, que representa 70% da produção nacional, e de parte importante da soja nacional, está paralisada em algumas regiões do Estado, segundo informações da Federação da Agricultura do RS, da Aprosoja Brasil e da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). No Paraná, sindicatos rurais alertam para a falta de combustível nas bombas dos silos e o risco no escoamento da safra, sendo que quase 50% da soja já foi colhida. Em regiões mais distantes de portos, como o Centro-Oeste, que detém a maior parte da produção de grãos do país, além dos frigoríficos, a maior preocupação relatada por produtores e associações do setor é com a alta de custos e logística. Ao consumidor, significa preços mais altos e inflação que corrói o poder de compra.

Pressionado, o governo brasileiro corre atrás de dar respostas a quem trabalha, produz e não pode esperar. Nesta quinta-feira, 12, anunciou uma série de medidas para conter a alta dos combustíveis no país. O Palácio do Planalto zerou a cobrança de PIS e Cofins do diesel, o que pode gerar uma redução de R$ 0,32 no preço do litro. É uma cópia parcial do que fez o governo Bolsonaro diante da guerra na Ucrânia, quando a alta do preço do barril do petróleo causou inflação global sem precedentes. À época, a equipe do ministro da Economia Paulo Guedes foi mais ousada e efetiva: propôs ao Congresso também a redução do ICMS, um imposto estadual. Conseguiu a aprovação de deputados e senadores e controlou a inflação doméstica, permitindo um crescimento de quase 3% do PIB em 2022. O atual governo ainda tenta aumentar a oferta interna. Por isso, editou uma Medida Provisória que aumenta o imposto de exportação de petróleo e do diesel para reduzir o risco de desabastecimento. Crises costumam expor deficiências e falácias. No seu segundo mandato (2007-2010), Lula espalhou a narrativa de que o Brasil havia se tornado autossuficiente em petróleo, dando a impressão de que não precisávamos mais importar combustíveis, não éramos mais dependentes do mercado externo. Muito longe da verdade, escondeu o fato de que as refinarias do Brasil não eram — e ainda não são — capazes de refinar a maior parte do petróleo produzido pela Petrobras. O Brasil continua exposto ao mercado internacional, às guerras e instabilidades geopolíticas, como o próprio governo admite ao sair agora correndo para editar medidas de emergência na tentativa de controlar os preços no país.
Errático na economia doméstica, na diplomacia internacional e na defesa dos direitos humanos — aqui dentro e lá fora —, o governo Lula está exposto e mostra suas vulnerabilidades. A atual crise do petróleo pega o país com a economia interna cambaleante, com recorde de pedidos de recuperação judicial de empresas, juros altíssimos causados pelos sucessivos rombos fiscais, asfixiado pela alta carga tributária e um time completo de gente que está há mais de três anos no governo sem uma única ideia que faça sentido para o desenvolvimento do país. Ao contrário, é uma turma ruim de serviço que joga contra todos os ganhos da sociedade herdados dos governos anteriores, como a responsabilidade fiscal, a redução dos impostos e a liberdade de empreender. A guerra no Irã está obrigando o mundo a fazer escolhas. Os brasileiros têm uma chance de mudar para melhor já em outubro.
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Tem uma chance de mudar para melhor nada, Piotto. Enquanto os ladrões continuarem comandando as eleições, eu nem me dou ao trabalho de ir votar.
Renato, se o Sr não for votar aí é que os ladrões continuarão mandando no nosso País.